sábado, 18 de julho de 2026

O impacto das tarifas de Trump na corrida presidencial

O novo tarifaçoanunciado pelos Estados Unidos sob produtos brasileiros pode influenciar o debate político e eleitoral no Brasil a menos de três meses da data do pleito.

Analistas ouvidos pela DW Brasil avaliam que a medida tem potencial para repercutir tanto na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará defender sua condução da política externa, quanto na do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), diante das discussões sobre as relações entre sua família e o governo americano.

Especialistas apontam que os efeitos eleitorais ainda são incertos e dependerão da forma como governo e oposição tratarão o tema durante a campanha. O impacto econômico das tarifas e a percepção do eleitorado sobre a resposta do governo brasileiro também podem influenciar a disputa.

O governo americano anunciou na quarta-feira (15/07) tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, alegando a existência de práticas consideradas desleais no comércio bilateral. Entre os motivos citados estão medidas regulatórias relacionadas a empresas de tecnologia, aspectos ligados ao sistema de pagamentos Pix e questões envolvendo o mercado de etanol.

<><> Impacto pode ser similar ao de 2025

O impacto à campanha de Flávio Bolsonaro deve ser similar aos efeitos vistos no ano passado, quando os Estados Unidos impuseram as primeiras tarifas contra produtos brasileiros. À época, a menção do presidente americano Donald Trump ao processo judicial que mais tarde condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado fora usada como um dos argumentos para justificar as taxas. Além disso, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro havia anunciado publicamente que se reuniu com representantes do governo americano para articular a imposição das tarifas sobre o Brasil.

A conexão direta da família Bolsonaro com o anúncio da medida e seu impacto negativo em diferentes setores produtivos não se provou uma estratégia vantajosa para a oposição. O governo Lula apostou na narrativa de "soberania nacional”, acusando as tarifas de serem um ataque político ao país, patrocinado pela oposição.

"Se for explorado pelo governo como uma decisão tomada especialmente pela proximidade entre o bolsonarismo e o governo Trump, pode ser evidentemente benéfico para a candidatura de Lula”, afirma o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O movimento deve ocorrer, ele argumenta, apesar de Flávio afirmar que tentou interceder junto ao governo dos Estados Unidos contra o novo anúncio das tarifas.

Para Glauco Peres da Silva, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), a expectativa é de que a medida beneficie a campanha de Lula, a exemplo do ganho de popularidade do presidente no ano passado. Ele pontua, porém, que há possibilidade de a campanha de Flávio explorar a situação.

"Talvez exista alguma relação que o Flávio estabelece com o seu eleitorado, onde foi percebido que isso pode render algum fruto. É difícil de antever e capturar esse impacto porque, no ano passado, o resultado das tarifas foi um deslocamento da balança pró-Lula", analisa.

Os primeiros movimentos do governo após a crise mostram que a narrativa deve se manter a mesma.

Na noite de quarta, o Planalto repudiou as afirmações, afirmando que não considera legítimas as investigações, e justificando que a balança comercial é favorável aos Estados Unidos.

A campanha de Lula, porém, não está totalmente blindada do impacto político que as tarifas podem ter na popularidade do governo e na campanha à reeleição.

Apesar do impacto das tarifas ser menor do que no ano passado, após a inclusão de mais de 2 mil produtos na lista de exceções, Lula ainda pode sofrer com os efeitos econômicos da medida nos setores afetados.

Do lado da oposição, há expectativa de que Flávio tente associar a medida à política externa do governo Lula.

"Este deixou de ser um tópico que não entra nas eleições. O alinhamento internacional do país vai estar na discussão eleitoral", afirma Gustavo Glodes Blum, analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute.

<><> Momento de fragilidade

Apesar da similaridade com o primeiro anúncio de tarifas, o momento político mudou consideravelmente de um ano para cá, argumenta Cláudio Couto.

"Aquele tarifaço veio num contexto de fragilidade com a condenação de Jair Bolsonaro, mas você não tinha algo que atingisse de forma tão direta, para o eleitorado que não se importa com a tentativa de golpe, a honorabilidade da família Bolsonaro", comenta o professor, citando um momento de fragilidade na atual pré-campanha de Flávio.

Nos últimos meses, o senador acumulou diferentes acusações de envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, além de um racha familiar envolvendo sua madrasta e ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Há dois meses, o The Intercept Brasil publicou conversas entre Flávio e Vorcaro, que revelaram uma relação próxima entre o pré-candidato e o dono do Banco Master, preso acusado de comandar um esquema de fraudes financeiras. Nas mensagens, o senador negociou repasses milionários de Vorcaro para financiar um filme biográfico sobre o pai.

No final de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também publicou um vídeo nas redes sociais acusando Flávio de desrespeitá-la e de sofrer ataques coordenados de seus irmãos.

Já na quarta-feira, pouco antes do anúncio das tarifas, o site ICL Notícias publicou uma foto onde Flávio aparece com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, encarregado de praticar ameaças e violências contra desafetos de Daniel Vorcaro. Sicário cometeu suicídio em sua cela, após ser preso no início do ano.

<><> Alinhamento político com Trump

O movimento de imposição de tarifas dialoga diretamente com uma tentativa de maior ingerência americana sobre os países da América Latina e uma tentativa de negociação bilateral com os países que são tarifados, argumenta Gustavo Glodes Blum.

Segundo ele, a imposição de tarifas pelo governo americano não estaria ligada necessariamente a uma tentativa de apoiar a candidatura de Flávio, mas sim a um projeto de atingir governos na região que não tem um alinhamento direto com Trump.

"É menos sobre quem é a pessoa apoiada, pode ser o Flávio ou qualquer outro, desde que tenha essa linha ideológica de concordância com as políticas dos Estados Unidos", explica, citando o governo do presidente argentino Javier Milei como um exemplo de alinhamento direto com Washington.

"É uma política que vem sendo adotada desde o começo do governo Trump, mas também num momento de crescimento da direita na América Latina. Talvez se acredite que medidas dessa natureza possam fragilizar governos e eventualmente favorecer os seus adversários", comenta Cláudio Couto, mencionando a atuação do governo americano na região, em especial através do secretário de Estado Marco Rubio, de origem cubana. "Se estão pensando isso, me parece um cálculo equivocado, porque o resultado tem sido o oposto", adiciona.

Após o anúncio das tarifas impostas aos produtos brasileiros, Rubioacusou Lula de negociar em má-fé com os Estados Unidos.

"Ao longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso”, escreveu em uma rede social.

•        TariFlávio: EUA pressionaram Brasil por tarifa zero em setores-chave da economia nacional

Os Estados Unidos solicitaram ao Brasil a eliminação das tarifas de importação em setores considerados estratégicos, como os segmentos aeroespacial, industrial, químico e automotivo. Segundo a Folha de São Paulo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) considerou a proposta inegociável diante dos impactos que ela teria sobre a economia e a indústria nacionais.

“Eles pretendiam nada mais, nada menos do que a abertura de todo o mercado do setor químico, a redução a zero das tarifas dos bens industriais. O acesso ao mercado do setor automotivo norte-americano, e dentre outros setores”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, durante entrevista coletiva, na quinta-feira (16), sobre o tarifaço.

A exigência estadunidense ocorreu às vésperas da entrada em vigor da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, prevista para 22 de julho, no âmbito das medidas comerciais adotadas pelo governo do presidente Donald Trump.

<><> Governo considera proposta inaceitável

Integrantes do governo avaliam que a abertura total desses mercados representaria perdas significativas para a indústria brasileira. A avaliação é de que zerar tarifas em áreas como química, automotiva, industrial e aeroespacial comprometeria a competitividade de empresas nacionais e ampliaria a dependência de produtos importados. Por esse motivo, a proposta apresentada pelos Estados Unidos é considerada fora do campo de negociação.

<><> Exportações brasileiras serão afetadas

Com a implementação da tarifa adicional de 25%, aproximadamente US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras para o mercado estadunidense poderão ser atingidos, o equivalente a cerca de 18% das vendas brasileiras aos Estados Unidos. O governo brasileiro acompanha os impactos esperados sobre os setores exportadores e prepara medidas para reduzir os efeitos econômicos da decisão americana.

<><> Brasil reforça programa e prepara retaliação

Como resposta inicial, o governo anunciou o fortalecimento do programa Brasil Soberano, ampliando linhas de crédito destinadas a empresas afetadas pelas novas barreiras comerciais.

Além disso, Brasília pretende recorrer à Lei da Reciprocidade, aprovada em 2025, que autoriza o país a adotar medidas econômicas proporcionais em resposta a sanções comerciais impostas por outros países.

<><> Patentes e audiovisual estão entre os alvos estudados

Entre as alternativas analisadas pelo governo para uma eventual retaliação estão áreas consideradas sensíveis aos interesses americanos, como os setores de propriedade intelectual, patentes e audiovisual.

A intensidade das medidas dependerá da evolução das negociações e da efetiva aplicação das tarifas pelos Estados Unidos.

<><> Tarifaço é resultado de investigação comercial

A sobretaxa estadunidense foi autorizada com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos, instrumento utilizado para responder ao que Washington considera práticas comerciais desleais.

As investigações tiveram início em julho do ano passado e envolveram temas como o Pix, o mercado de etanol e outros pontos da relação comercial entre os dois países.

O governo brasileiro afirma que já vinha preparando uma resposta antes mesmo do anúncio das novas tarifas e avalia utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade caso as sanções entrem em vigor conforme anunciado.

•        Lula cobra respeito e diz que ‘ninguém ganha do Brasil mentindo’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (17) que só comentará o novo tarifaço de 25%  imposto pelos Estados Unidos depois que o presidente Donald Trump se pronunciar sobre o tema. A declaração foi feita durante visita à Carreta da Saúde da Mulher, no Rio de Janeiro, onde participou de uma agenda na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) voltada à ampliação do acesso de mulheres aos serviços públicos de saúde.

Ao justificar a decisão de não abordar imediatamente o assunto, Lula afirmou que o foco do evento deveria permanecer nas políticas públicas de saúde. “Eu falei para caramba e não falei do tarifaço. Não vou falar, porque a notícia tem que ser o SUS, a notícia tem que ser as nossas carretas, a notícia tem que ser o tratamento das mulheres. Por isso, vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Quando o Trump falar, eu falarei, enquanto ele não falar, eu não falarei”, disse Lula.

Na sequência, o presidente afirmou que o Brasil responderá às críticas e medidas adotadas pelos Estados Unidos sem permitir desinformação. “Porque nós vamos mostrar que contra o Brasil ninguém ganha mentindo. Ou é mais verdadeiro que nós ou não vai enganar a sociedade brasileira.”

<><> Lula reforça defesa da soberania brasileira

Durante o pronunciamento, Lula também reafirmou a defesa da soberania nacional e disse que o Brasil exige o mesmo respeito que oferece aos demais países. “Esse país precisa estar de cabeça erguida, porque esse país não aceita que nenhum outro país do mundo faça desaforo para o Brasil. Queremos respeito da mesma forma que damos respeito para todo mundo”, ressaltou.

A declaração ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos após o anúncio das novas tarifas sobre produtos brasileiros.

<><> Saúde pública foi prioridade da agenda

Ao explicar por que evitou tratar do tarifaço durante o evento, Lula ressaltou que o objetivo principal da cerimônia era destacar ações voltadas ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e à ampliação do atendimento às mulheres por meio da Carreta da Saúde da Mulher, iniciativa apresentada durante a agenda na Fiocruz.

<><> Lula cita Copa do Mundo e pede orgulho do Brasil

Em outro momento do discurso, Lula utilizou o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo como exemplo para defender o sentimento de orgulho nacional. “Quando andar pelo mundo afora, ninguém que ouse falar mal do Brasil, ninguém, porque nós não somos os melhores do mundo. Nós vimos o fracasso da nossa seleção agora na Copa do Mundo, mas nós temos que ter orgulho de brasileiro.”

 

Fonte: DW Brasil/Brasil 247

 

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