O
impacto das tarifas de Trump na corrida presidencial
O novo
tarifaçoanunciado pelos Estados Unidos sob produtos brasileiros pode
influenciar o debate político e eleitoral no Brasil a menos de três meses da
data do pleito.
Analistas
ouvidos pela DW Brasil avaliam que a medida tem potencial para repercutir tanto
na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará defender
sua condução da política externa, quanto na do pré-candidato Flávio Bolsonaro
(PL), diante das discussões sobre as relações entre sua família e o governo
americano.
Especialistas
apontam que os efeitos eleitorais ainda são incertos e dependerão da forma como
governo e oposição tratarão o tema durante a campanha. O impacto econômico das
tarifas e a percepção do eleitorado sobre a resposta do governo brasileiro
também podem influenciar a disputa.
O
governo americano anunciou na quarta-feira (15/07) tarifas de 25% sobre
diversos produtos brasileiros, alegando a existência de práticas consideradas
desleais no comércio bilateral. Entre os motivos citados estão medidas
regulatórias relacionadas a empresas de tecnologia, aspectos ligados ao sistema
de pagamentos Pix e questões envolvendo o mercado de etanol.
<><>
Impacto pode ser similar ao de 2025
O
impacto à campanha de Flávio Bolsonaro deve ser similar aos efeitos vistos no
ano passado, quando os Estados Unidos impuseram as primeiras tarifas contra
produtos brasileiros. À época, a menção do presidente americano Donald Trump ao
processo judicial que mais tarde condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)
por tentativa de golpe de Estado fora usada como um dos argumentos para
justificar as taxas. Além disso, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro havia
anunciado publicamente que se reuniu com representantes do governo americano
para articular a imposição das tarifas sobre o Brasil.
A
conexão direta da família Bolsonaro com o anúncio da medida e seu impacto
negativo em diferentes setores produtivos não se provou uma estratégia
vantajosa para a oposição. O governo Lula apostou na narrativa de
"soberania nacional”, acusando as tarifas de serem um ataque político ao
país, patrocinado pela oposição.
"Se
for explorado pelo governo como uma decisão tomada especialmente pela
proximidade entre o bolsonarismo e o governo Trump, pode ser evidentemente
benéfico para a candidatura de Lula”, afirma o cientista político Cláudio
Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O movimento deve ocorrer, ele
argumenta, apesar de Flávio afirmar que tentou interceder junto ao governo dos
Estados Unidos contra o novo anúncio das tarifas.
Para
Glauco Peres da Silva, professor de Ciência Política da Universidade de São
Paulo (USP), a expectativa é de que a medida beneficie a campanha de Lula, a
exemplo do ganho de popularidade do presidente no ano passado. Ele pontua,
porém, que há possibilidade de a campanha de Flávio explorar a situação.
"Talvez
exista alguma relação que o Flávio estabelece com o seu eleitorado, onde foi
percebido que isso pode render algum fruto. É difícil de antever e capturar
esse impacto porque, no ano passado, o resultado das tarifas foi um
deslocamento da balança pró-Lula", analisa.
Os
primeiros movimentos do governo após a crise mostram que a narrativa deve se
manter a mesma.
Na
noite de quarta, o Planalto repudiou as afirmações, afirmando que não considera
legítimas as investigações, e justificando que a balança comercial é favorável
aos Estados Unidos.
A
campanha de Lula, porém, não está totalmente blindada do impacto político que
as tarifas podem ter na popularidade do governo e na campanha à reeleição.
Apesar
do impacto das tarifas ser menor do que no ano passado, após a inclusão de mais
de 2 mil produtos na lista de exceções, Lula ainda pode sofrer com os efeitos
econômicos da medida nos setores afetados.
Do lado
da oposição, há expectativa de que Flávio tente associar a medida à política
externa do governo Lula.
"Este
deixou de ser um tópico que não entra nas eleições. O alinhamento internacional
do país vai estar na discussão eleitoral", afirma Gustavo Glodes Blum,
analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute.
<><>
Momento de fragilidade
Apesar
da similaridade com o primeiro anúncio de tarifas, o momento político mudou
consideravelmente de um ano para cá, argumenta Cláudio Couto.
"Aquele
tarifaço veio num contexto de fragilidade com a condenação de Jair Bolsonaro,
mas você não tinha algo que atingisse de forma tão direta, para o eleitorado
que não se importa com a tentativa de golpe, a honorabilidade da família
Bolsonaro", comenta o professor, citando um momento de fragilidade na
atual pré-campanha de Flávio.
Nos
últimos meses, o senador acumulou diferentes acusações de envolvimento com o
banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, além de um racha familiar envolvendo
sua madrasta e ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Há dois
meses, o The Intercept Brasil publicou conversas entre Flávio e Vorcaro, que
revelaram uma relação próxima entre o pré-candidato e o dono do Banco Master,
preso acusado de comandar um esquema de fraudes financeiras. Nas mensagens, o
senador negociou repasses milionários de Vorcaro para financiar um filme
biográfico sobre o pai.
No
final de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também publicou um vídeo
nas redes sociais acusando Flávio de desrespeitá-la e de sofrer ataques
coordenados de seus irmãos.
Já na
quarta-feira, pouco antes do anúncio das tarifas, o site ICL Notícias publicou
uma foto onde Flávio aparece com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão,
conhecido como Sicário, encarregado de praticar ameaças e violências contra
desafetos de Daniel Vorcaro. Sicário cometeu suicídio em sua cela, após ser
preso no início do ano.
<><>
Alinhamento político com Trump
O
movimento de imposição de tarifas dialoga diretamente com uma tentativa de
maior ingerência americana sobre os países da América Latina e uma tentativa de
negociação bilateral com os países que são tarifados, argumenta Gustavo Glodes
Blum.
Segundo
ele, a imposição de tarifas pelo governo americano não estaria ligada
necessariamente a uma tentativa de apoiar a candidatura de Flávio, mas sim a um
projeto de atingir governos na região que não tem um alinhamento direto com
Trump.
"É
menos sobre quem é a pessoa apoiada, pode ser o Flávio ou qualquer outro, desde
que tenha essa linha ideológica de concordância com as políticas dos Estados
Unidos", explica, citando o governo do presidente argentino Javier Milei
como um exemplo de alinhamento direto com Washington.
"É
uma política que vem sendo adotada desde o começo do governo Trump, mas também
num momento de crescimento da direita na América Latina. Talvez se acredite que
medidas dessa natureza possam fragilizar governos e eventualmente favorecer os
seus adversários", comenta Cláudio Couto, mencionando a atuação do governo
americano na região, em especial através do secretário de Estado Marco Rubio,
de origem cubana. "Se estão pensando isso, me parece um cálculo
equivocado, porque o resultado tem sido o oposto", adiciona.
Após o
anúncio das tarifas impostas aos produtos brasileiros, Rubioacusou Lula de
negociar em má-fé com os Estados Unidos.
"Ao
longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol
do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso”,
escreveu em uma rede social.
• TariFlávio: EUA pressionaram Brasil por
tarifa zero em setores-chave da economia nacional
Os
Estados Unidos solicitaram ao Brasil a eliminação das tarifas de importação em
setores considerados estratégicos, como os segmentos aeroespacial, industrial,
químico e automotivo. Segundo a Folha de São Paulo, o governo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) considerou a proposta inegociável diante dos
impactos que ela teria sobre a economia e a indústria nacionais.
“Eles
pretendiam nada mais, nada menos do que a abertura de todo o mercado do setor
químico, a redução a zero das tarifas dos bens industriais. O acesso ao mercado
do setor automotivo norte-americano, e dentre outros setores”, disse o ministro
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, durante entrevista
coletiva, na quinta-feira (16), sobre o tarifaço.
A
exigência estadunidense ocorreu às vésperas da entrada em vigor da sobretaxa de
25% sobre produtos brasileiros, prevista para 22 de julho, no âmbito das
medidas comerciais adotadas pelo governo do presidente Donald Trump.
<><>
Governo considera proposta inaceitável
Integrantes
do governo avaliam que a abertura total desses mercados representaria perdas
significativas para a indústria brasileira. A avaliação é de que zerar tarifas
em áreas como química, automotiva, industrial e aeroespacial comprometeria a
competitividade de empresas nacionais e ampliaria a dependência de produtos
importados. Por esse motivo, a proposta apresentada pelos Estados Unidos é
considerada fora do campo de negociação.
<><>
Exportações brasileiras serão afetadas
Com a
implementação da tarifa adicional de 25%, aproximadamente US$ 7,4 bilhões em
exportações brasileiras para o mercado estadunidense poderão ser atingidos, o
equivalente a cerca de 18% das vendas brasileiras aos Estados Unidos. O governo
brasileiro acompanha os impactos esperados sobre os setores exportadores e
prepara medidas para reduzir os efeitos econômicos da decisão americana.
<><>
Brasil reforça programa e prepara retaliação
Como
resposta inicial, o governo anunciou o fortalecimento do programa Brasil
Soberano, ampliando linhas de crédito destinadas a empresas afetadas pelas
novas barreiras comerciais.
Além
disso, Brasília pretende recorrer à Lei da Reciprocidade, aprovada em 2025, que
autoriza o país a adotar medidas econômicas proporcionais em resposta a sanções
comerciais impostas por outros países.
<><>
Patentes e audiovisual estão entre os alvos estudados
Entre
as alternativas analisadas pelo governo para uma eventual retaliação estão
áreas consideradas sensíveis aos interesses americanos, como os setores de
propriedade intelectual, patentes e audiovisual.
A
intensidade das medidas dependerá da evolução das negociações e da efetiva
aplicação das tarifas pelos Estados Unidos.
<><>
Tarifaço é resultado de investigação comercial
A
sobretaxa estadunidense foi autorizada com base na Seção 301 da legislação
comercial dos Estados Unidos, instrumento utilizado para responder ao que
Washington considera práticas comerciais desleais.
As
investigações tiveram início em julho do ano passado e envolveram temas como o
Pix, o mercado de etanol e outros pontos da relação comercial entre os dois
países.
O
governo brasileiro afirma que já vinha preparando uma resposta antes mesmo do
anúncio das novas tarifas e avalia utilizar os instrumentos previstos na Lei da
Reciprocidade caso as sanções entrem em vigor conforme anunciado.
• Lula cobra respeito e diz que ‘ninguém
ganha do Brasil mentindo’
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (17) que só
comentará o novo tarifaço de 25% imposto
pelos Estados Unidos depois que o presidente Donald Trump se pronunciar sobre o
tema. A declaração foi feita durante visita à Carreta da Saúde da Mulher, no
Rio de Janeiro, onde participou de uma agenda na Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz) voltada à ampliação do acesso de mulheres aos serviços públicos de
saúde.
Ao
justificar a decisão de não abordar imediatamente o assunto, Lula afirmou que o
foco do evento deveria permanecer nas políticas públicas de saúde. “Eu falei
para caramba e não falei do tarifaço. Não vou falar, porque a notícia tem que
ser o SUS, a notícia tem que ser as nossas carretas, a notícia tem que ser o
tratamento das mulheres. Por isso, vou deixar para falar do tarifaço quando o
Trump falar. Quando o Trump falar, eu falarei, enquanto ele não falar, eu não
falarei”, disse Lula.
Na
sequência, o presidente afirmou que o Brasil responderá às críticas e medidas
adotadas pelos Estados Unidos sem permitir desinformação. “Porque nós vamos
mostrar que contra o Brasil ninguém ganha mentindo. Ou é mais verdadeiro que
nós ou não vai enganar a sociedade brasileira.”
<><>
Lula reforça defesa da soberania brasileira
Durante
o pronunciamento, Lula também reafirmou a defesa da soberania nacional e disse
que o Brasil exige o mesmo respeito que oferece aos demais países. “Esse país
precisa estar de cabeça erguida, porque esse país não aceita que nenhum outro
país do mundo faça desaforo para o Brasil. Queremos respeito da mesma forma que
damos respeito para todo mundo”, ressaltou.
A
declaração ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e
Estados Unidos após o anúncio das novas tarifas sobre produtos brasileiros.
<><>
Saúde pública foi prioridade da agenda
Ao
explicar por que evitou tratar do tarifaço durante o evento, Lula ressaltou que
o objetivo principal da cerimônia era destacar ações voltadas ao fortalecimento
do Sistema Único de Saúde (SUS) e à ampliação do atendimento às mulheres por
meio da Carreta da Saúde da Mulher, iniciativa apresentada durante a agenda na
Fiocruz.
<><>
Lula cita Copa do Mundo e pede orgulho do Brasil
Em
outro momento do discurso, Lula utilizou o desempenho da seleção brasileira na
Copa do Mundo como exemplo para defender o sentimento de orgulho nacional.
“Quando andar pelo mundo afora, ninguém que ouse falar mal do Brasil, ninguém,
porque nós não somos os melhores do mundo. Nós vimos o fracasso da nossa
seleção agora na Copa do Mundo, mas nós temos que ter orgulho de brasileiro.”
Fonte:
DW Brasil/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário