O
blackwashing faz mal à saúde
É
possível conciliar consciência antirracista com capitalismo? Ou tudo não passa
de mera fachada corporativa com o propósito de ampliar a base de consumidores?
De recente surgimento, o conceito de blackwashing ajuda a identificar indícios
que reforçam esta segunda hipótese. O termo se origina nos EUA, na década
passada, e ganhou força a partir do assassinato de George Floyd, asfixiado em
abordagem policial abusiva, o que desencadeou uma onda massiva de protestos nas
ruas do país inteiro. Mesmo em meio à pandemia de covid-19, que impunha o
isolamento social de toda a população, milhões de pessoas foram às ruas em
manifestações que se tornaram históricas e geraram alterações nas ações
públicas empresariais. No Brasil, no mesmo 2020, o assassinato de João Alberto
Silveira Freitas por seguranças de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre
também contribuiu para a criação de uma dinâmica de engajamento das corporações
em políticas alegadamente antirracistas.
No
entanto, como aponta o relatório Blackwashing 2.0 – As corporações são, de
fato, engajadas na pauta racial?, produzido pela organização da sociedade civil
ACT Promoção da Saúde, tal adesão do grande capital a campanhas de equidade
racial passa longe de alterar a estrutura social e econômica permeada pelo
racismo.
“A
grande questão do antirracismo é que tende a ser reduzido quando cooptado pela
lógica mercantil. Todo o seu potencial transformador e revolucionário tende a
ser reduzido a uma tática publicitária, que vai viabilizar a perpetuação de
práticas e produtos que vão adoecer um grupo coletivo inteiro”, explica a
nutricionista Vitória de Moraes, que participou da elaboração do estudo e
concedeu entrevista ao Outra Saúde.
A
primeira edição do Relatório, de 2023, já trazia o alerta: além da fragilidade
estrutural deste engajamento antirracista, tais marcas direcionavam suas
campanhas comerciais e ações inclusivas para produtos nocivos à saúde, como
álcool, tabaco e alimentos de baixo valor nutricional.
Lançado
em junho, o novo relatório reforça a tese de que tal posicionamento contribui
para agravar os indicadores de saúde da população negra e parda do país, o que
se manifesta através das discrepâncias de prevalência e mortalidade por doenças
crônicas não transmissíveis. Em termos conceituais, aos chamados determinantes
sociais de saúde se somam os determinantes comerciais. Aqui, mais uma vez há um
exemplo que vem do exterior: “tais empresas faziam algumas ações de
responsabilidade social corporativa, mas, por outro lado, vinham direcionando
sua publicidade para indivíduos em situação de maior vulnerabilidade social, [o
que] resultou em alta taxa de mortalidade em decorrência do tabagismo, até hoje
o maior fator de risco de mortes evitáveis para a população negra nos Estados
Unidos”, pontuou Vitória de Moraes.
Como se
pode ler na entrevista, a estrutura social e as decisões econômicas do país
tendem a reforçar o fenômeno. Desde uma política tributária que facilita o
consumo de alimentos ultraprocessados a uma formação excludente do espaço
urbano, tem-se a fórmula para gerar mais desigualdades em saúde. “Hoje já há
estudos que mostram regiões periféricas caracterizadas como ‘pântanos e
desertos alimentares’, isto é, regiões que têm uma grande oferta de
ultraprocessados e quase nenhuma oferta de alimentos in natura. São nessas
localidades que as pessoas negras residem, periferias, favelas, todos fatores
de impulsionamento desses produtos na população negra, já inseridas em
situações de vulnerabilidade social em sua maioria”, destacou Vitória.
Como
explica o relatório, há um uso dos símbolos e cultura da população negra que
agrava as contradições. “A propaganda direcionada a esse público, o patrocínio
a festividades que possuem raízes profundas na cultura negra, como o Carnaval
(incluindo escolas de samba) e o São João, e a utilização de elementos de
identidade e afetividade com a cultura negra, têm um papel importante nos
padrões de consumo e, consequentemente, no impacto causado na saúde”, descreve
o relatório. Outro aspecto relevante do estudo é que o antirracismo das grandes
empresas não se reflete sequer em sua estrutura de cargos e carreira. “As
proposições se resumem muito a políticas afirmativas voltadas aos cargos mais
básicos, como processo seletivo para estagiários e trainees, dentro da
estrutura corporativa. O estagiário nem está contemplado na CLT, o trainee tem
um contrato temporário sem garantia de efetivação”, criticou a nutricionista.
Para piorar, a onda conservadora que arrasta o mundo demoveu boa parte das
empresas de manter tal engajamento, ainda que superficial. Resta a luta
política, que no final das contas sempre angariou melhores resultados do que a
benevolência do capital.“As empresas operam numa lógica do capital, predatória
e inerente à própria organização do capital, que busca incessantemente por
lucro. Não é que seus executivos tenham a intenção de fazer o que relatamos
aqui, mas operam numa lógica mais prejudicial para grupos que já estão em
alguma situação de vulnerabilidade”, sintetizou Vitória de Moraes.
<><> Confira a entrevista completa.
• Começando pela palavra que nomeia o
estudo, o que é blackwashing?
A noção
surge em 2020, nas manifestações do movimento Black Lives Matter, iniciadas nos
EUA em protesto pela morte de George Floyd, asfixiado em abordagem policial. A
partir de uma demanda popular por compromissos institucionais de equidade
racial, começamos a perceber esse comportamento de empresas do ramo que
analisamos, no caso, empresas que vendem produtos nocivos à saúde, como tabaco,
álcool e ultraprocessados. O relatório é muito inspirado em um documento que já
tinha sido produzido por um parceiro internacional nosso, que analisou como que
a indústria do tabaco, por décadas, direcionou anúncios publicitários para
comunidades negras nos Estados Unidos. Tais empresas faziam algumas ações de
responsabilidade social corporativa, mas, por outro lado, vinham direcionando
sua publicidade para indivíduos em situação de maior vulnerabilidade social.
Neste caso, resultou em alta taxa de mortalidade em decorrência do tabagismo,
até hoje o maior fator de risco de mortes evitáveis para a população negra nos
Estados Unidos. Dessa forma, queríamos entender o cenário aqui no Brasil, à luz
de toda a construção histórica, social e racial do país, também olhando para
outros fatores de risco, relativo a produtos que não têm o nível de regulação
do tabaco. Assim, ampliamos essa percepção para as empresas de ultraprocessados
e bebidas alcoólicas e o conceito, e a gente chegou à conclusão de que há um
“washing” (lavagem) de imagem.Daí o termo blackwashing, uma vez que essas
empresas possuem práticas nesse sentido. Além dos próprios produtos serem
nocivos à saúde, vemos um crescimento da prevalência do consumo abusivo de
álcool e um crescimento cada vez maior do consumo de ultraprocessados por esses
indivíduos. Portanto, tais empresas também possuem práticas que corroboram para
uma piora dos indicadores de saúde da população negra.
• Uma dimensão do estudo é a que aponta
uma prevalência de produtos nocivos à saúde nos cases de blackwashing. A que se
deveria isso? Haveria um padrão de maior inclusão de negros e negras em
merchandising e ações de destaque de produtos de menor valor socioeconômico?
O
relatório não chegou a fazer uma análise de produtos de menor valor social ou
não, mas na primeira versão chegamos a observar marcas de cerveja de uma mesma
empresa. Por exemplo, nos comerciais de cervejas produzidas pela Ambev vimos
que as mais baratas continham mais pessoas negras; já marcas mais nichadas e
mais caras, menos. Aqui, vou falar como nutricionista: vemos um aumento do
consumo desses produtos no Brasil muito por uma questão de saturação dos
mercados centrais, na Europa, na América do Norte, cujos produtos agora chegam
em vários países do Sul Global. Antes, era um produto muito destinado para as
camadas mais ricas da população, consequentemente mais brancas — pensando que
no Brasil temos a interlocução entre raça e classe. Com o passar dos anos,
vemos que esses produtos vêm se tornando cada vez mais baratos e por diversos
motivos. Fenômenos como as mudanças climáticas acabam aumentando o valor dos
alimentos in natura; e quando comparamos a tributação, vemos que é muito mais
barato produzir uma lata de refrigerante do que um suco. E tem a própria
disponibilidade física: hoje, já há estudos que mostram regiões periféricas
caracterizadas como “pântanos e desertos alimentares”, isto é, regiões que têm
uma grande oferta de ultraprocessados e quase nenhuma oferta de alimentos in
natura. São nessas localidades que as pessoas negras residem, periferias,
favelas, todos fatores de impulsionamento desses produtos na população negra,
já inseridas em situações de vulnerabilidade social em sua maioria.
• O estudo teoriza, como desdobramento do
conceito de determinação social da saúde, os determinantes comerciais. Como se
daria sua estrutura reprodutiva?
É uma
ideia que vem crescendo na agenda científica, no campo da saúde pública.
Olha-se para a forma como os atores comerciais impulsionam, ou não, a saúde das
pessoas e das comunidades, a partir do princípio de que tanto os produtos
quanto as práticas, através da forma como as corporações estão organizadas,
trazem impactos sobre a saúde de indivíduos e comunidades. A experiência
pioneira é da indústria do tabaco, justamente pela questão da regulação, quando
se percebeu que não era suficiente regular só os produtos do tabaco, como
cigarro, mas as atividades da indústria como um todo. Isso implica regulação de
publicidade e das interações público-privadas. Por exemplo, há todo um
protocolo a ser seguido quando um agente público tem uma reunião com um lobista
da indústria do tabaco. E todo esse aparato de regulação foi o que realmente
resultou na queda dos índices de tabagismo aqui no Brasil.
• O pensamento crítico desenvolvido e
afirmado cientificamente por pessoas negras e absorvido pelos diversos
movimentos antirracistas pode ser percebido na ação e mesmo na ‘missão’ de
empresas?
Existe
una absorção, mas de uma forma bem rasa. O que geralmente percebemos, tanto no
primeiro quanto neste segundo relatório, é que as proposições se resumem muito
a políticas afirmativas voltadas aos cargos mais básicos, como processo
seletivo para estagiários e trainees, dentro da estrutura corporativa. O
estagiário nem está contemplado na CLT, o trainee tem um contrato temporário
sem garantia de efetivação. Há a tática de aumentar a presença de pessoas
negras nos anúncios publicitários, mas quando vamos a fundo concluímos que as
práticas são mais danosas a pessoas negras. É uma incorporação que oculta todo
o caráter transformador do antirracismo, que também opera muito numa lógica
individual, de promover uma pessoa. É óbvio que isso tem alguma importância
para um indivíduo, aquela família, mas quando ampliamos o olhar para uma
perspectiva mais coletiva chegamos à conclusão de que só se mascara o problema,
sem ir em sua raiz. Tal dinâmica oculta o fato de tais empresas fazerem parte
de toda a lógica produtiva que influencia negativamente a saúde de pessoas
negras.
• Outro aspecto delicado de toda a
engrenagem exposta é a questão alimentar, que se apresenta mediante as noções
de desertos e pântanos alimentares, como você mencionou. Em resumo, como
devemos ver o Estado nesta discussão?
O
relatório mostra bem o diálogo entre o setor privado e o Estado. Entendemos que
o Estado não é um bloco monolítico, há diferentes visões dentro de um governo,
umas mais orientadas pelo interesse público, outras mais pelo interesse
privado. E há disputas. A tributação é um ponto decisivo. Tivemos uma disputa
quando o governo isentou uma fatia maior de pessoas do imposto de renda, o que
gerou uma reação na elite econômica e dos setores privados. Mas se olhamos para
quanto o governo deixa de arrecadar ao conceder isenção fiscal para empresas
vemos uma grande discrepância. As renúncias fiscais declaradas pela Coca-Cola
(e os dados costumam ser subestimados) é um exemplo. Apenas em nível federal,
sem contar impostos estaduais, o valor era quatro vezes maior do que o
orçamento executado pelo Ministério dos Direitos Humanos em 2024. Uma empresa
que não traz nenhum retorno positivo para a sociedade, tem um produto que já
possui inúmeras comprovações científicas de associação com a obesidade e outras
doenças crônicas não transmissíveis, precisa de muita água para ser fabricado,
não gera tanto emprego e não tem nenhum tipo de transformação local a partir da
instalação de uma planta fabril. Pelo contrário, há mais externalidades
negativas, como falta de água nos mananciais próximos e aumento da sobrecarga
do SUS por doenças evitáveis. Portanto, é uma escolha do Estado deixar de
arrecadar dessa empresa, o que piora quando vemos o orçamento de ministérios
superimportantes para a população negra. O Ministério da Igualdade Racial,
pasta nova e pequena, tem orçamento 10 vezes menor do que a Coca-Cola deixa de
pagar imposto.
• Como isso se reflete na saúde coletiva,
mais propriamente nas populações negras e pardas?
Devemos
pensar na realidade que estamos construindo, como as escolhas políticas vão
induzir negócios prejudiciais tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.
Um dos focos do nosso trabalho na ACT é abordar a tributação como uma
propulsora da saúde – ou seu reverso. Um sistema tributário que estimula mais a
produção de ultraprocessados do que alimentos agroecológicos, por exemplo,
estimula um sistema alimentar mais desigual e prejudicial ao meio ambiente e à
saúde das pessoas. É hora de pensar em políticas que realmente sejam orientadas
pelo interesse público e pelo bem comum. E a alimentação é uma agenda central
nesse sentido, porque o Brasil é referência em políticas de alimentação e
nutrição, mas quando agregamos dados de insegurança alimentar por raça e cor
vemos facilmente quais os grupos mais prejudicados. O Brasil tem muita coisa já
aprendida e tem muito a ensinar para outros países, mas ainda tem algumas
contradições internas que precisam ser resolvidas. E essas contradições são
inerentes ao processo de disputa entre o interesse público e o privado.
• Portanto, estamos diante de uma dinâmica
que seguirá a agravar taxas de adoecimento e mortalidade entre a população
negra.
As
empresas operam numa lógica do capital, predatória e inerente à própria
organização do capital, que busca incessantemente o lucro. Operam numa lógica
mais prejudicial para grupos que já estão em alguma situação de
vulnerabilidade. No caso brasileiro, a população negra, pessoas que
historicamente têm seus direitos isolados e foram condicionadas a essa situação
de marginalização. Portanto, a lógica produtiva desses atores contribui para o
adoecimento.
• Em um determinado trecho, o estudo faz o
seguinte questionamento: “o que permanece para a comunidade negra após o
encerramento dessas campanhas publicitárias ‘antirracistas’”? Qual sua resposta
para tal indagação?
Em
nível global, por exemplo, 2020 foi o ano em que todas as empresas declararam
seus compromissos antirracistas, mas a partir do momento de uma mudança na
dinâmica política, muito atrelada à eleição do Trump nos Estados Unidos, todos
esses compromissos caem. E passa-se a seguir uma cartilha do que traz algum
retorno de investimento. Aqui no Brasil temos o exemplo com a comunidade
LGBTQi+, que hoje tem apenas duas marcas de patrocínio em sua Parada, uma
grande queda em comparação com aquele momento de 2020. E já temos evidências de
que todos esses compromissos voluntários e acordos não mudam a realidade, pois
se fica refém da caridade corporativa. Só que as corporações agem de acordo com
o que vão receber em troca, tanto em termos de reputação quanto em termos
financeiros. Há inúmeros exemplos no campo da sustentabilidade do quanto esses
acordos voluntários não funcionam. Por exemplo, a Vale faz vários acordos com
comunidades, apresenta um relatório de sustentabilidade lindo, verde, mas na
prática promove destruição e aterra uma região inteira em rejeitos.
• Em linhas gerais, o conteúdo do estudo
da ACT pode ser percebido como profundamente crítico do capitalismo em seu
sentido mais amplo, e tal sistema é apontado como pano de fundo de uma relação
que, ao seguir sua natureza, não pode deixar de ser superficial. A afirmação de
que as empresas enxergam o público-alvo do estudo apenas como consumidores e
não cidadãos é uma das sínteses essenciais. A esta altura do desenvolvimento
histórico, e com a ascensão de forças políticas que retrocedem políticas
afirmativas, até que ponto a pauta antirracista encontraria espaço para se
realizar?
Há
diferentes olhares e percepções dentro da agenda antirracista. Algumas ações
são efetivas. Outras nem tanto, como é o caso dessas políticas de estagiários
negros, por exemplo. É importante para um indivíduo se pensamos em sua inserção
no mercado de trabalho, mas essas empresasnão declaram ou declaram muito pouco
o que acontece depois que essas pessoas são admitidas. Quais são os mecanismos
de permanência, de promoção? E aí entramos numa discussão da construção da
branquitude: os superiores brancos tendem a privilegiar aqueles que são
parecidos com eles, passaram por experiências semelhantes, têm os mesmos
códigos sociais e culturais. Isso nunca vai ser contemplado por um processo
afirmativo de promoção, porque é uma coisa muito subjetiva. Existem alternativas
que têm um potencial de transformação, mas muito limitado. A grande questão do
antirracismo é que ele tende a ser reduzido quando cooptado pela lógica
mercantil. Todo o seu potencial transformador e revolucionário tende a ser
reduzido a uma tática publicitária, que vai viabilizar a perpetuação de
práticas e produtos que vão adoecer um grupo coletivo inteiro. É uma
contradição, no mínimo. E de fato estamos num momento que parece difícil
acreditar em transformações maiores, mas o histórico de luta e de resistência
dos movimentos negros no Brasil mostra ser possível conquistar transformações
duradouras e significativas para a população negra, que não dependam da boa
vontade nem do Estado, nem das corporações como um todo.
Tudo o
que conhecemos de política afirmativa, a exemplo da Política Nacional de Saúde
Integral da População Negra, não veio das mãos de Isabel, como dizia o samba da
Mangueira. É uma construção política dos movimentos negros engajados e guiados
pela percepção coletiva e transformadora do antirracismo.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

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