sexta-feira, 17 de julho de 2026

Como a imprensa internacional analisou tarifa de 25% dos EUA contra o Brasil

A imprensa internacional destacou a decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, anunciada na quarta-feira (15/07) após o fim da investigação sobre práticas comerciais conduzida pelo Escritório do Representante Comercial americano (USTR, na sigla em inglês).

A decisão foi chancelada pelo presidente americano, Donald Trump, e entrará em vigor em 22 de julho.

Ao noticiar a decisão, o jornal britânico Financial Times afirmou que as tarifas foram anunciadas diante de "uma crescente ruptura nas relações bilaterais" antes das próximas eleições brasileiras.

Segundo a reportagem, o USTR citou "práticas comerciais desleais em áreas como pagamentos eletrônicos, mercado de etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção e proteção ambiental" para justificar as tarifas.

Uma fonte do governo dos EUA afirmou ainda ao FT que a Casa Branca vinha tentando negociar com o governo brasileiro "há mais de um ano".

Ainda segundo o jornal, num momento em que o presidente Donald Trump busca reafirmar a influência dos EUA na América Latina, "o governo de esquerda do Brasil vê as queixas como motivadas por questões políticas, e não comerciais".

"A taxa de importação é a mais recente de uma série de medidas dos EUA contra o Brasil que têm alimentado as tensões diplomáticas entre as duas maiores democracias das Américas", diz a reportagem.

O FT afirma ainda que apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) temem que o endurecimento da posição dos EUA em relação ao Brasil — que incluiu também a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas em junho — possa escalar para interferência nas eleições de outubro.

O jornal americano The New York Times também ressalta o impacto que a nova tarifa pode ter na disputa presidencial: "É provável que a nova tarifa se torne uma questão política no Brasil antes das eleições presidenciais de outubro".

A reportagem destaca a posição do governo Lula, que acusa o seu adversário, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de ter advogado em favor da taxação em encontros na Casa Branca.

Flávio se encontrou com Trump dias antes de o USTR recomendar a aplicação da tarifa. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nega as acusações e afirma ter pedido a Washington que suspendesse a imposição de tarifas.

"Enquanto isso, as tensões diplomáticas com o Trump contribuíram para aumentar a popularidade de Lula. O líder brasileiro classificou as medidas econômicas como politicamente motivadas, acusando Trump de ameaçar a soberania do país", diz o NYT.

Em reportagem em seu site, a rede americana CNN detalhou o anúncio americano sobre a tarifa.

"O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, anunciou as medidas na noite de quarta-feira em um comunicado, afirmando que a investigação concluiu que as políticas brasileiras prejudicam os interesses dos americanos com práticas relacionadas ao comércio digital, tarifas preferenciais injustas, acesso ao mercado de etanol e outras áreas", diz a matéria.

Algumas mercadorias que não são produzidas nos EUA e que poderiam interromper as cadeias de suprimentos estão isentas, explica a reportagem, citando o comunicado do USTR. Entre as exceções estão café, carne bovina, laranjas e suco de laranja, certos produtos de etanol, além de peças e componentes aeroespaciais.

Após o anúncio americano, o governo brasileiro disse que o dia 15 de julho "passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável".

Em nota, o Brasil afirmou ainda que iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em sua própria reportagem sobre o tema, o jornal britânico The Guardian detalhou ainda que a tarifa será imposta com base na seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite aos EUA iniciar uma investigação sobre as práticas comerciais de outros países.

"Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA decidiu contra muitas das tarifas impostas por Trump sob uma lei diferente, a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) de 1977. O tribunal considerou que ele extrapolou sua autoridade sob essa lei ao impor tarifas abrangentes aos parceiros comerciais dos EUA, incluindo o Brasil", diz o texto.

Anteriormente, Trump havia imposto, com base nessa lei, uma tarifa de 50% sobre o Brasil em protesto contra o processo movido pelo país contra Jair Bolsonaro por tentar reverter sua derrota nas eleições de 2022, detalhou ainda o Guardian, que afirma que o "relacionamento de Trump com Lula pareceu melhorar em maio, quando o presidente brasileiro visitou a Casa Branca".

<><> 'Riscos altos'

Para a agência de notícias Bloomberg, "os riscos são altos para ambos os países".

"Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e uma das poucas grandes economias com as quais o país apresenta déficit comercial. O Brasil importou mais de US$ 45 bilhões em produtos americanos em 2025, um aumento de 11% em relação ao ano anterior, enquanto as exportações caíram quase 7%, com o petróleo bruto representando 12,5% das exportações", diz a reportagem.

A matéria afirma ainda que apesar da escalada da disputa, ambos os governos ainda tentam evitar um conflito comercial mais amplo.

"Greer se reuniu repetidamente com o ministro do Comércio do Brasil, Márcio Elias, nos últimos meses, em busca de uma solução. O governo Lula pretende continuar negociando até o último momento possível, mas descartou concessões que considera politicamente ou juridicamente inaceitáveis, incluindo mudanças no sistema de pagamentos Pix, segundo uma pessoa familiarizada com as negociações", diz a matéria.

•        O ataque de ministro de Trump após tarifaço

Ao anunciar a decisão de aplicar tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros exportados aos EUA, o secretário de Estado americano Marco Rubio afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) "priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro".

Em suas redes sociais, o secretário que faz parte da ala ideológica do governo Trump e é conhecido por sua política linha-dura contra países na América Latina, disse que a taxação é o preço que o Brasil paga pelo comportamento de Lula.

Ainda segundo Rubio, o presidente e seu governo "não negociaram com os EUA de boa fé".

"Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu no X

"Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso."

Autoridades ligadas ao governo brasileiro afirmaram à BBC News Brasil em caráter reservado, porém, que os americanos nunca estiveram de fato dispostos a ouvir os argumentos brasileiros em relação à acusações feitas pelo USTR.

Segundo uma fonte no Palácio do Planalto, a motivação para as tarifas seria política e os EUA não estariam abertos para uma negociação baseada em elementos comerciais ponderados.

A aplicação das tarifas foi anunciada por Rubio e pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) após fim da investigação sobre práticas comerciais brasileiras consideradas injustas conduzida pelo órgão.

A decisão é chancelada pelo presidente americano, Donald Trump, e entrará em vigor em 22 de julho.

A tarifa foi justificada alegando práticas como favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à corrupção e desmatamento.

Segundo o representante americano de comércio, Jamieson Greer, a medida busca proteger os interesses econômicos dos EUA e é necessária "para enfrentar práticas comerciais desleais e garantir que trabalhadores e empresas americanas possam competir em condições justas."

Ele afirmou ainda que as negociações entre os dois países ao longo do último ano não resolveram as divergências, mas que Washington continua aberto a novas conversas com Brasília.

A lista dos produtos alvo das tarifas é extensa e inclui etanol, máquinas agrícolas, roupas e calçados e material elétrico. Já itens como café, laranja, suco de laranja e carne bovina, por exemplo, ficaram fora da cobrança adicional.

Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada, disse que o dia 15 de julho "passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável".

Ainda de acordo com a nota, o Brasil iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional e levará o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

O anúncio já era esperado por diplomatas ouvidos em caráter reservado pela BBC News Brasil e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa.

Em entrevista concedida há duas semanas à BBC News Brasil, o ministro afirmou que o governo brasileiro ainda tentava negociar um acordo de última hora com Washington, mas já admitia a possibilidade de um desfecho desfavorável para o país.

O novo tarifaço, o segundo em um ano, é resultado de uma investigação aberta em julho do ano passado, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974.

O mecanismo permite que o governo americano investigue práticas comerciais estrangeiras que considere injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos dos Estados Unidos e, ao fim do processo, adote medidas de retaliação como a aplicação de tarifas de importação.

No caso brasileiro, a investigação teve como principais alvos:

- supostas irregularidades relativas ao funcionamento do Pix;

- decisões judiciais contra plataformas digitais norte-americanas;

- tarifas concedidas pelo Brasil a produtos do México e da Índia que prejudicariam os EUA e;

- supostas falhas no combate à corrupção, à pirataria e ao desmatamento ilegal.

<><> Reação de Flávio Bolsonaro

O senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) republicou a postagem de Marco Rubio sobre Lula e a taxação e disse que o petista "não tem mais condições de ser o presidente do Brasil".

"O Biden brasileiro está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nossa nação. Quem olha pro Lula não enxerga futuro. Enxerga passado, atraso, incerteza, desconfiança, corrupção, incompetência, vingança… Chega!", escreveu no X, em referência ao ex-presidente americano Joe Biden.

Lula acusa o seu adversário de ter advogado em favor da taxação contra o Brasil em encontros na Casa Branca.

Flávio se encontrou com Trump dias antes de o USTR recomendar a aplicação da tarifa.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro nega as acusações e afirma ter pedido a Washington que suspendesse a imposição.

<><> Quem é Marco Rubio?

O atual secretário de Estado é um dos principais oficiais ligados à Casa Branca à frente das negociações comerciais com o Brasil, além de Jamieson Greer e outros técnicos do USTR.

No ano passado, quando Trump impos uma sobretaxa de 50% sobre o Brasil em protesto contra o processo movido pelo país contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Rubio foi oficialmente nomeado pelo presidente americano para lidar com a questão.

A taxação anterior foi revogada em novembro, após negociações entre os governos.

Além do tarifaço, Rubio liderou sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — a quem ele acusou de fazer uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro no processo que condenou o ex-presidente a golpe de Estado.

Posteriormente, Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, foram retirados da lista de sancionados.

Rubio também esteve à frente da revogação de vistos de autoridades brasileiras em represália ao Programa Mais Médicos, como o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

O secretário de Estado faz parte da ala ideológica do governo Trump e é conhecido por sua política linha-dura contra países como Cuba, Venezuela e China — este último, principal parceiro comercial do Brasil.

A relação entre os dois países, inclusive, já foi criticada por Rubio quando era senador. Na época, ele também já fazia críticas diretas ao presidente Lula.

Em uma postagem em abril de 2023, ele sugeriu que o presidente brasileiro seria um "radical antiamericano" devido a uma visita do presidente brasileiro à empresa de tecnologia chinesa Huawei.

Ele ainda questionou se Lula é um "aliado da democracia" após viagem à China. "Lula está pensando em si mesmo e no Brasil, mesmo que isso signifique se curvar ao regime genocida da China", disse em publicação no X.

Em setembro 2024, Rubio voltou a citar o governo brasileiro por causa da suspensão do X no país.

O bloqueio foi determinado pelo ministro Alexandre de Moraes após Elon Musk, dono do X, ter descumprido uma decisão judicial e durou cerca de 40 dias.

Rubio disse que a medida, sob o governo Lula, "levantava sérias preocupações sobre a liberdade de expressão" no país.

O secretário de Estado americano também fez reiteradas críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, chamando-o de "violador de direitos humanos".

Moraes foi o relator da ação que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por golpe de Estado.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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