sexta-feira, 17 de julho de 2026

Impacto das eleições na América do Sul: Onda azul pode ser movimento permanente, avaliam analistas

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram o fenômeno da eleição de presidentes de direita nas Américas, além das respectivas consequências, tanto para as próprias nações quanto para governos opositores.

Abelardo de la Espriella, na Colômbia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Rodrigo Paz, na Bolívia. Em um espaço de menos de um ano, quatro países da América do Sul trocaram governos de esquerda e centro-esquerda por políticos alinhados à direita.

Esse fenômeno, nomeado de onda azul, é o oposto ao vivido na região no início do século XXI, quando países sul-americanos elegeram diversos líderes de esquerda, incluindo o Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que esse movimento pode não ser pendular, assim como foi em outras oportunidades ao longo das últimas duas décadas.

Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que esta seja uma profunda reconfiguração estratégica no continente. Para a analista, esse movimento é contrário à integração regional.

"Essa nova onda azul com certeza tensiona para o enfraquecimento dos processos de integração, mas também para o enfraquecimento das organizações multilaterais de maneira geral. Nós temos uma mudança ideológica que muda, de fato, a rota estratégica da região."

Bressan destaca que os governos que assumiram recentemente a gestão de países sul-americanos não se caracterizam apenas por ser de direita, e muitas vezes pregam a tensão de instituições, implicando na instabilidade política dessas nações.

"A única exceção da região é o Uruguai, que, como nós sabemos, é um país de estabilidade, de instituições políticas estáveis e consolidadas, cujos governos, independentemente da ideologia, conseguem muitas vezes governar sem esse tensionamento."

Lier Pires Ferreira, pesquisador do Núcleo de Estudos dos Países do BRICS da Universidade Federal Fluminense (NuBRICS/UFF), explica que o distanciamento ideológico marcado por embates públicos e ausência em cúpulas de grupos multilaterais pode minar a capacidade de grupos como o Mercosul, que exigem decisões unânimes para avançar em pautas.

"Há uma certa pressão interna dessas lideranças da onda azul para flexibilizar as amarras dos blocos comerciais. Na onda do pragmatismo, que está inserida nessa dinâmica, há uma perspectiva, há um desejo de que cada país tenha liberdade para negociar seus próprios tratados de livre comércio."

Já para Bressan, o Mercosul é um dos poucos órgãos multilaterais sul-americanos que pode resistir a essa onda azul, embora a especialista admita que ele já está bastante debilitado com a mudança, capitaneada nos últimos anos pelo presidente da Argentina, Javier Milei.

"A integração regional deveria ser sempre um projeto de Estado, não apenas de governo, para conseguir driblar essas diferenças, nuances, inclusive escapando de ser uma plataforma política. […] O Mercosul deveria ser uma plataforma de integração, de mais comércio."

<><> América Latina: o projeto conservador

Victor Cabral, doutorando em relações internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), declarou que a América Latina foi construída como "uma região conservadora" e que seus habitantes e governos foram "podados desde a colonização a não ter muita independência", em uma busca constante por freios progressistas, em especial, ao longo das ditaduras do século passado.

"Somente no século XXI, com a eleição de alguns governos mais progressistas, principalmente na América do Sul, é que a gente começa a ver um momento realmente de diferença do padrão conservador que a gente tinha até então na nossa região. Esse movimento não existia, foi chamado de onda rosa, só que ele teve seu fim."

No entendimento de Cabral, há uma grande insatisfação popular nas Américas com seus respectivos governantes. Não necessariamente o continente está se tornando mais de direita, mas sim anti-incumbente, que busca novos nomes para lidar com problemas antigos.

"A gente tem graves problemas com segurança pública, com narcotráfico. As nossas economias estão estagnadas. Já desde a pandemia, a gente não conseguiu recuperar ainda o nosso ritmo de crescimento. A gente está com dificuldade em voltar a combater a desigualdade socioeconômica, e isso tudo impacta o desejo da população de querer votar, fazer diferente."

Cabral ressalta que os governantes dessa chamada onda azul têm dificuldade de governar e colocar as ideias de campanha em prática.

"Quando chegam ao cotidiano, eles se dão conta da vida burocrática, da necessidade de passar pelo Congresso, de ter que lidar com os Poderes, já que o Legislativo e o Judiciário servem como freios e contrapesos, principalmente para os arrombos autoritários que a gente vê na América Latina."

<><> EUA podem retomar prestígio nas Américas?

Bressan explica que os Estados Unidos sempre entenderam que deveriam se fazer presentes nas Américas. No entanto, após os ataques de 11 de Setembro, Washington voltou sua atenção para o Oriente Médio, abrindo espaço para que a China ocupasse um espaço que outrora era dos norte-americanos.

"Naquele momento, o Brasil tentou exercer certa liderança na região. O próprio México também tentou uma liderança regional, mas, ao mesmo tempo, a China se tornou cada vez mais presente em vários âmbitos, em praticamente todos os países da região."

A especialista destaca que, por mais que no discurso de presidentes de direita, como Milei, seja pregada a necessidade de se afastar de Pequim e se reaproximar de Washington, esse realinhamento "carece de sustentação empírica".

"A China vem se consolidando como um grande parceiro comercial, importante fonte de investimentos em infraestrutura em grande parte dos países sul-americanos. Importante dizer que o Milei, ao longo da sua campanha de governo, duelou muito com a China, dizendo que não iria mais negociar com o país e, quando ele assumiu, se deu conta dos grandes investimentos chineses na região."

¨      A América Latina como laboratório da nova extrema-direita: convergências, diferenças e desafios para projetos populares. Por Giovani del Prete

A ascensão recente de governos de extrema-direita em diversos países da América Latina não pode ser compreendida como uma simples sucessão de fenômenos nacionais isolados. Embora cada experiência possua características próprias, determinadas por sua história política, estrutura econômica e correlação de forças internas, é cada vez mais evidente a existência de um conjunto de orientações comuns que atravessam governos como os de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, José Antonio Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Nayib Bukele em El Salvador, além das recentes vitórias eleitorais de Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.

Trata-se de um fenômeno regional que precisa ser analisado para além das fronteiras nacionais. O que está em disputa não é apenas a orientação de um governo ou de outro, mas os rumos do desenvolvimento latino-americano, o papel do Estado, a soberania nacional, os direitos sociais e a própria capacidade dos povos da região de construir projetos autônomos diante das grandes potências globais.

Essa nova direita latino-americana surge em um momento de profundas transformações da ordem internacional. Os Estados Unidos seguem sendo a principal potência militar e financeira do planeta, mas enfrentam contradições cada vez mais visíveis. Possuem a maior dívida pública do mundo, acumulam déficits crescentes, enfrentam uma polarização política sem precedentes recentes e convivem com questionamentos cada vez mais amplos sobre sua capacidade de liderança global após décadas de guerras, sanções e intervenções militares. Ao mesmo tempo, o mundo se torna progressivamente multipolar, com a ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a busca de diversos países por maior autonomia estratégica.

É justamente nesse contexto que ganha força uma extrema-direita latino-americana que combina neoliberalismo radical, conservadorismo cultural, centralização do poder político, criminalização dos movimentos sociais e forte alinhamento geopolítico aos interesses estadunidenses.

<><> Um alinhamento internacional que não é casual

Talvez o elemento mais visível que conecta esses governos seja sua política externa.

Na Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento com Washington e Tel Aviv em eixo estruturante da política externa. Seu governo aderiu ao Escudo das Américas, aprofundou mecanismos de cooperação militar, aproximou-se da OTAN como parceiro global e passou a acompanhar quase integralmente as posições dos Estados Unidos e de Israel em organismos multilaterais.

No Paraguai, Santiago Peña manteve o histórico alinhamento diplomático com Estados Unidos e Israel, reforçando laços com o governo Netanyahu, apoiando posições convergentes na ONU e ampliando acordos de segurança que permitem maior presença militar estadunidense no país.

No Equador, organizações populares denunciam que a soberania nacional vem sendo progressivamente subordinada aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos, especialmente após a declaração do conflito armado interno e a ampliação da cooperação militar com Washington.

Em todos os casos, a política externa deixa de ser concebida como instrumento de defesa dos interesses nacionais e passa a ser orientada por uma lógica de alinhamento estratégico.

<><> O Escudo das Américas e a reconstrução da tutela militar sobre o continente

Uma das novidades mais importantes do atual ciclo político latino-americano é a criação do chamado Escudo das Américas.

Apresentado oficialmente como uma iniciativa de combate ao narcotráfico, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional, o projeto estabelece mecanismos permanentes de coordenação militar, compartilhamento de inteligência e integração operacional entre os Estados Unidos e governos aliados da região.

Se durante a Guerra Fria o Plano Condor serviu como instrumento de coordenação repressiva entre ditaduras militares latino-americanas sob tutela de Washington, o Escudo das Américas representa uma tentativa contemporânea de reconstrução da influência estratégica norte-americana sobre o continente por meio de governos formalmente eleitos, mas alinhados a uma mesma agenda geopolítica.

Existe uma semelhança estrutural entre o Plano Condor e o Escudo das Américas: ambos os projetos partem da ideia de que a segurança hemisférica deve ser organizada sob liderança dos Estados Unidos.

A adesão de governos como os de Milei, Noboa, Bukele e Peña revela que a extrema-direita latino-americana não atua apenas como fenômeno nacional. Ela também opera como parte de uma rede internacional articulada politicamente em torno de fóruns conservadores, cooperação militar, alinhamentos diplomáticos e interesses econômicos compartilhados.

<><> Estados de exceção como forma de governo

Outro traço comum é a utilização crescente de mecanismos extraordinários de poder. No Equador, o governo declarou inicialmente conflito armado interno e, posteriormente, guerra total. Na prática, isso permitiu sucessivos estados de exceção, suspensão de garantias constitucionais, ampliação dos poderes presidenciais e fortalecimento do papel das Forças Armadas na vida civil.

Em El Salvador, o caso é ainda mais expressivo. O regime de exceção implantado em março de 2022 permanece em vigor após sucessivas renovações. Mais de 85 mil pessoas foram presas nesse período. Organizações de direitos humanos relatam constantemente milhares de detenções arbitrárias, centenas de mortes sob custódia estatal e denúncias sistemáticas de tortura. O que deveria ser uma medida emergencial converteu-se em mecanismo permanente de governo.

Na Argentina, o DNU 70/2023 e, posteriormente, a Lei Bases permitiram uma profunda reestruturação institucional por meio da concentração de poderes no Executivo e da flexibilização de diversos controles democráticos tradicionais. Em todos esses casos, a exceção jurídica deixa de ser uma resposta temporária a uma crise específica e passa a funcionar como instrumento regular de governabilidade.

<><> Criminalização dos movimentos populares

A promessa de combate ao crime é uma das principais bandeiras da nova extrema-direita latino-americana. Entretanto, em diversos países, organizações populares denunciam que os instrumentos criados para combater a criminalidade acabam sendo utilizados também contra setores organizados da sociedade.

No Equador, denúncias de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e perseguição política atingem principalmente populações indígenas, afrodescendentes e organizações populares. 

Em El Salvador, o regime de exceção tornou-se também instrumento de criminalização do protesto social. Na Argentina, movimentos sindicais e organizações populares denunciam repressão crescente, vigilância digital e perseguição de lideranças opositoras. No Paraguai, organizações camponesas apontam processos judiciais seletivos e perseguição a dirigentes rurais.

<><> O retorno radical da agenda neoliberal

No campo econômico, a convergência é igualmente visível. Na Argentina, o governo Milei promoveu privatizações, fechamento de órgãos públicos, redução de ministérios, cortes em programas sociais e desfinanciamento de áreas estratégicas como saúde, educação e habitação.

A Lei Bases e o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) representam talvez a expressão mais acabada dessa estratégia. Grandes investidores passaram a receber benefícios tributários, cambiais e regulatórios extraordinários, especialmente nos setores de mineração, energia, hidrocarbonetos e infraestrutura.

No Chile, os primeiros meses do governo Kast foram marcados por um amplo pacote de flexibilizações regulatórias, desregulamentação ambiental e incentivos ao grande empresariado. Simultaneamente, medidas econômicas contribuíram para o aumento do custo de vida. A retirada de mecanismos de estabilização dos combustíveis elevou preços de energia e transporte, enquanto o salário mínimo registrou sua primeira estagnação em um ano.

No Paraguai, a manutenção do modelo agroexportador e da concentração fundiária segue como marca central do governo. O país continua apresentando uma das distribuições de terra mais desiguais da América Latina. Em El Salvador, organizações populares denunciam processos de privatização da saúde, redução de funcionários públicos e restrição crescente ao acesso universal aos serviços públicos.

<><> Bens comuns, território e soberania econômica

Outro eixo comum é a relação privilegiada com grandes corporações transnacionais. No Equador, organizações populares afirmam que os principais beneficiários do atual contexto são justamente os grandes grupos econômicos e empresas estrangeiras.

Em El Salvador, a aprovação da Lei Geral de Mineração abriu espaço para a expansão da atividade extrativista em benefício de grandes corporações, gerando preocupações ambientais e sociais. Na Argentina, o RIGI e suas versões ampliadas oferecem condições extremamente favoráveis para a instalação de grandes projetos ligados à mineração, hidrocarbonetos, inteligência artificial, data centers e infraestrutura energética.

No Paraguai, a influência crescente de interesses empresariais externos sobre projetos estratégicos, como a Hidrovia Paraguai-Paraná e a Via Oceânica, tornou-se tema recorrente de debate político. A questão central aqui é quem controla os bens comuns, os bens da natureza da região e quais interesses são beneficiados por sua exploração.

<><> As particularidades nacionais

Apesar das convergências, é essencial ressaltar que cada uma dessas experiências possui suas especificidades.

O Equador talvez represente a transformação mais abrupta da região: de referência internacional do projeto do Bem Viver para um cenário marcado pela militarização e pelo estado de guerra permanente.

El Salvador tornou-se o principal laboratório contemporâneo de encarceramento em massa; A Argentina combina ultraliberalismo econômico com integração explícita às redes globais da extrema-direita; O Paraguai mantém uma estrutura de poder historicamente concentrada em torno do Partido Colorado e de grandes grupos econômicos; e o Chile combina agenda econômica neoliberal, conservadorismo cultural e centralidade das pautas migratórias e de segurança.

<><> E o Brasil diante desse cenário?

As transformações em curso na América Latina não dizem respeito apenas aos países onde estão ocorrendo. Elas revelam tendências que atravessam todo o continente.

Todos esses debates sobre segurança pública, privatizações, papel do Estado, integração regional, soberania nacional, presença militar estrangeira, direitos sociais e alinhamentos internacionais também fazem parte das disputas políticas brasileiras.

Observando a experiência dos nossos países vizinhos, é possível identificar diferentes projetos de desenvolvimento em disputa. De um lado, propostas que defendem a redução do papel do Estado, a ampliação dos mecanismos de mercado, a flexibilização regulatória e uma inserção internacional fortemente alinhada aos interesses dos Estados Unidos. De outro, propostas que apostam em políticas industriais, integração regional, fortalecimento dos serviços públicos, ampliação de direitos sociais e maior autonomia estratégica.

Mais do que uma sucessão de governos, o que está em disputa na América Latina é a capacidade dos países da região de decidir seus próprios caminhos em um mundo em transformação. A questão fundamental permanece aberta: quem definirá o futuro do continente: seus povos e suas instituições democráticas ou os interesses econômicos e geopolíticos que historicamente disputam o controle de seus recursos, territórios e mercados?

É essa pergunta que conecta as experiências recentes da América Latina aos grandes debates sobre democracia, desenvolvimento e soberania que continuam e continuarão atravessando toda a região no século XXI.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil de Fato

 

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