sábado, 18 de julho de 2026

Como está a vida em vilarejo do Ceará um ano depois de saída em massa de moradores devido à disputa de facções

O distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, no interior do Ceará, que chegou a se tornar um território-fantasma com a saída em massa de moradores expulsos devido à disputas entre facções criminosas, vive um processo de retorno gradual da população e revitalização da comunidade. Embora não tenha voltado completamente à normalidade de antes.

O g1 esteve na comunidade nesta segunda (14) e terça-feira (15) e acompanhou, em diferentes períodos dos dias, como as famílias vivem no local, um ano depois dos episódios de violência que mudaram a rotina da comunidade interiorana.

A polícia prendeu 13 suspeitos de envolvimento com as expulsões dos moradores de Uiraponga e reforçou o policiamento do distrito, para garantir o retorno com segurança da população. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que não foi registrado nenhum homicídio no distrito, em um ano.

O distrito também virou centro de debate político na última semana, após o deputado federal André Fernandes (PL) acusar o Governo do Ceará de usar "moradores fakes" para ocupar as ruas do vilarejo e comemorar a volta da população, enquanto o local continuava sendo uma "cidade-fantasma".

O Governo do Ceará informou que tem realizado uma série de ações para a população do distrito de Uiraponga. Entre eles, reforço de policiamento; instalação de Zona Viva; implantação de Brinquepraça, Brinquedocreche e Areninha; e anunciou a pavimentação da rodovia de acesso ao distrito. Outras ações estão sendo realizadas em parceria com a Prefeitura de Morada Nova.

A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), rebateu as acusações do deputado da oposição nas redes sociais e garantiu que mais de 80 famílias já retornaram ao distrito, segundo o levantamento feito por nove agentes de saúde que atendem à comunidade. Esse retorno se intensificou em junho deste ano.

<><> Movimentação no distrito

Ao andar pelas ruas de Uiraponga é possível perceber a retomada da rotina pelas famílias que voltaram a morar no distrito.

Em uma das ruas principais, moradores estavam sentados nas calçadas, outros conversavam na frente do bar que estava aberto e tinha quem preferisse se exercitar ao ar livre. Enquanto isso, as crianças brincavam na praça.

Embora tivesse fluxo de moradores, o ambiente mudava conforme a reportagem adentrava nas vias secundárias, que, em contraste do que foi visto do primeiro momento, ainda abrigavam muitas casas fechadas e com pouca movimentação na via.

Essa diferença ficou ainda mais visível ao anoitecer, quando as ruas com mais moradores estavam iluminadas e movimentadas; e as vias secundárias, estavam desabitadas e escuras.

Além disso, alguns imóveis ainda possuem marcas de tiros nas fachadas - resquícios do período mais violento. Nas residências já reabitadas, os moradores realizaram reparos para fechar os buracos, deixando as marcas apenas na memória.

Entre esses moradores, está a auxiliar de serviços gerais Cínthia Paula Silva Oliveira, de 40 anos, que teve que sair da residência com a família em julho de 2025, quando os confrontos entre criminosos se intensificaram, e foi morar na sede de Morada Nova - a cerca de 23 quilômetros de distância do vilarejo.

"A gente saiu por medo, por falta de segurança, mas como tenho minha casa, tenho meus parentes, pois nasci e me criei aqui, sempre ia [para sede] e voltava [ao distrito]. Mesmo antes de voltar a morar, vinha dormir alguns dias ou no fim de semana", contou Cínthia.

Com o reforço do policiamento na região e a reabertura do posto de saúde da comunidade (em março deste ano), onde Cínthia trabalha, ela voltou a morar em Uiraponga. Nesse retorno, ela encontrou um cenário bem diferente do período em que o distrito abrigou mais de 2 mil moradores.

"Nos primeiros dias, quando eu voltei, a gente sentava nas calçadas, mas não tinha mesmo ninguém. Você olhava para cima e para baixo e não via uma pessoa. Tinha morador, nunca ficou sem, mas eram poucos. Você não via esse trânsito de gente, hoje é outra realidade. Voltaram poucas [pessoas], voltaram, mas hoje é outra realidade depois do acontecido”, relatou Cínthia Paula.

A auxiliar de serviços gerais rejeita o rótulo atribuído a Uiraponga de "cidade-fantasma". "Se for um [vilarejo] fantasma, eu sou um [fantasma], porque eu estou aqui desde março”, disse com bom humor a moradora.

Para o professor e articular cultural Jonh Darly, o vilarejo está em um "processo de retomada", impulsionado pelas obras de infraestrutura, reforço na segurança e eventos culturais.

"Uiraponga vive sim. Pode não ser como antes. Teve época da gente ter essas ruas completamente lotadas, mas a gente vem nesse processo de esvaziamento a muito tempo, até acontecer o que aconteceu", afirmou Jonh Darly.

O docente morou no distrito até julho do ano passado e, assim como outras pessoas, saiu do vilarejo para fugir da escalada da violência e foi para a sede da cidade. Porém, diferente dos familiares, ele ainda não retornou em definitivo, mas vai ao local diariamente.

"A gente nunca quis sair aqui, mas infelizmente precisou. Quem está se sentindo à vontade vai voltar, e a gente precisa respeitar também quem não quer voltar", disse o professor.

<><> Comércio volta ao poucos

O comércio local foi diretamente afetado pela violência que causou a saída em massa das famílias. Antes dos confrontos, segundos os moradores, o distrito tinha vários estabelecimentos e duas padarias em funcionamento.

Agora em julho de 2026, durante a visita do g1, apenas duas mercearias e um bar funcionavam no distrito.

Um desses estabelecimentos nunca fechou, pois a proprietária permaneceu no distrito mesmo quando poucas casas estavam ocupadas. O local comercializa cereais em geral, como arroz e feijão, além de bolachas, refrigerantes e produtos de limpeza.

"Tudo o que a gente tem é aqui. Tudo o que a gente construiu é aqui. Como é que a gente iria sair assim de repente?!", falou a comerciante, que não quis ser identificada.

Diferente dela, Francisco Cleto de Oliveira, 63 anos, se viu obrigado a fechar o bar que funcionava há mais de 20 anos na comunidade para ir morar com a família na sede do município.

"Fechei e fui embora para Morada Nova [sede]. Voltei em março deste ano e fiquei direto. Tudo o que tinha levei, deixei só o prédio fechado e, quando voltei, estava do mesmo jeito. Quando saí daqui montei um barzinho lá", falou Francisco Clerto.

Há 4 meses, o Bar do Cleto voltou a ser o ponto de encontro dos moradores que retornaram para Uiraponga, e o comerciante já percebeu uma melhora nas vendas.

"Quando cheguei aqui estava pouca gente, depois foi melhorando. Já melhorou muito, estou vendendo mais do que quando eu estava aqui antes", disse Clerto de Oliveira.

<><> 'Sou feliz aqui'

Quando retornou para o distrito, há cinco meses, Aurino Bento, de 65 anos, também viu no comércio uma oportunidade para o recomeço e montou uma mercearia no vilarejo.

O local, que divide espaço com a residência do homem, vende de sandálias a produtos de higiene e não tem horário fixo de funcionamento.

"Acho que não tem ninguém que goste mais desse lugar do que eu. Pode até ter igual, mas mais do que eu não tem. Decidi voltar por esse motivo, nasci aqui, me criei aqui, sou feliz aqui. O movimento não é muito, mas dá para 'ir levando'. Não é para 'enricar' não, é só para a gente comemorar a vinda à Uiraponga", disse com entusiasmo Aurino Bento.

<><> Serviços públicos

O posto de saúde, que chegou a ser transferido para a sede do município durante o ápice da crise de segurança no distrito, voltou a funcionar diariamente no mês de março. Antes disso, abria quinzenalmente ou uma vez na semana.

Durante a ida do g1 à unidade, a equipe de saúde não estava no local. Na ocasião, as outras funcionárias do posto informaram que a equipe havia saído para fazer visitas nas comunidades vizinhas, o que ocorre uma vez na semana.

Ainda conforme as funcionárias, no dia dessas visitas, o posto fica aberto para entrega de medicamentos e encaminhamento dos casos mais graves para a Upa de Morada Nova. Quando necessário, o transporte dos pacientes para a sede é feito pelo Carro da Saúde, disponibilizado pela prefeitura.

Os serviços de limpeza pública do vilarejo também ocorrem normalmente, com trabalhadores nas ruas e nas praças que fazem o recolhimento do lixo.

A escola do distrito também reabriu e voltou a receber os alunos, que tinham sido transferidos temporariamente para outro colégio.

Já o posto dos Correios permanece fechado, mas as correspondências chegam para os destinatários através de um funcionário que recolhe as cartas na sede e as encaminha para o distrito, de acordo com os moradores.

<><> Policiamento reforçado

O policiamento em Uiraponga foi reforçado logo após a saída das famílias e ao menos duas viaturas fazem rondas pelas ruas da comunidade, diariamente.

A Polícia Militar também instalou uma base fixa, com um contêiner, no ginásio do distrito. O local é provisório, até a conclusão da construção do destacamento da polícia.

Uma base fixa da Polícia Militar foi instalada no ginásio de Uiraponga e diariamente os agentes fazem rondas na comunidade. — Foto: Thiago Gadelha/SVM

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, desde julho de 2025, Uiraponga não registrou nenhum caso de Crime Violento Letal e Intencional (CVLI) - que incluem homicídios dolosos, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios.

Ainda conforme a pasta, a cidade de Morada Nova possui um efetivo de 148 policiais, divididos entre agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de viaturas e motos para patrulhamento. Também houve a instalação de câmeras de videomonitoramento, que auxiliam nos trabalhos da polícia.

"As ofensivas empreendidas também são realizadas, por meio das Coordenadorias de Inteligência (Coin/SSPDS) e de Planejamento Operacional (Copol/SSPDS), para coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores, que já resultaram nas capturas de 13 suspeitos. Um dos presos, apontado como um dos mandantes dos crimes na região, foi localizado e capturado em julho de 2025, em São Paulo", disse a Secretaria da Segurança.

<><> Melhorias na infraestrutura

Com o retorno da população, o distrito passa por uma série de intervenções na infraestrutura. A iniciativa faz parte do plano de ação conjunto entre a prefeitura e o Governo do Estado, que anunciou o envio de R$ 25 milhões para investimentos na região.

Tratores, caminhões e outras máquinas pesadas estão nas ruas, nos últimos dias, para preparar o terreno para a instalação do piso intertravado na comunidade.

"O distrito está sendo retomado, está vivendo um recomeço. Não que ele está em perfeito estado e que as famílias estão em perfeito estado, não. Mas que existiu esse recomeço e isso está sendo construído, graças a Deus, graças ao poder público. Hoje nós temos mais de 82 famílias", afirmou a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro.

Outra obra prometida, que já teve a ordem de serviço assinada pelo governador do Ceará, Elmano de Freitas, é a pavimentação asfáltica da estrada que liga Uiraponga à sede de Morada Nova.

"A estrada é uma obra transformadora, é um sonho muito antigo dessa comunidade. São mais de 20 quilômetros de pavimentação asfáltica, uma obra de mais de 20 milhões de reais, que a gente conseguiu junto ao Governo do Estado. Essa obra vem acontecendo do distrito para a sede, com a geração de empregos", destacou a prefeita.

Conforme Naiara Castro, antes dessas ações, a prefeitura enfrentou muitos desafios para atender as famílias que tinham deixado o distrito.

"Mesmo com muito receio, com muito cuidado e muita discrição nós buscamos as soluções. Enquanto muitos falavam dos problemas, vinham aqui, usavam Uiraponga como palanque político, a gente buscava as soluções. Em parceria com a prefeitura, nós conseguimos trazer grandes obras, grandes ações e começar a devolver essa paz, a dignidade que esse povo tanto precisa", afirmou Naiara Castro.

•        Mesmo sem assassinatos há um ano, ex-moradores resistem em voltar a vilarejo que teve saída em massa

O reforço na segurança, que fez com que o distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no interior no Ceará, não registrasse assassinatos há um ano, e outras ações de melhoria, ainda não foram suficientes para convencer alguns ex-moradores a retornarem de vez para o vilarejo que teve saída em massa de famílias devido à disputa de facções criminosas.

A comunidade, a 23 quilômetros da sede do município, vive atualmente um processo de retorno gradual da população, que saiu do local às pressas em julho de 2025, após ameaças de criminosos.

Em agosto do ano passado, período de intensificação dos confrontos na região, Uiraponga chegou a ficar apenas com cinco residências ocupadas, em meio aos mais de mil imóveis que fazem parte do vilarejo, segundo moradores da região.

Este ano, conforme a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), mais de 80 famílias retonaram para o vilarejo, de acordo com o levantamento feito por nove agentes de saúde que atendem a comunidade. Esse retorno se intensificou em junho de 2026.

Em 2025, a polícia prendeu 13 criminosos envolvidos nos "deslocamentos forçados", como a Secretaria da Segurança Pública do Ceará se refere aos crimes em que bandidos expulsam os residentes de casa. Entre eles, está um homem apontado como um dos mandantes dos crime na região, capturado em São Paulo.

<><> 'Foi doído'

Diferentemente dos que já voltaram a residir no distrito, outros ex-moradores vão à comunidade pela afetividade, mas preferiram seguir a vida em outro local. É o caso da Maria José do Nascimento, a "Mazé", de 63 anos, que há dez meses deixou a residência que sempre viveu para ir morar com a filha em Limoeiro do Norte.

"Foi doído! Uma das últimas que saiu fui eu. Todo mundo saiu chorando", disse Maria José sobre o dia que teve que deixar Uiraponga.

Agora, Mazé se divide entre as duas casas, passando uma temporada em Uiraponga e outra em Limoeiro do Norte.

"Depois que eu fui [embora], eu vim várias vezes. [...] Vim aqui olhar minha casinha e vou passar até o final do mês", disse a ex-moradora.

Mesmo reconhecendo as melhorias na comunidade, a mulher ainda não tem previsão de retornar definitivamente para o vilarejo.

"Quando o pessoal pergunta se vou voltar, eu digo que não sei, não vou dizer nada. Não posso dizer que não volto mais, pois nasci e me criei aqui, nunca esqueço. Não estou confirmada de voltar agora não. Quem sabe? Deus que sabe" disse Maria José.

Indo e voltando

Esse processo de ficar "indo e voltando" de Uiraponga já é conhecido do aposentado José Bento Neto, que saiu do distrito ainda na juventude para trabalhar, firmou moradia em Fortaleza, mas sempre que pode passa uma temporada na comunidade.

"Saí daqui para trabalhar fora, mas nunca passei um ano sem andar aqui", falou José Bento Neto.

No dia da saída em massa dos moradores, ele estava se preparando para ir à Festa de Nossa Senhora do Livramento, padroeira do distrito, que acabou não acontecendo em 2025.

"Estava arrumando as malas para vir para a festa. Houve esses negócios aqui e o pessoal foi embora. Aqui já teve coisa pior que esses negócios de quando o pessoal foi embora. Umas cabeças saíram e os outros saíram atrás, foram todo mundo", relembrou o aposentado.

José Bento está otimista sobre o futuro do vilarejo após a conclusão das obras que estão sendo feitas na região: "Já melhorou muito e vai melhorar mais ainda".

 

Fonte: g1

 

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