Brasil
é país que mais viu tarifas aumentarem desde que Trump voltou ao poder; entenda
os impactos do tarifaço
Após o
anúncio de novas tarifas de 25% contra produtos brasileiros feito pelo governo
dos Estados Unidos na quarta-feira (15/07), o Brasil passará a ser o país que
mais viu aumento de alíquotas americanas desde a volta de Donald Trump à Casa
Branca, em comparação com os 30 países que mais exportam para os EUA.
Quando
Joe Biden encerrou seu mandato em janeiro de 2025, a tarifa efetiva média dos
EUA contra produtos brasileiros era de 1,19%. Atualmente a tarifa efetiva média
é de 11,66%. No final deste mês, quando as medidas do governo Trump entrarem em
vigor, a tarifa contra o Brasil terá subido para 14,42% — um salto de mais de
13 pontos percentuais.
Nenhum
outro país viu um salto de tarifas tão grande desde que Trump voltou ao poder —
apesar de diversos países terem sofrido também aumento nas suas alíquotas. As
tarifas efetivas de importação subiram 9,57 pontos percentuais para produtos da
Coreia do Sul, 8,39 para Tailândia, 7,7 para o Japão e 7,48 pontos para a
China.
Os
dados atualizados nesta quinta-feira (16/07) são de uma iniciativa chamada
Global Trade Alert (GTA), em que números de comércio global são compilados pelo
St. Gallen Endowment, um centro de estudos independente baseado na Suíça. Esses
dados já incluem o novo anúncio feito pela Casa Branca.
Os
dados do GTA compilados com exclusividade a pedido da BBC News Brasil
consideram apenas as tarifas efetivas (ou seja, as que realmente são cobradas
em cima dos produtos) e não as tarifas nominais (que são as explícitas na
legislação e anunciadas pelo governo).
Existe
uma diferença entre as duas alíquotas, já que os EUA listam diversas exceções
de produtos brasileiros que não precisam pagar as mesmas alíquotas (confira
abaixo na reportagem).
A
alíquota nominal anunciada pela Casa Branca é de 25%, mas na prática —
considerando os mais de 2 mil produtos que são ou isentos dessas tarifas ou
recebem alíquota menor — a tarifa efetiva média é de 14,42%, segundo o cálculo
do GTA.
Produtos
brasileiros só têm taxação menor do que a dos chineses — a tarifa efetiva média
para importados da China nos EUA chegará a 21,5% no final deste mês.
Antes
do anúncio, o Brasil era o 13º país com a maior tarifa efetiva média nos EUA.
O novo
tarifaço de Trump fez o Brasil ultrapassar 11 países no ranking dos mais
tarifados do mundo: Turquia, Indonésia, Vietnã, Tailândia, Japão, Coreia do
Sul, Alemanha, Índia, Áustria, Suécia e Itália.
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Exceções
O
Brasil foi alvo de uma grande investigação comercial iniciada em julho do ano
passado — na qual acusa o governo brasileiro de uma série de práticas
comerciais desleais.
Em
junho, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em
inglês), que conduziu a investigação, havia sugerido em um documento de 107
páginas diversas medidas de retaliação contra o Brasil, com tarifas de 25%
sobre os produtos brasileiros.
Nesta
quarta-feira, o governo americano anunciou sua decisão final, que é levemente
mais branda do que a sugestão dada pelo USTR no mês passado.
A
proposta original da USTR teria elevado as tarifas efetivas médias contra
produtos brasileiros a 14,89%, pelos cálculos do GTA. Agora a entidade suíça
calcula que a tarifa média será de 14,42%.
As
tarifas americanas incidem sobre milhares de produtos importados como açúcar,
máquinas agrícolas, vestuário, máquinas elétricas, papel e aço — mas há também
uma vasta lista de exceções que foram divulgadas em um anexo em junho.
Na nova
decisão desta semana, os EUA incluíram outros produtos como mel orgânico,
ferro-gusa e café solúvel sem sabor na lista de isenções.
Os EUA
fizeram consultas em audiências públicas abertas a todos os setores da
economia. O documento divulgado pelo governo americano nesta semana afirma que
nas consultas as autoridades receberam comentários de setores industriais dos
EUA, alegando que alguns produtos brasileiros deveriam entrar na lista de
exceção das tarifas.
Entre
os motivos alegados estão o fato de que alguns desses produtos são de difícil
substituição, apresentam risco de causar interrupções na cadeia de suprimentos
ou pouco contribuiriam para os objetivos da investigação dos EUA.
Apenas
um quarto dos produtos brasileiros vão pagar a tarifa máxima de 25%, segundo o
GTA. Isso significa que dos US$ 39,6 bilhões exportados pelo Brasil para os EUA
— usando valores de 2024 — cerca de US$ 8,5 bilhões estariam sujeitos a
alíquota máxima.
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Impacto
Para
Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai, na China, e da
Fundação Dom Cabral, mesmo com a grande quantidade de exceções na lista, alguns
produtores brasileiros podem sofrer com o novo tarifaço.
"A
lista é longa. Não vai ser 25% em tudo. Grande parte do que exportamos para
eles está na lista exceção, logo o impacto será menor", disse Zeidan à BBC
News Brasil.
"Mas
[o tarifaço] afeta muita gente sim, porque eles negaram autorização para
produtos manufaturados industrializados específicos. E esses produtos são muito
mais difíceis de você achar outros compradores no mundo."
Ele diz
que para indústrias que trabalham produtos homogêneos — como commodities — há
menos impacto no tarifaço, pois as vendas podem ser redirecionadas a outros
países sem mudanças na produção.
"Mas
é mais complicado quando você produz máquinas e peças e equipamentos que são
específicos para um setor. Quanto mais especializado é, mais problemático [o
tarifaço] é para uma empresa."
"O
tarifaço, no geral, acabou sendo muito menor do que 25%. Mas para diversas
empresas o impacto vai ser bastante grande."
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Reação do Brasil
Em
nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada, disse que o dia 15 de
julho "passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um
marco lastimável".
Ainda
de acordo com a nota, o Brasil iniciará os trâmites para acionar a Lei de
Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional e levará o caso à Organização
Mundial do Comércio (OMC).
Na
terça-feira (14/07), antes do anúncio oficial das tarifas, o ministro da
Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo brasileiro poderia adotar a
reciprocidade caso os Estados Unidos confirmassem um novo tarifaço contra o
Brasil.
"A
gente chegou a suspender a tramitação do processo de reciprocidade, seguindo a
lei do Congresso Nacional, quando houve uma espécie de volta atrás no tarifaço.
Com isso agora, acho que é provável que a gente, uma vez consultado o
presidente Lula, retome o processo de reciprocidade. Tudo isso dentro de um
cenário de avaliação cautelosa", afirmou a jornalistas.
O
anúncio das tarifas já era esperado por diplomatas ouvidos em caráter reservado
pela BBC News Brasil e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa.
Em
entrevista concedida há duas semanas à BBC News Brasil, o ministro afirmou que
o governo brasileiro ainda tentava negociar um acordo de última hora com
Washington, mas já admitia a possibilidade de um desfecho desfavorável para o
país.
O
professor Rodrigo Zeidan acredita que o Brasil tem capacidade para adotar
medidas de reciprocidade — mas que isso pode gerar uma nova retaliação
americana. Nesse caso, é difícil prever o que aconteceria.
"Os
Estados Unidos disseram que as negociações continuam. É possível haver
negociação. Mas a atenção dos americanos às vezes muda muito rápido."
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Fim de outro tarifaço
Johannes
Fritz — diretor do St. Gallen Endowment que compilou os dados do GTA —
ressaltou que as tarifas americanas contra produtos brasileiros estão entrando
em vigor poucos dias antes do fim de um outro tarifaço americano de 10% contra
diversos países do mundo, inclusive o Brasil.
Em
fevereiro, Trump assinou uma proclamação com base na Seção 122 da Lei de
Comércio de 1974, que lhe permitia impor uma nova tarifa temporária de 10%
sobre produtos de todos os países.
Mas em
maio essa tarifa foi derrubada por um tribunal. No entanto, elas seguem em
vigor enquanto tramita um recurso e devem expirar apenas em 26 de julho. Em um
breve período de quatro dias — entre 22 e 26 de julho — a alíquota efetiva
contra produtos do Brasil será de 18,17%, pelos cálculos do GTA.
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O que é a investigação contra o Brasil?
Em
julho do ano passado, o governo dos EUA abriu uma investigação comercial contra
o Brasil com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um
instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras
consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos
americanos.
O
procedimento, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA
(USTR), resultou nas medidas de retaliação, como a imposição de tarifas
adicionais sobre exportações brasileiras, anunciadas nesta quarta-feira.
O
governo americano concluiu, em relatório divulgado no mês passado, que certas
práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou
restringem o comércio dos EUA".
Um dos
alvos do documento americano é o sistema de pagamentos Pix.
"O
Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em
serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas
que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.
O
governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no
Pix — "como regulador e proprietário/operador" — criando um
"conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais
adequadas".
O
documento do USTR de 107 páginas divulgado em junho trouxe conclusões da
investigação em seis áreas distintas:
• Comércio digital e serviços de pagamento
eletrônico: segundo o governo americano, "tribunais brasileiros emitiram
decisões sigilosas determinando que empresas americanas de redes sociais
removam determinados conteúdos políticos e suspendam perfis de residentes nos
Estados Unidos — em alguns casos, com alcance global —, além de proibirem as
plataformas de informar os usuários sobre essas ordens". O documento fala
em imposição de multas elevadas, restrições ao acesso a ativos, contas e
sistemas de pagamento no Brasil e, em pelo menos um caso, o bloqueio total de
um site.
• Tarifas preferenciais consideradas
injustas: "por meio de acordos comerciais preferenciais de escopo limitado
com México e Índia — que abrangem setores nos quais esses países são produtores
avançados e competitivos globalmente —, o Brasil concede tarifas mais baixas e
tratamento preferencial a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos
setores".
• Combate à corrupção: "o Brasil não
adota medidas de fiscalização suficientes para enfrentar práticas de suborno e
corrupção".
• Proteção à propriedade intelectual:
"o Brasil não reforça adequadamente a aplicação de suas leis penais e
normas aduaneiras para combater produtos falsificados"; "não resolve
a demora excessiva na análise de pedidos de patentes, especialmente no setor
biofarmacêutico"; e "não mantém ações consistentes e contínuas contra
a pirataria".
• Acesso ao mercado de etanol: em 2017,
"o Brasil interrompeu abruptamente o tratamento tarifário anteriormente
equilibrado para o etanol e, desde então, não passou a oferecer reciprocidade
às exportações americanas".
• Desmatamento ilegal: apesar de contar
com um arcabouço legal para combater o desmatamento ilegal, "o Brasil
historicamente não consegue aplicá-lo de forma eficaz, e a prática
persiste".
Analistas
afirmam que o governo Trump vem usando investigações da seção 301 como
alternativa a outra proposta de tarifaço que foi derrubada pela Suprema Corte
do país.
Em
fevereiro, o tribunal decidiu que Trump extrapolou sua autoridade ao usar uma
lei diferente — a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA,
na sigla em inglês) de 1977 – para impor tarifas abrangentes a parceiros
comerciais dos EUA, incluindo o Brasil.
A
legislação usada agora — a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — resistiria a
contestações judiciais, na avaliação de especialistas.
Fonte:
BBC News Brasil

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