Enquanto
argentinos vibram com a Copa, Milei avança para entregar terras estratégicas ao
capital estrangeiro
O
Governo aproveita a semana decisiva da Copa do Mundo para avançar com a
estrangeirização da terra. Nesta quinta-feira (16), um dia após a vitória da
seleção argentina sobre a Inglaterra, na qual a administração de Javier Milei
validou, sem questionamentos, a proibição da entrada de bandeiras das Ilhas Malvinas, o governo busca
aprovar o projeto de “Inviolabilidade da
Propriedade Privada”.
Trata-se de um pacote de medidas que elimina as restrições para que empresários
estrangeiros possam comprar terras rurais sem limites, autoriza despejos
sumários e desmonta as proteções sobre as florestas nativas e as terras
devastadas pelo fogo.
Segundo
o porta-voz presidencial, Adrián Ravier, “a norma de 2011 criminalizou a compra
de terras por estrangeiros”.
“Um
absurdo que decorre de sua má-fé ou de sua ignorância”, afirmaram integrantes
do Observatório de Terras da Universidade de Buenos Aires (UBA), além de
alertarem que se trata de uma lei feita sob medida para o capital
norte-americano. O peronismo no Senado busca bloquear o capítulo referente à
estrangeirização das terras.
Após
várias semanas de intensas negociações, o governo busca autorizar a compra, por
parte de investidores estrangeiros, da totalidade do território nacional.
Trata-se
do projeto de Federico Sturzenegger, que já recebeu mais de uma dúzia de
modificações. A versão do parecer que circula entre os senadores leva o número
14 e evidencia a quantidade de vezes que o documento foi alterado.
“Eles
continuam mexendo no texto por baixo da mesa, mesmo depois de ele já ter saído
das comissões”, revelou uma fonte da bancada Popular a este jornal,
acrescentando que “provavelmente sejam propostas as mudanças negociadas com
base no parecer que já existia”.
Na
tarde de 14 de julho, governo e oposição protagonizaram negociações intensas.
Segundo apurou o Página/12, o governo ainda não tinha os votos
suficientes, e havia rumores de que a sessão seria novamente suspensa. O
peronismo, por sua vez, trabalhava para bloquear o capítulo sobre a
estrangeirização da terra.
“Temos
35, falta um voto”, contou um senador familiarizado com a contagem dos votos
ao Página/12. De fato, se a sessão transcorrer sem ausências, a
oposição precisará de 36 votos para bloquear as iniciativas do governo.
<><>
Falácias libertárias
Por
trás do discurso sobre a defesa irrestrita da propriedade privada, o Governo
impulsiona uma redefinição do regime fundiário que facilita a entrada de capital
estrangeiro sobre
ativos estratégicos. A discussão vai além do direito de propriedade e atenta
contra a soberania.
Entre
todos os pontos, a estrangeirização da terra é o aspecto mais prejudicial para
a integridade nacional. Em entrevista coletiva, o porta-voz presidencial,
Adrián Ravier, confirmou que o Governo “propõe eliminar as restrições gerais
para a aquisição de terras rurais por estrangeiros”.
Ao
mesmo tempo, criticou a legislação vigente ao afirmar que “a norma de 2011
criminalizou a compra de terras por estrangeiros” e tentou diferenciar atores
privados de estatais ao declarar: “Uma coisa é um investidor privado e outra é
um Estado estrangeiro”. “Isso é um absurdo, que decorre da má-fé ou da
ignorância”, respondeu Pablo Voldkin, coordenador do Observatório de Terras.
Longe de “criminalizar” a compra de terras, explicou, a lei vigente a autoriza
e apenas regula a concentração excessiva em mãos de capitais estrangeiros.
Segundo
Voldkin, atualmente os estrangeiros possuem cerca de 5% das terras rurais do
país, enquanto a legislação vigente permite que esse percentual chegue a 15%.
“Hoje eles possuem 13 milhões de hectares e poderiam chegar a ser proprietários
de praticamente 40 milhões de hectares, uma superfície maior do que toda a
província de Buenos Aires”, explicou. Em outras palavras, a norma ainda permite
incorporar cerca de 26 milhões de hectares adicionais ao domínio estrangeiro. O
verdadeiro objetivo da reforma, sustenta o pesquisador, é eliminar os limites
justamente nos territórios onde a terra adquire valor estratégico.
“O
problema não é que a lei impeça a compra de terras, mas sim que há
departamentos onde a estrangeirização já supera 40% ou 50%, especialmente nas
regiões da Cordilheira”, advertiu. Com a eliminação desses limites, áreas onde
se concentram recursos estratégicos, como lítio, petróleo, minerais críticos e
corredores bioceânicos, poderiam ficar completamente sob controle de capitais
estrangeiros.
Voldkin
também questionou a diferenciação feita por Ravier entre Estados e investidores
privados. “Os Estados estrangeiros não são os que mais compram terras na
Argentina; os principais compradores são pessoas físicas e jurídicas”, afirmou.
Por isso, o verdadeiro objetivo do governo é remover os limites que hoje recaem
sobre o capital privado estrangeiro. Soma-se a isso a eliminação do percentual
por nacionalidade previsto na legislação vigente, uma modificação que, segundo
o pesquisador, “foi feita sob medida para o capital norte-americano”, principal
proprietário de terras rurais no país. Um país moldado para os tecno-ricos que
Milei admira.
“É um
projeto de estrangeirização do território. Não é coincidência que queiram
tratá-lo em pleno Mundial: precisam fazê-lo quando a sociedade está olhando
para outro lado. Nós mantemos nossa rejeição porque a Argentina deve ser
defendida em todos os campos. Sem território, deixamos de ser um país
soberano”, afirmou o senador Wado de Pedro ao Página/12. “A única
explicação para isso é algum negócio inconfessável de Milei com
megabilionários, fundos especulativos ou potências estrangeiras”, concluiu.
<><>
Contra as desapropriações
O
projeto também endurece as condições para que o Estado possa desapropriar bens
privados. A iniciativa restringe o alcance do conceito de “utilidade pública”,
elevando o patamar necessário para justificar uma desapropriação e fortalecendo
a posição dos proprietários diante de qualquer tentativa do Estado de retomar
imóveis por razões de interesse público.
O
Estado deverá indenizar não apenas o valor da propriedade, mas também os lucros
que o proprietário comprovar ter deixado de obter como consequência direta da
desapropriação. Ao mesmo tempo, estabelece que a imissão na posse só poderá
ocorrer após o pagamento integral da indenização, atualizada pela inflação e
acrescida de juros. Até mesmo as ocupações temporárias de imóveis ficarão
limitadas a um prazo máximo de 90 dias. Na prática, a reforma dificulta que
futuros governos possam recuperar ativos estratégicos por meio do instrumento
da desapropriação.
<><>
Despejos sumários
Outro
dos eixos da reforma é a aceleração dos despejos. O texto permite que qualquer
pessoa que alegue possuir um direito ou um interesse legítimo sobre um imóvel
possa solicitar a restituição imediata da propriedade. Se o juiz considerar que
o pedido reúne elementos suficientes em uma análise preliminar, poderá
determinar a entrega do imóvel sem aguardar a sentença definitiva do processo.
A única
flexibilização prevista, após intensas negociações, aplica-se a domicílios onde
vivam crianças, pessoas com deficiência ou idosos sem alternativa de moradia.
Nesses casos, será concedido um prazo de dez dias para facilitar a busca de
outro local para viver.
<><>
Sinal verde para os incêndios intencionais
A
iniciativa também altera a Lei de Manejo do Fogo e elimina um dos principais
mecanismos de desestímulo aos incêndios criminosos. Deixam de existir as
restrições que impediam a mudança da destinação das áreas atingidas pelo fogo
durante 60 anos, instrumento incorporado pelo deputado Máximo Kirchner para
evitar que os incêndios fossem utilizados como mecanismo de valorização
imobiliária ou de expansão da fronteira agropecuária.
Com a
reforma, são eliminadas as proibições que impediam a implantação de
empreendimentos imobiliários, o desenvolvimento de atividades agropecuárias ou
a alteração do uso do solo em áreas queimadas por um período de 30 anos. A
medida extingue a principal salvaguarda destinada a desestimular a especulação
sobre terras devastadas pelo fogo.
¨
Milei critica jogadores argentinos por exibirem faixa das
Malvinas após vitória na Copa
Em
entrevista a um programa de rádio, nesta quinta-feira (16/07), o presidente da
Argentina, Javier Milei, criticou os
jogadores que exibiram uma faixa sobre a questão das Ilhas Malvinas após a
vitória que classificou o país para final da Copa do Mundo de 2026.
Segundo
o diário Página/12, o mandatário afirmou que “a política não deve
se apropriar do futebol e da festa dos argentinos”.
Nesta
quarta-feira (15/07), a seleção da Argentina venceu a Inglaterra de virada,
pelo placar de 2×1, em partida de semifinal da Copa do Mundo, disputada em
Atlanta, nos Estados Unidos. Com isso, a equipe garantiu classificação à final
do torneio, que será disputada no domingo (19/07), em Nova Jersey, contra a
Espanha.
Após a
semifinal, os jogadores Nicolás Otamendi, Giovani Lo Celso e Lisandro Martínez
exibiram uma faixa com os dizeres “as Malvinas são argentinas”.
Em
outro momento da entrevista, Milei chamou de “miseráveis” aqueles que
aproveitaram a partida contra a Inglaterra para abordar o tema das ilhas – mas
não esclareceu se a crítica se referia especificamente aos jogadores ou se foi
uma crítica mais abrangente.
<><>
Contexto
As
Ilhas Malvinas são um arquipélago localizado nas proximidades da costa sudeste
do território continental da Argentina, que se mantém, desde meados do Século
19, sob controle militar do Reino Unido, que o denomina como Ilhas Falklands.
Desde
então, a Argentina reivindica a soberania das ilhas, e chegou a iniciar uma
guerra para tentar retomá-las, em 1982, durante a última ditadura militar do
país.
A então
chamada Guerra das Malvinas durou dez semanas, entre abril e junho daquele ano,
e terminou com o Reino Unido revalidando seu controle sobre o território.
Segundo fontes oficiais dos dois países, cerca de 255 mortes britânicos e 649
argentinos morreram durante as batalhas.
A
manifestação dos jogadores argentinos na semifinal da Copa gerou um pedido formal do governo do Reino
Unido à
Federação Internacional de Futebol (FIFA) para que investiguem os jogadores e a
seleção da Argentina pelo caso.
¨
Equador mantém modelo insustentável de encarceramento em
massa, diz socióloga
Em toda
a América Latina, a pauta da criminalidade ocupa o mesmo nível de relevância.
Para a socióloga Mariana Chies Santos, a medida tem seu ponto fraco na questão
do orçamento. Grande parte dos países da região apresentam problemas econômicos
e o custo operacional anual de uma mega prisão é de $150 milhões (cerca de R$
770 milhões).
A
militarização da segurança pública no Equador não extinguiu a economia ilícita,
apenas mudou seus operadores. Detentos relatam que soldados passaram a vender
celulares por valores entre 500 e 1.500 dólares (entre R$ 2,6 mil a R$ 8 mil),
enquanto as facções mantêm o controle da alimentação, extorquindo famílias para
que seus parentes não morram de fome.
A
especialista também observa que não há perspectiva de que esses presos voltem
ao regime aberto ressocializados. “Os responsáveis pelo modelo não estão
preocupados com isso. Os presos não têm nenhum tipo de garantia
constitucional”.
“O
custo é alto apenas para manter a vitrine da redução dos homicídios”, enfatiza
a acadêmica, que, ao analisar o problema do alto investimento junto ao da falta
de perspectiva de reintegração dos presos, faz um alerta: “a hipótese é de que
essa conta não vai fechar, mas só veremos as consequências disso em dez ou 15
anos”.
A
jornalista Karol Noroña criticou a comunidade internacional, especificamente
União Europeia e Embaixada do Canadá. Segundo ela, essas instituições mantêm
linhas de cooperação que acabam por avalizar a política de segurança de Noboa,
ignorando as evidências de graves violações cometidas por militares. Procuradas
por Opera Mundi, nenhuma das embaixadas se pronunciou até o fechamento
desta reportagem.
A
gravidade das denúncias já mobiliza instâncias jurídicas fora do Equador. Em 5
de junho de 2026, o Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos (CDH) de
Guayaquil apresentou formalmente os achados da investigação em uma reunião de
trabalho com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
O
encontro reuniu também o Coletivo de Mulheres Buscadoras, que investiga
desaparecimentos forçados cometidos por militares e familiares de detentos. O
objetivo é de dar visibilidade ao extermínio e reforçar as demandas por medidas
cautelares, algumas das quais já foram emitidas pelo órgão internacional em
resposta à crise.
<><>
Jornalismo de exceção
Reportar
essa realidade no país tornou-se uma atividade de risco extremo. Noroña
descreve um Equador onde jornalistas e familiares são perseguidos frontalmente
e sofrem represálias. Alguns profissionais, incluindo a própria autora do
estudo, tiveram que deixar o país temporariamente por razões de segurança.
Em
cidades como Durán, considerada uma das mais perigosas do país, a gestão dos
cemitérios foi suplantada pela autoridade das facções, tornando o trabalho de
campo ainda mais arriscado. Para documentar a existência de valas comuns e o
descarte de corpos, a equipe de reportagem precisou negociar diretamente com
grupos armados. Foi preciso esclarecer que o foco da apuração era a negligência
do Estado e não as atividades ilícitas da gangue local.
Em um
dos episódios, a jornalista recebeu um ultimato de um membro de facção: “vocês
têm dez minutos para fazer o que for e caiam fora daqui”. Em certas regiões,
como na cidade de Quevedo, o risco foi proibitivo ao ponto de os próprios
administradores do cemitério alertarem que a vida da jornalista não poderia ser
assegurada caso ela entrasse no local.
Para as
famílias, que não são notificadas oficialmente sobre os óbitos, esse controle
dos cemitérios por parte de quadrilhas representa a barreira final do direito
ao luto. O resultado é uma busca desesperada por restos mortais que, muitas
vezes, são enterrados em lotes coletivos antes mesmo de serem identificados
pelos parentes.
A
política de sigilo e o monitoramento de dados sob o governo de Daniel Noboa são
apontados como pilares fundamentais da estratégia de ocultamento da crise
carcerária no Equador. O órgão de administração penitenciária (Serviço Nacional
de Atendimento Integral a Adultos Privados de Liberdade e Adolescentes
Infratores, SNAI) tem se recusado sistematicamente a entregar informações
oficiais sobre a mortalidade nas prisões, alegando que está em um processo de
“depuração de suas bases de dados”, que só será concluída em 2029.
Para
contornar o apagão de dados imposto pelo SNAI, a investigação fundamentou-se em
uma triangulação de fontes extraoficiais. A equipe obteve acesso a cerca de 30
relatórios institucionais reservados e listas filtradas por fontes que
permitiram dimensionar a mortalidade real em cada unidade carcerária.
O
levantamento foi cruzado com a análise de centenas de processos judiciais de
habeas corpus e laudos forenses. Além das entrevistas com mais de 50 fontes, o
trabalho de campo em necrotérios e o acesso ao arquivo de fotografias e vídeos
clandestinos foram essenciais para dar rosto e prova documental ao extermínio
que o governo tenta invisibilizar.
O
Portal de Transparência, ferramenta que poderia ser utilizada para solicitar
formalmente o acesso a dados oficiais, exige o fornecimento de dados pessoais
detalhados, incluindo nome completo, número da cédula de identidade e o
endereço residencial do solicitante.
Segundo
Noroña, essa exigência é vista como mais uma forma deliberada de monitoramento,
permitindo que o Estado saiba exatamente onde vivem aqueles que o investigam.
Fonte:
Por Paula Marussich, na Página 12/Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário