Na
Bolívia, estudantes que aderiram à rebelião popular contra Paz sofrem ameaças
de morte e expulsão
Na
Bolívia, dentro do contexto da rebelião operária,
campesina e indígena que vimos durante mais de 50 dias, consideramos importante
saber que papel está desempenhando no processo a juventude boliviana.
Para
informar-nos sobre o assunto realizamos a seguinte entrevista com uma militante
da LOR-CI (Liga Operária Revolucionária – Quarta Internacional (seção boliviana
da CRP)), do Combate Vermelho, (agrupação estudantil e juvenil da LOR-CI), e
Pão e Rosas (importante agrupamento feminista socialista presente em mais de 14
países).
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Começando por um
plano mais geral, como você definiria a situação que se viveu na Bolívia desde
maio? A situação vem se aquecendo inclusive desde antes do 1º de Maio?
Estudante
entrevistada: Na
Bolívia acabamos de passar por um processo de uma genuína rebelião popular com
grandes setores mobilizados, principalmente o campesinato nas províncias, com o
método histórico de sua classe, o bloqueio e o cerco que têm precedentes desde
a época do Vice-reino em rebeliões contra a Coroa Espanhola.
Neste
processo houve grandes demonstrações na forma de marchas e conselhos
resolutivos que tendiam a desconhecer as burocracias sindicais, mas
definitivamente como mencionava, o principal método da luta foi o bloqueio, com
mais de 50 dias de bloqueio, chegando por alguns dias a mais de 100 pontos de
bloqueio em estradas nacionais. Este é provavelmente o segundo uso desta tática
mais longo da história do território boliviano, o único que o supera em
extensão sendo o cerco de La Paz por campesinos liderados por Tupac Katari
durante a Sublevação Geral de Índios em 1781 que durou mais de 100 dias.
A
situação vem definitivamente “aquecendo-se” desde antes do 1º de maio; esta
data simplesmente marcou o início de um novo processo de mobilizações com o
Conselho de 1º de maio na Ceja de El Alto encabeçado pela COB, que definiu o
início de uma greve geral. Ainda que a burocracia da COB jamais tenha chegado a
dar um passo para efetivar a interrupção do trabalho, sendo que as maiores
minas do país, como San Cristóbal, nunca pararam sua produção durante todo este
processo de luta.
As mobilizações contra
o governo neoliberal de Paz começaram em dezembro do ano passado, depois do decreto
5503 que eliminou a subvenção aos combustíveis, pondo a fatura da crise
capitalista nas costas do povo trabalhador, além de abrir as portas de nosso
país à privatização e à espoliação de nossos bens comuns materiais, além de
outras medidas de ajuste neste DS; é por isso que desde dezembro houve um grau
de mobilização maior ou menor, dependendo do momento e geralmente caracterizado
por ser muito setorial até o primeiro de maio, quando se estendeu praticamente
a todo o campesinato e a partes do proletariado mais precarizado.
·
Como a política do governo de Paz afetou a juventude e os
estudantes?
O
ajuste do governo de Paz afetou todas as camadas do proletariado e campesinato
do país; no entanto, no estudantado especificamente, os maiores golpes que
recebemos foram a inflação e o aumento do custo de vida, as passagens no
transporte público e o custo de materiais para o estudo que aumentaram
estrepitosamente; no caso da passagem, esta subiu de 2.50 Bs. para 3.50 Bs.
Esta
tendência de aumento dos preços de todos os meios de subsistência e dos
materiais necessários para estudar deixaram partes do estudantado muito
afetadas: hoje em dia a deserção universitária e secundária está em alta, com
muitos estudantes tendo que deixar seus estudos para começar a trabalhar por
falta de dinheiro em suas casas, um fenômeno que também se viu em meu próprio
curso.
Outros
problemas foram, primeiro, a redução orçamentária para todas as instituições
públicas, que foi efetuada por resolução ministerial, sem ser sequer votada, o
que deixou as instituições públicas com acesso a apenas 50% de seus orçamentos
anuais.
Isto
está forçando o ajuste em todos os espaços; por exemplo, em minha faculdade os
banheiros foram privatizados, de forma que agora para fazer uso deles os
estudantes têm que pagar 1 Bs. cada vez que os utilizam, para não mencionar que
também implica em que, se a pessoa encarregada deles não está presente por
qualquer razão, não podemos usar os banheiros, na prática privando-nos de um
serviço básico.
A outra
forma importante que afetou o estudantado é a perseguição política e pessoal
por parte de autoridades das universidades e por grupos de choque como as
“resistências” paramilitares.
No caso
das autoridades universitárias, muitos estudantes que participaram das
mobilizações foram expulsos de grupos de estudos, amedrontados, receberam
memorandos e foram recentemente ameaçados de ações disciplinares e de expulsões
do sistema público universitário, castigando a mobilização e a organização com
a privação do direito à educação.
·
A demanda mais sentida foi a da renúncia imediata de Paz
e de seu governo. Entendendo que você compartilha esta demanda, que programa
propõem a LOR-CI, PyR e o Combate Vermelho além disso?
Para
começar, esta demanda é um bom primeiro passo, mas na LOR-CI não paramos aí, a
renúncia de Paz embora progressiva e necessária, não é o fim do caminho,
necessitamos da renúncia de todo o governo atual, de todos os deputados e
senadores que apresentaram projetos de lei antipopulares e que criminalizam a
mobilização, sem os quais Paz não poderia efetuar seu plano de ajuste; do
vice-presidente Lara, que, embora com um certo grau de conflito com Paz,
tampouco acompanha a mobilização popular.
No caso
de renúncia de Paz apenas chamaria novas eleições para um novo governo que
continue o plano de ajuste; também necessitamos e exigimos a renúncia de todo o
Tribunal Supremo Eleitoral atual, que recentemente designou um governador para
o Departamento de La Paz sem sequer realizar uma eleição, presenteando o cargo
a Revilla, aliado deste governo neoliberal.
Além
das renúncias, nosso horizonte não são novas eleições, e sim o desmantelamento
do estado burguês; nossa demanda foi e continua sendo uma assembleia
constituinte livre e soberana que nos leve a uma assembleia popular como a de
1970 em que as organizações em luta e o povo trabalhador possam instaurar um
governo provisório no caminho para a abolição do capital e um governo de e para
os trabalhadores.
·
O levantamento operário, campesino e indígena contou com
algum setor da juventude e dos estudantes? Que ações realizaram? Houve
distintos graus de envolvimento em escolas secundárias e universidades?
A
rebelião popular teve um grau de participação por parte do estudantado,
principalmente por parte das juventudes universitárias; os secundaristas, até
onde eu sei, não se mobilizaram.
Esta
participação veio principalmente de setores de vanguarda de estudantes da UPEA
e da UMSA, as duas maiores universidades da Bolívia; no entanto, não
participaram nem centros de estudantes nem a universidade de forma
institucional; foram realizadas assembleias abertas de estudantes,
autoconvocadas, que diante da inação e até da colaboração das autoridades
universitárias com o governo de Paz, decidiram unir-se à luta do povo
trabalhador.
Isto
foi respondido por parte das universidades e dos grupos de choque com
perseguição, ameaças de morte, expulsão de grupos de cursos e de faculdades,
intimidação, filtração de direções, ameaças a seres queridos e ameaças de
expulsão de universidades.
A
principal ação foi o meeting de protesto e a marcha; em alguns outros casos
setores estudantis uniram-se a manifestações convocadas por organizações
campesinas e sindicais.
·
Historicamente a juventude e o movimento estudantil têm
sido a fagulha de inumeráveis instâncias de luta de classe, servindo como ponta
de lança na consciência combativa geral. Você diria que foi este o caso na
Bolívia?
Considero
que na Bolívia foi ao contrário, o estudantado em geral está muito
despolitizado e com setores consideráveis virando à direita; as partes do
estudantado que se uniram à luta foram minorias e às vezes aderiram à luta do
lado de sua filiação territorial se vinham do campo ou com agrupações
feministas que também se uniram.
Nesse
caso, se devêssemos definir quem acendeu a mecha, foram definitivamente os
camponeses, que iniciaram as mobilizações e chamaram à unidade os movimentos
operário e estudantil.
·
Existe na Bolívia algum tipo de burocracia do movimento
estudantil que desempenhe um papel similar à COB, mas em setores da juventude?
Ou, se não, como a direção traidora da COB afeta o movimento estudantil?
Definitivamente,
na Bolívia, durante os anos 70, na Revolução Universitária, à custa de sangue
derramado e de muitos mortos, o cogoverno estudantil, o que quer dizer que
legalmente deveríamos ter uma igualdade na participação na tomada de decisões
sobre nossa própria educação.
No
entanto, nos últimos anos muitos cursos ficaram sem centros estudantis por
distintas razões, deixando os estudantes sem participação ativa no cogoverno
docente-estudantil, além do que os centros que existem atualmente são em sua
maioria burocracias fortalecidas que se enriquecem com os orçamentos destinados
a melhorar nossa infraestrutura e que durante o processo de luta fizeram tudo o
que estava em suas mãos para desmobilizar os estudantes nas ruas, havendo
inclusive casos de membros de centros estudantis mandando ameaças a pessoas
mobilizadas.
Estas
direções traidoras desempenham um papel de desmoralização e de desalento da
mobilização junto ao estudantado, tentando instaurar uma lógica de “salve-se
quem puder”, plantando a ideia de que a gente deveria entrar em sua faculdade e
não fazer absolutamente nada político nem que incomode a alguém mais (como ser
trans ou homossexual em muitos casos) e tentar sair o quanto antes de seu curso
para que não lhe aconteça nada, criando um ambiente totalmente hostil às
diversidades e dissidências além de ao livre pensamento, dando carta branca a
homofóbicos, transfóbicos e fascistas.
·
Que papel puderam desempenhar Combate Vermelho e Pão e
Rosas ali onde vocês têm militantes? E fazendo um balanço de suas intervenções,
você mudaria algum aspecto delas?
Combate
Vermelho foi definitivamente parte da vanguarda universitária durante este
período de mobilização, com múltiplas demonstrações e protestos convocados de
que participou praticamente todo o resto da vanguarda universitária. Por sua
vez, Pão e Rosas e outras organizações feministas estiveram permanentemente na
mobilização e na defesa dos DDHH durante estes dias, estando na vanguarda
contra a repressão estatal.
Pessoalmente,
se eu pudesse mudar algo, teria feito mais pressão nas redes e um maior
acompanhamento das mobilizações campesinas; creio que nossa principal falha foi
essa, não nos fazer presentes nas províncias para compartilhar com nossos
companheiros camponeses.
·
Há algumas semanas, as forças de repressão do estado
tiveram a ajuda de um bando paramilitar neonazista para atacar uma das zonas
bloqueadas. Houve outros casos como este? Que papel está desempenhando a
extrema direita?
Não
qualificaria a UJC (União Juvenil de Santa Cruz) como neonazista, e sim como
fascista-adjacente e mão armada da burguesia de Santa Cruz de la Sierra; no
entanto fatos como o de San Julián quando o Exército e a Polícia resguardaram e
fizeram uso deste grupo paramilitar para agredir, amedrontar e segundo informes
da comissão internacionalista de DDHH da Argentina agredir sexualmente pessoas
mobilizadas, não são nem foram únicos ou isolados.
Sem ir
mais longe, o Combate Vermelho sofreu uma tentativa de intimidação e agressões
físicas com paus e cuspidelas por parte de um destes grupos durante uma
mobilização no Monobloco da UMSA.
O grupo
em particular foi a Resistência de La Paz, que desempenha um papel similar ao
da UJC em Santa Cruz, usualmente também respaldados pela Polícia, como em sua
recente intervenção contra um ensaio para o Grande Poder, um ato cultural
famoso da cidade, em que a Polícia, acompanhada por estes grupos de choque,
obrigou pessoas ensaiando para um ato cultural a dispersarem-se.
Cabe
mencionar que o Grande Poder é um ato realizado por setores racializados e
setores populares. Este ataque à expressão cultural do não “branco” é um ataque
abertamente racista, o que não seria a primeira vez nem para a Resistência de
La Paz nem para a Polícia Boliviana.
·
Recentemente o governo de Paz decretou o estado de
exceção por 90 dias. O que é este estado de exceção e em que implica para o
levantamento e a juventude?
O estado de exceção é uma tentativa
direta de criminalização do protesto, na prática ilegalizando-o sob pena de
imediata detenção e de ser retido em celas da Polícia por 8 a 12 horas, prazo
que na prática jamais se cumpre, com as detenções sem flagrante ou ordem de prisão
usualmente durando vários dias, dias em que as pessoas ficam incomunicáveis,
existindo também denúncias de tortura por parte da Polícia.
Nestes
últimos dias também começou a ser comum a detenção de familiares e de seres
queridos de pessoas mobilizadas, de forma a amedrontar e desalentar a
mobilização, havendo casos de esposas e filhas de dirigentes na mobilização
sendo detidas sem ordem de prisão alguma, fazendo-se buscas em suas casas e
denúncias de roubo de carteiras e destruição de bens pessoais durante as buscas
por parte da Polícia.
Neste
caso o governo está apontando especialmente para mulheres e setores mais
vulneráveis para tentar amedrontar outros setores mobilizados, sendo uma forma
de agir misógina e totalmente patriarcal.
No caso
da juventude, estes fatos contra os DDHH interromperam praticamente todo tipo
de mobilização nas ruas e a publicação de propaganda que se fazia antes, diante
do medo da perseguição e da tortura. A Polícia sequestrou pessoas com roupa de
civil, com as caras encobertas, em carros sem placas para não serem
reconhecidos, e com armas de fogo, o que evidentemente semeou um clima de
perseguição que cansa mentalmente todos.
·
Acredita que o levantamento vai continuar? De que forma?
Que papel pode/deve ter a juventude?
No
momento parece que se suspendeu a luta de classes ativa nas ruas; no entanto,
isto não é uma solução para a crise de fundo; apesar de terem sido levantados
os bloqueios continuamos tendo uma crise de hidrocarburos no país, com filas
intermináveis, em alguns casos de quilômetros, para conseguir gasolina e
diesel, com os preços da comida e da roupa subindo, com a moradia sendo cada
vez mais proibitiva.
Também
com a paulatina privatização da educação pública como com os recentes custos
para o uso das bibliotecas da UMSA, a crise de fundo continua existindo e a
disposição para a mobilização continua. Muitas pessoas já expressaram que isso
não terminou, que uma vez que passem estes 90 dias de estado de exceção a
mobilização vai começar de novo e que nossa consigna continuará sendo a mesma,
a renúncia de Rodrigo Paz.
Dizer
que forma tomará a mobilização no futuro não sei, não tenho uma bola de cristal
que me prediga o futuro, no entanto considero que o mais provável é que sejam
retomados os métodos clássicos do proletariado e do campesinato na Bolívia, as
marchas, os bloqueios, as greves com interrupção de trabalho.
E se a
mobilização conseguir vencer a repressão e a tomada de instituições pelo povo
trabalhador, pessoalmente vejo este período como uma escola de lutas.
Previamente à Revolução Operária de 1952 na Bolívia, houve sessenta anos de
lutas com greves gerais e mobilizações constantes, que mostraram ao
proletariado sua força e os métodos mais úteis para lutar contra o capital.
Acho
que estamos passando por algo similar, escola de lutas que deixará uma
consciência de classe muito maior no proletariado e no campesinato. Não sei
quão longo será este período nem qual será sua conclusão, mas sim creio que
estamos nos encaminhando para um longo período de lutas contra o capital e,
sobretudo agora, contra a burocracia.
O
desconhecimento de direções durante estes 50 dias são um sintoma das bases
superando suas direções e se continuarmos nesta direção, em alguns anos
poderemos ter sindicatos genuinamente revolucionários diferentemente da direção
da COB atual, que não tem tempo para ver mas pactua com o governo, que em 6
meses já traiu a mobilização popular e as bases 2 vezes, vendendo os
mobilizados ao governo neoliberal.
A
juventude deveria desempenhar um papel importantíssimo nas mobilizações e na
direção das lutas por vir, no entanto até agora não fizemos isso, estando a
reboque do movimento camponês. Se isso mudar ou não, o papel que Combate
Vermelho pode desempenhar na direção que vá tomar o estudantado acho que
poderia ser bastante importante, se é que aprendemos com nossos erros e agirmos
nas ruas como este momento exige de nós, se desempenharmos nosso papel de
maneira satisfatória creio que uma nova juventude mobilizada poderia levar-nos
um passo mais perto de um mundo em que possamos ser socialmente iguais,
humanamente diferentes e totalmente livres.
Fonte:
Esquerda Diário

Nenhum comentário:
Postar um comentário