Kurt
Cobain e a indústria da angústia
Há
datas que funcionam como marcos geológicos na história cultural: 1991 é uma
delas. Nevermind, o segundo álbum do Nirvana, superou Michael Jackson do topo
das paradas americanas, invertendo, por um instante, a lógica hegemônica da
indústria fonográfica. Distorção, letras crípticas e uma estética
deliberadamente suja tornaram-se, da noite para o dia, sinônimo de sucesso
comercial. O rock alternativo, que até então sobrevivia nas margens (selos
independentes, porões, fanzines fotocopiados), foi catapultado ao centro da
cultura de massas por um trio formado em 1987 na cidade de Aberdeen, Washington
e que depois se associaria a cena do nascente movimento grunge de Seattle.
A
ironia histórica é um tanto cruel. O que Cobain ajudou a erguer como
alternativa ao rock corporativo dos anos 1980 foi, décadas depois, rebatizado
sob o rótulo genérico de “indie” e absorvido, sem maiores traumas, pelo próprio
mainstream que originalmente combatia. Hoje, bandas de guarda-roupa
cuidadosamente desalinhado ocupam festivais patrocinados por multinacionais,
vendendo autenticidade como mero atributo de marca. Cobain, é preciso dizer,
temia exatamente esse desfecho: sua desconfiança em relação ao próprio sucesso
não era pose, mas o reconhecimento lúcido de que toda transgressão, sob o
capitalismo, tem prazo de validade.
Mesmo
vendendo milhões de cópias mundo afora, Cobain jamais performou o papel de
astro satisfeito. Não há, em nenhum registro biográfico da época, o menor traço
de deslumbramento genuíno com o dinheiro ou os holofotes; havia, isso sim, um
desconforto crescente, quase físico, com a distância entre a música honesta e
visceral que ele acreditava fazer e aquilo em que sua obra se transformava nas
mãos do mercado.
Essa
busca obstinada por autenticidade revelou-se, ao fim, um projeto impossível.
Não existe posição de pureza absoluta a partir da qual produzir arte
inteiramente imune à lógica da mercadoria, uma vez que essa arte circula,
precisamente, através dos canais que a mercantilizam. Quanto mais Cobain
resistia à condição de produto, mais sua resistência era, ela própria,
capturada e revendida como narrativa: o roqueiro atormentado, autêntico até no
sofrimento, tornou-se também uma imagem comercializável, um personagem que a
indústria soube empacotar com perfeição perversa.
Em 5 de
abril de 1994, Cobain pôs fim à própria vida em sua casa em Seattle, aos 27
anos, idade que o inscreveu, com amarga previsibilidade midiática, no já
mitologizado “Clube dos 27”. Não há como, nem seria honesto, romantizar esse
gesto: um suicídio é, antes de qualquer leitura simbólica, o ponto final de um
sofrimento psíquico real, agravado por dependência química, dores físicas
crônicas e uma exposição pública brutal.
Mas
conviver com duas verdades simultâneas é parte do exercício crítico: esse gesto
desesperado carrega, historicamente, uma densidade simbólica difícil de
ignorar. Um dos momentos mais criativos e disruptivos da história do rock foi
interrompido, de forma abrupta e irreversível, por uma bala de espingarda; o
luto público que se seguiu misturou-se, inevitavelmente, a um debate incômodo
sobre o que a indústria cultural havia feito com aquele homem.
Sua
trajetória ajuda a compreender essa recusa. Nascido em Aberdeen, uma pequena
cidade operária marcada pelo desemprego e pela decadência econômica, Cobain
cresceu longe de qualquer glamour. O divórcio dos pais, a instabilidade
familiar e uma juventude atravessada pela pobreza e pela sensação permanente de
deslocamento moldaram sua personalidade. Viveu em casas de amigos, enfrentou
dificuldades financeiras e encontrou na cena punk um espaço onde a
autenticidade valia mais do que o sucesso comercial. Sua rebeldia nunca foi
apenas estética; era, antes de tudo, ética e emocional.
Por
isso, embora Kurt Cobain nunca tenha composto canções de protesto nos moldes
tradicionais, sua obra está longe de ser politicamente neutra. Sua crítica não
aparece na forma de slogans ou palavras de ordem. Ela emerge através do
sarcasmo, do niilismo, da repulsa ao cinismo mercadológico e da permanente
sensação de sufocamento diante de um mundo onde tudo pode ser transformado em
objeto de consumo. Sua sensibilidade punk carregava um impulso profundamente
anticapitalista, mesmo quando esse impulso permanecia implícito, subterrâneo,
quase existencial.
Um
exemplo mais emblemático dessa sensibilidade é a música “In Bloom”, construída
sobre uma ironia estrutural. Cobain ironiza o
consumidor que aprecia o som, canta o refrão e reproduz toda a estética da
rebeldia sem compreender absolutamente nada de seu conteúdo: “He’s the one who
likes all our pretty songs / And he likes to sing along / And he likes to shoot
his gun / But he knows not what it means.” (Ele é o cara que gosta de todas as nossas
músicas bonitinhas / E gosta de cantar junto / E gosta de atirar com sua arma /
Mas não sabe o que elas significam.) Não se trata apenas de uma crítica aos
fãs. É uma crítica ao mecanismo pelo qual o capitalismo neutraliza a potência
crítica da arte, esvaziando seu significado para revendê-la como entretenimento
inofensivo.
Essa
rejeição visceral à fama e à maquinaria da indústria cultural ganha corpo
próprio em In Utero (1993), álbum concebido como uma tentativa desesperada de
recuperar o controle sobre sua própria obra. Grande parte da energia do disco
nasce da rejeição ao processo de cooptação que transformou a banda em um
fenômeno de massas. Cobain queria fazer um disco mais áspero, menos acessível,
quase como um gesto de resistência contra a máquina que o havia consagrado.
Logo na
abertura, em “Serve the Servants”, sintetiza esse mal-estar: “Teenage angst has
paid off well / Now I’m bored and old” (A angústia adolescente compensou muito
bem / Agora estou entediado e velho). Com precisão cirúrgica: nela, Cobain
aborda a alienação provocada pela fama como subproduto explicitamente
capitalista da indústria fonográfica. A angústia adolescente que alimentou suas
primeiras composições (sentimento genuíno de deslocamento) é tratada, na letra,
com sarcasmo definidor, como um ativo que finalmente rendeu dividendos,
deixando-o não realizado, mas exausto e prematuramente envelhecido: a
constatação amarga de que, sob a lógica capitalista, até os afetos mais íntimos
podem ser convertidos em mercadoria negociável.
Havia
nele um asco visceral pelo cinismo mercadológico e a defesa, quase religiosa em
sua intransigência, de uma pureza ética radical, precisamente o tipo de pureza
que o capitalismo, por sua natureza expansiva e voraz, está condenado a
corromper, digerir e, por fim, vender. Aquilo que nasceu para desafiar o
mercado acabou sendo absorvido por ele. A indústria venceu, mas sua vitória
nunca foi completa. Três décadas depois, as músicas de Cobain continuam
provocando exatamente o desconforto que o mercado tentou domesticar. Elas nos
lembram que toda arte verdadeiramente viva corre o risco de ser capturada pela
mercadoria e que resistir a essa captura talvez seja uma batalha impossível,
mas, ainda assim, necessária.
Fonte:
Por Erick Kayser, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário