sexta-feira, 17 de julho de 2026

O crime contra a humanidade em Cuba e o necessário ódio aos indiferentes

Cuba é um dos exemplos mais duradouros de como o irreversível processo de declínio da hegemonia global do império estadunidense não é apenas uma questão econômica ou tecnológica. Semelhante reducionismo impediria calibrar em toda sua magnitude as múltiplas dimensões deste lento, mas inexorável ocaso. É também uma questão militar: a impossibilidade de ganhar guerras, continuamente ressaltada pelos analistas deste país e ratificada nestes dias pelo revés experimentado por Washington (e seus cupinchas em Tel-Aviv) na guerra contra o Irã.

É também política, porque uma das consequências da ditadura do capital que subjaz à lógica do império foi a crescente insatisfação com a democracia burguesa, cuja prática só serviu para enriquecer exponencialmente os ricos e manter na pobreza as grandes maiorias da população dos Estados Unidos, cada vez mais inclinada a buscar opções progressistas ou de esquerda, as mesmas que foram fulminadas como “comunistas” por Donald Trump no recente 4 de julho.

E é também moral porque as sociedades, não só a estadunidense como em geral as do Ocidente coletivo, parecem ter sido anestesiadas para não ter compaixão alguma pelas vítimas da brutalidade desencadeada pelo genocídio, a limpeza étnica e o roubo de territórios alheios praticados pelo regime neofascista israelense, com seus indiscriminados ataques contra populações civis indefesas; ou pelos brutais ataques que os Estados Unidos e Israel lançaram contra a população e o seletivo aniquilamento da direção religiosa e política iraniana; ou pelo bombardeio norte-americano contra uma Caracas indefesa e o posterior sequestro do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores.

Fatos aberrantes, próprios de figuras monstruosas como Adolf Hitler, que em seu tempo suscitavam uma condenação quase universal e que hoje são “normalizados” e aceitos com indiferença pela população por obra da canalha midiática, o reinado dos algoritmos e os dispositivos de controle cognitivo e volitivo que as classes dominantes têm a sua disposição para submeter os povos e consolidar sua supremacia.

As formas do genocídio foram mudando com o passar do tempo. A barbárie nazista que produziu o Holocausto dos judeus na Europa, ou o atual massacre da população palestina, especialmente de mulheres e crianças, convivem hoje com uma forma mais dissimulada, mas não menos criminosa de genocídio: a política de “sanções” praticada pelos Estados Unidos e seus indignos peões europeus contra um sem-número de países.

Em datas recentes, uma conferência do professor da Universidade de Chicago, John Mearsheimer citou um estudo publicado na prestigiosa revista britânica The Lancet em que eram divulgados os resultados de uma investigação sobre as consequências médico-sociais das medidas coercitivas unilaterais aplicadas sobre 152 países entre 1971 e 2021.

Os autores do mencionado estudo, Francisco Rodríguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot sintetizaram suas descobertas dizendo que “as sanções unilaterais estão associadas a uma taxa de mortes anual de 564.258 pessoas”. Ou seja, cerca de 28 milhões de pessoas morreram devido às “sanções” econômicas aplicadas por Washington ao longo de meio século – pouco mais de um terço das vítimas ocasionadas pela Segunda Guerra Mundial. Em consequência, estamos em presença de um genocídio lento, invisibilizado, inclemente e que não provoca repúdio senão em uma pequena fração da opinião pública mundial. É por isso que o acadêmico de Chicago fala de um “homicídio massivo” produzido por essas políticas.

Entre os muitos países que as sofreram estão a Venezuela, sobretudo a partir de 2015, e Cuba, ininterruptamente desde 1960, quando a administração Eisenhower começou a impor as primeiras sanções contra a Revolução Cubana. A criminosa intensificação do bloqueio decretada por Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, levou as coisas a um extremo sem precedentes. Em vão a esmagadora maioria dos países membros da ONU vêm solicitando por décadas ao governo dos Estados Unidos pôr fim ao bloqueio (que os publicistas do império tentam suavizar falando de “embargo” e não de bloqueio).

O império, cuja brutalidade cresce à medida que avança seu declínio, fez caso omisso destas demandas e continuou infringindo um “castigo coletivo” ao povo cubano, provocando mortes e terríveis padecimentos, sobretudo àqueles que necessitam de atendimento médico. Isso além do castigo que significa a política do bloqueio no que se refere ao abastecimento de petróleo para a vida cotidiana de toda a população: longuíssimos cortes de energia elétrica, obstáculos à mobilidade, desabastecimento de bens essenciais, paralisia nas instituições, desde escolas e universidades até hospitais públicos.

No estritamente médico, é preciso lembrar que Cuba, que se achava na frente dos países com menor taxa de mortalidade infantil no mundo, experimentou um aumento de 148% entre 2018 e 2025, passando de 4.0 por mil nascidos vivos a 9.9, segundo um estudo divulgado pelo Center for Economic and Policy Research de Washington. Este salto significa que aproximadamente 1.800 crianças cubanas morreram devido ao bloqueio, cifra que se altera quando se lhe acrescentam as mortes ocasionadas em pacientes que não podem ter acesso a seus medicamentos oncológicos ou a drogas para o tratamento da diabetes e muitas outras enfermidades crônicas.

Em suma, a política de Washington é um crime de guerra e seus responsáveis deveriam ser processados como se fez nos processos de Nuremberg, depois da derrota do nazismo, com os hierarcas do regime responsáveis pelo genocídio dos judeus. Hoje temos outro em curso — em Gaza, Cisjordânia, sul do Líbano — que, no entanto, não provoca a indignação e o repúdio suscitado naquele momento e, para cúmulo, encontramos uma sociedade anestesiada em sua capacidade de pensar criticamente e de reagir contra este verdadeiro assassinato em massa que a política de sanções estadunidenses provoca em Cuba, na Venezuela e em numerosos países de todo o mundo.

Esta tácita naturalização do bloqueio é um dos grandes triunfos do “soft power” imperial. Daí a urgência de travar a “guerra de pensamento”, como dizia Martí, e que urgia que a ganhássemos “a força de pensamento”. Isto implica em combater com todas as nossas forças o senso comum dominante e os atores que, como Pôncio Pilatos, lavam as mãos e ignoram esta tragédia, os apáticos e os que cultuam a despolitização e a recuo para os interesses egoístas.

Em sua putrefação, o império envileceu as sociedades do Ocidente coletivo, fomentando o egoísmo e tornando-as insensíveis à dor de seus semelhantes.

Vêm ao caso as palavras que um jovem Gramsci inclui em seu artigo intitulado “Ódio aos indiferentes”. Ali dizia, entre outras coisas, que “a indiferença é o peso morto da história. A indiferença opera potentemente na história. Opera passivamente, mas opera. É a fatalidade; aquilo com que não se pode contar.”

Ou, acrescentamos nós, o que se pode, mas não se quer contar, porque o espaço midiático está dominado pelo inimigo, empenhado em encobrir os crimes do sistema. E continuava Gramsci dizendo que “viver quer dizer tomar partido. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. A indiferença e a abulia são parasitismo, são covardia, não vida. Por isso, ódio aos indiferentes.” Gramsci retoma nesse pequeno artigo o legado humanista que Dante Alighieri deixara estampado na Divina Comédia quando sentenciou que o “círculo mais horrendo do inferno Deus reservou para aqueles que em tempos de crise moral optaram pela neutralidade”.

¨      Democratas chamam Cuba de ‘Gaza silenciosa’ ao criticarem políticas de Trump

Após uma visita a Cuba nos últimos dias, quatro membros democratas do Congresso norte-americano criticaram na segunda-feira (13/07) o embargo energético imposto pelo presidente Donald Trump na ilha caribenha, denunciando que as restrições do republicano estão transformando o país em uma “Gaza silenciosa”.

Os representantes Mark Pocan, de Wisconsin, Teresa Leger-Fernández, do Novo México, Maxine Dexter, do Oregon, e Delia Catalina Ramrez, de Illinois, desembarcaram em Havana na quinta-feira (09/07) e permaneceram até segunda-feira, cumprindo uma agenda que incluiu reuniões com ministros, médicos e empresários, além do presidente Miguel Díaz-Canel. Esta é a segunda viagem que os delegados fazem em três meses.

Em entrevista à imprensa, os políticos norte-americanos concluíram que não há diálogos entre Washington e Havana que possam resolver a situação humanitária do país caribenho. “Acho que (o Secretário de Estado) Marco Rubio está tornando isso pessoal e não profissional”, disse Pocan, ao ser questionado sobre o progresso no diálogo bilateral para desbloquear o cerco energético.

Ainda segundo o deputado, alguém com quem ele se comunicou em Cuba teria descrito a situação atual como “Gaza silenciosa”. “Pode não haver bombardeios, mas certamente há condições que impedem as pessoas de seguir suas rotinas. Eles não podem ir trabalhar, não conseguem conservar seus alimentos, não podem acessar suprimentos médicos ou viver como antes. Achei uma descrição muito precisa”, endossou.

Por sua vez, Leger-Fernández repudiou as condições de Cuba ao afirmar que “não faz sentido algum forçar um país a sofrer”. Os deputados Dexter, que é também médico, e Ramírez disseram que buscarão promover emendas no Congresso para mitigar o impacto na saúde e evitar novas sanções de Trump sem autorização legislativa, como as operações armadas que ele repetidamente ameaçou implementar.

Nos últimos dias, os Estados Unidos intensificaram as hostilidades contra o povo cubano, suas condições de vida e fontes de subsistência. O ministro das Relações Exteriores do país, Bruno Rodríguez Parrilla, denunciou as recentes sanções impostas pela Casa Branca contra 10 entidades estatais na ilha.

O recente pacote de limitações estende as sanções ao Ministério do Turismo de Cuba, que é visto como um setor essencial e estratégico para a economia da ilha, assim como às empresas Enetec, S.A., Coreydan S.A. e Grupo Empresarial del Comercio Exterior (Gecomex), que são responsáveis pela gestão das operações de comércio internacional, de importação e exportação, além do comércio de combustíveis.

¨      Cuba libera mais terras para enfrentar falta de alimentos e recuperar produção agrícola

O governo cubano anunciou um conjunto de modificações voltadas a acelerar a entrega de terras em usufruto e fortalecer o papel das cooperativas na gestão agrícola, como parte das Transformações Econômicas e Sociais incluídas no Programa Econômico e Social de Governo para 2026.

Durante um encontro com cooperativistas e produtores de municípios do oeste de Havana, o vice-primeiro-ministro Jorge Luis Tapia Fonseca explicou que essas medidas buscam aumentar a produção de alimentos por meio da incorporação de novos produtores e de um maior aproveitamento das terras ociosas ou subutilizadas.

Entre as mudanças mais relevantes está a simplificação do processo de entrega de terras. A partir de agora, as empresas do Sistema de Agricultura poderão concedê-las diretamente aos solicitantes, em coordenação com as cooperativas, desde que estes apresentem um projeto produtivo que defina o uso previsto do terreno, seja para pecuária, lavouras, fruticultura ou outras atividades agropecuárias.

Segundo as autoridades, o processo poderá ser concluído em um prazo de quinze a vinte dias, reduzindo significativamente o tempo que anteriormente caracterizava esse procedimento.

Outra das transformações consiste na eliminação dos limites de extensão de terra que um usufrutuário poderia receber, bem como das restrições quanto ao tempo de exploração. O ministro da Agricultura, Ydael Pérez Brito, afirmou que a área será determinada em função do projeto apresentado e das prioridades produtivas do país.

Como requisito, aqueles que solicitarem novas áreas deverão demonstrar que já exploram de forma eficiente as terras anteriormente concedidas.

As novas disposições também ampliam o universo de atores com acesso ao usufruto. Além de camponeses e cooperativistas, poderão solicitar terras trabalhadores por conta própria, micro, pequenas e médias empresas, empresas de capital misto e investidores estrangeiros interessados em desenvolver projetos relacionados à produção de alimentos ou à exportação.

No caso das Cooperativas de Produção Agropecuária, as decisões sobre a incorporação de novas terras continuarão sendo de competência das assembleias de cooperados, uma vez que essas entidades administram propriedades de caráter privado.

As modificações também incluem mudanças no tratamento jurídico da propriedade e do usufruto. As reclamações relacionadas a heranças e outros conflitos legais deixarão de ser competência do Ministério da Agricultura e passarão aos tribunais e às diretorias municipais e provinciais de Justiça.

Da mesma forma, as terras concedidas em usufruto poderão ser herdadas, inclusive quando o titular tiver emigrado, desde que mantenha a cidadania cubana efetiva. Também será ampliado para até cinco por cento da área total o espaço destinado às chamadas benfeitorias, ou seja, às construções e investimentos realizados pelo produtor na propriedade.

Na área da habitação, o Executivo anunciou que os produtores com mais de cinco anos de resultados sustentados poderão obter a propriedade da moradia construída no terreno concedido em usufruto, uma demanda apresentada durante anos pelo setor agrícola.

Representantes das cooperativas avaliaram positivamente as reformas, especialmente a maior participação que terão na avaliação dos produtores e na destinação de terras. Para o governo, essas medidas buscam criar melhores incentivos para aumentar a produção nacional e recuperar áreas improdutivas, em um contexto no qual a segurança alimentar constitui uma das principais prioridades econômicas do país.

¨      Sem energia, Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba corre risco de interromper aulas e perder filmes em produção

O site goteo.org lançou uma campanha de apoio financeiro para a autonomia energética da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba.

“Nossa escola é muito mais do que um espaço acadêmico. É um lugar de criação, de encontro e de futuro. Cada projeto que começa aqui é uma voz que quer contar uma história, um olhar que busca existir. Mas hoje, essas vozes correm o risco de se apagar por causa da instabilidade no fornecimento de energia elétrica. Por isso lançamos esta campanha: para construir, passo a passo, a autonomia energética da EICTV”, diz o site.

As doações variam de 10 a mil euros, com recompensas como “um livro digital editado pela editora da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, além da participação em um workshop on-line e cinco números para o sorteio de um workshop presencial de duas semanas na escola”.

A primeira fase para alcançar a autonomia energética da EICTV será na área de pós-produção, “onde as histórias ganham sua forma definitiva. Com os recursos desta primeira campanha, instalaremos estações portáteis de energia com painéis solares e baterias para proteger esse processo de trabalho, fundamental para a conclusão das obras audiovisuais.

A compra e a instalação de painéis solares para fornecer energia durante o dia e de estações de energia (baterias) para armazená-la e completar os processos durante a noite garantirão fornecimento constante por, no mínimo, oito horas”.

A segunda fase concentra-se nas salas de aula e na área docente, com o objetivo de “assegurar que as aulas não sejam interrompidas nem afetadas pela falta de energia; também nesta fase buscamos autonomia elétrica para as áreas de escritórios docentes e administrativos. Estender a autonomia energética ao restante das áreas de ensino por meio de sistemas fotovoltaicos fixos e baterias de armazenamento para garantir o funcionamento elétrico completo da escola durante o dia”.

<><> Transformação sustentável

O passo seguinte será de longo prazo: “nosso objetivo final vai além de resistir à crise atual. Buscamos uma transformação sustentável em toda a EICTV para que ela se torne uma escola 100% funcional com energias renováveis e reduza drasticamente a dependência de combustíveis fósseis e a pegada de carbono da instituição”.

E incentivaram: “apoiar esta campanha é apostar na continuidade da criação, na formação de novas gerações de cineastas e na possibilidade de que suas histórias continuem existindo. Porque, quando a energia se apaga, as histórias também se apagam”.

A EICTV é uma referência mundial na formação audiovisual, cuja “principal característica e fator de diferenciação é nosso modelo de aprender fazendo, no qual estudantes de todo o mundo convivem e produzem cinema. Hoje, nossa continuidade está ameaçada pela crise energética que atravessa a ilha de Cuba.

“Em nosso campus convivem habitualmente mais de 100 estudantes de diversas partes do mundo. Aqui vivemos, aprendemos e formamos a maior comunidade audiovisual do mundo.”

Como o espírito criativo de toda arte é irrefreável, a instituição afirmou: “Queremos continuar sendo um espaço aberto ao mundo, onde estudantes de diferentes países e culturas possam se encontrar, aprender e criar, e onde a presença de professoras e professores internacionais continue enriquecendo nosso processo formativo. Apostamos em seguir impulsionando o desenvolvimento de projetos audiovisuais e em acompanhar nossas ex-alunas e nossos ex-alunos em sua integração às redes profissionais do setor”.

Ao longo de quatro décadas, “a EICTV formou milhares de profissionais. Hoje podemos dizer, com orgulho, que somos uma das maiores e mais diversas comunidades audiovisuais do mundo. Por isso, esta campanha é dirigida a todas as pessoas que passaram por nosso campus, e também àquelas que passarão no futuro: às que já fazem parte desta história e às que ainda irão escrevê-la. Somar-se a esta iniciativa é sustentar um projeto coletivo, apostar na criação, na educação e na continuidade de uma comunidade que não para de crescer”.

A EICTV consolidou-se como uma referência internacional na formação de cineastas, recebendo estudantes de todo o mundo e colocando a excelência no ensino audiovisual no centro de sua missão. Ao longo de sua história, formou milhares de profissionais que hoje integram a indústria cinematográfica e televisiva global, com obras presentes em festivais de prestígio como Cannes, Berlim, San Sebastián e Havana. Seu modelo pedagógico, baseado na prática intensiva e no intercâmbio direto com professores convidados de reconhecido prestígio, permitiu manter um alto nível acadêmico e um impacto cultural significativo na região.

Fonte: Por Atilio A. Boron, na Página 12/TeleSUUR/Prensa Rural/Diálogos do Sul Global

 

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