Mito
da ‘Argentina branca’: como apagamento da história negra e indígena molda
racismo no país
Torcedores
argentinos hostilizaram com
insultos e gestos racistas o streamer estadunidense IShowSpeed durante a Copa
do Mundo 2026. Os ataques, ocorridos no último dia 3 de julho, fizeram a FIFA
abrir uma investigação.
No
futebol, casos de racismo envolvendo torcidas argentinas costumam vir à tona
principalmente durante as partidas da Copa Libertadores, mas não se limitam a
elas. Em 2024, jogadores da própria seleção argentina entoaram um canto contra
atletas franceses de ascendência africana, em um gesto interpretado
como racista em
países como o Brasil.
Para
além das quatro linhas, um caso emblemático marcou o início de 2026. Em
Ipanema, no Rio de Janeiro, a turista argentina Agostina Páez foi presa por
injúria racial contra um funcionário de um bar carioca. No país vizinho, o
episódio foi explorado por figuras de peso da base política do
governo Javier Milei,
como a senadora Patricia Bullrich.
Isoladamente,
os episódios podem construir, no senso comum, a sensação de que a sociedade
argentina, em geral, é marcada pela prática do racismo.
Por lá,
a construção histórica do tema tem particularidades, quando comparada ao caso
brasileiro. “Consolidou-se a ideia de uma Argentina branca, não baseada na
mestiçagem, mas na narrativa da imigração vinda dos navios, que é um dos mitos
fundadores do país”, afirma o advogado Alejandro Joma, fundador do coletivo
Identidad Marrón, em conversa com o Brasil de Fato.
Para
Joma, de fato, a versão argentina passa pelo apagamento da escravidão. “Na
maioria dos países latino-americanos de língua espanhola, o mito nacional está
mais relacionado à mestiçagem”, sintetiza Joma.
Mas
esse fenômeno, por si só, não indica que a Argentina, como um todo, seja mais
ou menos racista que outros países da região, como o Brasil.
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Raízes históricas
Ao
longo do processo de colonização no Cone Sul, africanos chegaram à região pelos
portos de Buenos Aires e Montevidéu. Começaram, pouco a pouco, a trabalhar em
serviços domésticos, no artesanato, nos campos e nas minas. De lá para cá, a
história oficial promoveu um apagamento historiográfico desta população.
Um dos
casos mais emblemáticos é o de María Remedios del Valle. Mulher negra que acompanhou Manuel
Belgrano – um dos principais nomes dos processos de independência em países
como Argentina e Paraguai – em várias das batalhas que marcaram a libertação do
domínio espanhol, María del Valle chegou a ser proclamada “mãe da pátria” na
Argentina. Mas, depois, acabou sendo eliminada dos livros de História.
Somente
em 2024 a imagem de Del Valle passou a circular nas cédulas de 10 mil pesos na
Argentina, ao lado de Belgrano. O processo teve início durante os governos
da ex-presidenta Cristina Kirchner.
Para a
jornalista Erika Gimenez, coordenadora da ARG Medios, a força do mito na
Argentina afeta até a relação da maior parte da sociedade com a própria
genealogia. “Nenhum de nós é plenamente, cem por cento, europeu”, resume
Gimenez.
Para
Joma, o racismo na Argentina tem uma peculiaridade: o foco principal nos povos
originários. Essa ideia tem a ver com o próprio uso da palavra “negro” no país
vizinho. “Quando alguém diz ‘negro’ na Argentina, a maioria dos argentinos não
imagina uma pessoa afrodescendente. Imagina uma pessoa de ascendência indígena
usando roupas urbanas”, explica.
O
exemplo dado por Joma está na própria seleção argentina que disputa o mundial de 2026. Ele formula a
seguinte imagem: “Perguntado se há negros no elenco, alguém do Brasil ou dos
Estados Unidos tende a dizer que não; um argentino, que sim.”
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Questão de classe, dimensão política
O mito
cumpre uma função de poder. Segundo Gimenez, as famílias mais tradicionais da
Argentina são as mais diretamente responsáveis pela sustentação do mito da
branquitude. “O mito da Argentina branca interessa aos grupos poderosos, porque
eles não querem que os pobres (os marrons ou os negros) ocupem espaços de
poder”, explica. Postura semelhante se passa na sociedade brasileira.
Ao
chegar ao poder, Milei tratou de pôr fim ao Instituto Nacional contra a
Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), criado em 1996 pela Lei de Atos
Discriminatórios. O então porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni, justificou a
extinção pela necessidade de enxugamento do Estado, sustentando que era
necessário desmantelar institutos que não serviam “absolutamente para nada”.
Apesar
do evidente desmonte do órgão, Joma vai além da mera simbologia e propõe uma
problematização sobre o órgão extinto. “Se eu dissesse que o fechamento do
Inadi representou um ataque direto ao combate ao racismo, estaria simplificando
demais”, pondera.
Ele
recorda a denúncia feita contra a ex-diretora-executiva do órgão, Victoria
Donda, em 2021, que foi acusada por Arminda Banda Oxa, então trabalhadora
doméstica de sua casa, de tê-la mantido em situação de trabalho irregular por
anos e de oferecer um cargo no Inadi. Donda negou as irregularidades, dizendo
que havia proposto o cargo como forma de ajuda, em razão da relação de
proximidade com Oxa, além de problemas de saúde da ex-empregada. Em 2022, a
denúncia foi encerrada com um acordo judicial.
Para
Joma, a verdadeira perda do fechamento do Inadi foi de outra ordem: “Eu diria
que foi um ataque indireto às comunidades marginalizadas, que, agora, deixaram
de contar com um órgão especializado”.
No
futebol, embora a bola esteja no centro do palco, as tensões sociais
relacionadas ao racismo, não raro, são expostas. “O futebol acaba revelando
aspectos da nossa sociedade que não gostamos, mas que existem e precisam
continuar sendo debatidos”, reflete Gimenez.
Além
das críticas ao próprio racismo, Jome pondera criticamente sobre o próprio
debate. O problema, segundo o especialista, está no apagamento. Por conta
disso, a Identidad Marrón conseguiu obter a primeira sentença penal argentina a
reconhecer violência racial praticada por policiais.
Ele faz
uma contraposição: no caso brasileiro, a reflexão sobre o racismo deve passar
pelo peso da prática estrutural pelo próprio Estado brasileiro. Joma lembra a
operação policial promovida pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Claudio
Castro, em outubro de 2025, que levou à morte de 128 pessoas no Complexo da
Penha. A maioria era negra.
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Postura neocolonial: analistas criticam apoio de Milei à
censura de símbolos das Malvinas na Copa
A
Argentina passa pela Inglaterra e garante vaga na final da Copa do Mundo contra
a Espanha. A semifinal emocionante aconteceu nesta quarta-feira (15) e terminou
com placar de 2 a 1 de virada. A rivalidade entre as seleções, no entanto, vai
para além dos gramados por causa de uma disputa de décadas sobre as Malvinas.
A Fifa,
inclusive, havia proibido a entrada de bandeiras, camisetas e cartazes com
referência à ilha, localizada no extremo sul da América do Sul. Em 1965, a
Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução
que classificou as Malvinas como território em “situação colonial pendente”. As
negociações são costumeiramente ignoradas por Londres. O presidente da
Argentina, Javier Milei, chegou a elogiar a censura da Fifa.
Para o
historiador e analista de geopolítica Miguel Stédile, o episódio histórico se
soma a outros fatores ocorridos nesta edição do mundial, que é considerado um dos mais politizados
dos últimos tempos.
“A Copa acontece nos Estados Unidos de Donald Trump e tem todas as questões da
Fifa. Tivemos que assistir como o Irã foi tratado nos EUA, as manifestações do
Egito pró-Palestina”, destaca durante O Estrangeiro, o podcast de
política internacional do Brasil de Fato.
Após
mandar a Inglaterra para casa nesta quarta-feira, a seleção argentina abriu uma
faixa com os dizeres: “As Malvinas são argentinas”. Ainda assim, avalia
Stédile, o duelo considerado clássico chega menos politizado do que em 1986,
quando os argentinos venceram os ingleses pouco tempo após a derrota militar
nas Malvinas. “Serviu, de certa forma, como uma revanche.”
Miguel
Stédile resume o momento político dos dois países que se enfrentaram em campo
na semifinal. “Eu acho que convém muito a um governo Milei ter uma seleção que
unifique o país num momento de crise econômica, como o que a gente está
vivendo. E a Inglaterra é um país que tem uma monarquia no século 21. Então,
cheira alguma coisa anterior à naftalina, para além do seu passado colonial. É
um país que está numa situação geopolítica bastante secundária, desde que eles
saíram da União Europeia. Quer dizer, isso não deu mais protagonismo ao país;
eles continuam sendo uma espécie de braço secundário dos Estados Unidos”,
avalia.
Para o
jornalista argentino Gabriel Vera Lopes, o Gabo, correspondente
do BdF em Cuba, a postura de Milei é de “administrador neocolonial”.
“É um governo que tem uma aliança estratégica com as potências imperiais dos
Estados Unidos, da Inglaterra e do Estado de Israel. Então não é surpresa isso.
Depois, eu acho que tem um problema simbólico e tem um problema político. O
problema político, diplomático, é que a reivindicação diplomática da Argentina
pela soberania das Malvinas começou em janeiro de 1833, que foi um momento em
que a Inglaterra ou o Reino Unido invadiu as Malvinas. Tem quase 200 anos de
luta pela soberania das Malvinas. Então, não aceitar que a torcida argentina
possa usar um símbolo nacional durante o jogo, que é um símbolo de identidade,
que é um símbolo de luta anticolonial, é uma medida de subordinação
imperialista e uma medida diplomática muito complexa, porque é aceitar que não
é uma reivindicação legítima da Argentina”, define.
Admirador
confesso de Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que comandou a
vitória da Inglaterra na Guerra das Malvinas, Milei chegou a defender a
autodeterminação da população local das ilhas, uma posição que contraria a
tradição diplomática histórica do Estado argentino. Gabo ressalta que as
Malvinas são um dos símbolos mais reproduzidos na cultura popular argentina,
presente em tatuagens e em muros pelo país, por exemplo. “Proibir é uma coisa
bem pesada para a história e a identidade argentina.”
O
programa também abordou os casos de racismo que dominaram a
Copa do Mundo,
reforçados por um dos próprios países-sede, os EUA. Houve caso cometido por um
torcedor argentino no jogo contra o Egito e uma canção criada pela torcida, mas
também cantada pelos jogadores, teria conteúdo discriminatório.
Para
Gabriel Vera Lopes, o debate sobre o racismo na sociedade argentina tem
crescido, mas a extrema direita no poder utiliza esses discursos como uma
“força identitária”, o que dificulta o combate a atitudes discriminatórias que
também se refletem no ambiente do futebol. “Ao mesmo tempo que tem esse racismo
muito forte nos setores que têm muita influência na sociedade, porque estão nos
meios de comunicação, estão na política, estão nas universidades, estão em
diferentes setores de poder da sociedade, ao mesmo tempo, os setores populares
da Argentina têm uma forte identificação com a ideia de ser negro. Porque é o
jeito de desprezar o que a oligarquia tem para falar dos setores populares da
Argentina”, explica.
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Decisão contra programa social afeta quase um milhão de
trabalhadores na Argentina
Uma
decisão do Tribunal Federal de San Martín anulou uma medida cautelar que
protegia o pagamento de benefícios sociais a quase um milhão de pessoas na
Argentina, ordenando a suspensão imediata das transferências.
A
decisão afeta principalmente assistentes sociais em cozinhas comunitárias e
líderes de organizações como o Polo Obrero e o Sindicato dos Trabalhadores da
Economia Popular (UTEP), que vinham recebendo uma renda congelada de 78.000
pesos desde que o governo nacional desvinculou esses programas do salário
mínimo em dezembro de 2023.
Caso a
atualização regulatória tivesse sido mantida, o benefício seria agora de
186.200 pesos, mas a decisão judicial argumenta que a continuidade do pagamento
“implicaria antecipar o resultado final do julgamento”. Isso confirma a
política iniciada pela Ministra do Capital Humano, Sandra Pettovello, que já
havia anunciado a suspensão dos pagamentos de alimentos e outros auxílios a
partir de 1º de maio de 2026, embora o Poder Executivo tenha cumprido
temporariamente a liminar durante os meses de maio, junho e julho.
“Os
tribunais estão negando o direito ao salário a mais de 900 mil trabalhadores, e
o pagamento ‘De Volta ao Trabalho’ não será recebido em agosto. A fome não
espera. Continuaremos lutando por todos os meios pela continuidade do auxílio
social complementar”, denunciou a UTEP em sua conta nas redes sociais.
Líderes
sociais denunciaram o que consideram um ataque sistemático contra os setores
mais vulneráveis. Eduardo Belliboni, do Polo Obrero (Polo Operário), afirmou
que o governo está reafirmando seu “desprezo” pelos assistentes sociais ao
retirar sua única fonte de renda, enquanto Johana Duarte, secretária sindical
da UTEP (União dos Trabalhadores da Economia Popular), alertou que essa medida
agravará a crise social e prejudicará as economias locais, retirando dinheiro
de circulação nos comércios de bairro. Duarte também culpou os governadores
provinciais por apoiarem essas políticas, que, segundo ela, exacerbarão a crise
em seus territórios.
Belliboni
criticou o tribunal, afirmando que este “ficou do lado de Petovello-Mille” ao
decidir que é aceitável que aproximadamente um milhão de trabalhadores
continuem prestando serviços nos bairros mais pobres sem qualquer remuneração.
“A escravidão é aceitável?”, questionou o representante do Polo Obrero em sua
publicação no X em resposta à decisão.
Em
resposta à revogação, as organizações anunciaram que irão recorrer da decisão
judicial e intensificar os protestos sociais por meio de assembleias e
bloqueios de estradas, métodos históricos do movimento piqueteiro. A eliminação
desse subsídio representa uma perda de 58% em comparação com a medida original
e de 76% em relação ao custo da cesta básica, agravando a situação de centenas
de milhares de famílias em meio à alta inflação e ao desmantelamento das redes
de proteção social do Estado.
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Arrocho, desemprego e juros elevados provocam
inadimplência recorde na Argentina
O
arrocho salarial, o aumento do desemprego e as altas taxas de juros provocaram
uma inadimplência recorde na Argentina, atingindo os mais altos percentuais em
mais de duas décadas, apontou um levantamento realizado pelo jornal Página12.
Soma-se a esta catástrofe, o aumento abusivo na jornada de trabalho.
Segundo
dados do Banco Central da República Argentina (BCRA), as taxas de não pagamento
alcançaram 15% nos empréstimos pessoais e 11% nos cartões de crédito,
representando os piores índices no sistema bancário. A situação é ainda mais
crítica entre credores não bancários, onde a inadimplência chega a 26% nas
carteiras digitais, sendo 48% nas redes de varejo de eletrodomésticos e 58% nas
empresas de crédito rápido (“instant cash” ou “dinheiro instantâneo”).
Frente
à calamidade em que se encontram mergulhadas mais de 5,7 milhões de pessoas, o
governo Milei decidiu culpar a população pelo endividamento excessivo,
ignorando o desastre das suas políticas de emprego e renda – as verdadeiras
causas do fenômeno.
De
acordo com o porta-voz presidencial, Adrián Javier, “as pessoas precisam
conhecer seus limites de endividamento”, não devendo simplesmente “estourar o
limite do cartão de crédito e depois se encontrar em apuros financeiros”.
SALÁRIO
MÍNIMO PERDEU QUASE 40% DO SEU PODER DE COMPRA
Integrante
do grupo Paridade Macroeconômica, Lucia Crimi Obón ironizou a alegação
governamental, recordando que, logo após o governo federal assumir, o limite
legal para os juros de mora – penalidades cobradas pelo atraso no pagamento de
uma dívida – do cartão de crédito foi eliminado, enquanto o salário mínimo
perdeu quase 40% de seu poder de compra. Nesse mesmo período, as taxas de
inadimplência das famílias subiram de 2% para 12% nos empréstimos bancários e
de 8% para 27% nas carteiras digitais. “A explicação oficial implicaria
acreditar que todos, de repente, ficaram insensatos no mesmo dia, precisamente
durante os dois anos de mandato de Javier Milei”, condenou Lucia.
Um
relatório do BC revelou que entregadores de aplicativos acumularam uma dívida
média de 900.000 pesos (USD$ 610 ou R$ 3.106), sendo obrigados a recorrer às
próprias plataformas para financiar reparos em seus veículos. Trabalhadores e
sindicatos denunciam que esses aplicativos oferecem empréstimos quando os
prestadores de serviço enfrentam dificuldades financeiras, apenas para cobrar
taxas de juros anuais que chegam a 700% (setecentos por cento!).
AUMENTO
DA JORNADA DE TRABALHO
“Temos
colegas estendendo suas jornadas de trabalho para pagar empréstimos”, explicou
Belén D’Ambrosio, secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores de Entrega
por Aplicativo (Sitrarepa), ressaltando que o sistema de empréstimos cria uma
forte dependência em relação às empresas. “Trabalhamos entre 10 e 12 horas
apenas para cobrir os custos fixos. Esses empréstimos não são regulamentados, e
deveria haver algum tipo de fiscalização estatal”, defendeu.
Para
Martín Burgos, economista do Departamento de Economia Política do Centro
Cultural de Cooperação, além da queda de renda, “o aumento da inadimplência se
deve à forte alta das taxas de juros, que permaneceram bem acima da inflação
após a desregulamentação financeira”.
“O
governo atribuiu a deterioração desses indicadores a um suposto erro das
famílias ao contraírem dívidas além de suas possibilidades. Essa interpretação
transfere a responsabilidade para aqueles que sofrem com o problema, ignorando
o impacto da queda na renda e no emprego formal causada pelas políticas da
atual administração”, assinala o Página12.
Na
realidade, apontam os especialistas, “o crédito deixou de financiar o consumo
ou projetos de investimento, tornando-se, em vez disso, um mecanismo de
sobrevivência usado para cobrir os custos de alimentação, contas de serviços
públicos e saúde”. Na prática, ressaltam, “longe de refletir uma melhoria no
padrão de vida, a expansão dos empréstimos destaca as dificuldades que milhares
de famílias enfrentam para arcar com as despesas essenciais”.
Insistindo
em repassar a responsabilidade do governo para as famílias, o porta-voz
presidencial relacionou o aumento das taxas de inadimplência a um suposto – e
mentiroso – “ciclo virtuoso de recuperação do crédito”. Javier vai além,
alegando que quando há uma retomada da economia – que só Milei e sua equipe
veem – “é normal que a inadimplência surja”.
O
problema é que o fenômeno “normal” mencionado não havia sido visto em terras
argentinas durante as últimas duas décadas.
POLÍTICAS
NEOLIBERAIS E MEDIDAS DE AUSTERIDADE
Não é a
primeira vez que o governo culpa a população pelos efeitos das suas políticas
neoliberais e de subserviência às transnacionais e ao sistema financeiro. Há
alguns dias, sugeriu que, diante do aumento das tarifas de gás, as famílias
deveriam “se agasalhar” em vez de ligar o aquecimento.
A
economista Delfina Rossi asseverou que o executivo “insiste em responsabilizar
as famílias por um problema que é estrutural”. Na sua opinião, “o crédito
funcionou como um placebo diante da crise de renda e emprego, mas, quando essa
crise se torna permanente, nenhuma ponte financeira consegue se sustentar”.
Além disso, “é muito difícil para as famílias escaparem dos algoritmos das
fintechs [empresas inovadoras que utilizam tecnologia como inteligência
artificial e nuvem para oferecer serviços financeiros mais rápidos, acessíveis
e sem a burocracia dos bancos tradicionais] e dos mecanismos que incentivam o
endividamento”.
A
socióloga Luci Cavallero, da plataforma de ação social e política Movida
Cidade, acredita que o governo Milei está sendo “forçado a enfrentar a questão
do endividamento, pois as taxas crescentes de inadimplência minaram a narrativa
oficial de melhora nas condições de vida cotidiana”.
Na
opinião do diretor da consultoria Sarandí, Sergio Chouza, o aumento das taxas
de inadimplência decorre de uma combinação de fatores: das altas taxas de
juros, que “permaneceram muito acima da inflação, da cotação do dólar e
dos salários, com custos financeiros superiores a 100%, tanto em bancos quanto
em fintechs”; de muitas famílias substituirem parte de sua renda por crédito
para manter os níveis de consumo, uma vez que uma parcela cada vez maior de
seus salários é destinada a cobrir serviços públicos e outros serviços
essenciais e as estratégias comerciais agressivas adotadas pelas instituições
financeiras, nas quais “obter um empréstimo está ao alcance de qualquer pessoa
que possua um celular”.
Fonte:
TeleSUR/Brasil de Fato/Hora do Povo

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