Com
tarifaço de Trump, Brasil chega à eleição mais importante do mundo em 2026 sem
margem para erro, diz analista
Poucos
analistas têm acompanhado a ascensão e queda das nações com a profundidade de
Ruchir Sharma. Estrategista global, gestor de recursos e estudioso dos ciclos econômicos que definem o
destino dos países, ele é chairman da Rockefeller
International, fundador da Breakout Capital e colunista do Financial Times. Autor
de obras como Breakout Nations e What Went
Wrong With Capitalism, Sharma combina análise macroeconômica com
observação direta de campo em países emergentes — uma metodologia construída ao
longo de três décadas.
Sua
tese central sobre a América Latina parte de um
dado que ele considera inconveniente, mas inegável: historicamente,
investidores obtêm retornos muito maiores sob governos de direita na região. É
essa dinâmica que explica, em grande parte, o bom desempenho dos mercados
latino-americanos nos últimos anos. E é por isso que o Brasil, para Sharma, é a
grande incógnita de 2026 — talvez a eleição mais importante do
ano no mundo inteiro.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
O governo americano anunciou uma tarifa de 25% sobre
produtos brasileiros, tornando o Brasil o segundo país mais taxado pelos EUA no
mundo. Qual o impacto real dessa decisão?
Sharma
– A
tarifa de 25% incide sobre produtos que somam cerca de US$ 14,9 bilhões em
exportações brasileiras. Mas, consideradas as isenções — pela Seção 232 e
outras —, o impacto efetivo é mais estreito do que o número sugere. Em termos
diretos, o efeito é limitado. O risco maior é de segunda ordem: o impacto sobre
o investimento estrangeiro direto e o fato de que esta é a segunda tentativa de
Trump de usar tarifas como alavancagem sobre o Brasil em 13 meses. Isso
sinaliza que a relação está estruturalmente contestada por este governo
americano, não se trata de uma disputa isolada.
·
E eleitoralmente? Essa decisão pode mudar o cálculo da
corrida presidencial de outubro?
Sharma
– A
narrativa de soberania e nacionalismo de Lula pode funcionar a seu favor, algo
semelhante ao que aconteceu no México. Mas seus índices de aprovação estão
pressionados por causa do custo de vida e do crescimento fraco. Se a economia
não reagir, essa vantagem pode não se sustentar. O governo Lula já sinalizou
que não vê caminho para negociação antes de outubro. Uma vitória de Flávio
Bolsonaro criaria pressão para concessões rápidas em regulação digital e
plataformas de tecnologia em troca da retirada das tarifas — o que tem seu
próprio custo político doméstico. No curto prazo, a leitura política favorece a
narrativa de soberania de Lula. Mas a pressão econômica de médio prazo para
negociar com Washington independe de quem vença — isso muda mais a postura
negociadora do próximo governo do que define quem chega à Presidência em
outubro.
·
O senhor disse no início do ano que a eleição brasileira
poderia ser a mais importante do mundo em 2026. Com o pleito a três meses, como
o senhor situa esse evento no contexto global?
Sharma
– Os
investidores têm olhado para a América Latina com interesse crescente no último
ano, mesmo que a região não seja vista como uma potência de inteligência
artificial. Um grande motivo é o número crescente de governos de direita
chegando ao poder. Independentemente de preferências políticas, o fato é que
historicamente os investidores obtêm retornos maiores quando governos de
direita assumem na América Latina. Fizemos pesquisa sobre isso: em dólares, nos
primeiros dois anos de um novo governo, quando a esquerda chega ao poder, o
retorno tende a ser de cerca de 16%. Quando é a direita, esse número sobe para
mais do dobro — cerca de 37%. Essa expectativa de que mais governos de direita
vão chegar ao poder está ajudando a América Latina. E o Brasil é central nessa
história.
·
O principal adversário de Lula hoje é Flávio Bolsonaro.
Mas, mesmo no campo da direita, há dúvidas sobre o compromisso fiscal. Os
investidores podem acabar desapontados de qualquer forma?
Sharma
– Sim,
isso é correto. Mas a reação inicial dos investidores, pelo menos, será baseada
na história: os mercados tendem a se sair bem quando um novo líder chega ao
poder, e tendem a se sair bem quando um governo de direita assume na América
Latina. Esses são fatos. Portanto, a reação inicial a uma vitória de Flávio
Bolsonaro provavelmente seria positiva — e depois teremos que ver quais serão
as políticas concretas. Até agora, onde quer que governos de direita tenham
chegado ao poder na América Latina, os investidores reagiram bem, o capital
voltou. Parte disso acontece em antecipação, parte depois que o governo já está
no poder — e tem sido assim em toda a região.
·
E se Lula for reeleito?
Sharma
– A
situação fiscal do Brasil é delicada, especialmente em um momento em que o
mundo está prestando mais atenção à dívida dos países. Se Lula for reeleito, a
reação inicial dos investidores será negativa. Mas acredito que ele saberá que,
se tentar gastar demais ou não colocar o Brasil em um caminho fiscalmente
sustentável, haverá fuga de capitais. A política brasileira também não é
simples, porque o controle do Senado e da Câmara importa muito. Mesmo nos
últimos três ou quatro anos, alguns dos piores excessos de gastos do governo
Lula foram contidos tanto pelos investidores quanto pontualmente pelo fato de a
oposição controlar outras instâncias do governo. Mas não há espaço para
irresponsabilidade fiscal agora, em um momento em que a atenção global à
dinâmica da dívida é muito maior do que era dez ou vinte anos atrás.
·
O Brasil tem terras raras, petróleo, energia limpa e
concentra mais de 40% de todo o investimento em tecnologia da América Latina. O
país tem condições de se posicionar nessa nova ordem global e fechar o gap de
desenvolvimento?
Sharma
– Há
sempre possibilidades, mas depende do horizonte de tempo. Para os próximos
cinco anos, o Brasil tem ventos favoráveis. Pode haver um impulso reformista
com um novo governo. Há um empurrão vindo do ciclo de commodities.
O Brasil está se tornando cada vez mais importante nos mercados globais de
petróleo. E, no campo tecnológico, o histórico do Brasil não é ruim: o país
investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o que é razoável
para um país de renda média. Cerca de 40% de todo o investimento em tecnologia
da América Latina acontece no Brasil, e o país já produziu mais de 20
unicórnios (start-ups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais). O Brasil também tem
oferta abundante de energia, o que poderia ajudá-lo a construir data
centers e ecossistemas de inteligência artificial. Com a combinação
certa de políticas, e dado que as expectativas estão muito baixas, há potencial
real de valorização — especialmente se as taxas de juros reais, que são
extraordinariamente altas no Brasil, começarem a cair. Mas o resultado é
binário. Qualquer erro fiscal em um mundo em que o custo do capital está
subindo pode fazer um estrago sério na economia brasileira.
·
O senhor argumenta que a inteligência artificial não é
suficiente para conter o declínio da China. Que forças são mais poderosas do
que a IA?
Sharma
– O
progresso tecnológico da China é notável, e boa parte dele é de origem
doméstica. Todo crédito ao ecossistema tecnológico que o país construiu. Mas há
outros fatores que considero ainda mais poderosos. A população chinesa está
diminuindo. Nenhum país no mundo conseguiu sustentar um crescimento acima de 2%
com a população em queda — você precisa que a força de trabalho também cresça. Depois,
há os níveis de dívida muito elevados: a China já vinha dependendo de
endividamento para sustentar taxas de crescimento bem acima do seu potencial. O
Estado também se tornou muito intervencionista, há tanta incerteza regulatória
que os espíritos empreendedores em muitos setores foram sufocados. E então há
essa situação muito incomum: para uma superpotência em ascensão, praticamente
ninguém quer ir à China. A proporção de estrangeiros vivendo no país é de 0,1%
da população, a mais baixa entre os grandes países do mundo. E, em termos
líquidos, o capital estrangeiro está saindo. São sinais de fragilidades que vão
muito além da tecnologia.
·
E o que a trajetória da China significa especificamente
para o Brasil?
Sharma
– É
algo que os brasileiros precisam ter em mente. O comércio do Brasil mudou muito
e está cada vez mais dependente da China. Mas você está lidando com uma
economia que está fundamentalmente se enfraquecendo, onde a demanda doméstica
deve permanecer fraca por causa dos desafios demográficos e de endividamento
que acabei de descrever. Depender demais da China para crescer é uma estratégia
arriscada, porque a demanda doméstica chinesa está em declínio. E o incentivo
da China é o oposto do que o Brasil precisa: eles querem exportar o máximo de
capacidade excedente possível, porque a economia doméstica não é forte o
suficiente para absorvê-la. É isso que têm feito. E o resto do mundo está
sofrendo com esse dilúvio de exportações chinesas.
·
Dois grandes conflitos estão em curso: a Ucrânia e o
confronto no Estreito de Ormuz. Os investidores têm absorvido esses choques
melhor do que muitos esperavam. Eles estão subestimando os riscos?
Sharma
– O
impulso positivo da inteligência artificial está sobrepujando o efeito negativo
dos preços mais altos de energia. O mesmo aconteceu com as tarifas no ano
passado — muitos esperavam uma recessão global por causa delas, e não
aconteceu, porque o boom da IA foi muito mais poderoso. Dito
isso, os preços do petróleo subiram menos do que muitos esperavam, dado o
volume de oferta retirado do mercado. Em parte porque o mundo aprendeu a se
adaptar, o consumo de energia como proporção do PIB global caiu ao longo do
tempo, e a destruição de demanda aconteceu rapidamente. O Brasil também
desempenhou um papel aqui: a produção de petróleo no país tem se saído bem, e
isso ajuda a evitar que a oferta global caia tão abruptamente quanto o
fechamento de Ormuz poderia sugerir.
·
O senhor escreveu recentemente que a IA está remodelando
a hierarquia dos mercados globais — nações classificadas quase que
exclusivamente por sua posição no ecossistema de IA. Isso é uma nova ordem
mundial ou uma bolha prestes a estourar?
Sharma
– É
uma combinação das duas coisas. A história nos diz que, quanto maior a inovação
tecnológica, maior a bolha — desde os canais e as ferrovias, passando pelos
automóveis, até a internet. O gasto global com a construção da infraestrutura
de IA este ano é algo em torno de US$ 2,5 trilhões, mais de 2% do PIB global só
em investimento em IA. As grandes empresas de tecnologia americanas estão
gastando cerca de US$ 800 bilhões sozinhas. O comportamento dos investidores
hoje é: ou você tem IA, ou está fora. Mas minha avaliação é que sim, a IA é uma
tecnologia muito poderosa, isso está além de qualquer dúvida. Mas a ideia de
que o mundo inteiro vai ser moldado apenas pela IA? Não compartilho dessa
visão. Ela simplesmente não é consistente com a história do desenvolvimento
econômico.
·
Quando essa bolha estourar, quão dolorosa será a
correção?
Sharma
– Toda
vez que uma bolha estoura, há dor. Mas existem bolhas boas e bolhas ruins.
Quando você tem uma bolha em imóveis ou commodities, é uma bolha
ruim — ela não deixa nenhum investimento produtivo em seu rastro. Uma bolha
liderada por tecnologia ao menos deixa boa tecnologia para trás, mesmo que a
bolha financeira estoure. Dito isso, tenho uma estrutura para identificar
bolhas, o que chamo de quatro "O's" [em inglês]: sobrevalorização,
concentração excessiva, sobreendividamento e sobreinvestimento. Quando coloco a
IA nessa estrutura, ela se qualifica em muitos desses critérios. Historicamente,
bolhas não caem sob seu próprio peso — elas precisam de um catalisador, e a
alta das taxas de juros costuma ser esse catalisador. As taxas de juros reais
nos EUA ainda estão relativamente baixas. Mas, se o título de dez anos do
Tesouro americano romper os 5%, isso seria uma bandeira vermelha. Estamos nos
estágios avançados desta bolha e podemos estar próximos do fim, mas, até que
essas coisas aconteçam, é muito difícil prever quando.
Fonte:
BBC Brasil

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