sábado, 18 de julho de 2026

Ataque ao Pix e tariFlávio colocam Trump na disputa eleitoral brasileira contra Lula

As novas tarifas anunciadas por Donald Trump contra o Brasil, amparadas em investigações sobre o PIX e o etanol, ultrapassam o terreno técnico do comércio e se inscrevem em uma lógica de securitização, isto é, a transformação de temas comuns em ameaças existenciais para justificar medidas extraordinárias.

Na prática, isso implica tratar iniciativas como o PIX não apenas como escolhas soberanas, mas como potenciais riscos à posição dos Estados Unidos na economia global. Como observou editorial do The Guardian (2026), Trump recorre a acusações comerciais e ao uso de tarifas não apenas para corrigir supostos desequilíbrios, mas para pressionar e constranger a autonomia de países como o Brasil.

O resultado é uma inflexão geoeconômica em que as tarifas deixam de ser meros instrumentos de proteção e passam a funcionar como dispositivos de poder.

Nesse movimento, infraestruturas financeiras e matrizes energéticas domésticas deixam o campo da eficiência de mercado para operar na fronteira da segurança nacional, disciplinando as margens de autonomia brasileira no sistema internacional, não por razões técnicas ou econômicas, mas como parte de uma estratégia deliberada de contenção que redefine, de forma desigual, as regras do jogo em favor de uma única potência.

O que hoje aparece como medida pontual já se desenhava em episódios anteriores, quando práticas econômicas passaram a ser reinterpretadas sob a lógica da segurança. A novidade não está no gesto em si, mas em seu grau de explicitação e intensidade.

Para compreender a genealogia dessa investida, é preciso recuar ao diagnóstico de Taís Alfredo (2025) sobre o ressurgimento do mercantilismo na América de Donald Trump. Sob essa ótica, o livre mercado deixa de ser um dogma estruturante e passa a figurar como mera retórica de conveniência. O comércio internacional é reconfigurado como um jogo de soma zero, em que a prosperidade do outro é lida como vulnerabilidade própria.

Essa transição pavimenta o caminho para o que se consolida como uma guerra silenciosa contra o avanço da China e, por extensão, contra a própria ascensão do Sul Global. Ao retaliar o Brasil, Washington não mira apenas distorções comerciais localizadas; busca, sobretudo, conter a periferia global que tenta diversificar suas parcerias estratégicas e tecnológicas para além da órbita do dólar.

Essa dinâmica, contudo, não é um fenômeno recente, mas a atualização de uma lógica imperial historicamente persistente que condiciona as relações entre os Estados Unidos e a América Latina. Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, Washington tem reiteradamente priorizado a defesa de seus interesses estratégicos e econômicos, apoiando golpes de Estado e regimes autoritários sempre que processos democráticos ameaçaram essa ordem.

Sob essa ótica, a região, tradicionalmente vista sob o prisma da segurança hemisférica estadunidense, vê suas tentativas de inserção soberana serem rotuladas como ameaças à estabilidade regional. O que antes se justificava pela contenção ideológica ou militar hoje se ampara na tecnocracia regulatória. A punição econômica, portanto, funciona como um corretivo geopolítico clássico: um mecanismo de enquadramento destinado a disciplinar governos que ousam desafiar o monopólio de influência de Washington em seu antigo “quintal”.

É justamente nesse ponto que essa lógica deixa de operar apenas como estrutura histórica e passa a se manifestar de forma concreta no presente. No caso brasileiro, essa engrenagem punitiva ganha contornos práticos na ofensiva contra os pilares da soberania tecnológica e ambiental do país.

Ao colocar sob investigação o PIX, o etanol e o acesso aos minerais críticos, os Estados Unidos materializam sua estratégia de contenção sob a roupagem da defesa cibernética e da segurança de dados, deslocando deliberadamente o debate do campo técnico para o da segurança.

O PIX, amplamente reconhecido como um caso de sucesso em inclusão financeira e eficiência digital, passa a ser retratado por Washington não como uma inovação, mas como um canal de facilitação ilícita. De modo semelhante, a matriz energética baseada no etanol e o controle de minerais estratégicos, essenciais para a transição ecológica global, são enquadrados como pontos sensíveis em uma disputa que extrapola o comércio e alcança o terreno da geopolítica.

Nesse sentido, Alfredo (2026) observa que “o verdadeiro objetivo estadunidense emerge de forma nítida: conter a expansão chinesa sobre os setores estratégicos do Brasil, limitando a capacidade do país asiático de investir na infraestrutura e na integração logística nacional”.

Nesse movimento, ao associar o avanço dessas infraestruturas soberanas a supostos riscos à segurança, ou à ampliação da influência chinesa na América do Sul, a administração Trump não apenas questiona escolhas domésticas brasileiras, mas busca constranger suas parcerias estratégicas e limitar sua inserção em cadeias tecnológicas emergentes.

Assim, tarifas, investigações e pressões regulatórias deixam de ser respostas a distorções específicas e passam a operar como instrumentos coordenados de contenção, voltados a restringir a autonomia tecnológica e financeira do Brasil em favor da manutenção da hegemonia estadunidense.

Sob essa perspectiva, “as tarifas impostas ao Brasil devem ser compreendidas como parte de uma reação estratégica à crescente presença chinesa na América Latina. Com essa medida, Trump sinaliza claramente que os EUA não admitem concorrência ou autonomia na periferia do sistema, especialmente quando essa autonomia se articula com a potência rival chinesa, buscando resguardar interesses em uma região historicamente vista como zona de influência exclusiva dos Estados Unidos”

É nesse ponto que a pressão econômica deixa de ser apenas um instrumento de política externa e passa a incidir diretamente sobre as dinâmicas políticas internas, criando condições que extrapolam o campo econômico e reconfiguram o próprio ambiente de disputa no país.

Essa transição do cenário externo para o interno revela a aplicação de um nítido lawfare econômico contra o Brasil, isto é, o uso estratégico de leis, investigações e regras comerciais como instrumentos de pressão política para desgastar um adversário. Sob essa perspectiva, essa dinâmica não se limita às disputas comerciais tradicionais, mas se insere em uma transformação mais ampla das formas de poder no sistema internacional.

Como se observa, “a intervenção de líderes como Donald Trump, apoiado pelas big techs, já não ocorre de forma clássica, nos moldes bélicos do século XX. Em vez disso, opera-se uma mutação estrutural, marcada pela transição de uma geopolítica dos territórios para uma geopolítica dos fluxos, na qual o verdadeiro campo de batalha reside no controle da informação, da atenção e da influência digital”.

Nesse contexto, a imposição de tarifas regulatórias de 25%, sob a roupagem da conformidade técnica, adquire novo significado: o sistema legal e comercial passa a operar como instrumento de pressão direcionada.

O objetivo imediato desse estrangulamento econômico e informacional não se restringe ao enfraquecimento financeiro, mas busca projetar-se sobre o debate público, de modo a criar um ambiente de insatisfação que pode influir nas futuras eleições presidenciais brasileiras, favorecendo candidaturas alinhadas ao receituário de Washington.

Em última análise, o que se desenha com esse anúncio não é um mero contencioso alfandegário, mas um capítulo sofisticado de guerra geoeconômica.

Ao transformar o PIX, o etanol e as relações com Pequim em questões de segurança nacional, a administração Trump redefine as fronteiras entre soberania doméstica e subordinação geopolítica.

O Brasil, ao buscar consolidar uma inserção mais autônoma no Sul Global, depara-se com estruturas permanentes de um império que resiste a perder sua influência histórica na região. Caberá ao país, portanto, decidir se recuará sob o peso da coerção ou se usará essas mesmas pressões como catalisadoras de sua independência tecnológica, financeira e política no sistema internacional.

•        Por que o PIX, meio mais usado por pequenos negócios, virou pretexto dos EUA no tarifaço

Em pouco menos de cinco anos, o PIX deixou de ser uma novidade para se tornar uma das principais formas de pagamento dos brasileiros. Para milhões de pequenos negócios, ele passou a significar recebimento imediato, redução de custos e mais facilidade para administrar o fluxo de caixa.

Mas a tecnologia que conquistou comerciantes e consumidores agora está no centro de uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.

O governo do presidente Donald Trump incluiu o PIX entre os argumentos usados para justificar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (15).

Segundo documentos do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), o sistema brasileiro prejudicaria empresas americanas do setor de pagamentos ao criar uma concorrência considerada desigual.

•        🔎 Na avaliação dos americanos, o problema não está no uso do PIX pelos brasileiros, mas no fato de o sistema ter sido criado e ser operado pelo Banco Central. Para os EUA, essa estrutura dá ao sistema vantagens que empresas privadas não possuem.

No Brasil, porém, a lógica é outra. O sistema ganhou espaço justamente pelos fatores questionados pelos americanos: reduziu custos, eliminou intermediários e permitiu que empreendedores recebessem o dinheiro das vendas praticamente em tempo real.

Antes do PIX, muitos comerciantes dependiam de dinheiro em espécie ou de cartões, que envolvem taxas e prazos maiores para o repasse dos valores. Com o sistema, o dinheiro entra na conta no mesmo momento, facilitando a compra de mercadorias, o pagamento de fornecedores e a organização das contas.

Essa combinação transformou o PIX em uma das principais ferramentas financeiras dos pequenos negócios.

Segundo a pesquisa Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), 59% dos donos de pequenos negócios já consideram o PIX o principal meio de recebimento das vendas.

>>> O levantamento também mostra que:

•        53% usam o sistema como principal ferramenta para pagar parceiros comerciais;

•        entre os MEIs, 97% utilizam o sistema como forma de pagamento;

•        para 28% dos MEIs, o PIX representa mais de 75% do faturamento;

•        outros 20% afirmam que a ferramenta responde por cerca de metade dos recebimentos.

“O sistema é uma forma de pagamento que não tem volta e se tornou a preferida dos pequenos negócios pela rapidez no recebimento e pela contribuição para a manutenção do fluxo de caixa dessas empresas”, afirma Rodrigo Soares, presidente do Sebrae.

Com isso, a expansão do PIX mudou a estrutura do mercado de pagamentos.

Nas compras tradicionais com cartão, participam da operação bandeiras, credenciadoras, bancos e outros intermediários. Cada etapa pode gerar custos. No PIX, porém, a transferência ocorre diretamente entre as instituições financeiras.

Apesar disso, o crédito continua sendo essencial para compras parceladas.

Na avaliação de especialistas, o sistema criou uma alternativa competitiva para pagamentos à vista e obrigou empresas tradicionais a adaptar seus modelos de negócio.

É justamente esse impacto sobre o mercado de pagamentos que colocou o sistema no centro da disputa comercial internacional.

<><> Por que o PIX incomoda os EUA?

Na investigação conduzida pelo USTR, as práticas brasileiras seriam "injustificáveis e discriminatórias", prejudicando agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos.

O argumento é que o BC brasileiro teria criado condições favoráveis ao PIX em relação às empresas privadas estrangeiras que atuam no setor.

Nos documentos divulgados pelo governo dos EUA, o sistema é chamado de "PICS" e descrito como um serviço estatal de pagamentos eletrônicos que receberia tratamento diferenciado por ser operado pelo governo brasileiro.

A avaliação americana se baseia principalmente em três pontos:

•        O BC atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, definindo as regras e administrando a infraestrutura do PIX;

•        O sistema teria vantagens por não funcionar como uma empresa privada tradicional, já que não busca obter lucro por meio da cobrança de taxas sobre as transações;

•        Empresas americanas poderiam ser prejudicadas ao competir com uma infraestrutura pública de pagamentos.

Durante a apresentação das medidas contra o Brasil, representantes do governo Trump afirmaram que a intenção não é acabar com o sistema.

"Não estamos pedindo ao Brasil para se livrar do PICS ou de qualquer coisa que importe para o Brasil. Isso não é problema. O que não queremos é uma situação em que empresas americanas sejam forçadas a anunciar o PICS, ou sejam limitadas pelo PICS, e que elas e o PICS recebam tratamento especial simplesmente por serem de propriedade brasileira ou por serem um sistema de pagamento eletrônico".

<><> Existe concorrência desleal?

Para os especialistas ouvidos pelo g1, o PIX de fato provocou uma transformação profunda no mercado de pagamentos, mas isso não significa uma prática desleal.

A principal crítica americana está relacionada ao fato de o BC exercer o papel regulador e operador do sistema. Isso, porém, foi o principal fator para o sucesso.

•        Ao criar padrões tecnológicos, estabelecer regras comuns e exigir a participação das instituições financeiras na infraestrutura, o BC conseguiu fazer com que praticamente todos os bancos e fintechs passassem a oferecer o serviço desde o lançamento.

Especialistas são incisivos: a existência de uma infraestrutura pública não significa uma concorrência desleal.

Segundo eles, o PIX não impediu a atuação de outros meios de pagamento e, desde seu lançamento, cartões de crédito, débito e outros serviços continuaram funcionando no país.

"O PIX não foi criado para concorrer ou substituir outros meios de pagamento, como o cartão de crédito. Desde o lançamento do sistema, as demais formas de pagamento, especialmente os cartões, continuaram crescendo", afirma Ralf Germer, CEO da PagBrasil.

Germer defende ainda que empresas do setor tiveram tempo para se adaptar e criar soluções capazes de competir frente a frente com o sistema.

Já o economista e professor da ESPM, Jorge Ferreira dos Santos Filho, aponta que a pressão dos EUA está relacionada principalmente à mudança no modelo de negócios de empresas que tradicionalmente lucravam com tarifas cobradas em transações.

"O PIX é gratuito para pessoas físicas e tem custo baixo para empresas, representando forte concorrência para grandes operadoras de cartão de crédito americanas, como Visa e Mastercard", afirma.

Especialistas destacam ainda que o avanço do sistema brasileiro também pressiona fintechs e empresas de tecnologia que também já possuem soluções próprias de pagamento.

<><> A disputa além dos cartões

Embora a discussão sobre cartões seja o argumento oficial apresentado pelos EUA, um dos pontos mencionados pelos especialistas é o avanço do chamado PIX Internacional, projeto do BC para permitir pagamentos transfronteiriços por meio da integração com sistemas de outros países.

Hoje, o sistema já pode ser usado de forma limitada por brasileiros em alguns estabelecimentos no exterior. A expectativa é que sistemas de pagamento instantâneo de diferentes países possam ser conectados.

Nesse sentido, a possibilidade de uso do PIX Internacional como meio de pagamento entre países do Brics, por exemplo, pode ter incomodado os EUA por ameaçar a paridade do dólar nas negociações, comprometendo a hegemonia da moeda no sistema financeiro global.

•        🔎 O Brics é um grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia e Irã.

"Esse pode ser o ponto que mais incomoda o governo americano: a criação de uma moeda única do Brics e o possível uso do sistema PIX para reduzir a influência do dólar nas negociações entre esses países."

Especialistas ressaltam, porém, que o PIX Internacional ainda está em desenvolvimento e que a relação com a disputa geopolítica é uma interpretação sobre possíveis impactos futuros, não uma justificativa oficialmente apresentada pelo governo americano.

Apesar das críticas, os EUA também contam com sistemas de pagamentos instantâneos, como o FedNow, criado pelo Federal Reserve, e o Zelle, desenvolvido por grandes bancos americanos.

Para especialistas, o ponto de diferença está na escala de uso. Nos EUA, a participação das instituições foi voluntária e não alcançou o mesmo nível de integração visto no Brasil.

<><> Atenção internacional

O crescimento do PIX é considerado uma das maiores transformações recentes do sistema financeiro brasileiro. Lançado em novembro de 2020, o sistema alcançou escala nacional em poucos anos.

Segundo dados do Banco Central, ele já conta com cerca de:

•        170 milhões de usuários pessoas físicas, o equivalente a aproximadamente 80% da população brasileira;

•        mais de 24 milhões de usuários pessoas jurídicas.

Em 2025, o sistema bateu recorde ao movimentar cerca de R$ 35,4 trilhões, distribuídos em quase 80 bilhões de transações. O volume corresponde a quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo e fundador do RegLab, afirma que o sistema passou a ser observado por outros países justamente pela combinação de escala e eficiência.

"De uma forma ou de outra, o Pix virou um modelo, uma vitrine."

Segundo ele, o sucesso do sistema mostra que governos podem criar infraestruturas digitais capazes de transformar mercados tradicionalmente dominados pela iniciativa privada.

<><> Outros argumentos

Embora o sistema de pagamentos tenha ganhado destaque, ele aparece como apenas um dos argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar o novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.

Entre os argumentos estão as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo plataformas digitais, críticas ao ambiente regulatório para empresas de tecnologia americanas, questionamentos sobre proteção à propriedade intelectual, alegações de corrupção, tarifas aplicadas pelo Brasil a determinados produtos importados e até acusações relacionadas ao desmatamento.

No caso das big techs, o governo americano cita medidas adotadas pela Justiça brasileira contra plataformas que descumpriram determinações judiciais.

O USTR também questiona regras e decisões que, na avaliação americana, poderiam afetar empresas de tecnologia dos Estados Unidos.

Já na área comercial, o governo Trump acusa o Brasil de conceder tratamento preferencial a alguns parceiros comerciais e critica políticas relacionadas ao mercado de etanol. O relatório ainda menciona preocupações envolvendo propriedade intelectual e o combate à corrupção.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/g1

 

Nenhum comentário: