Como
está a vida em vilarejo do Ceará um ano depois de saída em massa de moradores
devido à disputa de facções
O
distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, no interior do Ceará, que
chegou a se tornar um território-fantasma com a saída em massa de moradores
expulsos devido à disputas entre facções criminosas, vive um processo de
retorno gradual da população e revitalização da comunidade. Embora não tenha
voltado completamente à normalidade de antes.
O g1
esteve na comunidade nesta segunda (14) e terça-feira (15) e acompanhou, em
diferentes períodos dos dias, como as famílias vivem no local, um ano depois
dos episódios de violência que mudaram a rotina da comunidade interiorana.
A
polícia prendeu 13 suspeitos de envolvimento com as expulsões dos moradores de
Uiraponga e reforçou o policiamento do distrito, para garantir o retorno com
segurança da população. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do
Ceará (SSPDS) informou que não foi registrado nenhum homicídio no distrito, em
um ano.
O
distrito também virou centro de debate político na última semana, após o
deputado federal André Fernandes (PL) acusar o Governo do Ceará de usar
"moradores fakes" para ocupar as ruas do vilarejo e comemorar a volta
da população, enquanto o local continuava sendo uma
"cidade-fantasma".
O
Governo do Ceará informou que tem realizado uma série de ações para a população
do distrito de Uiraponga. Entre eles, reforço de policiamento; instalação de
Zona Viva; implantação de Brinquepraça, Brinquedocreche e Areninha; e anunciou
a pavimentação da rodovia de acesso ao distrito. Outras ações estão sendo
realizadas em parceria com a Prefeitura de Morada Nova.
A
prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), rebateu as acusações do deputado
da oposição nas redes sociais e garantiu que mais de 80 famílias já retornaram
ao distrito, segundo o levantamento feito por nove agentes de saúde que atendem
à comunidade. Esse retorno se intensificou em junho deste ano.
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Movimentação no distrito
Ao
andar pelas ruas de Uiraponga é possível perceber a retomada da rotina pelas
famílias que voltaram a morar no distrito.
Em uma
das ruas principais, moradores estavam sentados nas calçadas, outros
conversavam na frente do bar que estava aberto e tinha quem preferisse se
exercitar ao ar livre. Enquanto isso, as crianças brincavam na praça.
Embora
tivesse fluxo de moradores, o ambiente mudava conforme a reportagem adentrava
nas vias secundárias, que, em contraste do que foi visto do primeiro momento,
ainda abrigavam muitas casas fechadas e com pouca movimentação na via.
Essa
diferença ficou ainda mais visível ao anoitecer, quando as ruas com mais
moradores estavam iluminadas e movimentadas; e as vias secundárias, estavam
desabitadas e escuras.
Além
disso, alguns imóveis ainda possuem marcas de tiros nas fachadas - resquícios
do período mais violento. Nas residências já reabitadas, os moradores
realizaram reparos para fechar os buracos, deixando as marcas apenas na
memória.
Entre
esses moradores, está a auxiliar de serviços gerais Cínthia Paula Silva
Oliveira, de 40 anos, que teve que sair da residência com a família em julho de
2025, quando os confrontos entre criminosos se intensificaram, e foi morar na
sede de Morada Nova - a cerca de 23 quilômetros de distância do vilarejo.
"A
gente saiu por medo, por falta de segurança, mas como tenho minha casa, tenho
meus parentes, pois nasci e me criei aqui, sempre ia [para sede] e voltava [ao
distrito]. Mesmo antes de voltar a morar, vinha dormir alguns dias ou no fim de
semana", contou Cínthia.
Com o
reforço do policiamento na região e a reabertura do posto de saúde da
comunidade (em março deste ano), onde Cínthia trabalha, ela voltou a morar em
Uiraponga. Nesse retorno, ela encontrou um cenário bem diferente do período em
que o distrito abrigou mais de 2 mil moradores.
"Nos
primeiros dias, quando eu voltei, a gente sentava nas calçadas, mas não tinha
mesmo ninguém. Você olhava para cima e para baixo e não via uma pessoa. Tinha
morador, nunca ficou sem, mas eram poucos. Você não via esse trânsito de gente,
hoje é outra realidade. Voltaram poucas [pessoas], voltaram, mas hoje é outra
realidade depois do acontecido”, relatou Cínthia Paula.
A
auxiliar de serviços gerais rejeita o rótulo atribuído a Uiraponga de
"cidade-fantasma". "Se for um [vilarejo] fantasma, eu sou um
[fantasma], porque eu estou aqui desde março”, disse com bom humor a moradora.
Para o
professor e articular cultural Jonh Darly, o vilarejo está em um "processo
de retomada", impulsionado pelas obras de infraestrutura, reforço na
segurança e eventos culturais.
"Uiraponga
vive sim. Pode não ser como antes. Teve época da gente ter essas ruas
completamente lotadas, mas a gente vem nesse processo de esvaziamento a muito
tempo, até acontecer o que aconteceu", afirmou Jonh Darly.
O
docente morou no distrito até julho do ano passado e, assim como outras
pessoas, saiu do vilarejo para fugir da escalada da violência e foi para a sede
da cidade. Porém, diferente dos familiares, ele ainda não retornou em
definitivo, mas vai ao local diariamente.
"A
gente nunca quis sair aqui, mas infelizmente precisou. Quem está se sentindo à
vontade vai voltar, e a gente precisa respeitar também quem não quer
voltar", disse o professor.
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Comércio volta ao poucos
O
comércio local foi diretamente afetado pela violência que causou a saída em
massa das famílias. Antes dos confrontos, segundos os moradores, o distrito
tinha vários estabelecimentos e duas padarias em funcionamento.
Agora
em julho de 2026, durante a visita do g1, apenas duas mercearias e um bar
funcionavam no distrito.
Um
desses estabelecimentos nunca fechou, pois a proprietária permaneceu no
distrito mesmo quando poucas casas estavam ocupadas. O local comercializa
cereais em geral, como arroz e feijão, além de bolachas, refrigerantes e
produtos de limpeza.
"Tudo
o que a gente tem é aqui. Tudo o que a gente construiu é aqui. Como é que a
gente iria sair assim de repente?!", falou a comerciante, que não quis ser
identificada.
Diferente
dela, Francisco Cleto de Oliveira, 63 anos, se viu obrigado a fechar o bar que
funcionava há mais de 20 anos na comunidade para ir morar com a família na sede
do município.
"Fechei
e fui embora para Morada Nova [sede]. Voltei em março deste ano e fiquei
direto. Tudo o que tinha levei, deixei só o prédio fechado e, quando voltei,
estava do mesmo jeito. Quando saí daqui montei um barzinho lá", falou
Francisco Clerto.
Há 4
meses, o Bar do Cleto voltou a ser o ponto de encontro dos moradores que
retornaram para Uiraponga, e o comerciante já percebeu uma melhora nas vendas.
"Quando
cheguei aqui estava pouca gente, depois foi melhorando. Já melhorou muito,
estou vendendo mais do que quando eu estava aqui antes", disse Clerto de
Oliveira.
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'Sou feliz aqui'
Quando
retornou para o distrito, há cinco meses, Aurino Bento, de 65 anos, também viu
no comércio uma oportunidade para o recomeço e montou uma mercearia no
vilarejo.
O
local, que divide espaço com a residência do homem, vende de sandálias a
produtos de higiene e não tem horário fixo de funcionamento.
"Acho
que não tem ninguém que goste mais desse lugar do que eu. Pode até ter igual,
mas mais do que eu não tem. Decidi voltar por esse motivo, nasci aqui, me criei
aqui, sou feliz aqui. O movimento não é muito, mas dá para 'ir levando'. Não é
para 'enricar' não, é só para a gente comemorar a vinda à Uiraponga",
disse com entusiasmo Aurino Bento.
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Serviços públicos
O posto
de saúde, que chegou a ser transferido para a sede do município durante o ápice
da crise de segurança no distrito, voltou a funcionar diariamente no mês de
março. Antes disso, abria quinzenalmente ou uma vez na semana.
Durante
a ida do g1 à unidade, a equipe de saúde não estava no local. Na ocasião, as
outras funcionárias do posto informaram que a equipe havia saído para fazer
visitas nas comunidades vizinhas, o que ocorre uma vez na semana.
Ainda
conforme as funcionárias, no dia dessas visitas, o posto fica aberto para
entrega de medicamentos e encaminhamento dos casos mais graves para a Upa de
Morada Nova. Quando necessário, o transporte dos pacientes para a sede é feito
pelo Carro da Saúde, disponibilizado pela prefeitura.
Os
serviços de limpeza pública do vilarejo também ocorrem normalmente, com
trabalhadores nas ruas e nas praças que fazem o recolhimento do lixo.
A
escola do distrito também reabriu e voltou a receber os alunos, que tinham sido
transferidos temporariamente para outro colégio.
Já o
posto dos Correios permanece fechado, mas as correspondências chegam para os
destinatários através de um funcionário que recolhe as cartas na sede e as
encaminha para o distrito, de acordo com os moradores.
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Policiamento reforçado
O
policiamento em Uiraponga foi reforçado logo após a saída das famílias e ao
menos duas viaturas fazem rondas pelas ruas da comunidade, diariamente.
A
Polícia Militar também instalou uma base fixa, com um contêiner, no ginásio do
distrito. O local é provisório, até a conclusão da construção do destacamento
da polícia.
Uma
base fixa da Polícia Militar foi instalada no ginásio de Uiraponga e
diariamente os agentes fazem rondas na comunidade. — Foto: Thiago Gadelha/SVM
De
acordo com a Secretaria da Segurança Pública, desde julho de 2025, Uiraponga
não registrou nenhum caso de Crime Violento Letal e Intencional (CVLI) - que
incluem homicídios dolosos, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e
latrocínios.
Ainda
conforme a pasta, a cidade de Morada Nova possui um efetivo de 148 policiais,
divididos entre agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de viaturas
e motos para patrulhamento. Também houve a instalação de câmeras de
videomonitoramento, que auxiliam nos trabalhos da polícia.
"As
ofensivas empreendidas também são realizadas, por meio das Coordenadorias de
Inteligência (Coin/SSPDS) e de Planejamento Operacional (Copol/SSPDS), para
coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores, que já
resultaram nas capturas de 13 suspeitos. Um dos presos, apontado como um dos
mandantes dos crimes na região, foi localizado e capturado em julho de 2025, em
São Paulo", disse a Secretaria da Segurança.
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Melhorias na infraestrutura
Com o
retorno da população, o distrito passa por uma série de intervenções na
infraestrutura. A iniciativa faz parte do plano de ação conjunto entre a
prefeitura e o Governo do Estado, que anunciou o envio de R$ 25 milhões para
investimentos na região.
Tratores,
caminhões e outras máquinas pesadas estão nas ruas, nos últimos dias, para
preparar o terreno para a instalação do piso intertravado na comunidade.
"O
distrito está sendo retomado, está vivendo um recomeço. Não que ele está em
perfeito estado e que as famílias estão em perfeito estado, não. Mas que
existiu esse recomeço e isso está sendo construído, graças a Deus, graças ao
poder público. Hoje nós temos mais de 82 famílias", afirmou a prefeita de
Morada Nova, Naiara Castro.
Outra
obra prometida, que já teve a ordem de serviço assinada pelo governador do
Ceará, Elmano de Freitas, é a pavimentação asfáltica da estrada que liga
Uiraponga à sede de Morada Nova.
"A
estrada é uma obra transformadora, é um sonho muito antigo dessa comunidade.
São mais de 20 quilômetros de pavimentação asfáltica, uma obra de mais de 20
milhões de reais, que a gente conseguiu junto ao Governo do Estado. Essa obra
vem acontecendo do distrito para a sede, com a geração de empregos",
destacou a prefeita.
Conforme
Naiara Castro, antes dessas ações, a prefeitura enfrentou muitos desafios para
atender as famílias que tinham deixado o distrito.
"Mesmo
com muito receio, com muito cuidado e muita discrição nós buscamos as soluções.
Enquanto muitos falavam dos problemas, vinham aqui, usavam Uiraponga como
palanque político, a gente buscava as soluções. Em parceria com a prefeitura,
nós conseguimos trazer grandes obras, grandes ações e começar a devolver essa
paz, a dignidade que esse povo tanto precisa", afirmou Naiara Castro.
• Mesmo sem assassinatos há um ano,
ex-moradores resistem em voltar a vilarejo que teve saída em massa
O
reforço na segurança, que fez com que o distrito de Uiraponga, em Morada Nova,
no interior no Ceará, não registrasse assassinatos há um ano, e outras ações de
melhoria, ainda não foram suficientes para convencer alguns ex-moradores a
retornarem de vez para o vilarejo que teve saída em massa de famílias devido à
disputa de facções criminosas.
A
comunidade, a 23 quilômetros da sede do município, vive atualmente um processo
de retorno gradual da população, que saiu do local às pressas em julho de 2025,
após ameaças de criminosos.
Em
agosto do ano passado, período de intensificação dos confrontos na região,
Uiraponga chegou a ficar apenas com cinco residências ocupadas, em meio aos
mais de mil imóveis que fazem parte do vilarejo, segundo moradores da região.
Este
ano, conforme a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), mais de 80
famílias retonaram para o vilarejo, de acordo com o levantamento feito por nove
agentes de saúde que atendem a comunidade. Esse retorno se intensificou em
junho de 2026.
Em
2025, a polícia prendeu 13 criminosos envolvidos nos "deslocamentos
forçados", como a Secretaria da Segurança Pública do Ceará se refere aos
crimes em que bandidos expulsam os residentes de casa. Entre eles, está um
homem apontado como um dos mandantes dos crime na região, capturado em São
Paulo.
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'Foi doído'
Diferentemente
dos que já voltaram a residir no distrito, outros ex-moradores vão à comunidade
pela afetividade, mas preferiram seguir a vida em outro local. É o caso da
Maria José do Nascimento, a "Mazé", de 63 anos, que há dez meses
deixou a residência que sempre viveu para ir morar com a filha em Limoeiro do
Norte.
"Foi
doído! Uma das últimas que saiu fui eu. Todo mundo saiu chorando", disse
Maria José sobre o dia que teve que deixar Uiraponga.
Agora,
Mazé se divide entre as duas casas, passando uma temporada em Uiraponga e outra
em Limoeiro do Norte.
"Depois
que eu fui [embora], eu vim várias vezes. [...] Vim aqui olhar minha casinha e
vou passar até o final do mês", disse a ex-moradora.
Mesmo
reconhecendo as melhorias na comunidade, a mulher ainda não tem previsão de
retornar definitivamente para o vilarejo.
"Quando
o pessoal pergunta se vou voltar, eu digo que não sei, não vou dizer nada. Não
posso dizer que não volto mais, pois nasci e me criei aqui, nunca esqueço. Não
estou confirmada de voltar agora não. Quem sabe? Deus que sabe" disse
Maria José.
Indo e
voltando
Esse
processo de ficar "indo e voltando" de Uiraponga já é conhecido do
aposentado José Bento Neto, que saiu do distrito ainda na juventude para
trabalhar, firmou moradia em Fortaleza, mas sempre que pode passa uma temporada
na comunidade.
"Saí
daqui para trabalhar fora, mas nunca passei um ano sem andar aqui", falou
José Bento Neto.
No dia
da saída em massa dos moradores, ele estava se preparando para ir à Festa de
Nossa Senhora do Livramento, padroeira do distrito, que acabou não acontecendo
em 2025.
"Estava
arrumando as malas para vir para a festa. Houve esses negócios aqui e o pessoal
foi embora. Aqui já teve coisa pior que esses negócios de quando o pessoal foi
embora. Umas cabeças saíram e os outros saíram atrás, foram todo mundo",
relembrou o aposentado.
José
Bento está otimista sobre o futuro do vilarejo após a conclusão das obras que
estão sendo feitas na região: "Já melhorou muito e vai melhorar mais
ainda".
Fonte:
g1

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