sábado, 18 de julho de 2026

A conciliação em tempos de hegemonia financeira

Vivemos em um mundo no qual as principais dinâmicas econômicas não são mais centralmente pautadas pela chamada “economia real”, vale dizer, pelo investimento das indústrias, fábricas e pelo próprio consumo. A hegemonia, hoje, pertence ao capital financeiro, estruturado a partir de uma fusão do capital que subordina a acumulação à lógica dos juros.

Trata-se da era do rentismo e da especulação, no que pode ser compreendido como uma nova etapa do capitalismo em escala global: a financeirização. Diante desse cenário, as relações sociais e econômicas passam a ser ditadas pela esfera financeira, que estende seus tentáculos, inevitavelmente, também à esfera política.

É na esteira dessa dinâmica que se percebe, no Brasil, uma crescente submissão das decisões econômicas, tanto por parte do Banco Central (independente em sua aparência) quanto do próprio Executivo, aos imperativos de acumulação arbitrariamente estabelecidos por uma coalizão financeiro-rentista, nos termos propostos por Luiz Carlos Bresser-Pereira e economistas associados.

Essa coalizão, conforme os autores, constitui-se por grupos econômico-financeiros cuja valorização do patrimônio ocorre de forma majoritária por meio dos juros da dívida pública, além de gestores, tecnoburocratas e executivos que operam na gestão do ganho rentista. Ganho este proveniente da instituição impositiva de juros reais figurando constantemente entre os maiores do mundo, subordinando a execução do orçamento público federal à lógica do capital portador de juros.

O fenômeno, iniciado desde o Plano Real, culmina hoje com a captura e a destinação de aproximadamente 10% do orçamento federal para o pagamento de juros e encargos aos credores da dívida, já excluindo, neste cálculo, a amortização e o refinanciamento do principal.

No início do século XXI, entretanto, a ascensão do lulismo promoveu um profundo teste a essa estrutura, que, embora consolidada na década de 1990, ainda se encontrava em período de maturação. Graças a uma hábil articulação política, mas, sobretudo, gozando de um cenário internacional extremamente favorável, foi possível sustentar uma complexa conciliação entre os interesses da elite financeira nacional e a proposição de uma ampla agenda social.

Nos dois primeiros mandatos de Lula, o país logrou promover um aumento real de 57% no salário mínimo, além de criar e expandir programas de transferência de renda e inclusão social, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Esse arranjo permitiu, de forma inédita no período recente, elevar de maneira constante a parcela dos salários na renda nacional, alterando temporariamente a distribuição funcional entre capital e trabalho.

De fato, não foi sem resistência que se deu essa implementação. Houve rejeição e agudo receio por parte dos agentes do mercado financeiro, amparados pela desconfiança internacional das agências de risco de crédito e dos detentores de capitais especulativos globais. No entanto, a agenda social mostrou-se politicamente viável, pois, em paralelo, o “boom das commodities” e o crescimento das exportações brasileiras possibilitaram uma sequência de massivos superávits primários de ordem superior a 3% do PIB.

Isso, por sua vez, garantia a solvência da dívida pública e, portanto, a remuneração do capital portador de juros – que se apropriava cada vez mais do orçamento federal por meio de uma Selic mantida em patamares recorrentemente elevados. Desse modo, apesar da apreensão da esfera financeira, foi possível combinar com inegável sucesso, em raro alinhamento de fatores, as demandas dos rentistas com a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora.

Tal conciliação, contudo, mostrou-se extremamente frágil a partir da transição para o governo Dilma Rousseff. O cenário externo, outrora benéfico e otimista, começou a reverter sua tendência a partir de 2011. A retração da atividade global, puxada pela crise da zona do euro, pela lenta recuperação dos Estados Unidos e pelo menor ritmo de crescimento chinês, pavimentou o caminho para uma queda acentuada no preço internacional das commodities.

Diante desse novo quadro, parcialmente em resposta à crise e parcialmente em função da mudança de ênfase na condução do governo, o Palácio do Planalto passou a desafiar os interesses do mercado financeiro, utilizando-se de bancos públicos para reduzir os spreads bancários e a taxa básica de juros. Um movimento ousado, que André Singer, em seu clássico artigo de 2015, comparou a “cutucar onças com varas curtas” diante do poder dos agentes financeiros e da limitada base de apoio político de Dilma Rousseff.

Os desdobramentos desse confronto são conhecidos: a eclosão de uma intensa crise política, seguida por uma recessão econômica igualmente severa, que pode ser explicada, em parte, pelo fenômeno que o sociólogo Wolfgang Streeck denomina “greve de investimentos”. No caso brasileiro, essa paralisia foi motivada pela percepção de que a atividade estatal havia rompido as regras do jogo, gerando uma retração deliberada do capital privado como forma de veto político à agenda do governo. Evidenciam-se, assim, os limites da conciliação. Na ausência de marés favoráveis e do compromisso sacrossanto com a remuneração dos detentores dos juros da dívida, não há possibilidade de que um projeto, independentemente de seus méritos, se sustente politicamente.

Retornemos agora aos dias atuais. É nítido como o governo Lula 3 tentou emular a frágil conciliação do início do século, apesar de enfrentar uma conjuntura radicalmente distinta daquela dos anos 2000. Se, por um lado, foi possível promover o aumento real e contínuo do salário mínimo, a expansão das políticas sociais e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, por outro, a gestão buscou concessões impossíveis à esfera financeira.

Pelo lado monetário, o Executivo pouco pôde contra a imposição da maior taxa de juros real do mundo por parte de um Banco Central autônomo, mesmo com o país apresentando patamares inflacionários considerados comuns no contexto de uma economia emergente.

No flanco fiscal, a imposição do Novo Arcabouço, embora menos rígido que o Teto de Gastos da PEC 95/2016, manteve a despesa pública permanentemente engessada a um comportamento procíclico. Ou seja, o investimento público não apenas foi impedido de atuar como indutor da demanda interna e do nível de atividade, como ficou impossibilitado de mitigar quaisquer crises, função anticíclica cuja relevância passou a ser reconhecida até mesmo pelos monetaristas mais enfáticos após a crise financeira global de 2008.

Mesmo com tamanhas concessões, sabidamente prejudiciais à economia, o governo não logrou entregar o superávit primário tão almejado pela coalizão financeiro-rentista. Como resposta, cada medida tímida no âmbito pró-trabalho passou a ser duramente rechaçada pelos agentes financeiros por meio de ataques especulativos, volatilidade artificial no câmbio e um boicote silencioso que estrangulou a capacidade de planejamento econômico do país, enterrando a longínqua ideia de desenvolvimento econômico.

A experiência recente revela, mais uma vez, que a tolerância da esfera financeira a políticas distributivas permanece condicionada à preservação dos mecanismos de remuneração do capital portador de juros.

Ironicamente, as medidas recessivas adotadas pelo governo na tentativa de agradar a gregos e troianos são as mesmas que aprofundam a estagnação econômica, o desemprego e a precarização do mercado de trabalho – precisamente o ecossistema que alimenta a extrema direita e facilita a penetração de suas ideias reacionárias entre as camadas populares mais vulneráveis e sensíveis aos ciclos econômicos.

Ainda que sob a justificativa da governabilidade ou da mera sobrevivência política, insistir na reedição de uma conciliação de classes cujas condições materiais de existência evaporaram não é apenas um anacronismo, mas uma forma de suicídio político. Ao se recusar a enfrentar o rentismo, a esquerda abdica de propor o desenvolvimento e, com isso, pavimenta o caminho para a consolidação de um projeto autoritário intrinsecamente aliado ao capital financeiro.

A conjuntura mudou, as finanças hipertrofiaram seus poderes e, assim, sepultaram qualquer ilusão de conciliação.

 

Fonte: Por Franco Nunes Tazza, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: