sexta-feira, 17 de julho de 2026

Efeito rebote: tarifaço de Trump empurra Brasil e outros parceiros para os braços da China

Diante do avanço das medidas protecionistas agressivas adotadas pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos, membros do governo Lula (PT) avaliam que a atual postura de Washington está surtindo um efeito rebote desastroso para a própria geopolítica norte-americana: em vez de isolar concorrentes, as barreiras comerciais estão, na prática, empurrando o Brasil e outros parceiros comerciais históricos diretamente para a influência estratégica de Pequim, informa o jornal O Globo.

No Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, o diagnóstico é de que o unilateralismo de Trump limita as opções econômicas dos países afetados. Sem o mercado norte-americano como destino viável para suas exportações, nações em desenvolvimento veem-se quase obrigadas a estreitar ainda mais seus laços de cooperação e comércio com a China, principal compradora global de commodities e ávida por ocupar os espaços de vácuo deixados pelos EUA na América Latina e em outras partes do Sul Global.

Durante as discussões e as articulações diplomáticas de bastidores, o argumento de que a rigidez de Washington beneficia Pequim tem sido usado como uma das principais ferramentas de convencimento do Brasil junto a negociadores e senadores americanos. “Vocês estão nos colocando no colo da China. É isso que vocês estão querendo?”, resumiu o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, ao exemplificar a abordagem pragmática que o lado brasileiro tem adotado. Em sintonia com essa linha de defesa, o próprio presidente Lula já reforçou publicamente a soberania e a resiliência comercial do país diante das pressões da Casa Branca:

“Vamos ter que proteger [o setor produtivo]. Vamos ter que procurar outros parceiros para comprar nossos produtos. O comércio entre Brasil e Estados Unidos tem apenas 1,7% do PIB, não é essa coisa que a gente não consegue sobreviver sem os EUA”.

<><> A lógica reversa do tarifaço de Trump

A imposição de tarifas generalizadas é a espinha dorsal da política econômica de Donald Trump nesta sua nova gestão, justificada pelo republicano como forma de reduzir déficits comerciais e forçar a reindustrialização dos Estados Unidos. No entanto, para analistas de comércio exterior e diplomatas em Brasília, a tática ignora o pragmatismo das cadeias de suprimento e a dinâmica de mercado dos países parceiros.

De acordo com estudos preliminares, o tarifaço tem gerado uma retração expressiva no comércio bilateral entre o Brasil e os EUA. Por outro lado, as exportações brasileiras para a China vêm registrando altas compensatórias, especialmente nos setores de agronegócio e recursos minerais.

O governo brasileiro avalia que, ao fechar canais tradicionais de troca com taxas de importação proibitivas, Washington acaba por:

•        Reduzir sua própria influência de segurança e diplomacia na América do Sul.

•        Tornar a China um parceiro comercial incontornável e ainda mais hegemônico para economias emergentes.

•        Fortalecer a consolidação de rotas de comércio alternativas, blindadas contra decisões unilaterais norte-americanas.

A preocupação com o pragmatismo chinês também ecoa no Capitólio. Um grupo de senadores brasileiros planeja levar exatamente esse alerta em visitas oficiais a Washington. A estratégia é demonstrar aos parlamentares republicanos e democratas que o isolacionismo econômico promovido pela Casa Branca sabota o objetivo estratégico de longo prazo dos próprios EUA, que seria conter a expansão de Pequim no hemisfério ocidental.

Enquanto as negociações diretas com a equipe econômica de Trump não avançam para um recuo prático, o governo brasileiro acelera a busca por diversificação de mercados.

•        Governo Lula vê tarifaço dos EUA como ideológico e acusa gestão Trump de má-fé

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a decisão dos Estados Unidos, presididos por Donald Trump, de impor novas tarifas contra produtos brasileiros teve motivação política e ideológica. Segundo informações publicadas pelo blog do jornalista Valdo Cruz, no G1, integrantes do Palácio do Planalto afirmam que a administração norte-americana agiu de má-fé ao sustentar que o Brasil não buscou negociar um acordo para evitar as sanções comerciais.

A avaliação da equipe presidencial ocorre após o anúncio feito pelos Estados Unidos na quarta-feira (15), último dia do prazo estabelecido por Washington para uma tentativa de entendimento entre os dois países. Em resposta, o governo brasileiro classificou a medida como “lastimável” e anunciou que dará início imediato aos procedimentos para acionar os mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade.

Nos bastidores do governo, a percepção é de que a justificativa apresentada pela Casa Branca para impor as tarifas foi construída para respaldar um discurso político alinhado ao do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro. Segundo integrantes do Executivo, a gestão norte-americana estaria difundindo uma narrativa falsa ao afirmar que o Brasil se recusou a negociar.

Após a divulgação das tarifas, Flávio Bolsonaro declarou que o governo Lula teria optado por não negociar e atuado contra os interesses do país. O Palácio do Planalto, entretanto, rejeita essa versão e afirma que houve sucessivas iniciativas diplomáticas para tentar construir uma solução negociada.

<><> Governo afirma que decisão dos EUA já estava tomada

De acordo com integrantes do governo ouvidos pelo blog, a percepção é de que a decisão dos Estados Unidos já vinha sendo construída desde o ano passado, quando Donald Trump enviou uma carta ao presidente Lula. A avaliação é que, independentemente das negociações realizadas nos últimos meses, Washington já havia definido o caminho que adotaria.

Na análise da diplomacia brasileira, a Casa Branca também precisou encontrar um fundamento jurídico para sustentar a imposição das tarifas depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos estabeleceu limites ao uso de anúncios presidenciais para esse tipo de medida.

Segundo esse entendimento, a administração Trump recorreu à Seção 301 da legislação comercial norte-americana como instrumento legal para justificar as sanções, embora o Brasil considere que os argumentos utilizados não possuem base técnica nem econômica.

<><> Itamaraty diz que realizou dezenas de contatos com autoridades americanas

O governo brasileiro também rebate a alegação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de que o Brasil não teria buscado negociar.

Conforme levantamento do Itamaraty, foram realizados mais de 30 contatos — entre reuniões presenciais, videoconferências e conversas telefônicas — desde o anúncio da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. As tratativas envolveram autoridades em níveis presidencial, ministerial e técnico.

Ainda segundo a diplomacia brasileira, somente com o representante comercial Jamieson Greer e o secretário de Estado Marco Rubio ocorreram 11 contatos durante o processo de negociação, sempre por iniciativa do governo brasileiro.

<><> Cenário mudou após aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump, avalia governo

Interlocutores do governo afirmam que o ambiente das negociações era considerado positivo após os encontros entre Lula e Donald Trump realizados na Malásia e posteriormente em Washington. A expectativa era de avanço nas conversas para evitar a adoção das tarifas.

Essa percepção, contudo, teria mudado nas últimas semanas, após o encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Segundo integrantes do Executivo, apesar da continuidade das reuniões de alto nível e técnicas, os negociadores norte-americanos deixaram de responder às propostas apresentadas pelo Brasil.

Além disso, passaram a defender pontos considerados “inegociáveis” pelo governo brasileiro, como alterações relacionadas ao Pix e uma moratória envolvendo plataformas digitais. Segundo a avaliação do Itamaraty, também foram desconsiderados os argumentos apresentados pelo Brasil sobre as políticas de combate ao desmatamento.

•        Governo Lula rebate Rubio e lista 30 reuniões para negociar tarifaço dos EUA

O governo Lula (PT) rebateu o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ao divulgar uma lista de 30 reuniões realizadas com autoridades dos Estados Unidos para negociar o tarifaço e contestar a acusação de que o Brasil não teria agido de boa-fé. Os contatos ocorreram desde 2025, segundo Gustavo Uribe, da CNN Brasil.

As tratativas foram realizadas de forma presencial ou virtual e envolveram representantes dos níveis técnico e ministerial dos dois países. O levantamento foi apresentado nesta quinta-feira (16), após integrantes do governo dos Estados Unidos responsabilizarem o Brasil pelo fracasso das negociações.

Entre os 30 contatos contabilizados pela gestão federal, 11 teriam ocorrido diretamente com Marco Rubio ou com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. O Palácio do Planalto considera que a sequência de encontros demonstra a disposição brasileira para manter o diálogo e buscar uma solução para o impasse tarifário.

Rubio afirmou na quarta-feira (15) que o governo brasileiro não teria negociado adequadamente com Washington. O secretário de Estado atribuiu ao presidente Lula e à sua administração a responsabilidade pela imposição das novas tarifas.

“Não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”, declarou Rubio.

O governo brasileiro rejeitou a acusação e passou a apresentar o histórico das reuniões como evidência de que os canais diplomáticos e comerciais permaneceram abertos. Segundo assessores do Executivo, as discussões envolveram diferentes setores das duas administrações e ocorreram ao longo de aproximadamente um ano.

Jamieson Greer também confirmou a existência de negociações extensas entre os dois países, embora tenha afirmado que as conversas não foram suficientes para superar as divergências apontadas pelo governo norte-americano.

“As extensas negociações com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas questões, mas continuamos abertos a prosseguir com as negociações com o Brasil”, declarou Greer.

Apesar do aumento da tensão, o governo Lula afirma que pretende manter as tratativas com Washington. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto informou que poderá recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica para responder às cobranças impostas pelos Estados Unidos.

A legislação permite que o Brasil adote medidas proporcionais contra países que estabeleçam barreiras consideradas prejudiciais aos produtos, serviços ou interesses econômicos nacionais. A eventual aplicação do mecanismo dependerá da avaliação do governo sobre os efeitos do tarifaço e do resultado das próximas rodadas de negociação.

•        EUA ameaçam ampliar ataques se Brasil aplicar reciprocidade

Os Estados Unidos ameaçaram ampliar as medidas comerciais contra o Brasil caso o governo brasileiro aplique o princípio da reciprocidade em resposta à tarifa de 25% anunciada sobre produtos nacionais. Washington afirmou que uma eventual elevação de impostos sobre mercadorias norte-americanas poderá ser interpretada como sinal de que as atuais punições são insuficientes.

A advertência consta no documento divulgado pelo governo dos Estados Unidos na madrugada desta quinta-feira (16), que detalha a nova sobretaxa e os critérios definidos para sua aplicação. O texto também estabelece que outras medidas poderão ser adotadas caso as autoridades norte-americanas considerem que o Brasil não respondeu às preocupações apresentadas durante a investigação comercial.

“Ações do Brasil que aumentem o ônus ou a restrição ao comércio dos EUA — como aumentos de tarifas sobre produtos dos Estados Unidos, em vez de abordar as preocupações dos EUA com as práticas desleais constatadas na investigação — podem indicar que a ação dos EUA neste nível não é suficiente para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil”, afirma o documento.

Na prática, a manifestação de Washington representa uma ameaça de escalada no conflito comercial. Caso o Brasil imponha tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos, os Estados Unidos poderão elevar novamente as alíquotas, ampliar a lista de mercadorias atingidas ou recorrer a outros instrumentos previstos em sua legislação.

O documento norte-americano ressalta ainda que a cobrança da tarifa de 25% não impede o uso de “outros remédios ou autoridades adicionais, conforme apropriado”. A formulação deixa aberta a possibilidade de novas sanções comerciais ou administrativas, dependendo das decisões tomadas pelo governo brasileiro.

<><> Brasil prepara reação com Lei de Reciprocidade

Após a oficialização das tarifas, o governo brasileiro informou que pretende acionar os mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica. A legislação permite que o Brasil adote contramedidas diante de ações unilaterais de outros países que prejudiquem empresas, exportadores ou setores estratégicos da economia nacional.

Entre os instrumentos autorizados estão a imposição de tarifas equivalentes, a suspensão de concessões comerciais e a adoção de restrições sobre bens, serviços ou direitos de propriedade intelectual. A aplicação das medidas depende de avaliações técnicas e de procedimentos conduzidos pelas autoridades brasileiras.

A resposta anunciada pelo Brasil ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre os dois países. O governo brasileiro considera que a sobretaxa foi imposta de forma unilateral e avalia que seus efeitos poderão atingir setores industriais, empregos e cadeias produtivas que dependem do mercado norte-americano.

<><> Tarifa de 25% entra em vigor em 22 de julho

A nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros está prevista para começar a valer em 22 de julho. A cobrança, no entanto, não será aplicada de maneira uniforme a todas as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.

O documento oficial apresenta uma relação de produtos que ficarão isentos da sobretaxa. Entre os itens poupados estão café, mel orgânico, açaí, carne bovina, laranja e produtos ligados às terras-raras.

As exceções reduzem o impacto imediato sobre algumas das principais mercadorias exportadas pelo Brasil, mas diversos segmentos continuarão sujeitos à cobrança adicional.

Entre os produtos atingidos estão etanol, máquinas agrícolas, calçados, roupas, papel, açúcar e diferentes tipos de produtos químicos. Empresas desses setores poderão enfrentar perda de competitividade no mercado norte-americano, já que o custo adicional tende a encarecer as mercadorias brasileiras para importadores e consumidores.

A possibilidade de retaliação brasileira e de novas medidas dos Estados Unidos amplia a incerteza sobre o comércio bilateral. O próximo passo dependerá da regulamentação e da eventual aplicação da Lei de Reciprocidade pelo governo brasileiro, enquanto a tarifa norte-americana se aproxima da data prevista para entrar em vigor.

 

Fonte: Brasil 247

 

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