Em
5 anos, 573 são resgatados de escravidão em pedreiras e obras de pavimentação
no NE
DOS
SEUS 51 ANOS de vida, Carlos* passou 41 quebrando pedras para a produção de
paralelepípedos. Desde o início de 2026, ele vive em um barraco de lona sem
água potável em uma pedreira no município de Casa Nova, no sertão da Bahia.
Os
paralelepípedos que ele produz manualmente — por meio de explosivos caseiros,
sem equipamento de segurança — estão sendo usados em uma obra pública de
calçamento no município de Sento Sé, também na Bahia, a 270 km dali.
Carlos
é um dos 29 resgatados do trabalho escravo pela Auditoria-Fiscal do Trabalho,
vinculada ao MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), em uma operação que
inspecionou pedreiras e obras públicas na Bahia e em Pernambuco, no início de
julho.
Com a
recente fiscalização, o número de trabalhadores resgatados na extração de pedra
e no calçamento de ruas no Nordeste chega a 573, desde 2021. As operações miram
três elos: a extração em pedreiras, as obras de calçamento e os entes públicos
contratantes, principalmente prefeituras.
“As
pedras saem das pedreiras, vão para uma obra, para uma construtora que ganhou
uma licitação, seja de uma obra municipal, estadual ou mesmo federal”, explica
Gislene Stacholski, auditora fiscal do trabalho que coordenou a operação.
“Essa
dinâmica tem se repetido. Essas pedras estão alimentando uma cadeia produtiva
onde o próprio órgão público que está demandando”, complementa.
Composto
também pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), a Defensoria Pública da União
(DPU) e a Polícia Federal (PF), o Grupo Móvel de Fiscalização atua com ênfase
neste setor desde 2021.
Mas foi
a partir de 2025 que se avançou na responsabilização “dos agentes econômicos
que sustentam a exploração”, segundo os fiscais do Trabalho.
Na
operação de julho, acompanhada pela Repórter Brasil, todas as obras envolveram
contratos milionários feitos pela Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos
Vales do São Francisco e do Parnaíba), conhecida como a “estatal do centrão”, e
pelas prefeituras de Sento Sé e Santa Cruz.
Falta
de água potável, alojamentos sem camas e com banheiros precários, ausência de
equipamento de segurança, longo tempo de exposição ao sol e falta de registro
em carteira foram alguns dos problemas identificados nas três obras públicas e
nas duas pedreiras fiscalizadas. Os trabalhadores resgatados eram homens,
nordestinos, com baixa escolaridade e majoritariamente pretos ou pardos.
“A
maioria estava ali de sandálias, sem luva, sem capacete, com uma remuneração
baixa, que é feita por produção”, descreve Isabela Vieira Luiz, defensora
pública federal que acompanhou os resgates e que também coordena o Grupo de
Trabalho de Combate à Escravidão Contemporânea da DPU.
Nas
pedreiras, os trabalhadores produzem cerca de 1,5 mil paralelepípedos por
semana. A cada mil, recebem cerca de R$ 550 —
uma média de R$ 0,55 por pedra talhada.
Os
paralelepípedos são, então, levados em caçambas de caminhões por empresas
contratadas para realizar calçamentos públicos.
“Percebemos
que em anos de calendário eleitoral a demanda pelas pedras aumenta pelo ente
público. E que esses recursos são provenientes, em sua maioria, de emendas
parlamentares”, descreve a auditora Gislene Stacholski.
“Geralmente
são processos licitatórios de emendas que estão engavetados e que, nos ‘anos de
política’, são colocados para execução”, aponta.
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Obra é financiada por ‘estatal do centrão’
Na
região de Juazeiro (BA), a Codevasf contratou a construtora Floresta
Empreendimentos e Serviços por R$ 29 milhões para realizar obras de
pavimentação em 12 municípios. Em uma delas, em Casa Nova (BA), a
Auditoria-Fiscal encontrou 13 trabalhadores em condições análogas à escravidão.
Os
recursos para o calçamento teriam sido repassados à estatal por emenda
parlamentar do deputado federal e líder do PSDB na Câmara, Adolfo Viana. Foi o
que afirmou em rede social Anisio Viana, prefeito de Casa Nova pelo PSDB e
primo do deputado.
Procurados
por e-mail, telefone e rede social, a prefeitura de Casa Nova (BA) e o deputado
Adolfo Viana não responderam aos questionamentos enviados pela Repórter Brasil.
Já a
construtora Floresta afirmou que “não tem interesse e nem mesmo obrigação de
tornar públicas imputações a seu respeito”.
Em
audiência no Ministério Público do Trabalho de Petrolina (PE), a empresa
assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) e se comprometeu a pagar R$
219,6 mil aos trabalhadores em verbas rescisórias e danos morais.
Em
nota, a Codevasf informou que ainda não tinha sido notificada. O posicionamento
informa que a empresa “está apurando o caso” e que “já notificou a empresa [construtora
Floresta] para prestar esclarecimentos e tomará as medidas administrativas
cabíveis caso sejam confirmadas irregularidades trabalhistas”.
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Secretário de Obras de Santa Cruz diz que “não imaginou” que teria de
fiscalizar pedreira
No
município de Santa Cruz (PE), os auditores-fiscais do Trabalho resgataram dez
pessoas no total: cinco no calçamento e cinco em uma pedreira, na zona rural.
As
obras foram contratadas por R$ 3,2 milhões pela prefeitura, atualmente
comandada por Adegildo Guimarães Soares (PSB). A empreiteira responsável é a
Rocha Quirino Engenharia.
Natural
de Juazeiro do Norte (CE) e com 52 anos de idade, um dos trabalhadores estava
quebrando pedra sob o sol do meio-dia, quando a Auditoria-Fiscal do Trabalho
chegou. À reportagem, contou que começou a quebrar brita aos 12 anos e passou
para a confecção de paralelepípedo aos 14.
“Tomei
gosto e não quero outra profissão. Se parar isso aqui, a gente vai viver de
quê?”, questionou. “Tem época que a gente caça um cantinho e não tem, tudo
parado. Mas na época da política aparece: todo mundo quer calçar rua. Ganha
voto, né?”
Acocorado,
de chinelo, sem luva ou óculos, o trabalhador mostrou a agilidade com a qual
manuseia a pedra. Em uma das mãos, um dedo enfaixado. “É que às vezes resseca e
abre o cantinho. É muito sol e poeira. Dói. Aí botei hoje: já fica bom”,
contou. Vez ou outra uma lasca de pedra entra no olho. Para tirar, enfia o
rosto na água.
Questionado
pela Repórter Brasil, o secretário de obras da prefeitura de Santa Cruz,
Francisco Tavares, disse que “se está de forma ilegal, sem sombra de dúvida tem
que ser corrigido”.
“Em
momento algum eu imaginei que teria que fiscalizar a pedreira que está
fornecendo o material para a gente”, completou o secretário da prefeitura.
Representante
da Rocha Quirino Engenharia, Jefferson
Almeida reconheceu a necessidade de melhorias nas condições de segurança do
trabalho. Disse, no entanto, que não teria encontrado alojamento melhor para os
trabalhadores em Santa Cruz (PE).
“Trabalhar
com instituições legalizadas no caso de pedreiras, você não encontra. Então eu
pergunto: como é que a gente trabalha?”, questionou Almeida.
Autuada,
a empresa Rocha também firmou Termo de Ajustamento de Conduta e se comprometeu
a pagar, em rescisão e indenização, R$ 164,1 mil aos dez trabalhadores.
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Advogado de empresa autuada diz que “não pode nem consegue abarcar tudo”
Durante
a operação, os auditores-fiscais do Ministério do Trabalho também resgataram
quatro pessoas em uma pedreira e outras três em uma obra de pavimentação em
Sento Sé, município baiano às margens do rio São Francisco.
O
contrato para o calçamento foi firmado inicialmente em 2022 com a WTM
Construções e Transportes. Os serviços de cascalhamento de estradas e de
pavimentação em paralelepípedo somavam quase R$ 16,8 milhões.
O
contrato foi prorrogado por aditivos duas vezes: uma em 2023 e outra em 2024,
já pela atual prefeita, Giselda Carvalho (PT). Procurada, a prefeitura de Sento
Sé não respondeu até o fechamento da reportagem.
O
advogado da WTM, Kayque Pergentino, disse que a empresa “já tem um trabalho
específico para evitar essa situação [de trabalho escravo contemporâneo]”, mas
que “não pode nem consegue abarcar tudo”.
“A
gente teve a surpresa por não conhecer de fato o que tinha ali. Mas, a partir
do momento que tomamos conhecimento, agimos em todos os sentidos para evitar
essa situação. Até porque nos tempos de hoje é difícil até de acreditar que
isso ocorra”, afirmou Pergentino.
Após a
fiscalização, a WTM assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPT, comprometendo-se a pagar R$157,4 mil em
multas rescisórias e danos morais aos sete trabalhadores resgatados.
*Nome
alterado para preservação da fonte
• Crédito privado ao agro cresce e
especialistas veem vácuo de regras antidesmate
APESAR
DE SER a modalidade de crédito que mais cresce no agronegócio, o financiamento
privado ainda carece de regras que coíbam a destinação de recursos a fazendas
envolvidas em atividades predatórias, alertaram especialistas em audiência
pública realizada no último 30 de junho pela Comissão de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados.
Proposto
pelo deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), o encontro reuniu representantes de
universidades, Ministério Público Federal e organizações da sociedade civil,
além de especialistas em mercado financeiro para discutir como instrumentos
privados de crédito vêm financiando cadeias produtivas associadas a
desmatamento, grilagem de terras e outras violações socioambientais sem ser
submetidos às mesmas exigências já aplicadas ao crédito rural público.
Na
abertura da audiência, Tatto afirmou que o Brasil avançou na regulação do
crédito rural, que escoa recursos públicos ao setor e é regulado pelo Banco
Central. Atualmente, as regras do órgão já restringem financiamentos para
empregadores flagrados com trabalho análogo à escravidão, ocupantes de terras
públicas e infratores ambientais.
Segundo
o parlamentar, entretanto, ainda existe uma lacuna de critérios semelhantes
para o mercado privado, regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários
(CVM).”Os Fiagros, CRAs, LCAs e outros títulos movimentam centenas de bilhões
de reais sem as mesmas restrições socioambientais. Esse vácuo é explorado
sistematicamente”, afirmou.
O
deputado também destacou que a expansão da agropecuária no Brasil, em parte
financiada por esses instrumentos de crédito privado, está diretamente
relacionada às emissões brasileiras de gases de efeito estufa.
Segundo
o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), o estoque de títulos privados do
agronegócio somou R$ 1,34 trilhão em abril de 2026. As LCAs (Letras de Crédito
do Agronegócio), por exemplo, passaram de um estoque de pouco mais de R$ 200
bilhões em 2022 para R$ 588 bilhões em 2026, enquanto os CRAs (Certificados de
Recebíveis do Agronegócio) saltaram de R$ 69 bilhões para R$ 177 bilhões no
mesmo período.
Os
Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), por
sua vez, cresceram cerca de 9.500% em um ano e atingiram R$ 29,3 bilhões em
março de 2026. Já os recursos disponíveis via Plano Safra, do governo federal,
aumentaram de R$ 236,3 bilhões para R$ 594,4 bilhões entre os ciclos 2020/21 e
2025/26 — alta de 151%.
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Transparência para reduzir riscos
Marcel
Gomes, secretário-executivo da Repórter Brasil, apresentou investigações
desenvolvidas pela organização que identificaram recursos provenientes de
Fiagros e CRAs destinados a grupos econômicos envolvidos em crimes ambientais.
Segundo
Gomes, a principal fragilidade do mercado está na falta de transparência sobre
quem recebe os recursos captados junto aos investidores. “Enquanto no crédito
público é possível acompanhar com muito mais clareza o fluxo dos
financiamentos, no crédito privado isso ainda acontece de maneira bastante
precária”, disse. “Em muitos casos, não é possível identificar claramente quais
propriedades ou produtores estão recebendo esses recursos”, acrescentou.
O
secretário-executivo da Repórter Brasil lembrou ainda que a organização também
identificou casos de fundos de investimento vinculados a empresas
posteriormente envolvidas em processos por desmatamento ilegal e recuperação
judicial, situação que, segundo ele, demonstra falhas na precificação dos
riscos desses ativos.
“Quando
um título financeiro está lastreado em empresas envolvidas com crimes
ambientais, mas continua sendo valorizado pelo mercado, isso revela uma
assimetria de informações que prejudica investidores e compromete a integridade
do sistema financeiro”, disse.
Para
Gomes, ampliar a transparência beneficia não apenas a proteção socioambiental,
mas também o próprio mercado financeiro. “No mínimo, precisamos aperfeiçoar as
regras de transparência para que o setor privado possa fazer uma avaliação de
risco adequada desses ativos.”
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Mercado financeiro e responsabilidade socioambiental
As
demais falas da audiência alertaram que a ausência de regras específicas para
instrumentos de crédito privados cria incentivos para que produtores com
restrições ambientais busquem justamente essas modalidades de financiamento.
O
professor Silvio Eduardo Álvarez Cândido, da UFSCar (Universidade Federal de
São Carlos), apresentou pesquisas que indicam que produtores rurais da Amazônia
Legal optam pelo crédito privado como um caminho mais acessível quando
enfrentam impedimentos para acessar recursos públicos.”A falta de
regulamentação está propiciando que, no limite, os crimes ambientais sejam
precificados pelo mercado financeiro”, afirmou.
Maria
Eduarda Senna Mury, diretora de Estratégia do Instituto Dados, explicou que a
própria estrutura dos Fiagros dificulta a identificação dos empreendimentos
efetivamente financiados. Segundo ela, a quantidade de intermediários que podem
existir entre investidores e produtores reduz significativamente a capacidade
de fiscalização.
“O
mercado não consegue precificar aquilo que a regulamentação não obriga a
enxergar”, afirmou. Ela defendeu maior divulgação dos ativos que compõem os
fundos, identificação dos devedores finais, padronização das informações e
monitoramento contínuo dos títulos ao longo de sua vigência.
Na
mesma linha, o procurador do Ministério Público Federal Ricardo Negrini
destacou que instituições financeiras, securitizadoras e investidores também
podem estar expostos a riscos jurídicos quando financiam empreendimentos
ligados a ilegalidades ambientais.
“O que
não se vê é justamente o risco que pode causar maior dano”, afirmou. Para ele,
o distanciamento entre investidores e os empreendimentos financiados não pode
servir como um escudo para afastar responsabilidades, sendo necessária maior
rastreabilidade das operações.
O
professor Sérgio Pereira Leite, da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro), destacou a rápida expansão dos Fiagros desde sua criação, em 2021.
Segundo ele, o crescimento dos instrumentos de crédito privado torna ainda mais
urgente o fortalecimento da transparência e da regulação, uma vez que grande
parte das informações sobre seus ativos ainda permanece fragmentada.
Já
Tarcísio Feitosa, da Coalizão Florestas & Finanças, ressaltou que
incentivos tributários concedidos a parte desses instrumentos financeiros
reforçam a necessidade de controle social sobre sua utilização.
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Projeto de lei
As
contribuições apresentadas durante a audiência deverão subsidiar a discussão do
PL (Projeto de Lei) 821/2026, em tramitação na Câmara dos Deputados, que
pretende ampliar a transparência de títulos financeiros usados para financiar o
agronegócio, como CDCAs (Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio),
LCAs e CRAs.
A
proposta legislativa estabelece que esses papéis deverão informar de forma mais
clara quais atividades e áreas estão sendo financiadas. Pelo texto proposto,
quem emitir esses títulos terá de divulgar publicamente informações detalhadas
sobre quem tomou o empréstimo, quem vai receber os recursos e quais operações
de crédito deram origem aos papéis — incluindo valor, juros, prazo e garantias.
O PL
821 também propõe a divulgação obrigatória de dados sobre o risco dessas
operações. Entre eles, índices de inadimplência, concentração da carteira em
poucos devedores, existência de ações judiciais, pedidos de recuperação
judicial ou falência, além de embargos (áreas interditadas) ambientais e outras
restrições administrativas que possam afetar a capacidade de pagamento.
Atualmente,
a proposta tramita na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e
Desenvolvimento Rural da Câmara.
Fonte:
Repórter Brasil

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