O
colesterol de origem genética que a estatina não baixa (e que pode triplicar o
risco de infarto)
A
aprovação do primeiro comprimido contra o colesterol "ruim",
anunciada nesta quinta-feira (16) nos Estados Unidos, soma-se a um leque
cada vez maior de remédios voltados ao LDL. Nenhum deles, porém, atua sobre um
tipo específico de colesterol que inquieta os cardiologistas —e que a maior
parte das pessoas nunca mediu.
É a
lipoproteína(a), ou Lp(a): uma fração determinada quase inteiramente pela
genética que, quando elevada, se associa a um risco até três vezes maior de
infarto.
O nome
já entrega uma peculiaridade. O "a" é escrito em minúsculo, e entre
médicos a molécula costuma ser tratada no diminutivo. Por trás do apelido, no
entanto, há um fator de risco que só agora começa a ganhar atenção na rotina
dos consultórios —impulsionado tanto por novas recomendações quanto pela
expectativa dos primeiros remédios capazes de reduzi-la.
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Um colesterol que se herda
Ao
contrário do LDL, que sobe e desce conforme alimentação, peso e
medicação, a lipoproteína(a) é definida sobretudo pela herança familiar.
Cerca
de 90% do valor de cada pessoa vem da genética, segundo o cardiologista Elzo
Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira
de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José
do Rio Preto (Famerp).
Estima-se
que cerca de uma em cada cinco pessoas tenham níveis elevados —na maioria das
vezes, sem saber.
"A
lipoproteína(a) é determinada principalmente pela genética, e não é algo que se
corrija com dieta. A pessoa nasce com uma tendência a tê-la mais alta ou mais
baixa", afirma.
É essa
origem que a torna, ao mesmo tempo, importante e difícil de
enfrentar: dieta, exercício e estatinas —pilares do controle do
colesterol— praticamente não a alteram.
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O risco
O
interesse pela lipoproteína(a) cresceu à medida que estudos observacionais
associaram seus níveis altos a desfechos graves. Segundo Mattar, valores
acima de cerca de 50 mg/dL —o equivalente ao quartil mais alto da
população— relacionam-se a um risco cerca de três vezes maior de infarto.
A fração também favorece a calcificação da válvula aórtica, problema comum em
idosos.
ℹ️ Por atuar de forma independente do LDL, a
lipoproteína(a) funciona como um marcador adicional: duas pessoas com o
mesmo colesterol "ruim" podem ter riscos cardiovasculares diferentes
a depender desse valor.
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Por que quase ninguém dosou
Durante
anos, medir a lipoproteína(a) fazia pouca diferença prática: não havia
tratamento específico, e o resultado raramente mudava a conduta. Esse cenário
começou a virar.
A
diretriz de dislipidemia publicada em março de 2026 pelo American College of
Cardiology e pela American Heart Association, ao lado de outras entidades
médicas, passou a recomendar a dosagem da lipoproteína(a) ao menos uma vez
na vida para todos os adultos —orientação também defendida por Mattar.
"A
recomendação hoje é que cada pessoa dose a lipoproteína(a) ao menos uma vez na
vida, para conhecer o próprio risco cardiovascular", diz.
Trata-se
de um exame de sangue simples, feito uma única vez, já que o valor tende a
permanecer estável ao longo da vida. Descobrir uma lipoproteína(a) alta
não significa, por ora, iniciar um remédio para baixá-la —mas serve de alerta
para controlar com mais rigor tudo aquilo que se consegue mudar.
"Quem
tem a lipoproteína(a) elevada precisa se cuidar mais: manter o LDL baixo, os
triglicérides controlados, a pressão e a glicemia em ordem, além de atividade
física e alimentação equilibrada", orienta o cardiologista.
Os
primeiros remédios
A
lacuna terapêutica pode estar perto do fim. Diversas empresas testam
substâncias voltadas a reduzir a lipoproteína(a), e a mais avançada é o
pelacarseno, da Novartis, uma injeção mensal que, em estudos iniciais,
reduziu a fração em torno de 80%.
O
medicamento é o foco do estudo Horizon, o primeiro grande ensaio a investigar
se baixar a lipoproteína(a) de fato diminui infartos e acidentes vasculares
cerebrais (AVCs) —com mais de 8 mil pacientes acompanhados por anos.
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Os resultados são esperados ao longo de 2026, com apresentações aguardadas no
Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), marcado para o fim de
agosto, em Munique. Outras terapias, incluindo uma versão em comprimido, também
estão em teste.
Mattar
faz, porém, uma ressalva que separa a promessa da comprovação: reduzir a
lipoproteína(a) ainda não é o mesmo que reduzir eventos.
"Provavelmente
baixar a lipoproteína(a) trará benefício, mas ainda não temos estudos que
confirmem isso. Pesquisas capazes de mostrar redução de infartos e AVCs
precisam de mais de cinco anos de acompanhamento", explica.
É essa
lacuna que os estudos das próximas semanas começam a preencher: mostrar não
apenas o quanto os novos remédios derrubam a lipoproteína(a), mas se essa queda
se traduz em menos infartos.
Por
enquanto, a lipoproteína(a) é um número que vale a pena conhecer mesmo sem um
remédio para mudá-lo —porque indica o quanto é preciso proteger todo o resto.
E, em
questão de meses, a medicina pode descobrir se um risco que, por muito tempo,
só sabia nomear finalmente poderá ser reduzido, e, sobretudo, se reduzi-lo
salva vidas.
Fonte:
g1

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