Para
não se render à cibermediocridade
A
palavra medíocre carrega hoje um peso que sua origem latina jamais previu.
Mediocris descrevia simplesmente quem estava no meio, equilibrado entre
extremos. Para Horácio, a aurea mediocritas, a mediocridade dourada, era uma
aspiração: a virtude de quem recusa tanto a miséria quanto o excesso. Estar no
meio era, para os antigos, uma forma de sabedoria, não de vergonha.
A
virada começa com a modernidade. Quando o Romantismo eleva o gênio individual
como ideal supremo, ocupar o meio deixa de ser equilíbrio e passa a ser
insuficiência. Ser médio é não ser extraordinário. Numa cultura que
progressivamente confunde valor com distinção, a mediocridade perde sua
neutralidade descritiva e se torna acusação: o medíocre não falhou
tecnicamente, mas recusou o esforço de ultrapassar o suficiente.
É sobre
essa palavra já carregada que a inteligência artificial generativa opera uma
terceira alteração, focada na forma que lidamos com o próprio algoritmo.
Proponho chamar essa terceira transformação semântica de cibermediocridade. A
cibermediocridade sendo essa terceira figura: a submissão ao output sem
questionamento, permanecendo em uma média gerada com uma aceitação não
irrestrita. Mais precisa e mais perturbadora do que seus predecessores
semânticos, mas no momento em que publicamos sem examinar o que recebemos e sem
assumir o que entregamos, abdicamos de algo que não é o talento. É a
responsabilidade em prol da comodidade.
A
inteligência artificial generativa não criou este problema. Ela o tornou
visível e o acelerou. A tendência de publicar sem examinar existia antes dos
modelos de linguagem. A literatura científica oferece um exemplo eloquente
desse problema. Para quem duvida basta buscar o número de artigos científicos
que são retratados, só em 2023 mais de 10 mil artigos foram retratados segundo
dados da Revista Pesquisa FAPESP. Com a utilização cada vez maior da
Inteligência artificial o que muda é a escala, a velocidade, e um elemento
novo: a aparência de competência com que textos são gerado.
O
output gerado por IA raramente parece hesitante. Ele chega estruturado,
fluente, com o ritmo e a confiança de quem domina o assunto. E é precisamente
essa fluência que seduz. O cérebro humano, diante de uma fonte que soa como
especialista, tende a reduzir o escrutínio. A psicologia cognitiva mostra que
tendemos a confiar mais em informações processadas com facilidade. Daniel
Kahneman chamou esse fenômeno de facilidade cognitiva (cognitive ease): quando
algo parece claro, fluente e familiar, nosso cérebro tende a examiná-lo menos
criticamente.
Em
contextos nos quais a fluência exigia conhecimento especializado, confiar em
quem parecia competente costumava ser uma estratégia adaptativa. Contudo, em um
mundo onde modelos de linguagem podem gerar prosa de aparência impecável, esse
atalho se torna uma armadilha sedutora. Será que deixamos de agir sobre o que
recebemos e passamos apenas a reagir a ele?
Quem
reage ao output sem interrogá-lo, aceitando a conclusão da máquina apenas
porque ela soa como a de um especialista, já iniciou esse deslocamento. A
fluência da máquina desarmou o impulso de questionar antes que ele pudesse se
formar. E no momento em que publica sem examinar o que recebeu e sem assumir o
que entrega, abdica de algo que não é o talento. É o julgamento. E é
precisamente aí que o problema deixa de ser técnico e se torna ético.
Esse
risco não permanece apenas no plano psicológico. Quando o julgamento é
terceirizado em ambientes institucionais, ele produz consequências concretas. O
caso mais revelador não veio de um usuário descuidado, mas de uma das maiores
consultorias do mundo. Em 2024, o governo australiano contratou uma grande
consultoria internacional para realizar uma revisão independente de seu sistema
de conformidade de bem-estar social. O relatório entregue continha muitas
páginas com informações aparentemente relevantes e uma aparência de rigor que
se esperava. Só que este estava repleto de referências a fontes e especialistas
que não existem. A empresa havia usado inteligência artificial para redigir
partes do documento, o que em si não configura o problema que discutimos aqui,
mas sem verificar o que a máquina produziu exemplificamos a cibermediocridade
em ação. A assinatura da consultoria estava na capa. O julgamento que essa
assinatura deveria representar não estava nas páginas. O governo australiano
recebeu de volta parte do valor pago. A reputação construída em décadas não foi
reembolsada junto.
O
contraponto existe, e é igualmente público. O artista turco-americano Refik
Anadol cria instalações de grande escala usando sistemas de aprendizado de
máquina treinados em vastos acervos culturais. O processo é profundamente
distribuído, atravessando sistemas algorítmicos, acervos de dados e redes de
colaboradores. Mas Anadol não desaparece atrás da tecnologia. Ele define os
parâmetros, seleciona o material, molda a experiência e assume publicamente a
responsabilidade por cada camada do trabalho. Quando sua instalação
Unsupervised foi exibida no MoMA em 2022, ele falou abertamente sobre cada
decisão, dos dados às escolhas estéticas. O processo era híbrido, mas a autoria
permanecia singular. A singularidade da autoria de Anadol está na
responsabilidade, que permaneceu inteiramente sua independentemente de quantas
camadas tecnológicas participaram do processo. A diferença entre os dois não é
tecnológica. É a presença de quem assina.
Há um
equívoco confortável que a cibermediocridade alimenta: o de que, quando a
produção é distribuída entre humano e máquina, a responsabilidade pelo
resultado também se distribui. Como se o algoritmo fosse um coautor que absorve
parte do ônus do que é publicado.
A
máquina não responde por nada. Ela não tem reputação a perder, não é chamada a
prestar contas, não sofre consequências quando o output está errado ou causa
dano. Quem assina é o humano. E assinar não é um gesto burocrático: é a
declaração pública de que aquele conteúdo passou pelo julgamento de alguém que
se responsabiliza por ele.
É por
isso que a cibermediocridade é um problema ético antes de ser técnico ou
estético. Não se trata de saber se o texto ficou bom ou se a imagem é bonita.
Trata-se de saber se quem assinou estava presente no processo de decidir o que
aquilo significa e pelo que responde. A qualidade do output não absolve a
ausência de julgamento. Um texto impecável publicado sem exame é tão
problemático quanto um texto ruim, porque em ambos os casos o que falta é o
mesmo: alguém que responda por ele.
Esta é
a reconfiguração que a cibermediocridade opera na autoria: não a elimina
formalmente, mas a esvazia por dentro, deixando o nome intacto onde a presença
deveria estar. Em termos precisos, a cibermediocridade é a condição em que a
geração escala mais rápido do que o julgamento: a produção se multiplica
enquanto a capacidade de examinar, defender e responder pelo que é produzido
permanece estagnada ou recua. É um problema institucional antes de ser
individual, porque prospera em ambientes que recompensam volume e punem a
lentidão do exame.
Seria
um erro ler o argumento até aqui como uma crítica à inteligência artificial.
Não é. A cibermediocridade não é um efeito colateral da tecnologia: é uma
escolha humana diante dela. E como toda escolha, admite alternativa.
Quem
examina o output antes de publicar, quem devolve à máquina o que não serve,
quem decide o que fica e o que sai, esse usa inteligência artificial de forma
autoral. Porque autor, aqui, significa uma coisa precisa: quem assume as
consequências do que assina.
É nesse
sentido que a cibermediocridade revela um paradoxo do nosso tempo. Nunca foi
tão fácil produzir, e raramente foi tão tentador fazê-lo sem pensar. O que se
torna escasso é a disposição de responder pelo que se produz. Numa cultura que
recompensa quem produz mais e aparece primeiro, o gesto mais raro e necessário
é também o mais radical: o silêncio do exame antes da assinatura. Estar
presente no que se assina não é um ato de produtividade; é um ato de dignidade.
É a nossa última forma de garantir que, em um mundo saturado por máquinas podem
produzir respostas, apenas pessoas podem responder por elas.
Fonte:
Por Helio Miranda Costa Junior, em Outras Palavras

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