sexta-feira, 17 de julho de 2026

Ecossocialismo: Utopia como método?

Vivemos numa grave crise em relação ao futuro da natureza e da humanidade. A causa disso não está nas pessoas, mas nas estruturas de poder. Na sociedade, o poder está organizado na aliança entre a política e a economia, na forma da democracia representativa e o capitalismo.

Esse sistema provoca tanto a destruição da natureza como uma enorme desigualdade entre as pessoas. A competição e o crescimento contínuo do consumo levam à exploração da natureza além da sua capacidade de regeneração. Ao mesmo tempo, o sistema demonstrou ser incapaz de corrigir suas próprias distorções. Como afirmou Albert Einstein: “Os problemas do mundo não podem ser resolvidos pelos mesmos métodos que os criaram”.

<><> A armadilha do capitalismo com a democracia representativa

O ser humano se cresce e desenvolve em interação com outras pessoas, com outras espécies e com a natureza. A sociedade nos influencia de forma coletiva e histórica. Aquilo que parece normal é facilmente considerado como óbvio e correto, portanto, é muito difícil que as pessoas percebam algo de destrutivo na normalidade, ou no que foi normalizado.

Quando falamos de democracia, geralmente nos referimos à democracia representativa, na qual o povo delega seu poder a um pequeno grupo de representantes partidários. É amplamente reconhecido que a liderança econômica exerce grande poderosa influência sobre a política e os meios de comunicação. Assim, a democracia representativa passou a se submeter às chamadas “realidades econômicas”.

A democracia representativa contém um elemento que nos aliena como cidadãos. Ela nos impede de participar diretamente das decisões importantes, por exemplo, nos privando da realização prática dos valores de igualdade, solidariedade e ecologia. Além disso, os partidos políticos competem entre si de forma curto-prazista, dificultando e até impedindo a cooperação em prol do bem comum. Isso desperta em cada um de nós frustração e passividade.

Os valores básicos do capitalismo são a maximização ilimitada dos lucros, o que inclui a especulação dos lucros futuros, o crescimento exponencial do consumo e a cada vez mais acirrada competição entre as pessoas. Um exemplo da aberração deste sistema é uma pessoa conseguir legalmente acumular seu capital em valor astronômico de um trilhão (ou seja, um milhão de milhões) de dólares. A ironia é que este sistema é vendido como se significasse em si a verdadeira liberdade. Como se liberdade significasse poder fazer tudo o que se quer. Flavio Dino constatou: “Liberdade sem responsabilidade é tirania”.

Nós internalizamos os valores do capitalismo em nossos sentimentos, pensamentos e formas de agir. Isto representa uma grande ameaça à natureza e à humanidade. As consequências disto são, por exemplo, as mudanças climáticas, o aumento constante da desigualdade econômica, a exclusão dos jovens e o crescente mal-estar psíquico.

Os movimentos autoritários e populistas estão se fortalecendo. Há uma percepção bastante difundida de que a democracia atual está se deteriorando. Prevê-se que a aliança entre o capitalismo e a democracia representativa termine num colapso devido ao seu caráter autodestrutivo.

Como provocar a mudança para desmontar esta crise? Isso acontecerá quando reconhecemos que não chegamos a essa situação de forma natural ou inevitável. Quando, em nós, cidadãos, se desperte um sentimento tão forte de injustiça e indignação que reagimos concretamente. Então vamos começar a desfazer os elementos mais destrutivos das atuais estruturas de poder e desenvolver um modelo de sociedade ecossocialista.

<><> Visão de uma sociedade baseada em valores socialistas e ecológicos

Socialismo significa igualdade e cuidado mútuo incondicionais. Igualdade significa poder igual para todos, o que é possível alcançar somente com a participação direta das pessoas na tomada de decisões nas questões mais importantes da sociedade.

Os valores ecológicos significam respeitar e garantir o bem-estar da natureza. Somos todos responsáveis uns pelos outros e pelo meio ambiente.

<><> Escolhamos os valores básicos por meio da democracia direta

Os valores e o propósito são a base do bom funcionamento de qualquer coletivo. Quando nós, cidadãos, temos a oportunidade de discutir e decidir diretamente sobre a base de valores da sociedade e acompanhar sua implementação prática, nos tornamos verdadeiros detentores do poder. Como resultado deste processo de democracia direta, os valores básicos poderiam muito bem ser igualdade, solidariedade e sustentabilidade ecológica.

Participar da escolha e implementação desses valores desperta em nós o sentimento de pertencimento e valorização. Isso desperta o interesse em compreender amplamente as estruturas da sociedade e o desejo de participar do seu desenvolvimento. A participação direta aumenta nosso senso de responsabilidade coletiva pela qualidade de vida das futuras gerações.

Na verdade, esses valores já fazem parte da base educacional das escolas pelo menos no Brasil, na Finlândia e na Suécia. Eles constam também nos programas de maioria dos partidos políticos de alguma forma. No entanto, eles não podem ser aplicados na prática, pois a sociedade opera segundo os valores do sistema econômico, como competição e valorização baseada em desempenho. O “bom aluno” é elogiado, enquanto quem tem dificuldades se sente desvalorizado.

Quando a base de valores do Estado é decidida por nós, cidadãos, isso constitui um forte mandato para modificar a Constituição nas partes em que ela entra em conflito com os valores escolhidos. O próximo passo é ajustar a legislação geral para corresponder à nova Constituição. Nesse processo, seriam aplicadas tanto a democracia direta quanto a representativa, de modo que nós, cidadãos, possamos garantir que a mudança avance na direção correta.

O filósofo italiano Pietro Ubaldi resumiu sua visão de futuro da seguinte forma: “O próximo grande passo de desenvolvimento da humanidade ocorrerá quando ela perceber que a cooperação é melhor do que a competição”. Uma sociedade igualitária — pessoas equilibradas.

É importante visualizar um novo modelo de sociedade e praticá-lo, mesmo que em pequenos passos, até porque, quando o sistema atual realmente entrar em colapso, o início do novo já estará em andamento.

<><> Os valores ecossocialistas provocam mudanças

O que aconteceria se os valores básicos do Estado fossem igualdade, solidariedade e sustentabilidade ecológica, e se eles fossem realmente implementados no cotidiano? Isso levaria a profundas mudanças estruturais que hoje parecem completamente impossíveis. Mas não limitemos nossa criatividade somente ao que parece realista. Preservemos nossa liberdade de pensar além da normalidade.

As empresas de produção e de serviços seriam organizadas de forma que a responsabilidade fosse coletiva entre todos que neles trabalham. Isso significaria que o trabalho seja organizado, por exemplo, pelas cooperativas de trabalho ou empresas nas quais os trabalhadores são proprietários. Isso impediria exploração da força de trabalho e contribuiria no desfazer da desigualdade econômica.

A tomada coletiva de decisões incluiria o que produzir e como. O alimento seria produzido principalmente de forma orgânica e vegetal, garantindo a segurança alimentar. A produção de bens e serviços seria planejada preferencialmente localmente. A necessidade de transporte e deslocamento diminuiria, reduzindo significativamente o impacto ambiental.

Isto aumentaria nossa consciência social e fortaleceria o senso de igualdade, responsabilidade e autoestima.

Para investimentos úteis, seria criado um fundo público de empréstimos. Isso permitiria desmontar a especulação nos mercados financeiros, que possibilita a concentração de riqueza em poucas mãos. A especulação com títulos financeiros nas bolsas de valores causa repetidas bolhas e crises econômicas, das quais os cidadãos sofrem, enquanto apenas parte dos especuladores enriquece.

Assim, a oferta e a demanda de bens e serviços se tornariam um mercado genuinamente livre, sem poderes monopolistas dos donos de capital. O papel do Estado seria criar e aplicar as leis necessárias com o acompanhamento pelos representantes do povo.

O consumo diminuiria drasticamente quando reconhecêssemos seu efeito alienante e destrutivo em relação a nós mesmos e a natureza. O consumo ostentatório diminuiria por si só, já que no espírito de igualdade não haveria necessidade de demonstrar superioridade em relação a si mesmo rebaixando outros.

Necessidades básicas como moradia, alimentação, educação, formação profissional, saúde serviço social e a infraestrutura seriam responsabilidade do Estado. Estas atividades fundamentais não poderiam ser exploradas como fontes de lucro.

A todos seria garantida uma vida econômica digna por meio de uma renda básica do cidadão. Isso despertaria em nós confiança nas instituições, e sentimento de dignidade e iniciativa.

Assim, poderíamos viver numa estrutura econômica e social segura, sentindo-nos iguais e saudáveis, partindo de pequenas unidades até o nível global. Nos sentiríamos valorizados e, consequentemente, respeitaríamos uns aos outros e o meio ambiente.

<><> A utopia como método de mudança

Na parede de uma escola (Instituto Educar) lê-se: “Um sonho coletivo é o início de uma nova realidade”. Seja a realização do ecossocialismo o nosso sonho coletivo, a nossa utopia.

Utilizamos aqui a abordagem “utopia como método”. Ela desmonta exigências e pressão de sucesso. A utopia nos ajuda a manter o rumo na direção correta. Caminhar e manter a direção certa é mais importante de que chegar.

Ela libera nossa criatividade para visualizar a sociedade mais ideal imaginável, independentemente de parecer realista ou não. Assim não caímos no pessimismo, mas fomentamos os sentimentos de liberdade, alegria e coragem. Mesmo pequenas ações são importantes catalisadores de mudança, por exemplo, a leitura e discussão deste texto com um amigo.

Che Guevara expressou a lógica da utopia como método com duas frases: “vamos ser realistas e fazer o impossível” e “não me espere para colheita, estou semeando”.

<><> Vamos agir como catalisadores de um novo mundo

O esboço apresentado neste texto pode ser utilizado, por exemplo, em fóruns de discussão, escolas, institutos de formação e meios de comunicação. O objetivo é despertar nas pessoas e nos movimentos populares o interesse em desenvolver e aplicar o ecossocialismo, cada um à sua maneira, e unindo forças.

O ser humano e a humanidade dependem plenamente do bem-estar da natureza. Quanto mais prevalece na sociedade o senso de pertencimento e o respeito à natureza, mais profundamente será realizado o sentido da vida.

 

Fonte: Por Pertti Simula e Riitta Wahlström, em Outras Palavras

 

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