O
que necropsias revelam sobre o risco de morte cardíaca entre fisiculturistas
Cinco
meses antes de morrer, o fisiculturista americano Dallas McCarver quase
desmaiou no palco durante uma competição. Ele estava sofrendo de problemas
respiratórios que já se arrastavam por semanas.
Dallas
buscou o pronto-socorro e foi liberado com a recomendação de procurar um
cardiologista.
Mas,
pouco depois, em agosto de 2017, ele foi encontrado inconsciente no chão de
casa e morreu uma hora depois de ser socorrido. Dallas tinha 26 anos.
A
necropsia revelou que seu coração pesava 833 gramas, mais que o dobro do peso
médio esperado para um homem adulto.
Dallas
McCarver, conhecido como "Big Country", era um dos atletas mais
musculosos do mundo. Tinha conquistado, no ano anterior, o oitavo lugar no Mr.
Olympia, o principal campeonato do fisiculturismo.
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O coração que cresce demais
O laudo
médico de McCarver apontou para um espessamento do ventrículo esquerdo,
responsável por bombear o sangue para todo o corpo.
Além
disso, o músculo cardíaco do atleta sofria com o acúmulo de placas de gordura
nas artérias.
"O
coração é um músculo como qualquer outro", explica o endocrinologista
Clayton Macedo.
"Sempre
digo que olho o bíceps do paciente e já sei o tamanho do coração dele, porque
ele cresce junto."
"Esse
aumento importante do coração, sem conseguir bombear direito, porque o volume
ocupa espaço, prejudica o trabalho efetivo do músculo", detalha Macedo.
"Esse
indivíduo pode ter um mal súbito e vir a óbito."
A
médica-legista responsável pelo laudo da morte de Dallas McCarver concluiu que
o abuso prolongado de anabolizantes esteroides contribuiu para seu falecimento.
A
análise toxicológica constatou que o nível de testosterona sintética no corpo
dele estava mais de 30 vezes acima do limite considerado normal.
Por
anos, casos como o de "Big Country" foram veiculados como episódios
isolados.
Mas o
debate sobre mortes precoces de fisiculturistas voltou à tona após a morte do
atleta Mailson Araújo, de 35 anos, na última segunda-feira (13/7).
Assim
como Dallas McCarver, ele passou mal dentro de casa, em Alagoinhas, no interior
da Bahia. A causa da morte do brasileiro ainda não foi divulgada.
O caso
vem na sequência de outro que chamou muita atenção: a morte súbita de Gabriel
Ganley, que era, aos 22 anos, um dos principais nomes do fisiculturismo
nacional, em situação muito parecida, em maio.
O
fisiculturista Edson da Silva Ferreira, de 40 anos, morreu vítima de um
infarto, em Teresina, em julho do ano passado.
Dois
meses antes, o atleta Wanderson da Silva Moreira, de 30 anos, teve uma parada
cardiorrespiratória durante uma competição em Campo Grande.
O que
está por trás das mortes destes atletas, todos de forma súbita e por questões
ligadas ao coração?
Um
estudo publicado no European Heart Journal, que acompanhou mais de 20 mil
fisiculturistas profissionais e amadores ao longo de 16 anos, encontrou uma
taxa de morte súbita cardíaca entre atletas profissionais cinco vezes maior em
comparação com os amadores.
Entre
os que competem no Mr. Olympia, o estudo apontou sete mortes a cada cem
atletas. A idade média foi de apenas 36 anos.
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Adaptação do corpo ou doença?
O
cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt, presidente da Sociedade Brasileira de
Cardiologia na Bahia, explica que existem dois tipos de coração aumentado em
quem treina força de forma intensa.
Um
deles é a própria adaptação do corpo. A pressão arterial sobe repetidamente
durante o levantamento de peso, e o músculo cardíaco acaba engrossando em
resposta. Esse processo fisiológico vai regredir se a pessoa parar de treinar,
geralmente em cerca de três meses.
O
outro, provocado pelo uso de anabolizantes esteroides, é diferente.
"Esse
coração pode não só hipertrofiar, mas começar a dilatar, perder força de
contração", diz Ritt.
"Isso
pode levar à insuficiência cardíaca e vai se perpetuando, até chegar a um ponto
em que não volta mais ao normal."
O
endocrinologista e médico do esporte Clayton Macedo confirma a distinção, do
ponto de vista clínico.
"Talvez
pela intensidade, quem usa anabolizante vai ter isso exacerbado. O
fisiculturista natural, pelo tipo de exercício, até pode ter um crescimento do
coração como forma de compensação, mas são casos bem mais leves. A gente não vê
normalmente essa gravidade, esse desfecho ruim, em quem é natural."
Um
estudo dinamarquês publicado em março de 2025 na revista científica Circulation
acompanhou, por 11 anos, 1.189 homens usando anabolizantes em academias e os
comparou a quase 60 mil homens da população geral.
O risco
de cardiomiopatia era quase nove vezes maior nos usuários de anabolizantes; o
de infarto, três vezes maior, e o de insuficiência cardíaca, mais que o triplo.
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'Não existe forma segura de usar anabolizantes'
Rodrigo
Góes, ex-fisiculturista e hoje criador de conteúdo contra o uso indiscriminado
de anabolizantes, conta à BBC News Brasil que ele competiu de forma natural, ou
seja, sem uso de substâncias, até os 30 anos, quando decidiu "ciclar"
com acompanhamento médico.
Este é
o termo usado por quem usa anabolizantes para se referir ao período, de semanas
ou menos, em que faz uso destas substâncias, seguida por uma pausa para
recuperação.
"No
corpo, é magnífico, é fenomenal", diz Rodrigo, sobre os efeitos.
"Você
cresce muito mais rápido do que natural, fica mais seco, seus músculos se
recuperam mais rápido. É por isso que é tão tentador."
Mesmo
com doses que classifica como cautelosas e aplicadas com supervisão médica,
Góes relata ter sofrido com efeitos colaterais, como a queda de cabelo,
estresse, insônia e suores noturnos intensos.
Mas o
que mais pesou, segundo ele, foi o psicológico. "Eu não me sentia tão bem
com todo o esquema das agulhadas. Eu me sentia, de certa forma, um drogado. É
pesado falar isso, mas eu sentia que estava fazendo algo errado", afirma
Rodrigo.
"Não
existe forma segura de usar esteroides anabolizantes. O que o médico faz é
controlar os danos. Mas haverá danos."
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O que as necropsias mostram
As
mudanças estruturais do coração aparecem nos laudos de necropsia. Um estudo
publicado em outubro de 2025 na Frontiers in Cardiovascular Medicine reuniu
laudos forenses de fisiculturistas mortos ligados ao uso de anabolizantes,
documentados na Itália e na Espanha.
Dois
fisiculturistas italianos, de 20 e 23 anos, morreram subitamente após anos de
uso de esteroides anabolizantes.
Os
corações desses atletas pesavam 440 e 430 gramas, e a parede que separa os
ventrículos, que deveria medir menos de 10 milímetros, tinha entre 21 e 22
milímetros de espessura.
Outro
fisiculturista, de 24 anos, sem histórico familiar de doença cardíaca, sofreu
parada cardiorrespiratória em casa após uma festa.
A
necropsia revelou um coração de 420 gramas e mais de 75% de obstrução nas
principais artérias responsáveis por irrigar o coração.
Um
estudo anterior, de 2022, já apontava para a mesma direção, e o próprio
McCarver esteve entre os seis fisiculturistas americanos analisados.
O
coração deles pesava, em média, 73,7% mais que o valor de referência para um
homem adulto, e as paredes do ventrículo esquerdo eram até 125% mais espessas
que o normal.
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A 'zona cinzenta'
Em maio
deste ano, o fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley morreu precocemente.
O
atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica — o engrossamento anormal
do músculo cardíaco — como causa da morte súbita.
Essa
condição pode ter origem genética ou ser provocada pelo uso de anabolizantes.
"Existe
uma zona cinzenta, que é difícil a gente dizer o que é: se é mesmo uma
cardiopatia hipertrófica geneticamente determinada, ou se seria por uso de
anabolizante, ou até por uma adaptação do próprio treino", explica o
cardiologista Ritt.
"Pode
existir ainda uma situação sobreposta, em que você tem uma predisposição
genética e o uso de substâncias levou a uma progressão mais rápida."
Mesmo
um coração aparentemente normal não está livre de risco quando exposto a
anabolizantes, diz Ritt.
"O
anabolizante tem a possibilidade de, por si só, gerar uma arritmia. Pode ser
pela dilatação das câmaras ou por fibrose, que são cicatrizes no músculo que
também podem desencadear batimentos irregulares."
Para os
autores do estudo do European Heart Journal, os fisiculturistas profissionais
correm o risco mais alto, mas o mesmo padrão de consumo de anabolizantes se
espalhou por academias.
"Toda
hora morre alguém por uso de anabolizantes, mas as pessoas conseguem manobrar
para nunca culpar o anabolizante, e sim o indivíduo", diz Rodrigo Góes.
A
prescrição de anabolizantes para fins estéticos é proibida no Brasil desde
2023, por decisão do Conselho Federal de Medicina. Mas, na prática, a
determinação não impediu o mercado de crescer exponencialmente nos últimos
anos.
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'Apagão' de dados
Não há
dados sobre o número de mortes ligadas a anabolizantes no Brasil.
Um
médico-legista do Instituto Médico Legal de São Paulo, que não quis se
identificar, explicou à BBC News Brasil que a toxicologia de rotina procura
substâncias que não deveriam estar no corpo.
Esteroides
anabolizantes, porém, são moléculas muito parecidas com hormônios que o próprio
organismo já produz, o que torna difícil identificá-los.
Então,
em muitos casos, o atestado de óbito registra a causa imediata, uma parada
cardíaca ou uma cardiomiopatia, mas o vínculo com o uso de anabolizantes se
perde no caminho.
O
endocrinologista Clayton Macedo, também coordenador do programa #BombaTôFora,
diz que não precisa de laudo para saber quando um coração está em risco.
"A
gente não chega numa academia e pergunta: 'Você está usando
testosterona?'", diz o médico.
"Eu
que trabalho com isso, olho o bíceps da pessoa e já sei. Só que, infelizmente,
quando eu olho o bíceps, eu entendo que aquele coração já está comprometido ou
começando a ficar comprometido. Muitas vezes, a conta vem depois."
Fonte:
BBC News Brasil

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