sexta-feira, 17 de julho de 2026

A reação do governo Lula ao novo tarifaço de Trump: 'Seguiremos sem viralatice'

Um dia após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 25% sobre a importação de uma série de produtos brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalou nesta quinta-feira (16/7) um grupo de ministros de Estado e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para responder diretamente tanto ao novo tarifaço quanto às críticas feitas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao presidente brasileiro.

A reação conjunta do governo brasileiro combinou acusações de suposta interferência política promovida pelos EUA, críticas à família Bolsonaro e o anúncio de que o governo brasileiro dará início aos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso no ano passado.

Por outro lado, integrantes do governo afirmam que continuarão aberto a negociações com os Estados Unidos.

Um dos mais contundentes foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que classificou o novo tarifaço como uma tentativa de interferência dos EUA no Brasil. Ele declarou que o governo não iria "baixar a cabeça" e nem agir com "viralatice".

A reação organizada dos ministros ocorre depois de Rubio responsabilizar Lula pelo fracasso das negociações comerciais e afirmar que as novas tarifas seriam uma consequência da postura do presidente brasileiro.

"Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu Rubio no X (antigo Twitter).

"Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso."

Um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que o tom da resposta brasileira foi calibrado para rebater o que o governo entendeu como um "desrespeito" por parte de Rubio.

Segundo ele, a manifestação de Rubio quebrou uma regra implícita da diplomacia segundo a qual, por hierarquia, ministros de Estado não devem criticar chefes de Estado.

Além disso, a resposta foi uma tentativa de desmontar o argumento lançado pelo ministro americano e reforçado pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

<><> Reação em conjunto: 'Sem baixar a cabeça'

O primeiro a reagir diretamente à fala de Rubio foi o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Em um pronunciamento no início da tarde, ele classificou os ataques ao presidente brasileiro como incompatíveis com as relações entre países considerados amigos.

"As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros. Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo", disse Vieira.

Para o chanceler, as críticas de Rubio revelariam uma insatisfação do governo americano com a suposta resistência brasileira às exigências apresentadas durante as negociações entre os dois países.

"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações", complementou Vieira.

Mais tarde, o governo brasileiro organizou uma uma entrevista coletiva na sede do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília.

A entrevista reuniu Durigan, Vieira, o titular do MDIC, Márcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o vice-presidente Geraldo Alckmin e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães.

Durigan chamou as tarifas de "interferência externa".

"A gente precisa colocar em pratos claros que (as tarifas) se tratam de uma interferência externa do ponto de vista do governo (...) É inadmissível que isso aconteça nessa altura do campeonato", disse o ministro.

Durigan afirmou ainda que a política econômica brasileira não poderia ser orientada pelas prioridades de autoridades estrangeiras ou por compromissos assumidos por grupos políticos com outro governo.

"A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não para atender o secretário de Estado de um outro país, sinalizando com um programa de governo de transição para atender as suas prioridades estrangeiras."

A fala foi interpretada como uma menção direta a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, há poucas semanas, enviou uma carta a Marco Rubio oferecendo a formação de um grupo de transição junto o governo americano caso ele vença as eleições deste ano.

"E por fim, nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso a gente vai seguir protegendo o Pix. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem viralatice e nós seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", complementou Durigan.

O ministro disse, contudo, que o governo brasileiro ainda está disposto a negociar com os Estados Unidos.

"Com isso, nós não estamos dizendo que nós não estaremos abertos à negociação, pois seguiremos abertos a diplomacia à negociação, seja com os Estados Unidos, seja com qualquer outro país que nos trate com o devido respeito".

<><> Reciprocidade e família Bolsonaro

A crítica de Durigan reforça a estratégia do governo Lula de vincular as tarifas à atuação política da família Bolsonaro.

Na primeira manifestação oficial após o anúncio, divulgada ainda na quarta-feira (15/7), o governo classificou a decisão americana como um marco negativo na relação bilateral e mencionou, diretamente, a suposta ação da família Bolsonaro pelas tarifas.

"É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros."

Nos últimos dias, porém, Flávio Bolsonaro tem dito que foi Lula quem provocou a imposição de tarifas para tirar proveito eleitoral e que chegou a tentar convencer Rubio e outros oficiais do governo americano a não tarifar produtos brasileiros.

Em uma segunda nota, divulgada no final da tarde, o governo rebateu a acusação de Rubio de que o Brasil não teria se empenhado ou negociado de boa-fé.

"O Governo brasileiro se manteve aberto ao diálogo com as autoridades americanas desde o início das investigações da seção 301, mesmo não reconhecendo a legitimidade desse instrumento sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Desde julho de 2025, foram mais de 30 reuniões entre as duas partes."

Hoje, Durigan voltou a mencionar que o governo poderá adotar retaliações comerciais contra os Estados Unidos em resposta às tarifas.

"Para concluir, nós levaremos esse grupo de ministros ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade conforme determina a lei aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos, por todas as lideranças políticas nacionais, aprovado por unanimidade no Congresso Nacional e o presidente Lula nos dará orientação a respeito disso."

Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil afirmou que o governo ainda analisa o impacto prático das novas tarifas, que só deverá se manifestar sobre isso nas próximas semanas.

¨      Governo reage ao tarifaço com pacote de defesa da economia, apoio às empresas e ofensiva diplomática

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou nesta quinta-feira (16) um amplo conjunto de medidas para proteger a economia brasileira diante da decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações nacionais. Em coletiva realizada no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília, ministros da área econômica, diplomática, ambiental e financeira detalharam uma estratégia que combina apoio aos setores produtivos, preservação de empregos, diversificação de mercados, contestação jurídica internacional e manutenção do diálogo diplomático com Washington.

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A resposta brasileira demonstra que o governo optou por uma estratégia de múltiplas frentes. Em vez de retaliar imediatamente, a administração Lula decidiu fortalecer empresas exportadoras, ampliar instrumentos de financiamento, acelerar a abertura de novos mercados internacionais e preparar medidas jurídicas e comerciais caso as negociações com os Estados Unidos não avancem. Segundo o governo, todas as providências serão adotadas de forma coordenada para minimizar impactos sobre trabalhadores, empresas e cadeias produtivas brasileiras.

<><> Programa emergencial para proteger empresas e empregos

O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou que o governo estruturará um programa específico para atender os setores diretamente afetados pelas tarifas norte-americanas.

Entre as medidas em elaboração estão:

  • ampliação dos instrumentos do Plano Brasil Soberano;
  • novas linhas de financiamento para empresas;
  • mecanismos adicionais de apoio produtivo;
  • reforço das ações de promoção comercial;
  • aceleração da abertura de novos mercados internacionais.

Segundo Alckmin, instituições como a ApexBrasil e o BNDES terão papel central nesse processo, intensificando missões comerciais e ações voltadas à diversificação dos destinos das exportações brasileiras. A estratégia busca reduzir a dependência do mercado norte-americano e ampliar a presença dos produtos brasileiros na Ásia, Oriente Médio, África, América Latina e Europa.

<><> Fazenda prepara crédito e medidas para preservar empregos

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo possui instrumentos suficientes para proteger empresas e preservar postos de trabalho.

Segundo ele, representantes dos setores afetados participarão de novas reuniões para definir políticas específicas para cada cadeia produtiva.

Entre as alternativas estudadas estão:

  • ampliação do Plano Brasil Soberano;
  • expansão de linhas de crédito;
  • instrumentos de apoio financeiro;
  • mecanismos de estímulo à produção.

Durigan ressaltou que, embora determinados segmentos possam sofrer impactos relevantes, a avaliação da equipe econômica é de que o tarifaço não compromete a estabilidade macroeconômica brasileira.

<><> Setores prioritários receberão apoio

O ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, informou que o governo concentrará inicialmente seus esforços nos segmentos mais atingidos.

Entre eles estão:

  • madeira;
  • máquinas e equipamentos elétricos;
  • móveis;
  • produtos cerâmicos;
  • calçados;
  • açúcar.

O objetivo é impedir perdas de competitividade enquanto novos mercados são consolidados e as negociações diplomáticas prosseguem.

<><> Governo prepara reação jurídica internacional

Uma das principais frentes da estratégia brasileira será jurídica.

Alckmin confirmou que o governo utilizará, “no momento adequado”, os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional.

Além disso, o Brasil retomará o questionamento da medida norte-americana no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que as novas tarifas violam regras do comércio internacional.

<><> Itamaraty afirma que Brasil buscou negociação durante mais de um ano

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresentou um histórico detalhado das tratativas com Washington.

Segundo ele, desde março de 2025 o governo brasileiro realizou mais de 30 contatos com autoridades norte-americanas em níveis presidencial, ministerial e técnico.

O Brasil também:

  • apresentou propostas formais;
  • participou das consultas promovidas pelo USTR;
  • encaminhou manifestações técnicas;
  • manteve disposição permanente para negociar.

Mesmo após o anúncio das tarifas, o chanceler afirmou que o governo Lula continuará aberto ao diálogo diplomático e comercial.

<><> Defesa do Pix ganha protagonismo

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rebateu uma das principais críticas apresentadas pelos Estados Unidos durante a investigação comercial.

Segundo ele, o Pix é uma infraestrutura pública disponível a todas as instituições financeiras que operam no país.

Galípolo destacou que:

  • desde a criação do Pix, o mercado brasileiro de cartões de crédito cresceu 150%;
  • o sistema não eliminou outros meios de pagamento;
  • mais de 47 autoridades monetárias internacionais estudam o modelo brasileiro;
  • o Pix continuará gratuito para pessoas físicas, seguro e em constante evolução tecnológica.

A defesa do sistema de pagamentos instantâneos tornou-se um dos principais pontos da resposta brasileira à investigação conduzida pelo USTR.

<><> Impacto é relevante, mas limitado

O MDIC apresentou também uma estimativa dos efeitos econômicos das tarifas.

Segundo os dados oficiais:

  • considerando a pauta exportadora de 2024, cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações seriam afetados;
  • utilizando os números de 2025, o valor cairia para aproximadamente US$ 5,8 bilhões.

Ao mesmo tempo, o governo destacou que:

  • aproximadamente 57% das exportações brasileiras para os Estados Unidos continuarão sem novas tarifas;
  • outros 24% já estavam sujeitos a medidas específicas anteriormente, especialmente nos setores de aço, alumínio e automóveis.

Outro dado considerado importante pelo governo é que cerca de 2,4 mil empresas brasileiras exportam para os Estados Unidos e aproximadamente 74% delas já possuem clientes em outros países, o que facilita uma estratégia de diversificação comercial.

<><> Governo rebate críticas ambientais e sobre corrupção

A coletiva também foi utilizada para contestar argumentos empregados pelos Estados Unidos durante a investigação comercial.

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que toda a madeira exportada pelo Brasil possui certificação e passa por rigoroso sistema de fiscalização. Destacou ainda que o desmatamento foi reduzido em cerca de 50% nos últimos três anos, contestando a utilização de informações ambientais consideradas desatualizadas pelas autoridades brasileiras.

Na área institucional, a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães, declarou que o Brasil encaminhou informações detalhadas sobre suas políticas de prevenção e combate à corrupção, mas sustentou que esses esclarecimentos não foram devidamente considerados na conclusão da investigação norte-americana.

<><> Governo vê apoio internacional contra as tarifas

Outro elemento destacado pelo governo diz respeito à própria investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

Segundo a nota oficial, durante o processo o Brasil apresentou duas manifestações escritas e participou das consultas bilaterais realizadas em Washington.

Nas consultas públicas promovidas pelo USTR, 63 das 78 manifestações apresentadas por empresas e entidades dos dois países posicionaram-se contra a imposição das novas tarifas, indicando que parte expressiva do próprio setor empresarial considera a medida prejudicial às relações econômicas bilaterais.

<><> Estratégia combina firmeza e negociação

Ao final da coletiva, o governo reafirmou que continuará acompanhando diariamente os efeitos do tarifaço, mantendo diálogo permanente com os setores produtivos e adotando, quando necessário, medidas comerciais, diplomáticas e jurídicas para defender os interesses nacionais.

A estratégia anunciada sinaliza que a resposta brasileira buscará preservar empregos, proteger a competitividade das empresas, ampliar a inserção internacional da economia e defender instrumentos considerados estratégicos para o desenvolvimento do país, como o Pix, ao mesmo tempo em que mantém abertas as portas para uma solução negociada com os Estados Unidos.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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