sábado, 18 de julho de 2026

Sobe na guerra, não desce na trégua: por que os preços da gasolina e diesel demoram a cair nos postos

A imprevisibilidade do conflito entre os Estados Unidos e o Irã tem, mais uma vez, se refletido nos preços do petróleo.

Com mais uma onda de ataques entre os dois países e a retomada do bloqueio naval ao Irã por parte dos EUA no Estreito de Ormuz— rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo —, a commodity voltou a subir em julho: na véspera, o barril do Brent, referência internacional, fechou cotado a US$ 84,23, uma alta de 15,5% no mês até agora.

Mesmo com o avanço nos preços, o petróleo ainda se encontra bem abaixo do pico registrado em abril, quando o Brent atingiu a marca de US$ 118,03. Isso porque, apesar da alta recente, a commodity passou por um período de queda relevante das cotações, chegando a ficar próxima de US$ 70.

No Brasil, porém, essa desaceleração não chegou aos preços dos combustíveis nos postos. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que diesel e gasolina ainda acumulam altas de cerca de 10% e 5%, respectivamente, desde o início da guerra, em fevereiro.

Segundo especialistas consultados pelo g1, a demora é resultado de uma combinação de fatores, como as incertezas sobre os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e o subsídio anunciado pelo governo, que ajudou a conter o encarecimento dos combustíveis — e deve limitar, também, a queda dos preços por aqui.

“A imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, do diesel e da gasolina. Ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países”, afirma o analista de inteligência de mercado da StoneX, Bruno Cordeiro.

<><> Trégua ainda frágil mantém mercado em alerta

Apesar da assinatura de um acordo preliminar em meados de junho para encerrar o conflito no Oriente Médio, a trégua entre os EUA e o Irã foi rompida mais de uma vez.

Menos de duas semanas após a assinatura do documento, os dois países voltaram a trocar ataques com mísseis e drones e passaram a se acusar mutuamente de violar o cessar-fogo provisório.

Após dias de confrontos, EUA e Irã concordaram em interromper as hostilidades e retomar as negociações. Catar e Paquistão mediaram uma nova rodada de negociações entre os dois países e, segundo representantes, houve um "avanço positivo" nas conversas.

Nos últimos dias, no entanto, uma nova onda de ataques entre os dois países voltou a colocar o frágil acordo em xeque.

Além dos bombardeios e retaliações de ambas as partes, Trump também retomou o bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz e ameaçou cobrar um pedágio de 20% sobre a carga de todos os navios que passassem pelo canal — mas voltou atrás e disse que substituiria a taxa por "acordos comerciais e de investimentos com os países do Golfo".

Ainda assim, o tráfego ainda limitado no Estreito de Ormuz aumenta as preocupações em relação à oferta de petróleo no mundo. Segundo especialistas, a demanda global continua elevada, impulsionada também pelo verão no Hemisfério Norte. O período é conhecido por registrar níveis mais altos no consumo de energia dos EUA e da Europa.

“Vivemos uma queda histórica nos estoques. Tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis bastante baixos”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

“Ainda há muita incerteza sobre o que pode acontecer. Seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito para iniciar a retirada de minas da região, a reconstrução dos portos destruídos e a retomada das operações. Isso leva tempo”, completa.

<><> Por que gasolina e diesel continuam caros no Brasil

Segundo especialistas, o Brasil registrou uma alta mais moderada nos preços dos combustíveis do que a observada nos EUA e em países da Europa.

Para reduzir o impacto da alta dos combustíveis sobre a inflação, o governo federal destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção. A Petrobras também atuou para conter os preços nos momentos mais críticos, evitando repassar imediatamente os aumentos aos consumidores.

“O aumento não chegou com tanta intensidade ao consumidor final. E, como a alta foi mais moderada, não há espaço para quedas também muito intensas”, afirma Sérgio Vale, da MB Associados.

Recentemente, por exemplo, a Petrobras reduziu o preço do diesel nas refinarias em R$ 0,35 após o encerramento do subsídio bancado pelo governo. Como a queda apenas compensou o fim do benefício, os preços praticados para as distribuidoras permaneceram inalterados.

Além disso, o governo também adiou a decisão sobre a retirada do subsídio à gasolina, após a nova escalada do conflito no Oriente Médio.

Os especialistas dizem, ainda, que mesmo o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, de 30% para 32%, não deve ser suficiente para provocar uma redução relevante dos preços nos postos.

“Esse aumento é importante, mas, por si só, não deve se refletir em uma redução significativa da gasolina. O principal fator que vai determinar a alta ou a queda dos preços é a situação do mercado internacional e a forma como esse movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos brasileiros”, completa Cordeiro.

•        Petróleo, inflação e bolsas: os estragos econômicos deixados pela guerra entre EUA e Irã

O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã encerra um conflito de quase quatro meses no Oriente Médio. Independentemente das motivações questionáveis do presidente americano, Donald Trump, fato é que a guerra prejudicou a economia global.

A interrupção do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz provocou uma série de problemas. O preço da commodity disparou, os combustíveis e seus derivados pressionaram a inflação em vários países, e as perspectivas futuras para a economia se deterioraram.

Resultado é que os preços subiram para o consumidor, enquanto o mercado financeiro acumulou perdas com a revisão das estratégias de investimento. Nesse cenário, as bolsas de valores caíram e o dólar se fortaleceu.

Agora, com o fim do conflito, economistas tentam estimar quando a economia dará sinais de normalização. O g1 listou os principais efeitos da guerra sobre a economia e as possíveis saídas para a recuperação.

<><> Alta nos preços do petróleo e de combustíveis

O conflito foi marcado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam cerca de 20% do petróleo e 25% do gás natural comercializados no mundo. Após o início dos ataques, o preço do barril quase dobrou, passando de cerca de US$ 70 para quase US$ 120.

Analistas chegaram a classificar o episódio como o maior choque petrolífero já registrado, superando as crises de 1973, 1979 e 2022. Para ampliar a oferta da commodity e conter o disparo dos preços, a Agência Internacional de Energia (IEA) realizou a maior liberação emergencial de estoques de sua história.

Ainda assim, a alta do petróleo não foi amortecida o suficiente e pressionou a inflação em diversos países. O impacto atingiu primeiro os combustíveis e seus derivados e, em seguida, se espalhou pelos transportes, pela indústria e até pela produção agrícola:

•        Fertilizantes ficaram mais caros, com a ureia acumulando alta de cerca de 60%.

•        O aumento do combustível de aviação contribuiu para o cancelamento de milhares de voos.

•        Fretes marítimos e rodoviários subiram, encarecendo alimentos e bens de consumo.

🛢️ Com o anúncio do acordo de paz nesta semana, o mercado começou a se estabilizar. Nesta quinta-feira (18), o petróleo Brent recuou para US$ 78,33 por barril, aliviando parte das pressões sobre a inflação. No início da manhã de sexta-feira, o petróleo Brent estava cotado a US$ 79,68 por barril, após cancelamento do encontro na Suíça. Ainda assim, está quase US$ 10 mais caro que antes do início do conflito.

<>> Alta na inflação dos EUA e queda na popularidade de Trump

O presidente americano iniciou o segundo mandato prometendo reduzir o custo de vida. Mas, também nos EUA, a alta do petróleo elevou o preço dos combustíveis — um dos itens mais sensíveis para o eleitorado de Trump.

O preço médio do galão de gasolina nos EUA saltou de cerca de US$ 2,98 para mais de US$ 4.

Em maio, a inflação ao consumidor chegou a 4,2% no acumulado em 12 meses, o maior patamar em três anos. O índice se afastou ainda mais da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Como o Fed utiliza os juros para controlar a inflação, a instituição manteve a taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano na reunião de quarta-feira (17), adiando ainda mais a esperada redução nos EUA.

Esse baque econômico provocou uma queda ainda mais acentuada na aprovação de Trump.

•        Em 2025, a aprovação de Donald Trump havia recuado de 42% em abril para 40% em julho, em meio aos efeitos do tarifaço imposto aos parceiros comerciais dos EUA.

•        Com a guerra e uma nova aceleração da inflação, sua popularidade atingiu o pior nível do segundo mandato em abril deste ano, chegando a 34% de aprovação.

Pesquisas da Reuters/Ipsos mostraram que 63% dos americanos desaprovavam o governo, enquanto apenas 36% o aprovavam. Na área econômica, a aprovação era ainda menor, de 27%, o pior resultado da série histórica do instituto.

🛢️ O recuo dos preços da gasolina nas últimas semanas trouxe uma melhora modesta. A aprovação da atuação de Trump no combate ao custo de vida subiu de 22% para 24%, mas o presidente segue bem abaixo dos níveis registrados no início do mandato.

<><> Os efeitos no Brasil

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que os preços do diesel e da gasolina no Brasil chegaram a acumular altas de 23,6% e 8%, respectivamente, nos últimos meses — e não demorou até que o consumidor sentisse o efeito disso no bolso.

O governo chegou a anunciar um pacote de medidas para conter os preços dos combustíveis nas bombas, mas não conseguiu evitar os impactos sobre o custo do frete, por exemplo — o que gerou um efeito em cadeia e pressionou os preços de diversos itens da cesta de consumo.

•        ➡️ O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, acumula alta de 3,20% no ano até maio. Em 12 meses, o índice avançou 4,72%, acima do teto da meta para 2026, de 4,5%.

Com a pressão sobre os preços e a incerteza provocada pela guerra nos últimos meses, as projeções do mercado financeiro para os juros também pioraram.

O Boletim Focus da última segunda-feira (15) mostra que os economistas do mercado esperam uma taxa Selic de 13,75% ao ano em 2026, um aumento de 0,25 ponto percentual (p.p.) em relação à semana anterior.

•        🔎 Isso significa que o mercado espera juros elevados por mais tempo, o que deve continuar encarecendo o crédito e pode limitar o consumo das famílias brasileiras.

Entre os principais setores da economia, os efeitos foram variados. De um lado, exportadores de petróleo se beneficiaram com a alta das cotações. Por outro, segmentos dependentes da commodity sentiram o impacto nos preços de derivados.

O resultado é uma pressão generalizada sobre a economia brasileira, com efeitos que vão do bolso do consumidor ao desempenho dos setores produtivos.

<><> Impactos no mercado financeiro

As incertezas sobre a duração do conflito e seus impactos na economia global também se refletiram nos mercados de câmbio e de ações ao redor do mundo.

Como costuma ocorrer, o início da guerra trouxe uma valorização do dólar. Isso acontece porque a moeda americana é vista como um dos ativos mais seguros do mundo e costuma ser a preferência dos investidores em momentos de incerteza, como forma de proteger suas aplicações.

No Brasil, o dólar atingiu o maior nível do ano em 13 de março, mês seguinte ao início do conflito, ao ser cotado a R$ 5,3142, impulsionado pela alta do petróleo. Nos meses seguintes, o cenário começou a mudar, à medida que as incertezas iniciais se dissiparam e o mercado passou a ter mais clareza sobre quais países e setores seriam mais impactados pela guerra.

Com isso, investidores reduziram suas posições em dólar e passaram a buscar ativos mais arriscados — movimento que favoreceu o real. No acumulado do ano até quarta-feira (17), a moeda americana registrava desvalorização de 6,94%.

O movimento foi semelhante nos mercados de ações: em um primeiro momento, investidores retiraram recursos de ativos mais arriscados e, depois, passaram a apostar em papéis que poderiam se beneficiar do novo cenário.

•        🔎 Vale destacar que outros fatores também influenciaram as cotações nos últimos meses, como o tarifaço imposto pelo governo Trump, a política fiscal brasileira, o noticiário corporativo e os dados econômicos do Brasil e dos Estados Unidos.

No acumulado do ano até a última quarta-feira, o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores brasileira, registrava alta de 4,38%.

<><> Piora nas projeções de crescimento da economia global

Antes do conflito entre EUA e Irã, a previsão era de que o crescimento global desacelerasse apenas de forma moderada, com a inflação perdendo força e permitindo um ambiente econômico mais estável.

Com a escalada da guerra, porém, o cenário piorou. O aumento dos preços do petróleo e de outras matérias-primas elevou os custos de produção, transporte e energia em diversos países, alimentando a inflação e reduzindo ainda mais as perspectivas de crescimento.

•        O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção de crescimento da economia mundial em 2026 de cerca de 3,3% para 3,1%, citando os impactos da guerra sobre os preços das commodities, as condições financeiras e a confiança dos investidores;

•        A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passou a estimar uma desaceleração do crescimento global, de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026. A organização alertou que, caso a crise energética se prolongasse, a expansão global poderia cair para apenas 2,1%, nível associado a períodos de forte desaceleração econômica;

•        Países como Alemanha e França tiveram suas projeções reduzidas devido ao encarecimento da energia, que diminuiu o poder de compra das famílias e aumentou os custos das empresas.

Mesmo com a melhora recente, FMI e OCDE avaliam que a recuperação dependerá da manutenção da estabilidade no Oriente Médio e da normalização do abastecimento global de energia.

 

Fonte: g1

 

Nenhum comentário: