Socialdemocracia
europeia em extinção
A
maioria do eleitorado de países europeus parece está rejeitando o pagamento de
uma carga tributária maior para sustentar seus Estados de Bem-estar social. Tem
aversão da prestação de serviços públicos de qualidade para imigrantes. Isso é
um dos mecanismos políticos pelos quais a lógica financeira e patrimonial passa
a dominar o funcionamento macroeconômico da sociedade. Não é a única causa, nem
necessariamente a principal em todos os casos.
Essa
formulação toca em uma transformação muito profunda: a passagem de uma
sociedade centrada na solidariedade distributiva para uma sociedade centrada na
preservação patrimonial individual. Isso tem relação direta com
financeirização, envelhecimento demográfico, globalização, imigração, mudanças
culturais, insegurança econômica e transformação das classes médias.
O
Estado de Bem-estar social dependia de um pacto histórico específico. O Welfare
State europeu do pós-guerra surgiu em um contexto muito particular de
crescimento econômico elevado, população relativamente jovem, forte
industrialização, sindicatos com poder de barganha, expansão da produtividade
contínua, tributação progressiva, homogeneidade nacional relativamente maior e
ameaça geopolítica soviética.
Havia
uma percepção: todos contribuíam e todos receberiam benefícios ao longo da
vida. O sistema possuía legitimidade coletiva, solidariedade intergeracional e
horizonte de ascensão social.
A
financeirização alterou esse pacto social. Com a expansão da riqueza financeira
através de previdência privada, fundos de investimento, valorização imobiliária
e aumento do patrimônio financeiro, parte da classe média de alta renda passou
a depender menos de proteção pública universal e mais da valorização de seus
ativos privados. Isso mudou os incentivos políticos.
O
cidadão europeu tornou-se simultaneamente contribuinte e investidor. Lá e aqui,
o indivíduo contemporâneo pensa como trabalhador em busca de elevação de seu
salário, mas também como proprietário de imóvel, investidor, cotista de fundos
mútuos e poupador previdenciário. Então, políticas com elevação de impostos,
para supostamente baixar juros, acabam por reduzir a valorização patrimonial e
são percebidas como ameaça pessoal. Isto mesmo quando fortaleceriam serviços
públicos, ampliariam a coesão social e sustentariam a demanda agregada.
A
imigração tensiona esse equilíbrio político. Em muitos países europeus, parte
do eleitorado passou a perceber – corretamente ou não – contribuir muito via
impostos, mas os benefícios serem compartilhados com recém-chegados.
Isso
produziu ressentimento fiscal, nacionalismo distributivo e reação identitária
ultranacionalista ou neofascista. Ocorreu, especialmente, quando coexistiu com
crescimento baixo, precarização, crise habitacional e insegurança cultural.
O
problema não é apenas “egoísmo”. Tem de se evitar simplificações morais nesse
debate. O fato é: muitas pessoas sofrem com estagnação salarial,
envelhecimento, perda de segurança econômica, competição por serviços públicos
e pressão tributária elevada. Nesse contexto, a defesa do patrimônio privado
torna-se mecanismo de autoproteção social.
A
financeirização privatiza parcialmente a segurança social. No Welfare State
clássico, aposentadoria, saúde, educação e proteção social dependiam fortemente
do Estado e da tributação coletiva. Na sociedade financeirizada, previdência
privada, patrimônio imobiliário e aplicações financeiras tornam-se mecanismos
privados de proteção contra insegurança futura.
Isso
altera a própria cultura política. A sociedade tende a deslocar-se de
solidariedade coletiva para gestão individualizada de riscos. O cidadão passa a
pensar apenas em “meu patrimônio”, “minha aposentadoria”, “meus investimentos”
e “meu imóvel”. Isso enfraquece parcialmente identidades coletivas, sindicatos
e políticas universalistas.
Mas há
também fatores demográficos e econômicos reais. Os sistemas europeus enfrentam
envelhecimento populacional, menor crescimento econômico, menor expansão da
produtividade e aumento do custo previdenciário, além de maior competição
global. Logo, o problema não decorre apenas de “falta de solidariedade”. Há
pressão estrutural real sobre financiamento público, previdência, saúde e
habitação.
A
imigração é também funcional economicamente. Há um paradoxo importante. Muitos
países europeus envelhecem rapidamente, têm baixa natalidade e precisam de
trabalhadores. Imigrantes ajudam o mercado de trabalho, a arrecadação fiscal, a
previdência pública e prestam serviços manuais rejeitados pelos locais mais
enriquecidos. Mas a integração cultural, urbana, habitacional e educacional nem
sempre ocorre sem tensões.
O
vínculo com a financeirização aparece quando a economia cresce pouco e os
salários estagnam. Logo, a valorização patrimonial torna-se central para
manutenção do padrão de vida.
Então,
imóveis, fundos, aposentadorias capitalizadas e aplicações financeiras ganham
peso político enorme. Nesse ambiente, políticas redistributivas passam a ser
percebidas por parte do eleitorado como ameaça ao patrimônio acumulado.
Isso
gera uma transformação histórica das democracias capitalistas. No capitalismo
industrial, o conflito principal era capital versus trabalho. No capitalismo
financeirizado, surgem conflitos mais fragmentados: proprietários versus não
proprietários; entre gerações; insiders versus outsiders; nacionais versus
imigrantes; ativos patrimoniais versus tributação redistributiva.
Mas o
fenômeno é contraditório. Mesmo sociedades financeirizadas continuam dependendo
fortemente de infraestrutura pública, saúde pública, educação pública,
estabilidade estatal, bancos centrais e seguridade social. Logo, o
individualismo patrimonial não elimina a interdependência sistêmica.
O
grande dilema contemporâneo diz respeito a como preservar o dinamismo
econômico, a segurança patrimonial, a coesão social, a legitimidade
democrática, a solidariedade fiscal e a integração multicultural.
Alcançar
esse equilíbrio socioeconômico e político tornou-se muito mais difícil após a
globalização, a financeirização, o envelhecimento demográfico e a fragmentação
política das sociedades ocidentais.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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