Luta
de classes, plataformização do trabalho e identitarismo
Há
frases que envelhecem bem porque capturam uma estrutura, e não um episódio. “A
história de todas as sociedades até agora é a história da luta de classes” é
uma dessas: por trás de estilos de vida, costumes, moralidades e ideologias,
existe uma disputa permanente por condições de existência. Fala de perto sobre
“quem trabalha, quem manda, quem se apropria, quem paga a conta” e por aí vai.
No
entanto, nas últimas décadas, algo mudou de maneira importante na gramática
política do campo progressista. O eixo da crítica social, que durante muito
tempo orbitou em torno da exploração do trabalho e da transformação das
estruturas econômicas, parece ter migrado para o centro das disputas
simbólicas: identidade, reconhecimento, linguagem, pertencimento. Isso não é
trivial. Não é “moda”. Não é mera estratégia eleitoral. É, antes, um sintoma:
algo aconteceu no mundo do trabalho e na forma como as pessoas se reconhecem
dentro dele. E a política está tentando, às apalpadelas, nomear essa “nova
experiência”.
Uma
hipótese forte, e incômoda, é que a ascensão contemporânea do identitarismo
(não das lutas identitárias, legítimas, mas do “fechamento” da identidade como
gramática de exclusão e do policiamento) se articula com a precarização do
trabalho, acelerada pela revolução tecnológica e pela plataformização.
Em
outras palavras: a esquerda desloca o foco do chão da fábrica para a identidade
não apenas porque descobriu, com razão, dimensões invisibilizadas de opressão,
mas também porque perdeu (objetiva e subjetivamente) o seu espaço narrativo
como lugar de unificação e produção de solidariedade. O trabalho se fragmentou;
o discurso comum se dissolveu; a política (à esquerda) vem tentando preencher
esse vazio.
Durante
grande parte do século XX, especialmente no pós-guerra, a classe trabalhadora
industrial foi uma espécie de eixo de gravidade. O operário, concentrado em
grandes plantas industriais, com jornada regular, convivência cotidiana e
vínculos relativamente estáveis, não era apenas um trabalhador: era um tipo
social que condensava uma experiência coletiva. O sindicato fazia sentido
porque havia um “nós” palpável. O partido operário fazia sentido porque havia
um “nós” reconhecível. A greve fazia sentido porque havia um ponto de
estrangulamento: parar uma fábrica era parar um sistema.
Claro,
como observou Antonio Gramsci, essa disputa nunca foi apenas econômica. Ela era
também cultural e simbólica. A hegemonia burguesa não se sustentava apenas em
salários e contratos, mas em formas de vida, valores, senso comum. Ainda assim,
havia um dado material duro: a concentração do trabalho permitia a organização.
Ambivalente como quase tudo o que é moderno, a fábrica era, ao mesmo tempo,
espaço de exploração e de solidariedade coletiva. Era.
O
neoliberalismo, a globalização e a revolução tecnológica corroeram esse
cenário. Não foi um evento único, mas um processo. A terceirização, a
desindustrialização relativa, a financeirização e a reestruturação produtiva
fragmentaram o mundo do trabalho. As velhas identidades profissionais (e, com
elas, a velha linguagem política da esquerda) perderam tração. O trabalhador
deixou de se ver como parte de um bloco e passou, cada vez mais, a se perceber
como indivíduo em risco, administrando a própria sobrevivência.
É aqui
que entra a figura do “precariado”, como descreveu Guy Standing: um conjunto
amplo de trabalhadores marcados pela instabilidade, pela ausência de garantias
e pela incerteza como regra. Não é apenas “pobreza”. É insegurança estrutural.
É viver sem horizonte, sem previsibilidade, sem proteção social consistente. É
estar dentro do mercado e, ao mesmo tempo, fora dos direitos que
tradicionalmente o acompanhavam. É trabalhar muito, ganhar pouco, e ainda
assim, “carregar a culpa” (porque o discurso dominante insiste em dizer que “é
uma questão de esforço”, “de mindset”, “de mérito”).
A
uberização, expressão da moda, é o símbolo mais visível dessa transformação.
Plataformas digitais reorganizam o trabalho sob a promessa de liberdade: “você
faz seu horário”, “você é seu patrão”, “você escolhe quando trabalhar”. Mas, na
prática, o trabalhador é governado por um algoritmo: ele não conhece os
critérios de ranqueamento, não controla o valor das corridas, não decide as
condições do jogo, não negocia com um gerente humano. A plataforma não é
“empregadora”, diz o discurso jurídico conveniente. Ela é “intermediária”. E o
trabalhador, para sobreviver, aceita a regra do sistema como se fosse algo tão
inexorável quanto o clima: é possível no máximo prever. Mudar, jamais.
Esse
novo regime de trabalho não produz apenas precarização econômica. Ele produz
precarização política, se comparado ao velho regime fabril. O trabalhador de
aplicativo está disperso, isolado, competindo com outros. Sua relação com o
coletivo é frágil. Ele não compartilha um espaço comum de socialização. Ele não
encontra, no cotidiano, um “nós” orgânico. O que existia na fábrica (a
convivência que transforma exploração em consciência) aqui é substituído por
uma lógica de corrida, entrega, avaliação, pontuação.
Como
organizar solidariedade num ambiente desenhado para produzir competição?
Quando
esse “nós” desaparece ou enfraquece, o espaço simbólico não fica vazio. Como
lembrou Claude Lefort, o lugar do poder nunca é um lugar vazio: sempre alguém
ocupa, sempre algum discurso se instala. E, nesse vácuo, as pautas identitárias
emergem com força. Não apenas porque respondem a injustiças reais (racismo,
misoginia, violência contra dissidências sexuais, exclusões estruturais), mas
também porque oferecem pertencimento num mundo que dissolveu as antigas
pertenças, mas que, como efeito colateral, também colabora para o alargamento
da fragmentação coletiva.
Há aqui
uma ambiguidade difícil de encarar com honestidade: as lutas por reconhecimento
são necessárias, mas podem ser capturadas por uma racionalidade que não ameaça
a estrutura econômica. O capitalismo contemporâneo pode acomodar formas de
reconhecimento, desde que isso não implique redistribuição. É possível incluir
sem transformar. É possível representar sem reorganizar. É possível celebrar
diversidade no marketing e, ao mesmo tempo, manter intactas as engrenagens da
exploração. E não é, afinal, o que estamos vendo?
Isso
ajuda a entender por que certas disputas simbólicas ganham centralidade no
espaço público enquanto pautas materiais (taxação de grandes fortunas, reforma
tributária progressiva, reconstrução de direitos trabalhistas, fortalecimento
de proteção social etc.) enfrentam enorme dificuldade para se consolidar como
agenda hegemônica. Não porque sejam irrelevantes, mas porque colidem
frontalmente com interesses estruturais e exigem organização coletiva robusta.
E organização coletiva robusta, como vimos, tornou-se mais difícil num mundo de
trabalho pulverizado.
É nesse
ponto que a crítica ao identitarismo precisa ser feita, para além da caricatura
desenhada entre conservadores. Não se trata de negar que raça, classe e gênero
se cruzam, como insistiu Angela Davis ao mostrar a inseparabilidade dessas
dimensões em contextos concretos. Não se trata de negar a centralidade
histórica do racismo, especialmente em países como o Brasil, cuja modernização
foi atravessada por escravidão, hierarquias raciais e políticas de exclusão.
Não se trata, portanto, de opor “classe” a “identidade” como se fossem campos
inimigos.
O alvo
é outro: o identitarismo como fechamento, como estereótipo, como policiamento,
como disputa por pureza moral, como substituição da política por tribunal
simbólico. Como disse Douglas Barros, o identitarismo não é a existência de
identidades ou de lutas por reconhecimento. Ele é a captura dessas lutas por
uma engenharia social que transforma diferenças em ferramenta de administração
e controle. Quando a identidade vira um muro e não uma ponte, ela passa a
funcionar como lógica de fragmentação. Ela impede a construção do comum. E, sem
comum, não há força política capaz de enfrentar injustas desigualdades sociais.
Aqui
aparece outra chave importante nesse debate: o neoliberalismo não é apenas um
conjunto de políticas econômicas. Ele é uma forma de vida. Dardot e Laval
descrevem esse processo como a fabricação do sujeito empreendedor: o indivíduo
é convocado a gerir a si mesmo como empresa, a transformar sua vida em
portfólio, a converter relações em capital simbólico. Por esse ângulo, a
precarização antes mancionada não é um acidente: ela é um modo de governo. E a
política, nesse ambiente, tende a se reorganizar segundo a mesma lógica:
demandas fragmentadas, disputas de microterritórios, identidades administradas
como nichos.
Por
isso, em muitos casos, é mais “tolerável” (para o sistema) que a energia social
seja canalizada para guerras culturais intermináveis do que para uma agenda
material capaz de reorganizar renda, propriedade, tributos, direitos. As
guerras culturais não interrompem a circulação do capital. Ao contrário, muitas
vezes aumentam engajamento, produzem cliques, alimentam a economia da atenção.
Já a política da redistribuição exige coalizões amplas, construção de maioria,
capacidade institucional, organização social, conflito real com interesses
econômicos.
Esse
pano de fundo ajuda a explicar por que a ascensão das pautas identitárias
ocorre simultaneamente ao esvaziamento do mundo do trabalho como eixo de
mobilização. Uma parte do progressismo parece ter trocado a arena da economia
(que se tornou “técnica”, “gerencial”, “inevitável”) pela arena da cultura,
onde vitórias simbólicas são mais acessíveis. Mas vitórias simbólicas, quando
desacopladas da redistribuição, podem produzir um paradoxo: mais reconhecimento
na superfície e mais exploração na base. De novo: não é o que estamos vendo?
A
revolução tecnológica torna esse paradoxo ainda mais agudo. Ao mesmo tempo em
que cria novas oportunidades, ela acelera a automação e o desemprego estrutural
em setores inteiros. O entusiasmo tecnológico (vendido como destino) costuma
esconder quem ganha e quem perde. Grandes corporações ampliam lucros ao
substituir trabalho humano por sistemas automatizados. E nesse enredo,
trabalhadores são empurrados para empregos informais, temporários e de baixa
proteção.
A
plataformização, não por acaso, é o rosto cotidiano dessa transformação. Ela
faz com o trabalho o que a financeirização fez com a economia: abstrai,
fragmenta, torna opaco, desloca a decisão para centros invisíveis. A fábrica
tinha patrão. A plataforma tem algoritmo. A fábrica tinha sindicato. A
plataforma tem “termos de uso”. A fábrica tinha portão. A plataforma tem
aplicativo. Isso muda a forma da exploração e muda, portanto, as formas
possíveis de resistência.
Ainda
assim, resistências existem e, sim, são sinais importantes. Greves de
entregadores, movimentos de organização por redes, tentativas de cooperativismo
de plataforma, reivindicações por regulação do trabalho digital: tudo isso
mostra que o “nós” pode ser reconstruído, mesmo em contexto adverso à correção
das injustiças que, sejamos francos, sempre estiveram aí. Mas esse “nós” não
nascerá espontaneamente. Ele exige narrativa, mediação, instituições, linguagem
comum.
E é
aqui que a esquerda contemporânea enfrenta seu impasse: como construir
hegemonia num mundo em que o trabalho se pulverizou e a identidade se
multiplicou? Essa é a pergunta que não vemos centralizar o debate das campanhas
eleitorais.
Chantal
Mouffe, ao pensar a disputa hegemônica, sugere que a política democrática exige
a construção de um “povo” (não no sentido essencialista, mas no sentido de
articulação de demandas diversas em um projeto comum). Essa intuição é valiosa:
sem articulação, há apenas soma de fragmentos. Com articulação, há força
coletiva.
O
problema é que o identitarismo, quando funciona como lógica de fechamento (e
ele tem sido pródigo nisso), impede exatamente essa operação. Ele transforma
aliados potenciais em adversários morais. Ele substitui o conflito político
(com inimigos estruturais) por conflito interno (com inimigos simbólicos). Ele
troca a luta contra a exploração por uma disputa de reconhecimento que, muitas
vezes, se resolve em linguagem e punição.
O que
se perde quando a questão material sai do centro? Perde-se, em primeiro lugar,
a capacidade de disputar o Estado como projeto. O Estado liberal-social (com
todas as suas ambivalências) foi uma resposta histórica à luta social
organizada: direitos trabalhistas, seguridade, políticas públicas, serviços
universais. Quando o trabalho se desorganiza, o financiamento e a legitimidade
desse Estado entram em crise. E, sem Estado liberal-social, o neoliberalismo
avança como destino, convertendo direitos em mercadorias.
Mais:
perde-se também a capacidade de oferecer futuro. O precariado vive no curto
prazo. A vida vira urgência. E urgência constante impede projeto. A política,
nesse contexto, tende a virar espetáculo, moralismo ou gestão da emergência. O
identitarismo, quando capturado por essa lógica, vira uma política do agora:
punição imediata, expiação pública, purificação discursiva. Isso pode produzir
alívio momentâneo, mas não reorganiza as condições de existência.
Então,
qual é o ponto? Intuímos, nesse esforço argumentativo com os leitores, que o
progressismo do século XXI precisa reconstruir uma linguagem comum capaz de
articular reconhecimento e redistribuição. Precisa defender identidades sem
cair nessa espécie de armadilha identitarista. Precisa enfrentar racismo e
misoginia sem abandonar a economia política. Precisa, sobretudo, recolocar o
trabalho (em suas novas formas) no centro da disputa democrática.
Isso
exige atualização conceitual. “Luta de classes” não pode ser repetida como
catecismo. Ela precisa ser traduzida para a realidade da gig economy, do
trabalho remoto, da automação, da gestão algorítmica. O “proletariado”
industrial não é mais o tipo central (não vai voltar a ser e não desejamos que
volte), mas isso não significa que a exploração tenha desaparecido. Ela apenas
mudou de forma e de linguagem. E isso exige do campo progressista uma viragem
da mesma magnitude.
O
trabalhador de aplicativo, o terceirizado, o intermitente, o informal, o
microempreendedor forçado, o freelancer sem garantias: todos esses compõem o
novo mapa do trabalho. O desafio é criar uma narrativa que os reconheça como
parte de uma condição comum, sem apagar diferenças reais. Um comum que não seja
uniformização, mas coalizão.
E
coalizão exige uma ética política distinta, com menos cancelamento e mais
sindicalização (ainda que em novas formas). Menos guerra cultural entre iguais
e mais conflito material com estruturas que produzem desigualdade.
E,
assim (e por fim) chegamos no título: “Pobres do mundo, uni-vos!” não é
nostalgia. Afinal, o mundo não ficou menos desigual porque ganhou aplicativos.
A exploração não desapareceu porque se tornou “flexível”. O trabalho não deixou
de organizar a vida. Ele apenas se tornou mais instável, mais disperso e mais
difícil de politizar.
A
tarefa do campo progressista, portanto, é dupla: recuperar a centralidade da
questão material e, ao mesmo tempo, manter as conquistas do reconhecimento, sem
permitir que elas sejam capturadas pela lógica (neoliberal) de fragmentação.
Isso significa reconstruir a política como projeto de sociedade, e não como
gestão de identidades em competição.
Fonte:
Por José Luis Bolzan de Morais e Giancarlo Montagner Copelli , em A Terra é
Redonda

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