Efeito
rebote: tarifaço de Trump empurra Brasil e outros parceiros para os braços da
China
Diante
do avanço das medidas protecionistas agressivas adotadas pela administração de
Donald Trump nos Estados Unidos, membros do governo Lula (PT) avaliam que a
atual postura de Washington está surtindo um efeito rebote desastroso para a
própria geopolítica norte-americana: em vez de isolar concorrentes, as
barreiras comerciais estão, na prática, empurrando o Brasil e outros parceiros
comerciais históricos diretamente para a influência estratégica de Pequim,
informa o jornal O Globo.
No
Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, o diagnóstico é de que o
unilateralismo de Trump limita as opções econômicas dos países afetados. Sem o
mercado norte-americano como destino viável para suas exportações, nações em
desenvolvimento veem-se quase obrigadas a estreitar ainda mais seus laços de
cooperação e comércio com a China, principal compradora global de commodities e
ávida por ocupar os espaços de vácuo deixados pelos EUA na América Latina e em
outras partes do Sul Global.
Durante
as discussões e as articulações diplomáticas de bastidores, o argumento de que
a rigidez de Washington beneficia Pequim tem sido usado como uma das principais
ferramentas de convencimento do Brasil junto a negociadores e senadores
americanos. “Vocês estão nos colocando no colo da China. É isso que vocês estão
querendo?”, resumiu o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio
(OMC), Roberto Azevêdo, ao exemplificar a abordagem pragmática que o lado
brasileiro tem adotado. Em sintonia com essa linha de defesa, o próprio
presidente Lula já reforçou publicamente a soberania e a resiliência comercial
do país diante das pressões da Casa Branca:
“Vamos
ter que proteger [o setor produtivo]. Vamos ter que procurar outros parceiros
para comprar nossos produtos. O comércio entre Brasil e Estados Unidos tem
apenas 1,7% do PIB, não é essa coisa que a gente não consegue sobreviver sem os
EUA”.
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A lógica reversa do tarifaço de Trump
A
imposição de tarifas generalizadas é a espinha dorsal da política econômica de
Donald Trump nesta sua nova gestão, justificada pelo republicano como forma de
reduzir déficits comerciais e forçar a reindustrialização dos Estados Unidos.
No entanto, para analistas de comércio exterior e diplomatas em Brasília, a
tática ignora o pragmatismo das cadeias de suprimento e a dinâmica de mercado
dos países parceiros.
De
acordo com estudos preliminares, o tarifaço tem gerado uma retração expressiva
no comércio bilateral entre o Brasil e os EUA. Por outro lado, as exportações
brasileiras para a China vêm registrando altas compensatórias, especialmente
nos setores de agronegócio e recursos minerais.
O
governo brasileiro avalia que, ao fechar canais tradicionais de troca com taxas
de importação proibitivas, Washington acaba por:
• Reduzir sua própria influência de
segurança e diplomacia na América do Sul.
• Tornar a China um parceiro comercial
incontornável e ainda mais hegemônico para economias emergentes.
• Fortalecer a consolidação de rotas de
comércio alternativas, blindadas contra decisões unilaterais norte-americanas.
A
preocupação com o pragmatismo chinês também ecoa no Capitólio. Um grupo de
senadores brasileiros planeja levar exatamente esse alerta em visitas oficiais
a Washington. A estratégia é demonstrar aos parlamentares republicanos e
democratas que o isolacionismo econômico promovido pela Casa Branca sabota o
objetivo estratégico de longo prazo dos próprios EUA, que seria conter a
expansão de Pequim no hemisfério ocidental.
Enquanto
as negociações diretas com a equipe econômica de Trump não avançam para um
recuo prático, o governo brasileiro acelera a busca por diversificação de
mercados.
• Governo Lula vê tarifaço dos EUA como
ideológico e acusa gestão Trump de má-fé
O
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a decisão dos
Estados Unidos, presididos por Donald Trump, de impor novas tarifas contra
produtos brasileiros teve motivação política e ideológica. Segundo informações
publicadas pelo blog do jornalista Valdo Cruz, no G1, integrantes do Palácio do
Planalto afirmam que a administração norte-americana agiu de má-fé ao sustentar
que o Brasil não buscou negociar um acordo para evitar as sanções comerciais.
A
avaliação da equipe presidencial ocorre após o anúncio feito pelos Estados
Unidos na quarta-feira (15), último dia do prazo estabelecido por Washington
para uma tentativa de entendimento entre os dois países. Em resposta, o governo
brasileiro classificou a medida como “lastimável” e anunciou que dará início
imediato aos procedimentos para acionar os mecanismos previstos na Lei de
Reciprocidade.
Nos
bastidores do governo, a percepção é de que a justificativa apresentada pela
Casa Branca para impor as tarifas foi construída para respaldar um discurso
político alinhado ao do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Segundo integrantes do Executivo, a gestão norte-americana estaria difundindo
uma narrativa falsa ao afirmar que o Brasil se recusou a negociar.
Após a
divulgação das tarifas, Flávio Bolsonaro declarou que o governo Lula teria
optado por não negociar e atuado contra os interesses do país. O Palácio do
Planalto, entretanto, rejeita essa versão e afirma que houve sucessivas
iniciativas diplomáticas para tentar construir uma solução negociada.
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Governo afirma que decisão dos EUA já estava tomada
De
acordo com integrantes do governo ouvidos pelo blog, a percepção é de que a
decisão dos Estados Unidos já vinha sendo construída desde o ano passado,
quando Donald Trump enviou uma carta ao presidente Lula. A avaliação é que,
independentemente das negociações realizadas nos últimos meses, Washington já
havia definido o caminho que adotaria.
Na
análise da diplomacia brasileira, a Casa Branca também precisou encontrar um
fundamento jurídico para sustentar a imposição das tarifas depois que a Suprema
Corte dos Estados Unidos estabeleceu limites ao uso de anúncios presidenciais
para esse tipo de medida.
Segundo
esse entendimento, a administração Trump recorreu à Seção 301 da legislação
comercial norte-americana como instrumento legal para justificar as sanções,
embora o Brasil considere que os argumentos utilizados não possuem base técnica
nem econômica.
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Itamaraty diz que realizou dezenas de contatos com autoridades americanas
O
governo brasileiro também rebate a alegação do Escritório do Representante de
Comércio dos Estados Unidos (USTR) de que o Brasil não teria buscado negociar.
Conforme
levantamento do Itamaraty, foram realizados mais de 30 contatos — entre
reuniões presenciais, videoconferências e conversas telefônicas — desde o
anúncio da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. As tratativas
envolveram autoridades em níveis presidencial, ministerial e técnico.
Ainda
segundo a diplomacia brasileira, somente com o representante comercial Jamieson
Greer e o secretário de Estado Marco Rubio ocorreram 11 contatos durante o
processo de negociação, sempre por iniciativa do governo brasileiro.
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Cenário mudou após aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump, avalia governo
Interlocutores
do governo afirmam que o ambiente das negociações era considerado positivo após
os encontros entre Lula e Donald Trump realizados na Malásia e posteriormente
em Washington. A expectativa era de avanço nas conversas para evitar a adoção
das tarifas.
Essa
percepção, contudo, teria mudado nas últimas semanas, após o encontro entre
Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Segundo integrantes do Executivo, apesar da
continuidade das reuniões de alto nível e técnicas, os negociadores
norte-americanos deixaram de responder às propostas apresentadas pelo Brasil.
Além
disso, passaram a defender pontos considerados “inegociáveis” pelo governo
brasileiro, como alterações relacionadas ao Pix e uma moratória envolvendo
plataformas digitais. Segundo a avaliação do Itamaraty, também foram
desconsiderados os argumentos apresentados pelo Brasil sobre as políticas de
combate ao desmatamento.
• Governo Lula rebate Rubio e lista 30
reuniões para negociar tarifaço dos EUA
O
governo Lula (PT) rebateu o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio,
ao divulgar uma lista de 30 reuniões realizadas com autoridades dos Estados
Unidos para negociar o tarifaço e contestar a acusação de que o Brasil não
teria agido de boa-fé. Os contatos ocorreram desde 2025, segundo Gustavo Uribe,
da CNN Brasil.
As
tratativas foram realizadas de forma presencial ou virtual e envolveram
representantes dos níveis técnico e ministerial dos dois países. O levantamento
foi apresentado nesta quinta-feira (16), após integrantes do governo dos
Estados Unidos responsabilizarem o Brasil pelo fracasso das negociações.
Entre
os 30 contatos contabilizados pela gestão federal, 11 teriam ocorrido
diretamente com Marco Rubio ou com o representante comercial dos Estados
Unidos, Jamieson Greer. O Palácio do Planalto considera que a sequência de
encontros demonstra a disposição brasileira para manter o diálogo e buscar uma
solução para o impasse tarifário.
Rubio
afirmou na quarta-feira (15) que o governo brasileiro não teria negociado
adequadamente com Washington. O secretário de Estado atribuiu ao presidente
Lula e à sua administração a responsabilidade pela imposição das novas tarifas.
“Não
haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram
com os EUA de boa-fé”, declarou Rubio.
O
governo brasileiro rejeitou a acusação e passou a apresentar o histórico das
reuniões como evidência de que os canais diplomáticos e comerciais permaneceram
abertos. Segundo assessores do Executivo, as discussões envolveram diferentes
setores das duas administrações e ocorreram ao longo de aproximadamente um ano.
Jamieson
Greer também confirmou a existência de negociações extensas entre os dois
países, embora tenha afirmado que as conversas não foram suficientes para
superar as divergências apontadas pelo governo norte-americano.
“As
extensas negociações com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas
questões, mas continuamos abertos a prosseguir com as negociações com o
Brasil”, declarou Greer.
Apesar
do aumento da tensão, o governo Lula afirma que pretende manter as tratativas
com Washington. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto informou que poderá
recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica para
responder às cobranças impostas pelos Estados Unidos.
A
legislação permite que o Brasil adote medidas proporcionais contra países que
estabeleçam barreiras consideradas prejudiciais aos produtos, serviços ou
interesses econômicos nacionais. A eventual aplicação do mecanismo dependerá da
avaliação do governo sobre os efeitos do tarifaço e do resultado das próximas
rodadas de negociação.
• EUA ameaçam ampliar ataques se Brasil
aplicar reciprocidade
Os
Estados Unidos ameaçaram ampliar as medidas comerciais contra o Brasil caso o
governo brasileiro aplique o princípio da reciprocidade em resposta à tarifa de
25% anunciada sobre produtos nacionais. Washington afirmou que uma eventual
elevação de impostos sobre mercadorias norte-americanas poderá ser interpretada
como sinal de que as atuais punições são insuficientes.
A
advertência consta no documento divulgado pelo governo dos Estados Unidos na
madrugada desta quinta-feira (16), que detalha a nova sobretaxa e os critérios
definidos para sua aplicação. O texto também estabelece que outras medidas
poderão ser adotadas caso as autoridades norte-americanas considerem que o
Brasil não respondeu às preocupações apresentadas durante a investigação
comercial.
“Ações
do Brasil que aumentem o ônus ou a restrição ao comércio dos EUA — como
aumentos de tarifas sobre produtos dos Estados Unidos, em vez de abordar as
preocupações dos EUA com as práticas desleais constatadas na investigação —
podem indicar que a ação dos EUA neste nível não é suficiente para obter a
eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil”, afirma o documento.
Na
prática, a manifestação de Washington representa uma ameaça de escalada no
conflito comercial. Caso o Brasil imponha tarifas equivalentes sobre produtos
norte-americanos, os Estados Unidos poderão elevar novamente as alíquotas,
ampliar a lista de mercadorias atingidas ou recorrer a outros instrumentos
previstos em sua legislação.
O
documento norte-americano ressalta ainda que a cobrança da tarifa de 25% não
impede o uso de “outros remédios ou autoridades adicionais, conforme
apropriado”. A formulação deixa aberta a possibilidade de novas sanções
comerciais ou administrativas, dependendo das decisões tomadas pelo governo
brasileiro.
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Brasil prepara reação com Lei de Reciprocidade
Após a
oficialização das tarifas, o governo brasileiro informou que pretende acionar
os mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica. A legislação permite
que o Brasil adote contramedidas diante de ações unilaterais de outros países
que prejudiquem empresas, exportadores ou setores estratégicos da economia
nacional.
Entre
os instrumentos autorizados estão a imposição de tarifas equivalentes, a
suspensão de concessões comerciais e a adoção de restrições sobre bens,
serviços ou direitos de propriedade intelectual. A aplicação das medidas
depende de avaliações técnicas e de procedimentos conduzidos pelas autoridades
brasileiras.
A
resposta anunciada pelo Brasil ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais
entre os dois países. O governo brasileiro considera que a sobretaxa foi
imposta de forma unilateral e avalia que seus efeitos poderão atingir setores
industriais, empregos e cadeias produtivas que dependem do mercado
norte-americano.
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Tarifa de 25% entra em vigor em 22 de julho
A nova
tarifa de 25% sobre produtos brasileiros está prevista para começar a valer em
22 de julho. A cobrança, no entanto, não será aplicada de maneira uniforme a
todas as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.
O
documento oficial apresenta uma relação de produtos que ficarão isentos da
sobretaxa. Entre os itens poupados estão café, mel orgânico, açaí, carne
bovina, laranja e produtos ligados às terras-raras.
As
exceções reduzem o impacto imediato sobre algumas das principais mercadorias
exportadas pelo Brasil, mas diversos segmentos continuarão sujeitos à cobrança
adicional.
Entre
os produtos atingidos estão etanol, máquinas agrícolas, calçados, roupas,
papel, açúcar e diferentes tipos de produtos químicos. Empresas desses setores
poderão enfrentar perda de competitividade no mercado norte-americano, já que o
custo adicional tende a encarecer as mercadorias brasileiras para importadores
e consumidores.
A
possibilidade de retaliação brasileira e de novas medidas dos Estados Unidos
amplia a incerteza sobre o comércio bilateral. O próximo passo dependerá da
regulamentação e da eventual aplicação da Lei de Reciprocidade pelo governo
brasileiro, enquanto a tarifa norte-americana se aproxima da data prevista para
entrar em vigor.
Fonte:
Brasil 247

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