Minerais
críticos: política é negociada a portas fechadas no Senado sem movimentos
sociais
Depois
de dois meses sem grandes movimentações e debates públicos, senadores
aceleraram as articulações em torno de projetos que criam uma política nacional
para minerais críticos e estratégicos. O movimento pegou de surpresa
organizações que acompanham o tema, considerado fundamental para a economia e a
posição do Brasil nas cadeias produtivas globais.
Em
maio, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 2.780/24, do
deputado Zé Silva (União Brasil-MG), que institui a Política Nacional de
Minerais Críticos e Estratégicos com incentivos do governo e prioridade no
licenciamento para projetos do setor. Desde então, entidades que representam
povos indígenas e tradicionais, atingidos pela mineração, trabalhadores e
pesquisadores tentam convencer senadores a incluir mais garantias sociais e
ambientais no texto, que tramitou na Câmara sem participação social.
Nesta
semana, porém, as organizações foram surpreendidas pelo surgimento de outro PL
que também trata da política para minerais críticos e estratégicos. O PL
4.443/25, do senador Renan Calheiros (MDB-AL), foi incluído na pauta da reunião
de terça-feira, 14 de julho, da Comissão de Infraestrutura, que analisa o texto
de forma terminativa – ou seja, se fosse aprovado pelos senadores na comissão,
o projeto iria diretamente para a Câmara dos Deputados, sem passar pelo
plenário e sem debate com a sociedade. Na reunião, o senador Rogério Carvalho
(PT-SE) fez um pedido coletivo de vista, apoiado por outros senadores, para
análise do projeto, que acabou não sendo votado.
Na
reunião, senadores pediram a realização de uma reunião extraordinária da
comissão ainda nesta semana ou na próxima – quando, em tese, o Congresso já
estará no período de recesso – para voltar a analisar a proposta de Calheiros.
Entre o
final de junho e o início de julho, a única audiência pública prevista para
debater com organizações sociais o PL aprovado pela Câmara foi cancelada duas
vezes, e um grupo de senadores governistas apresentou um requerimento para dar
urgência à tramitação do projeto, considerado uma prioridade do presidente
Lula.
“Estamos
falando de uma política que vai ter impactos profundos nos territórios, na
economia e nos direitos de milhares de pessoas. Não é razoável que um tema
dessa dimensão seja construído apenas de portas fechadas e de forma acelerada
entre governo, Congresso e o setor empresarial mineral”, disse à Agência
Pública Maíra Pankararu, assessora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas
do Brasil (Apib).
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Brasil tem posição estratégica no mercado de minerais críticos
O
Brasil possui algumas das maiores reservas globais de minerais usados na
fabricação de painéis solares, turbinas eólicas e baterias de carros elétricos.
São tecnologias que formam a base da transição energética, processo de
substituição dos combustíveis fósseis, responsáveis pela crise climática, por
fontes de energia menos poluentes. Por isso, o país tem atraído atenção
crescente de outros governos e de empresas estrangeiras interessadas em
explorar os depósitos minerais brasileiros. Essa exploração de maneira geral,
porém, tem se dado com enfoque na extração, sem o desenvolvimento de uma cadeia
industrial que possa gerar mais empregos e tecnologias para o país, além de
ameaçar territórios protegidos e comunidades.
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Por que isso importa?
• Segundo o Instituto Igarapé, o Brasil
está entre os países com maiores reservas de minerais críticos: 94% das
reservas mundiais de nióbio, 22% de grafite e 16% de níquel e a segunda maior
concentração de terras raras com 23% do total.
• Segundo a Agência Nacional de Mineração
(AMN), as maiores reservas estão nos estados de Minas Gerias, Goiás, Pará,
Bahia e Amazonas.
Por
isso, oito entidades, como a Apib, o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios
Frente à Mineração, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o
Observatório do Clima e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), apresentaram,
com apoio da Frente Parlamentar Ambientalista, uma proposta para alterar pontos
do projeto do deputado Zé Silva.
A ideia
é incluir proteções, como a obrigatoriedade de um processo de consulta para
povos tradicionais afetados por projetos de mineração, o estabelecimento de um
programa de diversificação econômica e desenvolvimento territorial das
comunidades impactadas pela exploração dos minérios, a inclusão de
representantes da sociedade civil no Conselho Nacional para Industrialização de
Minerais Críticos e Estratégicos, que decidirá pontos fundamentais da
implementação da política, e maior controle estatal sobre a exploração feita
por empresas estrangeiras.
Até
agora, porém, não há sinal de que essas contribuições serão realmente
consideradas pelos senadores nas tramitações dos projetos. Para representantes
das organizações, o avanço desses projetos sem diálogo é um risco para as
populações e para a natureza.
“Não
estamos falando apenas de insumos para baterias, painéis solares ou tecnologias
digitais. Estamos falando de água, de territórios, de trabalhadores, de
comunidades atingidas, de povos indígenas, de municípios mineradores, de
arrecadação pública e de soberania nacional”, explicou Cássia Lopes, assessora
política do Inesc.
“Quando
as contribuições da sociedade são desconsideradas, aumenta muito o risco de a
política ser capturada pelos interesses econômicos mais fortes, especialmente
pelo setor empresarial diretamente interessado na ampliação da exploração
mineral. O resultado pode ser uma política orientada apenas para acelerar
projetos, conceder incentivos e abrir novas frentes de exploração, sem as
garantias mínimas de proteção ambiental, social, trabalhista e fiscal”,
completa ela.
Pankararu,
da Apib, faz coro: “Quando a sociedade participa, a política pública tende a
ser mais legítima, mais equilibrada e mais eficaz. Estamos falando de
democracia. E é nesses espaços que aparecem questões que muitas vezes não estão
na mesa dos tomadores de decisão, como os impactos sobre os territórios
indígenas, os direitos das comunidades afetadas, a proteção ambiental e a
necessidade de mecanismos de controle”.
Segundo
a advogada, o impacto da mineração sobre povos indígenas, quilombolas e
comunidades tradicionais, como ribeirinhas e extrativistas, não é um problema
do futuro, mas do presente. A abertura de novas áreas para exploração mineral
próximas a territórios protegidos costuma estar associada ao aumento de
conflitos por terra, desmatamento e contaminação da água, além de problemas
sociais, como piora da violência e da exploração sexual de meninas e mulheres,
explica Pankararu.
O
Observatório da Transição Energética, iniciativa da Repórter Brasil em parceria
com o Inesc e o PoEMAS (grupo de pesquisadores de várias universidades
brasileiras), mostra que pelo menos 2 mil requerimentos de exploração de 27
minerais (como cobre, terras raras e lítio) estão sobrepostos ou localizados a
menos de 10 km de 278 Terras Indígenas – 38 delas já estão sendo afetadas por
projetos em operação.
“Não se
trata de atrasar o desenvolvimento. Nós, povos indígenas, não queremos atrasar
nada, nós queremos inclusive participar desse desenvolvimento, mas garantindo
que ele aconteça com respeito aos direitos de todos, os nossos, do meio
ambiente, da saúde, e com respeito à Constituição”, afirma Pankararu.
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Diferenças entre os projetos de lei em discussão
Os dois
projetos (o PL 2.780, que saiu da Câmara dos Deputados, e o PL 4.443, que
nasceu no Senado) tratam do mesmo tema – a criação de uma Política Nacional de
Minerais Críticos e Estratégicos – com poucas diferenças.
O
relator do projeto na Comissão de Infraestrutura, senador Wilder Morais
(PL-GO), incorporou ao PL 4.443 vários pontos previstos no outro projeto, como
a criação de um fundo garantidor para a atividade mineral e de um Conselho
Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável
por definir a lista dos minerais considerados críticos ou estratégicos e
determinar os aportes mínimos ao fundo.
Os dois
textos também estabelecem incentivos fiscais para empresas e preveem um
processo de licenciamento ambiental mais rápido para os projetos que se
enquadrem na política. Trata-se do “Licenciamento Ambiental Especial”, criado
pela nova Lei Geral do Licenciamento, aprovada pelo Congresso no ano passado e
que ficou conhecida como “PL da Devastação”. Segundo a lei, atividades
consideradas estratégicas terão prioridade na análise dos pedidos de licença
ambiental.
O
projeto em análise na comissão do Senado cria também as chamadas “Zonas de
Processamento de Transformação Mineral”, com o objetivo de “adensar” as cadeias
produtivas – algo que não está previsto no texto que saiu da Câmara. Os
projetos minerários nessas zonas também terão prioridade no licenciamento.
Ainda
que as duas propostas coloquem a soberania nacional como um princípio a ser
seguido, elas dão tratamentos diferentes ao tema, especialmente em relação ao
controle do Estado sobre definições estratégicas da exploração desses minérios.
O PL já
aprovado pelos deputados prevê que o órgão e a Agência Nacional de Mineração
terão um mecanismo de triagem para fazer a homologação (ou seja, a validação)
de mudanças no controle societário de empresas donas de direitos minerários e
contratos ou parcerias internacionais que envolvam o fornecimento de minerais
que possa afetar a segurança econômica ou geopolítica do Brasil. Já o PL 4.443,
em análise na comissão do Senado, não fala em homologação. Ele prevê que o
Conselho Nacional deverá apenas acompanhar e registrar mudanças de controle
societário.
Para o
Inesc, mesmo o projeto que saiu da Câmara, com mais controle para o estado,
fica aquém do necessário na proteção da soberania nacional.
“Para
nós, o Brasil não pode continuar apenas extraindo e exportando matéria-prima
sem agregação de valor, sem desenvolvimento tecnológico, sem fortalecimento da
indústria nacional e sem retorno adequado para a sociedade”, diz Lopes. “Nesse
debate, o termo soberania significa o Estado brasileiro ter instrumentos para
orientar a exploração mineral conforme o interesse público. Não basta atrair
investimento. É preciso perguntar: quem ganha, quem decide, quem controla, quem
se beneficia e, principalmente, quais impactos ficam nos territórios”.
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Minerais críticos, soberania e eleições no Brasil
A
discussão sobre soberania nacional ganhou tração com as movimentações da única
mineradora que já explora terras raras de forma comercial no Brasil. Em abril,
a mineradora Serra Verde, que foi criada e financiada por um fundo americano e
explora um grande depósito no norte de Goiás, anunciou sua aquisição, por 2,8
bilhões de dólares, pela USA Rare Earth, no que foi classificado por um
especialista do setor à Pública como a maior fusão e aquisição da história
dessa indústria. O objetivo declarado da compra é criar uma empresa
multinacional para liderar toda a cadeia produtiva das terras raras: a
extração, a separação e o processamento desses elementos e a fabricação dos
superímãs usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas e
equipamentos militares.
No novo
negócio, o papel da operação brasileira poderá ficar relegado, mais uma vez, à
etapa inicial da cadeia produtiva: a extração das terras raras e produção de um
concentrado desses elementos. Trata-se da etapa de menor valor agregado.
Segundo informações disponibilizadas pela USA Rare Earth, as outras etapas
devem ser realizadas no Reino Unido, França e Estados Unidos.
A Serra
Verde não é a única mineradora estrangeira no setor de minerais críticos e
estratégicos do Brasil. Em Minas Gerais, empresas australianas já estão fazendo
o licenciamento ambiental de projetos para a extração de terras raras. No norte
do estado, no Vale do Jequitinhonha, pequenas comunidades enfrentam há anos o
impacto da operação da Sigma, mineradora com ações negociadas nas bolsas de
valores do Canadá, EUA e Brasil, que explora lítio.
A
preocupação com a soberania nacional no setor de minerais críticos e
estratégicos também já entrou no discurso dos dois principais candidatos à
Presidência da República nas eleições deste ano. O presidente Lula tem dito que
o Brasil não pode ser apenas um exportador dessas matérias-primas. Para isso,
defende parcerias com outros países e compartilhamento de tecnologia para que
haja o desenvolvimento de uma indústria no Brasil.
“Não
temos veto, preferência por ninguém, pode vir chinês, alemão, francês, japonês,
americano, quem quiser, desde que tenham consciência de que o Brasil não abre
mão da sua soberania. Os minerais críticos são nossos, as terras raras são
nossas e a gente quer explorar aqui dentro”, afirmou Lula em maio durante um
evento em Campinas (SP).
Dias
depois, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência pelo PL, também
falou do assunto. Após uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, Bolsonaro disse que pretende fazer parcerias “de longo prazo” com os EUA
no setor de terras raras e outros minerais críticos. Em março, durante um
evento da extrema-direita americana, o senador já tinha dito que o Brasil é a
“solução” dos EUA para “acabar com a dependência da China em minerais
críticos”.
Nesse
contexto, a aprovação de um marco regulatório para o setor se tornou uma
prioridade do governo Lula. No último dia 10 de julho, o presidente se reuniu
com vários ministros e especialistas para falar sobre minerais críticos. O
presidente defendeu um papel ativo do Estado brasileiro no setor para que haja
a promoção de uma indústria nacional.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agência Pública

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