Impacto
das eleições na América do Sul: Onda azul pode ser movimento permanente,
avaliam analistas
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram o
fenômeno da eleição de presidentes de direita nas Américas, além das
respectivas consequências, tanto para as próprias nações quanto para governos
opositores.
Abelardo
de la Espriella, na Colômbia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko
Fujimori, no Peru; e Rodrigo Paz, na Bolívia. Em um espaço de menos de um
ano, quatro países da América do Sul trocaram governos de esquerda e
centro-esquerda por políticos alinhados à direita.
Esse
fenômeno, nomeado de onda azul, é o oposto ao vivido na região no início
do século XXI, quando países sul-americanos elegeram diversos líderes de
esquerda, incluindo o Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas
afirmaram que esse movimento pode não ser pendular, assim como foi em
outras oportunidades ao longo das últimas duas décadas.
Regiane
Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp), acredita que esta seja uma profunda reconfiguração
estratégica no continente. Para a analista, esse movimento é contrário à
integração regional.
"Essa
nova onda azul com certeza tensiona para o enfraquecimento dos processos de
integração, mas também para o enfraquecimento das organizações multilaterais de
maneira geral. Nós temos uma mudança ideológica que muda, de fato, a rota
estratégica da região."
Bressan
destaca que os governos que assumiram recentemente a gestão de países
sul-americanos não se caracterizam apenas por ser de direita, e muitas
vezes pregam a tensão de instituições, implicando na instabilidade
política dessas nações.
"A
única exceção da região é o Uruguai, que, como nós sabemos, é um país de
estabilidade, de instituições políticas estáveis e consolidadas, cujos
governos, independentemente da ideologia, conseguem muitas vezes governar sem
esse tensionamento."
Lier
Pires Ferreira, pesquisador do Núcleo de Estudos dos Países do BRICS da
Universidade Federal Fluminense (NuBRICS/UFF), explica que o distanciamento
ideológico marcado por embates públicos e ausência em cúpulas de grupos
multilaterais pode minar a capacidade de grupos como o Mercosul, que exigem
decisões unânimes para avançar em pautas.
"Há
uma certa pressão interna dessas lideranças da onda azul para flexibilizar as
amarras dos blocos comerciais. Na onda do pragmatismo, que está inserida nessa
dinâmica, há uma perspectiva, há um desejo de que cada país tenha liberdade
para negociar seus próprios tratados de livre comércio."
Já para
Bressan, o Mercosul é um dos poucos órgãos multilaterais
sul-americanos que pode resistir a essa onda azul, embora a especialista admita
que ele já está bastante debilitado com a mudança, capitaneada nos últimos anos
pelo presidente da
Argentina, Javier
Milei.
"A
integração regional deveria ser sempre um projeto de Estado, não apenas de
governo, para conseguir driblar essas diferenças, nuances, inclusive escapando
de ser uma plataforma política. […] O Mercosul deveria ser uma plataforma de
integração, de mais comércio."
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América Latina: o projeto conservador
Victor
Cabral, doutorando em relações internacionais pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), declarou que a América Latina foi
construída como "uma região conservadora" e que seus
habitantes e governos foram "podados desde a colonização a não ter
muita independência", em uma busca constante por freios progressistas, em
especial, ao longo das ditaduras do século passado.
"Somente
no século XXI, com a eleição de alguns governos mais progressistas,
principalmente na América do Sul, é que a gente começa a ver um momento
realmente de diferença do padrão conservador que a gente tinha até então na
nossa região. Esse movimento não existia, foi chamado de onda rosa, só que ele
teve seu fim."
No
entendimento de Cabral, há uma grande insatisfação popular nas Américas
com seus respectivos governantes. Não necessariamente o continente está se
tornando mais de direita, mas sim anti-incumbente, que busca novos nomes
para lidar com problemas antigos.
"A
gente tem graves problemas com segurança pública, com narcotráfico. As nossas
economias estão estagnadas. Já desde a pandemia, a gente não conseguiu
recuperar ainda o nosso ritmo de crescimento. A gente está com dificuldade em
voltar a combater a desigualdade socioeconômica, e isso tudo impacta o desejo
da população de querer votar, fazer diferente."
Cabral
ressalta que os governantes dessa chamada onda azul têm dificuldade de
governar e colocar as ideias de campanha em prática.
"Quando
chegam ao cotidiano, eles se dão conta da vida burocrática, da necessidade de
passar pelo Congresso, de ter que lidar com os Poderes, já que o Legislativo e
o Judiciário servem como freios e contrapesos, principalmente para os arrombos
autoritários que a gente vê na América Latina."
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EUA podem retomar prestígio nas Américas?
Bressan
explica que os Estados Unidos sempre entenderam que deveriam se fazer presentes
nas Américas. No entanto, após os ataques de 11 de Setembro, Washington
voltou sua atenção para o Oriente Médio, abrindo espaço para que a China ocupasse um
espaço que outrora era dos norte-americanos.
"Naquele
momento, o Brasil tentou exercer certa liderança na região. O próprio México
também tentou uma liderança regional, mas, ao mesmo tempo, a China se tornou
cada vez mais presente em vários âmbitos, em praticamente todos os países da
região."
A
especialista destaca que, por mais que no discurso de presidentes de direita,
como Milei, seja pregada a necessidade de se afastar de Pequim e se
reaproximar de Washington, esse realinhamento "carece de sustentação
empírica".
"A
China vem se consolidando como um grande parceiro comercial, importante fonte
de investimentos em infraestrutura em grande parte dos países sul-americanos.
Importante dizer que o Milei, ao longo da sua campanha de governo, duelou muito
com a China, dizendo que não iria mais negociar com o país e, quando ele
assumiu, se deu conta dos grandes investimentos chineses na região."
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A América Latina como laboratório da nova
extrema-direita: convergências, diferenças e desafios para projetos populares.
Por Giovani del Prete
A
ascensão recente de governos de extrema-direita em diversos países da
América Latina não
pode ser compreendida como uma simples sucessão de fenômenos nacionais
isolados. Embora cada experiência possua características próprias, determinadas
por sua história política, estrutura econômica e correlação de forças internas,
é cada vez mais evidente a existência de um conjunto de orientações comuns que
atravessam governos como os de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no
Equador, José Antonio Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Nayib Bukele em
El Salvador, além das recentes vitórias eleitorais de Abelardo de la Espriella
na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.
Trata-se
de um fenômeno regional que precisa ser analisado para além das fronteiras
nacionais. O que está em disputa não é apenas a orientação de um governo ou de
outro, mas os rumos do desenvolvimento latino-americano, o papel do Estado, a
soberania nacional, os direitos sociais e a própria capacidade dos povos da
região de construir projetos autônomos diante das grandes potências globais.
Essa
nova direita latino-americana surge em um momento de profundas transformações
da ordem internacional. Os Estados Unidos seguem sendo a principal potência
militar e financeira do planeta, mas enfrentam contradições cada vez mais
visíveis. Possuem a maior dívida pública do mundo, acumulam déficits
crescentes, enfrentam uma polarização política sem precedentes recentes e
convivem com questionamentos cada vez mais amplos sobre sua capacidade de
liderança global após décadas de guerras, sanções e intervenções militares. Ao
mesmo tempo, o mundo se torna progressivamente
multipolar,
com a ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a busca de diversos
países por maior autonomia estratégica.
É
justamente nesse contexto que ganha força uma extrema-direita latino-americana
que combina neoliberalismo radical, conservadorismo cultural, centralização do
poder político, criminalização dos movimentos sociais e forte alinhamento
geopolítico aos interesses estadunidenses.
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Um alinhamento internacional que não é casual
Talvez
o elemento mais visível que conecta esses governos seja sua política externa.
Na
Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento com Washington e Tel Aviv em
eixo estruturante da política externa. Seu governo aderiu ao Escudo das
Américas,
aprofundou mecanismos de cooperação militar, aproximou-se da OTAN como parceiro
global e passou a acompanhar quase integralmente as posições dos Estados Unidos
e de Israel em organismos multilaterais.
No
Paraguai, Santiago Peña manteve o histórico alinhamento diplomático com Estados
Unidos e Israel, reforçando laços com o governo Netanyahu, apoiando posições
convergentes na ONU e ampliando acordos de segurança que permitem maior
presença militar estadunidense no país.
No
Equador, organizações populares denunciam que a soberania nacional vem sendo
progressivamente subordinada aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos,
especialmente após a declaração do conflito armado interno e a ampliação da
cooperação militar com Washington.
Em
todos os casos, a política externa deixa de ser concebida como instrumento de
defesa dos interesses nacionais e passa a ser orientada por uma lógica de
alinhamento estratégico.
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O Escudo das Américas e a reconstrução da tutela militar sobre o continente
Uma das
novidades mais importantes do atual ciclo político latino-americano é a criação
do chamado Escudo das Américas.
Apresentado
oficialmente como uma iniciativa de combate ao narcotráfico, ao terrorismo e ao
crime organizado transnacional, o projeto estabelece mecanismos permanentes de
coordenação militar, compartilhamento de inteligência e integração operacional
entre os Estados Unidos e governos aliados da região.
Se
durante a Guerra Fria o Plano Condor serviu como instrumento
de coordenação repressiva entre ditaduras militares latino-americanas sob
tutela de Washington, o Escudo das Américas representa uma tentativa
contemporânea de reconstrução da influência estratégica norte-americana sobre o
continente por meio de governos formalmente eleitos, mas alinhados a uma mesma
agenda geopolítica.
Existe
uma semelhança estrutural entre o Plano Condor e o Escudo das Américas: ambos
os projetos partem da ideia de que a segurança hemisférica deve ser organizada
sob liderança dos Estados Unidos.
A
adesão de governos como os de Milei, Noboa, Bukele e Peña revela que a
extrema-direita latino-americana não atua apenas como fenômeno nacional. Ela
também opera como parte de uma rede internacional articulada politicamente em
torno de fóruns conservadores, cooperação militar, alinhamentos diplomáticos e
interesses econômicos compartilhados.
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Estados de exceção como forma de governo
Outro
traço comum é a utilização crescente de mecanismos extraordinários de poder. No
Equador, o governo declarou inicialmente conflito armado interno e,
posteriormente, guerra total. Na prática, isso permitiu sucessivos estados de
exceção, suspensão de garantias constitucionais, ampliação dos poderes
presidenciais e fortalecimento do papel das Forças Armadas na vida civil.
Em El
Salvador, o caso é ainda mais expressivo. O regime de exceção implantado em
março de 2022 permanece em vigor após sucessivas
renovações.
Mais de 85 mil pessoas foram presas nesse período. Organizações de direitos
humanos relatam constantemente milhares de detenções arbitrárias, centenas de
mortes sob custódia estatal e denúncias sistemáticas de tortura. O que deveria
ser uma medida emergencial converteu-se em mecanismo permanente de governo.
Na
Argentina, o DNU 70/2023 e, posteriormente, a Lei Bases permitiram uma profunda
reestruturação institucional por meio da concentração de poderes no Executivo e
da flexibilização de diversos controles democráticos tradicionais. Em todos
esses casos, a exceção jurídica deixa de ser uma resposta temporária a uma
crise específica e passa a funcionar como instrumento regular de
governabilidade.
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Criminalização dos movimentos populares
A
promessa de combate ao crime é uma das principais bandeiras da nova
extrema-direita latino-americana. Entretanto, em diversos países, organizações
populares denunciam que os instrumentos criados para combater a criminalidade
acabam sendo utilizados também contra setores organizados da sociedade.
No
Equador, denúncias de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e
perseguição política atingem principalmente populações indígenas,
afrodescendentes e organizações populares.
Em El
Salvador, o regime de exceção tornou-se também instrumento de criminalização do
protesto social. Na Argentina, movimentos sindicais e organizações populares
denunciam repressão crescente, vigilância digital e perseguição de lideranças
opositoras. No Paraguai, organizações camponesas apontam processos judiciais
seletivos e perseguição a dirigentes rurais.
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O retorno radical da agenda neoliberal
No
campo econômico, a convergência é igualmente visível. Na Argentina, o governo
Milei promoveu privatizações, fechamento de órgãos públicos, redução de
ministérios, cortes em programas sociais e desfinanciamento de áreas
estratégicas como saúde, educação e habitação.
A Lei
Bases e o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) representam talvez
a expressão mais acabada dessa estratégia. Grandes investidores passaram a
receber benefícios tributários, cambiais e regulatórios extraordinários,
especialmente nos setores de mineração, energia, hidrocarbonetos e
infraestrutura.
No Chile, os primeiros meses
do governo Kast foram marcados por um amplo pacote de flexibilizações
regulatórias, desregulamentação ambiental e incentivos ao grande empresariado.
Simultaneamente, medidas econômicas contribuíram para o aumento do custo de
vida. A retirada de mecanismos de estabilização dos combustíveis elevou preços
de energia e transporte, enquanto o salário mínimo registrou sua primeira
estagnação em um ano.
No
Paraguai, a manutenção do modelo agroexportador e da concentração fundiária
segue como marca central do governo. O país continua apresentando uma das
distribuições de terra mais desiguais da América Latina. Em El Salvador,
organizações populares denunciam processos de privatização da saúde, redução de
funcionários públicos e restrição crescente ao acesso universal aos serviços
públicos.
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Bens comuns, território e soberania econômica
Outro
eixo comum é a relação privilegiada com grandes corporações transnacionais. No
Equador, organizações populares afirmam que os principais beneficiários do
atual contexto são justamente os grandes grupos econômicos e empresas
estrangeiras.
Em El
Salvador, a aprovação da Lei Geral de Mineração abriu espaço para a expansão da
atividade extrativista em benefício de grandes corporações, gerando
preocupações ambientais e sociais. Na Argentina, o RIGI e suas versões
ampliadas oferecem condições extremamente favoráveis para a instalação de
grandes projetos ligados à mineração, hidrocarbonetos, inteligência artificial, data centers
e infraestrutura energética.
No
Paraguai, a influência crescente de interesses empresariais externos sobre
projetos estratégicos, como a Hidrovia Paraguai-Paraná e a Via Oceânica,
tornou-se tema recorrente de debate político. A questão central aqui é quem
controla os bens comuns, os bens da natureza da região e quais interesses são
beneficiados por sua exploração.
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As particularidades nacionais
Apesar
das convergências, é essencial ressaltar que cada uma dessas experiências
possui suas especificidades.
O
Equador talvez represente a transformação mais abrupta da região: de referência
internacional do projeto do Bem Viver para um cenário marcado pela
militarização e pelo estado de guerra permanente.
El
Salvador tornou-se o principal laboratório contemporâneo de encarceramento em
massa; A Argentina combina ultraliberalismo econômico com integração explícita
às redes globais da extrema-direita; O Paraguai mantém uma estrutura de poder
historicamente concentrada em torno do Partido Colorado e de grandes grupos
econômicos; e o Chile combina agenda econômica neoliberal, conservadorismo
cultural e centralidade das pautas migratórias e de segurança.
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E o Brasil diante desse cenário?
As
transformações em curso na América Latina não dizem respeito apenas aos países
onde estão ocorrendo. Elas revelam tendências que atravessam todo o continente.
Todos
esses debates sobre segurança pública, privatizações, papel do Estado,
integração regional, soberania nacional, presença militar estrangeira, direitos
sociais e alinhamentos internacionais também fazem parte das disputas políticas
brasileiras.
Observando
a experiência dos nossos países vizinhos, é possível identificar diferentes
projetos de desenvolvimento em disputa. De um lado, propostas que defendem a
redução do papel do Estado, a ampliação dos mecanismos de mercado, a
flexibilização regulatória e uma inserção internacional fortemente alinhada aos
interesses dos Estados Unidos. De outro, propostas que apostam em políticas
industriais, integração regional, fortalecimento dos serviços públicos,
ampliação de direitos sociais e maior autonomia estratégica.
Mais do
que uma sucessão de governos, o que está em disputa na América Latina é a
capacidade dos países da região de decidir seus próprios caminhos em um mundo
em transformação. A questão fundamental permanece aberta: quem definirá o
futuro do continente: seus povos e suas instituições democráticas ou os
interesses econômicos e geopolíticos que historicamente disputam o controle de
seus recursos, territórios e mercados?
É essa
pergunta que conecta as experiências recentes da América Latina aos grandes
debates sobre democracia, desenvolvimento e soberania que continuam e
continuarão atravessando toda a região no século XXI.
Fonte:
Sputnik Brasil/Brasil de Fato

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