sexta-feira, 17 de julho de 2026

Mito da ‘Argentina branca’: como apagamento da história negra e indígena molda racismo no país

Torcedores argentinos hostilizaram com insultos e gestos racistas o streamer estadunidense IShowSpeed durante a Copa do Mundo 2026. Os ataques, ocorridos no último dia 3 de julho, fizeram a FIFA abrir uma investigação.

No futebol, casos de racismo envolvendo torcidas argentinas costumam vir à tona principalmente durante as partidas da Copa Libertadores, mas não se limitam a elas. Em 2024, jogadores da própria seleção argentina entoaram um canto contra atletas franceses de ascendência africana, em um gesto interpretado como racista em países como o Brasil.

Para além das quatro linhas, um caso emblemático marcou o início de 2026. Em Ipanema, no Rio de Janeiro, a turista argentina Agostina Páez foi presa por injúria racial contra um funcionário de um bar carioca. No país vizinho, o episódio foi explorado por figuras de peso da base política do governo Javier Milei, como a senadora Patricia Bullrich.

Isoladamente, os episódios podem construir, no senso comum, a sensação de que a sociedade argentina, em geral, é marcada pela prática do racismo.

Por lá, a construção histórica do tema tem particularidades, quando comparada ao caso brasileiro. “Consolidou-se a ideia de uma Argentina branca, não baseada na mestiçagem, mas na narrativa da imigração vinda dos navios, que é um dos mitos fundadores do país”, afirma o advogado Alejandro Joma, fundador do coletivo Identidad Marrón, em conversa com o Brasil de Fato.

Para Joma, de fato, a versão argentina passa pelo apagamento da escravidão. “Na maioria dos países latino-americanos de língua espanhola, o mito nacional está mais relacionado à mestiçagem”, sintetiza Joma.

Mas esse fenômeno, por si só, não indica que a Argentina, como um todo, seja mais ou menos racista que outros países da região, como o Brasil.

<><> Raízes históricas

Ao longo do processo de colonização no Cone Sul, africanos chegaram à região pelos portos de Buenos Aires e Montevidéu. Começaram, pouco a pouco, a trabalhar em serviços domésticos, no artesanato, nos campos e nas minas. De lá para cá, a história oficial promoveu um apagamento historiográfico desta população.

Um dos casos mais emblemáticos é o de María Remedios del Valle. Mulher negra que acompanhou Manuel Belgrano – um dos principais nomes dos processos de independência em países como Argentina e Paraguai – em várias das batalhas que marcaram a libertação do domínio espanhol, María del Valle chegou a ser proclamada “mãe da pátria” na Argentina. Mas, depois, acabou sendo eliminada dos livros de História.

Somente em 2024 a imagem de Del Valle passou a circular nas cédulas de 10 mil pesos na Argentina, ao lado de Belgrano. O processo teve início durante os governos da ex-presidenta Cristina Kirchner.

Para a jornalista Erika Gimenez, coordenadora da ARG Medios, a força do mito na Argentina afeta até a relação da maior parte da sociedade com a própria genealogia. “Nenhum de nós é plenamente, cem por cento, europeu”, resume Gimenez.

Para Joma, o racismo na Argentina tem uma peculiaridade: o foco principal nos povos originários. Essa ideia tem a ver com o próprio uso da palavra “negro” no país vizinho. “Quando alguém diz ‘negro’ na Argentina, a maioria dos argentinos não imagina uma pessoa afrodescendente. Imagina uma pessoa de ascendência indígena usando roupas urbanas”, explica.

O exemplo dado por Joma está na própria seleção argentina que disputa o mundial de 2026. Ele formula a seguinte imagem: “Perguntado se há negros no elenco, alguém do Brasil ou dos Estados Unidos tende a dizer que não; um argentino, que sim.”

<><> Questão de classe, dimensão política

O mito cumpre uma função de poder. Segundo Gimenez, as famílias mais tradicionais da Argentina são as mais diretamente responsáveis pela sustentação do mito da branquitude. “O mito da Argentina branca interessa aos grupos poderosos, porque eles não querem que os pobres (os marrons ou os negros) ocupem espaços de poder”, explica. Postura semelhante se passa na sociedade brasileira.

Ao chegar ao poder, Milei tratou de pôr fim ao Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), criado em 1996 pela Lei de Atos Discriminatórios. O então porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni, justificou a extinção pela necessidade de enxugamento do Estado, sustentando que era necessário desmantelar institutos que não serviam “absolutamente para nada”.

Apesar do evidente desmonte do órgão, Joma vai além da mera simbologia e propõe uma problematização sobre o órgão extinto. “Se eu dissesse que o fechamento do Inadi representou um ataque direto ao combate ao racismo, estaria simplificando demais”, pondera.

Ele recorda a denúncia feita contra a ex-diretora-executiva do órgão, Victoria Donda, em 2021, que foi acusada por Arminda Banda Oxa, então trabalhadora doméstica de sua casa, de tê-la mantido em situação de trabalho irregular por anos e de oferecer um cargo no Inadi. Donda negou as irregularidades, dizendo que havia proposto o cargo como forma de ajuda, em razão da relação de proximidade com Oxa, além de problemas de saúde da ex-empregada. Em 2022, a denúncia foi encerrada com um acordo judicial.

Para Joma, a verdadeira perda do fechamento do Inadi foi de outra ordem: “Eu diria que foi um ataque indireto às comunidades marginalizadas, que, agora, deixaram de contar com um órgão especializado”.

No futebol, embora a bola esteja no centro do palco, as tensões sociais relacionadas ao racismo, não raro, são expostas. “O futebol acaba revelando aspectos da nossa sociedade que não gostamos, mas que existem e precisam continuar sendo debatidos”, reflete Gimenez.

Além das críticas ao próprio racismo, Jome pondera criticamente sobre o próprio debate. O problema, segundo o especialista, está no apagamento. Por conta disso, a Identidad Marrón conseguiu obter a primeira sentença penal argentina a reconhecer violência racial praticada por policiais.

Ele faz uma contraposição: no caso brasileiro, a reflexão sobre o racismo deve passar pelo peso da prática estrutural pelo próprio Estado brasileiro. Joma lembra a operação policial promovida pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, em outubro de 2025, que levou à morte de 128 pessoas no Complexo da Penha. A maioria era negra.

¨      Postura neocolonial: analistas criticam apoio de Milei à censura de símbolos das Malvinas na Copa

A Argentina passa pela Inglaterra e garante vaga na final da Copa do Mundo contra a Espanha. A semifinal emocionante aconteceu nesta quarta-feira (15) e terminou com placar de 2 a 1 de virada. A rivalidade entre as seleções, no entanto, vai para além dos gramados por causa de uma disputa de décadas sobre as Malvinas.

A Fifa, inclusive, havia proibido a entrada de bandeiras, camisetas e cartazes com referência à ilha, localizada no extremo sul da América do Sul. Em 1965, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que classificou as Malvinas como território em “situação colonial pendente”. As negociações são costumeiramente ignoradas por Londres. O presidente da Argentina, Javier Milei, chegou a elogiar a censura da Fifa.

Para o historiador e analista de geopolítica Miguel Stédile, o episódio histórico se soma a outros fatores ocorridos nesta edição do mundial, que é considerado um dos mais politizados dos últimos tempos. “A Copa acontece nos Estados Unidos de Donald Trump e tem todas as questões da Fifa. Tivemos que assistir como o Irã foi tratado nos EUA, as manifestações do Egito pró-Palestina”, destaca durante O Estrangeiro, o podcast de política internacional do Brasil de Fato.

Após mandar a Inglaterra para casa nesta quarta-feira, a seleção argentina abriu uma faixa com os dizeres: “As Malvinas são argentinas”. Ainda assim, avalia Stédile, o duelo considerado clássico chega menos politizado do que em 1986, quando os argentinos venceram os ingleses pouco tempo após a derrota militar nas Malvinas. “Serviu, de certa forma, como uma revanche.”

Miguel Stédile resume o momento político dos dois países que se enfrentaram em campo na semifinal. “Eu acho que convém muito a um governo Milei ter uma seleção que unifique o país num momento de crise econômica, como o que a gente está vivendo. E a Inglaterra é um país que tem uma monarquia no século 21. Então, cheira alguma coisa anterior à naftalina, para além do seu passado colonial. É um país que está numa situação geopolítica bastante secundária, desde que eles saíram da União Europeia. Quer dizer, isso não deu mais protagonismo ao país; eles continuam sendo uma espécie de braço secundário dos Estados Unidos”, avalia.

Para o jornalista argentino Gabriel Vera Lopes, o Gabo, correspondente do BdF em Cuba, a postura de Milei é de “administrador neocolonial”. “É um governo que tem uma aliança estratégica com as potências imperiais dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Estado de Israel. Então não é surpresa isso. Depois, eu acho que tem um problema simbólico e tem um problema político. O problema político, diplomático, é que a reivindicação diplomática da Argentina pela soberania das Malvinas começou em janeiro de 1833, que foi um momento em que a Inglaterra ou o Reino Unido invadiu as Malvinas. Tem quase 200 anos de luta pela soberania das Malvinas. Então, não aceitar que a torcida argentina possa usar um símbolo nacional durante o jogo, que é um símbolo de identidade, que é um símbolo de luta anticolonial, é uma medida de subordinação imperialista e uma medida diplomática muito complexa, porque é aceitar que não é uma reivindicação legítima da Argentina”, define.

Admirador confesso de Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que comandou a vitória da Inglaterra na Guerra das Malvinas, Milei chegou a defender a autodeterminação da população local das ilhas, uma posição que contraria a tradição diplomática histórica do Estado argentino. Gabo ressalta que as Malvinas são um dos símbolos mais reproduzidos na cultura popular argentina, presente em tatuagens e em muros pelo país, por exemplo. “Proibir é uma coisa bem pesada para a história e a identidade argentina.”

O programa também abordou os casos de racismo que dominaram a Copa do Mundo, reforçados por um dos próprios países-sede, os EUA. Houve caso cometido por um torcedor argentino no jogo contra o Egito e uma canção criada pela torcida, mas também cantada pelos jogadores, teria conteúdo discriminatório.

Para Gabriel Vera Lopes, o debate sobre o racismo na sociedade argentina tem crescido, mas a extrema direita no poder utiliza esses discursos como uma “força identitária”, o que dificulta o combate a atitudes discriminatórias que também se refletem no ambiente do futebol. “Ao mesmo tempo que tem esse racismo muito forte nos setores que têm muita influência na sociedade, porque estão nos meios de comunicação, estão na política, estão nas universidades, estão em diferentes setores de poder da sociedade, ao mesmo tempo, os setores populares da Argentina têm uma forte identificação com a ideia de ser negro. Porque é o jeito de desprezar o que a oligarquia tem para falar dos setores populares da Argentina”, explica.

¨      Decisão contra programa social afeta quase um milhão de trabalhadores na Argentina

Uma decisão do Tribunal Federal de San Martín anulou uma medida cautelar que protegia o pagamento de benefícios sociais a quase um milhão de pessoas na Argentina, ordenando a suspensão imediata das transferências.

A decisão afeta principalmente assistentes sociais em cozinhas comunitárias e líderes de organizações como o Polo Obrero e o Sindicato dos Trabalhadores da Economia Popular (UTEP), que vinham recebendo uma renda congelada de 78.000 pesos desde que o governo nacional desvinculou esses programas do salário mínimo em dezembro de 2023.

Caso a atualização regulatória tivesse sido mantida, o benefício seria agora de 186.200 pesos, mas a decisão judicial argumenta que a continuidade do pagamento “implicaria antecipar o resultado final do julgamento”. Isso confirma a política iniciada pela Ministra do Capital Humano, Sandra Pettovello, que já havia anunciado a suspensão dos pagamentos de alimentos e outros auxílios a partir de 1º de maio de 2026, embora o Poder Executivo tenha cumprido temporariamente a liminar durante os meses de maio, junho e julho.

“Os tribunais estão negando o direito ao salário a mais de 900 mil trabalhadores, e o pagamento ‘De Volta ao Trabalho’ não será recebido em agosto. A fome não espera. Continuaremos lutando por todos os meios pela continuidade do auxílio social complementar”, denunciou a UTEP em sua conta nas redes sociais.

Líderes sociais denunciaram o que consideram um ataque sistemático contra os setores mais vulneráveis. Eduardo Belliboni, do Polo Obrero (Polo Operário), afirmou que o governo está reafirmando seu “desprezo” pelos assistentes sociais ao retirar sua única fonte de renda, enquanto Johana Duarte, secretária sindical da UTEP (União dos Trabalhadores da Economia Popular), alertou que essa medida agravará a crise social e prejudicará as economias locais, retirando dinheiro de circulação nos comércios de bairro. Duarte também culpou os governadores provinciais por apoiarem essas políticas, que, segundo ela, exacerbarão a crise em seus territórios.

Belliboni criticou o tribunal, afirmando que este “ficou do lado de Petovello-Mille” ao decidir que é aceitável que aproximadamente um milhão de trabalhadores continuem prestando serviços nos bairros mais pobres sem qualquer remuneração. “A escravidão é aceitável?”, questionou o representante do Polo Obrero em sua publicação no X em resposta à decisão.

Em resposta à revogação, as organizações anunciaram que irão recorrer da decisão judicial e intensificar os protestos sociais por meio de assembleias e bloqueios de estradas, métodos históricos do movimento piqueteiro. A eliminação desse subsídio representa uma perda de 58% em comparação com a medida original e de 76% em relação ao custo da cesta básica, agravando a situação de centenas de milhares de famílias em meio à alta inflação e ao desmantelamento das redes de proteção social do Estado.

¨      Arrocho, desemprego e juros elevados provocam inadimplência recorde na Argentina

O arrocho salarial, o aumento do desemprego e as altas taxas de juros provocaram uma inadimplência recorde na Argentina, atingindo os mais altos percentuais em mais de duas décadas, apontou um levantamento realizado pelo jornal Página12. Soma-se a esta catástrofe, o aumento abusivo na jornada de trabalho.

Segundo dados do Banco Central da República Argentina (BCRA), as taxas de não pagamento alcançaram 15% nos empréstimos pessoais e 11% nos cartões de crédito, representando os piores índices no sistema bancário. A situação é ainda mais crítica entre credores não bancários, onde a inadimplência chega a 26% nas carteiras digitais, sendo 48% nas redes de varejo de eletrodomésticos e 58% nas empresas de crédito rápido (“instant cash” ou “dinheiro instantâneo”).

Frente à calamidade em que se encontram mergulhadas mais de 5,7 milhões de pessoas, o governo Milei decidiu culpar a população pelo endividamento excessivo, ignorando o desastre das suas políticas de emprego e renda – as verdadeiras causas do fenômeno.

De acordo com o porta-voz presidencial, Adrián Javier, “as pessoas precisam conhecer seus limites de endividamento”, não devendo simplesmente “estourar o limite do cartão de crédito e depois se encontrar em apuros financeiros”.

SALÁRIO MÍNIMO PERDEU QUASE 40% DO SEU PODER DE COMPRA

Integrante do grupo Paridade Macroeconômica, Lucia Crimi Obón ironizou a alegação governamental, recordando que, logo após o governo federal assumir, o limite legal para os juros de mora – penalidades cobradas pelo atraso no pagamento de uma dívida – do cartão de crédito foi eliminado, enquanto o salário mínimo perdeu quase 40% de seu poder de compra. Nesse mesmo período, as taxas de inadimplência das famílias subiram de 2% para 12% nos empréstimos bancários e de 8% para 27% nas carteiras digitais. “A explicação oficial implicaria acreditar que todos, de repente, ficaram insensatos no mesmo dia, precisamente durante os dois anos de mandato de Javier Milei”, condenou Lucia.

Um relatório do BC revelou que entregadores de aplicativos acumularam uma dívida média de 900.000 pesos (USD$ 610 ou R$ 3.106), sendo obrigados a recorrer às próprias plataformas para financiar reparos em seus veículos. Trabalhadores e sindicatos denunciam que esses aplicativos oferecem empréstimos quando os prestadores de serviço enfrentam dificuldades financeiras, apenas para cobrar taxas de juros anuais que chegam a 700% (setecentos por cento!).

AUMENTO DA JORNADA DE TRABALHO

“Temos colegas estendendo suas jornadas de trabalho para pagar empréstimos”, explicou Belén D’Ambrosio, secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores de Entrega por Aplicativo (Sitrarepa), ressaltando que o sistema de empréstimos cria uma forte dependência em relação às empresas. “Trabalhamos entre 10 e 12 horas apenas para cobrir os custos fixos. Esses empréstimos não são regulamentados, e deveria haver algum tipo de fiscalização estatal”, defendeu.

Para Martín Burgos, economista do Departamento de Economia Política do Centro Cultural de Cooperação, além da queda de renda, “o aumento da inadimplência se deve à forte alta das taxas de juros, que permaneceram bem acima da inflação após a desregulamentação financeira”.

“O governo atribuiu a deterioração desses indicadores a um suposto erro das famílias ao contraírem dívidas além de suas possibilidades. Essa interpretação transfere a responsabilidade para aqueles que sofrem com o problema, ignorando o impacto da queda na renda e no emprego formal causada pelas políticas da atual administração”, assinala o Página12.

Na realidade, apontam os especialistas, “o crédito deixou de financiar o consumo ou projetos de investimento, tornando-se, em vez disso, um mecanismo de sobrevivência usado para cobrir os custos de alimentação, contas de serviços públicos e saúde”. Na prática, ressaltam, “longe de refletir uma melhoria no padrão de vida, a expansão dos empréstimos destaca as dificuldades que milhares de famílias enfrentam para arcar com as despesas essenciais”.

Insistindo em repassar a responsabilidade do governo para as famílias, o porta-voz presidencial relacionou o aumento das taxas de inadimplência a um suposto – e mentiroso – “ciclo virtuoso de recuperação do crédito”. Javier vai além, alegando que quando há uma retomada da economia – que só Milei e sua equipe veem – “é normal que a inadimplência surja”.

O problema é que o fenômeno “normal” mencionado não havia sido visto em terras argentinas durante as últimas duas décadas.

POLÍTICAS NEOLIBERAIS E MEDIDAS DE AUSTERIDADE

Não é a primeira vez que o governo culpa a população pelos efeitos das suas políticas neoliberais e de subserviência às transnacionais e ao sistema financeiro. Há alguns dias, sugeriu que, diante do aumento das tarifas de gás, as famílias deveriam “se agasalhar” em vez de ligar o aquecimento.

A economista Delfina Rossi asseverou que o executivo “insiste em responsabilizar as famílias por um problema que é estrutural”. Na sua opinião, “o crédito funcionou como um placebo diante da crise de renda e emprego, mas, quando essa crise se torna permanente, nenhuma ponte financeira consegue se sustentar”. Além disso, “é muito difícil para as famílias escaparem dos algoritmos das fintechs [empresas inovadoras que utilizam tecnologia como inteligência artificial e nuvem para oferecer serviços financeiros mais rápidos, acessíveis e sem a burocracia dos bancos tradicionais] e dos mecanismos que incentivam o endividamento”.

A socióloga Luci Cavallero, da plataforma de ação social e política Movida Cidade, acredita que o governo Milei está sendo “forçado a enfrentar a questão do endividamento, pois as taxas crescentes de inadimplência minaram a narrativa oficial de melhora nas condições de vida cotidiana”.

Na opinião do diretor da consultoria Sarandí, Sergio Chouza, o aumento das taxas de inadimplência decorre de uma combinação de fatores: das altas taxas de juros, que  “permaneceram muito acima da inflação, da cotação do dólar e dos salários, com custos financeiros superiores a 100%, tanto em bancos quanto em fintechs”; de muitas famílias substituirem parte de sua renda por crédito para manter os níveis de consumo, uma vez que uma parcela cada vez maior de seus salários é destinada a cobrir serviços públicos e outros serviços essenciais e as estratégias comerciais agressivas adotadas pelas instituições financeiras, nas quais “obter um empréstimo está ao alcance de qualquer pessoa que possua um celular”.

 

Fonte: TeleSUR/Brasil de Fato/Hora do Povo

 

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