A
política do tempo: por que o fim da escala 6×1 é uma luta pela sustentabilidade
da vida
O
debate sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro da cena política brasileira.
Trabalhadores e trabalhadoras reivindicam mais tempo para viver. Parte do
empresariado reage com previsões de aumento de custos, perda de competitividade
e redução da produtividade.
Mas
talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
O que
está em disputa não é apenas uma jornada de trabalho. O que está em disputa é a
forma como organizamos o tempo da vida. Afinal, para quem deve servir a
economia? À acumulação do capital ou à sustentação da vida humana?
Durante
décadas, aprendemos a pensar a economia quase exclusivamente a partir da
produção de riqueza. Crescimento, produtividade e lucro transformaram-se em
indicadores centrais do sucesso de uma sociedade. Nesse modelo, o trabalho
aparece como motor da economia, enquanto tudo aquilo que sustenta a própria
vida permanece invisível.
É
justamente essa lógica que a economista feminista Cristina Carrasco nos convida
a inverter. Em vez de perguntarmos como tornar as pessoas mais produtivas para
o mercado, deveríamos perguntar como organizar a economia para garantir a
sustentabilidade da vida humana.
Essa
mudança de perspectiva altera completamente o centro do debate.
Quando
colocamos a vida no centro, muda também aquilo que entendemos por riqueza.
O
cotidiano do cuidado não é um “resto” da vida econômica. É justamente o que
torna a vida e a própria economia possíveis.
Todos
os dias, alguém prepara alimentos, limpa uma casa, acompanha uma criança à
escola, acolhe uma pessoa adoecida, cuida de um idoso, organiza a rotina de uma
família, educa, escuta, conforta e mantém vivos os vínculos que sustentam nossa
existência coletiva.
Nada
disso movimenta bolsas de valores.
Pouco
disso aparece nos indicadores econômicos.
Mas
absolutamente tudo isso torna possível que a economia continue funcionando.
É
exatamente nesse ponto que Silvia Federici nos ajuda a compreender uma dimensão
estrutural do capitalismo. A acumulação de riqueza nunca dependeu apenas da
exploração do trabalho assalariado. Ela também se apoiou na apropriação
silenciosa do trabalho reprodutivo realizado gratuitamente, sobretudo pelas
mulheres. Tornar esse trabalho invisível foi uma condição para explorá-lo sem
remuneração, naturalizando a ideia de que cuidar da vida seria uma obrigação
feminina, e não um trabalho essencial para a reprodução da sociedade.
Essa
invisibilidade não é casual.
Ela é
produzida e continuamente reproduzida por aquilo que Helena Hirata denomina
divisão sexual do trabalho. Mesmo com a crescente participação das mulheres no
mercado de trabalho, a responsabilidade pelo cuidado continua distribuída de
forma profundamente desigual. As mulheres conquistaram espaço no trabalho
remunerado, mas não foram liberadas do trabalho doméstico, do cuidado com
crianças, idosos e pessoas adoecidas, nem da organização cotidiana da vida.
Não
substituímos uma jornada pela outra.
Acumulamos
ambas.
Por
isso, o debate sobre o fim da escala 6×1 nunca foi neutro.
Ele tem
gênero.
Para
muitas mulheres, a jornada termina no trabalho formal apenas para recomeçar em
casa. O chamado “dia de descanso” frequentemente se transforma em um dia
dedicado ao trabalho invisível que mantém a vida funcionando.
Não
estamos apenas diante de uma desigualdade na distribuição das tarefas.
Estamos
diante de uma profunda desigualdade na distribuição do tempo.
Nancy
Fraser denomina esse processo de crise do cuidado. Enquanto o mercado exige
jornadas cada vez mais intensas, acelera ritmos de trabalho e amplia a
disponibilidade permanente das pessoas, os Estados reduzem investimentos em
políticas públicas e as famílias absorvem responsabilidades cada vez maiores.
E, dentro das famílias, essa sobrecarga continua recaindo, majoritariamente,
sobre as mulheres.
Nossa
economia trata o cuidado como se fosse um recurso infinito.
Mas o
cuidado depende de algo profundamente finito: o tempo humano.
Quando
o trabalho remunerado captura quase todo o nosso tempo, o cuidado não
desaparece. Ele apenas se torna mais precário, mais exaustivo e mais invisível.
É
justamente aí que o debate sobre a escala 6×1 revela toda a sua potência.
Reduzir
a jornada não significa apenas trabalhar menos horas; significa redistribuir
tempo social. E redistribuir tempo é também redistribuir poder.
O tempo
não é apenas uma medida cronológica. É a condição material da cidadania.
Tempo
para sustentar a vida, tempo para descansar, tempo para estudar.
Tempo
para participar da vida política, tempo para produzir cultura, tempo para
construir vínculos comunitários.
Tempo
para exercer plenamente a democracia.
Não por
acaso, a história do movimento sindical sempre foi uma disputa pelo tempo. A
jornada de oito horas, as férias, o descanso semanal remunerado, a
licença-maternidade e tantos outros direitos nunca foram apenas conquistas
trabalhistas. Foram conquistas civilizatórias. Representaram o reconhecimento
de que o trabalho não pode consumir toda a existência humana.
O
debate sobre o fim da escala 6×1 insere-se nessa mesma tradição histórica.
Mas há
um desafio que não podemos ignorar: a redução da jornada, por si só, não
garante que o tempo conquistado permanecerá nas mãos da classe trabalhadora.
O
capitalismo possui enorme capacidade de reinventar mecanismos de apropriação do
tempo. Faz isso por meio da hiperconectividade, da disponibilidade permanente
imposta pelas tecnologias digitais, da intensificação das metas, da economia de
plataformas, da precarização das relações de trabalho e da mercantilização
crescente da própria vida.
Por
isso, disputar o tempo é também disputar seus sentidos.
O tempo
conquistado não pode se transformar em mais uma oportunidade para o mercado
produzir lucro; ele precisa ser um tempo para sustentar a vida. Um tempo para
fortalecer a democracia, um tempo para cuidar, para conviver, para criar. Um
tempo para participar da comunidade. Um tempo que não seja imediatamente
capturado pela lógica da produção e do consumo.
Caso
contrário, corremos o risco de permitir que o capital se aproprie, mais uma
vez, daquilo que a luta coletiva conquistou.
É nesse
horizonte que Joan Tronto oferece uma contribuição indispensável: o cuidado não
pode continuar sendo tratado como responsabilidade privada das mulheres ou como
uma obrigação exclusiva das famílias. O cuidado é uma responsabilidade
coletiva, uma prática democrática e um compromisso político.
Uma
sociedade verdadeiramente democrática não apenas reconhece o valor do cuidado;
ela reorganiza suas instituições para compartilhá-lo.
O
debate sobre o fim da escala 6×1 não terminará quando uma proposta for aprovada
ou rejeitada pelo Congresso Nacional, porque ele revela uma questão muito mais
profunda: que sociedade desejamos construir?
Uma
sociedade que continue medindo seu sucesso apenas pela capacidade de produzir
riqueza? Ou uma sociedade capaz de reconhecer que a maior riqueza que existe é
a própria possibilidade de sustentar a vida?
Não
estamos discutindo apenas uma escala de trabalho. Estamos discutindo um projeto
de sociedade. Um projeto que insiste em tratar o cuidado como responsabilidade
privada das mulheres, o descanso como privilégio e o tempo como mercadoria,
quando todos eles são condições indispensáveis para sustentar a vida.
O
cotidiano do cuidado não é um “resto” da vida econômica. É justamente o que
torna a vida e a própria economia possíveis.
Se a
economia depende da vida para existir, então é a vida que precisa voltar a
ocupar o centro das decisões políticas. Porque o tempo não é apenas uma
categoria econômica. O tempo é uma categoria política.
E
decidir quem tem direito ao tempo é decidir, em última instância, quais vidas
importam, quais vidas merecem cuidado e quais vidas queremos sustentar
coletivamente.
• Fim da 6x1 permitirá 'trabalhar melhor
para produzir mais', diz Paulo Paim
O fim
da escala 6x1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés
de diminuir, previu o senador Paulo Paim (PT-RS) em pronunciamento no Plenário
nesta quarta-feira (15). Ele argumentou que países com jornadas menores
apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
— Não
estamos propondo trabalhar menos para produzir menos. Estamos propondo
trabalhar melhor para produzir mais. Uma jornada de 40 horas semanais com
certeza significa mais saúde, mais qualidade de vida, mais tempo para estudar,
mais convivência familiar e melhores condições para que o trabalhador
desenvolva todo o seu potencial — declarou.
O
senador citou dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) sobre Alemanha, Dinamarca e Países Baixos, e apontou que o
Brasil trabalha mais horas por ano, mas produz menos por hora.
Segundo
o parlamentar, a medida pode reduzir afastamentos por problemas de saúde. Ele
mencionou estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da
Organização Mundial da Saúde (OMS) que associam jornadas exaustivas ao aumento
do risco de doenças cardiovasculares e de mortes relacionadas ao excesso de
trabalho
Aprovada
em maio pela Câmara, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que
também reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, aguarda votação no Senado.
Ao
defender a proposta, Paim disse esperar que o Senado vote a matéria em agosto,
após o recesso parlamentar.
• Quaest: Maioria apoia fim da escala 6x1
e diz que usaria tempo livre para descansar
Pesquisa
Quaest divulgada nesta quarta-feira (15) mostra que 69% dos brasileiros são
favoráveis ao fim da escala 6x1, contra 22% que se dizem contrários.
O
percentual a favor variou pouco desde julho de 2025 (69%), passando por 72% em
dezembro de 2025 e 68% em maio de 2026.
🔎 A proposta reduz a jornada de
trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim
da escala 6x1.
A
proposta, que acaba com a jornada de seis dias de trabalho por um de folga, já
é conhecida pela maioria da população. 75% dos entrevistados disseram saber que
a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e que o texto agora tramita no Senado,
enquanto 25% ficaram sabendo apenas ao responder à pesquisa.
Apesar
do apoio majoritário, a população se divide sobre os efeitos práticos da
mudança: 50% acreditam que, se aprovada, passarão a trabalhar menos horas por
semana, enquanto 45% não acreditam nisso e 5% não souberam responder.
A
Quaest também perguntou o que os entrevistados pretendem fazer com seu tempo
livre, caso a proposta seja aprovada. Veja as respostas:
• Descansar e passar mais tempo com a
família: 53%
• Buscar outro trabalho ou fazer hora
extra para aumentar a renda: 13%
• Fazer cursos/estudar: 12%
• Ir à igreja ou à cerimônias religiosas:
9%
• Passear/ir a bares e restaurantes/fazer
festas: 6%
• Viajar: 4%
• Não sabe/não respondeu: 3%.
O
levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 eleitores
entre os dias 10 e 13 de julho. A margem de erro é de dois pontos percentuais,
para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro
no TSE é BR-07181/2026.
Fonte:
Por Duda Quiroga, em Brasil 247/Agencia Senado

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