sexta-feira, 17 de julho de 2026

Epistemologias do Sul, esquerda e comunismo

Na atual curva da história, a situação da humanidade é de tal modo volátil que tudo o que pode nos esperar além da curva é de tal dimensão que assusta e paralisa. Caminhamos sonâmbulos para uma terceira guerra mundial e para um colapso ecológico de proporções e consequências inimagináveis. A concentração da riqueza em um pequeno grupo de plutocratas está transformando conceitos e soluções nos quais a humanidade havia depositado alguma esperança em caricaturas cruéis, em mutantes perversos ou em simples ruínas de boa memória. É o caso de conceitos e soluções como progresso, democracia, paz, soberania, diplomacia, ciência, direito e direitos humanos. A voragem destruidora e o poder que ela ostenta são tanto mais avassaladores quanto é certo que as elites políticas governantes, em geral, oscilam entre uma mediocridade tão desarmante e uma agressividade tão arrogante que são apenas mais uma dimensão da catástrofe que espera a humanidade. Durante muito tempo, o conceito de Estado Profundo (Deep State) — o governo subterrâneo exercido por poderes de fato que controlam as principais decisões políticas nacionais sem nenhuma legitimidade democrática — foi estigmatizado por ser considerado um delírio produzido por teorias da conspiração. Hoje, sem correr o risco de estar delirando com teorias da conspiração, pode-se falar de um Governo Global Profundo, com as mesmas características do Estado Profundo, só que agora em escala global. As recentes notícias sobre a quase secreta sociedade Bilderberg são um sinal notório dessa realidade.

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A humanidade, em seu conjunto, está precisando de ajuda humanitária, ainda que uma parte dela precise dessa ajuda com mais urgência.

<><> O interregno e o otimismo trágico

Inspirado em Antonio Gramsci, tenho caracterizado este momento da curva da história como interregno, mas reconheço que muita gente, sobretudo mais jovem, imagine o atual momento mais como fim do que como interregno. É a ideia de fim que, em última instância, alimenta o atual crescimento da extrema direita. Sob o disfarce de propor um novo começo, ela apenas acelera o fim do fim. Depois dele, há um nevoeiro denso.

Mantenho a ideia de interregno, o que significa que, para mim, para além da curva, tanto pode estar um precipício como um caminho menos pedregoso e com mais abrigos. Nisso consiste o meu otimismo trágico. Só que este interregno pouco tem a ver com o de Gramsci. Para Gramsci, o velho que ia morrendo aos poucos era ética, social e politicamente inferior e pior do que o novo que igualmente ia nascendo aos poucos. Para que isso acontecesse, era necessário lutar, mas valia a pena lutar, conheciam-se os objetivos pelos quais lutar e os instrumentos para atingi-los.

A nossa condição é bem mais complexa e, por isso, as exigências para navegar neste interregno são muito maiores. O que podemos conhecer com alguma precisão é o que existe atualmente. O que existe atualmente é uma mistura insondável de condições materiais, percepções e ideias sobre essas condições. E, como nada existe senão em relação ao que não existe, a relatividade do nosso presente consiste no passado que já não vivemos e no futuro que nunca viveremos. Desde o século XVI, o capitalismo tem dominado as condições materiais da grande maioria da população mundial. No tempo de Gramsci, o capitalismo ainda não dominava inteiramente as percepções e ideias sobre essas condições e, pelo contrário, estava perdendo o domínio que ainda tinha. Nessa disjunção entre o domínio material e o domínio ideológico e perceptivo residia a possibilidade da ruptura revolucionária.

Nos últimos quarenta anos, o capitalismo tratou de “equilibrar” o domínio material e o domínio ideológico e perceptivo, potencializando ambos e confundindo-os a ponto de fundi-los. Para isso, incidiu em cinco áreas principais para aumentar o domínio ideológico e perceptivo: a mídia, a educação, a ciência, a cultura e o entretenimento e a religião. Hoje, a maioria da população mundial considera que o velho é — ou era — ruim, mas que o novo pode ser pior. Essa expectativa descendente leva à resignação e a uma atitude política conservadora. Talvez a população mundial nunca tenha sido tão conservadora como atualmente.

A extrema direita aproveita-se desse sentimento de mal-estar para excitá-lo e provocar uma ruptura, uma ruptura não revolucionária, mas reacionária. A extrema direita não é conservadora; é, pelo contrário, radical em seu corte com o passado recente. Só que a ruptura pretende cortar com o passado recente para legitimar o regresso a um passado mais remoto, um passado pré-Revolução Francesa, ainda mais desigual, mais colonialista e mais patriarcal. É por isso que alguns críticos designam a ruptura de extrema direita como um regresso a um novo tipo de feudalismo, uma designação bastante eurocêntrica.

Os líderes invisíveis da extrema direita são os representantes da atual versão plutocrática do capitalismo. Essa versão é incompatível com a democracia e com os direitos sociais conquistados pelas lutas do passado, tanto democráticas como revolucionárias. A ruptura proposta é, assim, simultaneamente verdadeira e falsa. É verdadeira porque vem ao encontro de um mal-estar que os empresários da negatividade potencializam, mas é falsa porque a promessa de um futuro melhor é um embuste. Não será cumprida nem neste mundo — embuste laico — nem no outro mundo — embuste religioso. E a verdade é que a extrema direita, quando chega ao poder, rapidamente faz aumentar o mal-estar da esmagadora maioria da população. Os líderes fascistas eleitos democraticamente são, em geral, os que mais rapidamente perdem popularidade e, se não perdem mais, é porque a sociedade foi, entretanto, expropriada da possibilidade de pensar em uma alternativa melhor. É por essa razão que, em texto anterior, defendo que, a curto prazo, ser de esquerda é defender a democracia e o pouco de bem-estar que as mudanças reformistas e revolucionárias do passado recente conquistaram.

Mas, pelo que acabo de analisar, torna-se claro que essa solução não é mais do que a ajuda humanitária de emergência que referi anteriormente. Não tem condições de resolver os problemas com os quais a humanidade se defronta. Daí a necessidade de pensar o médio prazo.

<><> As epistemologias do Sul, a esquerda e o comunismo

Não conseguimos conhecer acima daquilo que somos. A nossa condição existencial confunde-se com a nossa condição epistêmica. Para pensar o médio prazo, não basta pensar o que ainda não foi pensado; é necessário pensar aquilo que, à luz da epistemologia dominante, é impensável. A ruptura epistêmica implica uma ruptura ontológica. Ou seja, para pensar o impensável e atuar em consonância, temos de nos reinventar como seres humanos. As duas rupturas não serão rápidas. Irão se realizando ao longo de várias gerações, retroalimentando-se uma à outra. Se acontecerão antes, durante ou depois de uma nova Grande Guerra, ninguém saberá. As duas rupturas constituem, em seu conjunto, a revolução paradigmática.

A escala temporal da revolução paradigmática é o longo prazo. A médio prazo, o conceito-chave é o de transição. Em termos epistemológicos, a transição significa que o impensável vai se anunciando na exploração das ruínas-sementes do presente, isto é, por meio de dispositivos pensantes e agentes que, tendo sido alvos de destruição, sobrevivem como ruínas e, mesmo como ruínas, incomodam os donos do status quo. E, ao incomodar, deixam de ser apenas ruínas e tornam-se também sementes. Daí o conceito de ruínas-sementes.

O sistema de dominação moderna, constituído por três modos principais de dominação — capitalismo, colonialismo e patriarcado —, foi se globalizando à medida que destruía o mundo de pensamento e de ação que existia anteriormente e que se opunha a ele. Essa destruição ocorreu tanto no centro do sistema, o mundo europeu e eurocêntrico, como no mundo não europeu e não eurocêntrico. É nesses dois mundos que devemos escavar as ruínas-sementes. Repito que são ferramentas da transição paradigmática, ou seja, para nos guiar no médio prazo. A longo prazo, não fazemos ideia do que existirá e muito menos do modo como será designado.

Identifico três ruínas-sementes, mas certamente há mais. O que as une é o fato de continuarem incomodando as classes e o pensamento dominantes. O incômodo manifesta-se de modo contraditório. Por um lado, insiste-se em que, se existiram no passado, já não existem ou, se ainda existem, são irrelevantes e facilmente descartáveis. São objeto do que chamo de sociologia das ausências. Por outro lado, combate-se quem as defende como se fossem perigosas, uma ameaça existencial ao status quo. Em suma, teme-se que possam ser anúncios ou sinais de uma desestabilizadora sociologia das emergências.

As três ruínas-sementes são as epistemologias do Sul, a esquerda e o comunismo. A primeira tem seu fundamento no mundo não eurocêntrico; a segunda, no mundo eurocêntrico; e a terceira tem origem nos dois mundos, ainda que em versões diferentes. Como disse, a única coisa que têm em comum é incomodar o sistema de dominação. Para este, propor as epistemologias do Sul é defender o obscurantismo e ser inimigo do progresso; ser esquerdista é ser um utópico inconsequente ou um perigoso subversivo; ser comunista é ser um saudosista fossilizado ou um perigosíssimo subversivo.

<><> As epistemologias do Sul

As epistemologias do Sul não põem em causa a validade do conhecimento científico moderno, apenas insistem em que ele não é o único sistema de conhecimento válido. Reivindicam a validade dos conhecimentos nascidos nas lutas contra o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado por parte das populações, classes, povos ou grupos que mais têm sofrido com a injustiça social, a opressão e a destruição que esses três modos principais de dominação causaram e continuam causando. Para as epistemologias dominantes, esses conhecimentos não são válidos. Se o foram no passado, deixaram de sê-lo com a emergência da ciência moderna e, de todo modo, seria perigoso utilizá-los. A inteligência artificial parece poder eliminar de vez esses conhecimentos. A inteligência artificial pode usá-los como matéria-prima, mas nunca como conhecimentos que rivalizem com o conhecimento padronizado produzido pela razão mecânica dos algoritmos.

<><> Esquerda

A esquerda é, em sua origem, uma posição no hemiciclo da Assembleia Nacional na França depois da Revolução de 1789. Com o tempo, passou a designar todo pensamento ou ação contra um status quo considerado injusto e excludente, em nome da possibilidade de uma sociedade mais justa e mais inclusiva. Desde então, ser de esquerda ou esquerdista incomodou e continua incomodando as classes dominantes. Como referi anteriormente, para mim, a esquerda é uma constelação de esquerdas porque a dominação atinge diferentes classes, povos, grupos e culturas de maneiras e com intensidades diferentes. É uma possível designação para identificar as tarefas de libertação que mencionarei adiante.

Nos últimos cem anos, houve muitas divisões no interior da esquerda, especialmente a divisão entre esquerda moderada, democrática ou social-democrata e extrema esquerda, revolucionária, comunista ou anarquista. A segunda só existe hoje como memória ou como ruína-semente. A primeira, como referi no texto anterior, é importante a curto prazo para salvar o que resta da democracia, mas não tem qualquer viabilidade a médio prazo. Será progressivamente absorvida pela direita, tal como esta será absorvida pela extrema direita. Pode sobreviver mais algum tempo como direita moderada, mas nunca como esquerda. A esquerda moderada é a direita moderada do futuro próximo.

Para ser um instrumento útil na transição, a esquerda tem de ser concebida como uma ruína-semente, um nome possível para nomear as tarefas de libertação. Certamente combinará componentes eurocêntricos, tanto democráticos como revolucionários, com componentes de resistência não eurocêntrica. Para sublinhar o caráter confrontacional da esquerda, talvez seja preferível falar de esquerdismo.

<><> Comunismo

Por último, o comunismo enquanto ruína-semente tem origens tanto eurocêntricas como não eurocêntricas. No mundo eurocêntrico, designou a resistência mais vigorosa e a alternativa mais consistente por parte das esquerdas contra a dominação capitalista, colonialista e patriarcal moderna. Utilizando o conceito de tipo ideal de Max Weber, refiro-me ao comunismo como o projeto de uma sociedade sem exploração — extração potencialmente sem limites do valor da força de trabalho — do ser humano pelo ser humano e sem exploração — extração potencialmente sem limites do valor dos recursos naturais — da natureza pelo ser humano. Nos termos das epistemologias do Sul, comunismo designa uma sociedade pós-abissal, uma sociedade que não divida os seres humanos entre seres tratados como plenamente humanos e seres tratados como sub-humanos, uma sociedade que não disponha da natureza como algo que temos ou que nos pertence, mas como algo que somos e ao qual pertencemos. Não me refiro aqui às experiências sociais concretas que se autodenominaram comunistas. Algumas aproximaram-se do tipo ideal; outras o perverteram de uma forma ética e politicamente repugnante.

No mundo não eurocêntrico, o comunismo designou formas pré-modernas e comunitárias de vida coletiva. Aliás, a versão verdadeiramente existente de comunismo nasceu no mundo pré-moderno, não eurocêntrico e, por isso, foi designada pela modernidade ocidental como comunismo primitivo. Para designar o comunismo como ruína-semente, sem fazê-lo ecoar primitivismos ou perversidades, talvez seja preferível falar de neocomunismo.

<><> As libertações-guias da transição paradigmática

As três ruínas-sementes — epistemologias do Sul, esquerda e comunismo — são os dispositivos principais da transição paradigmática. Se esta algum dia tiver fim, aquilo que vier a existir terá todo o direito de se autodenominar. A transição paradigmática tem por objetivo a libertação da potência agrilhoada ou oprimida. As dimensões dessa tarefa são hoje muito superiores às que poderiam ser imaginadas por Gramsci. Os nomes das libertações da potência agrilhoada são necessariamente inadequados porque partem das diferentes dimensões da opressão. Não podemos imaginar os nomes que essa potência assumirá uma vez libertada. Desenhadas no horizonte a partir do ponto de onde partimos, as principais libertações são: libertar a natureza, libertar o comum, libertar os sub-humanos, libertar o saber, libertar a democracia, libertar a educação e a cultura e libertar a divindade. Qualquer uma das libertações pressupõe as outras. Não haverá libertação se não houver lutas de libertação. Não haverá luta se não houver quem se disponha a lutar e a correr os riscos que isso envolve. Nos textos seguintes, mostrarei como as ruínas-sementes podem nos ajudar nas imensas tarefas de libertação que impacientemente nos esperam.

 

Fonte: Boaventura de Sousa Santos, em Brasil 247

 

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