Sobe
na guerra, não desce na trégua: por que os preços da gasolina e diesel demoram
a cair nos postos
A
imprevisibilidade do conflito entre os Estados Unidos e o Irã tem, mais uma
vez, se refletido nos preços do petróleo.
Com
mais uma onda de ataques entre os dois países e a retomada do bloqueio naval ao
Irã por parte dos EUA no Estreito de Ormuz— rota por onde passa cerca de 20% do
comércio global de petróleo —, a commodity voltou a subir em julho: na véspera,
o barril do Brent, referência internacional, fechou cotado a US$ 84,23, uma
alta de 15,5% no mês até agora.
Mesmo
com o avanço nos preços, o petróleo ainda se encontra bem abaixo do pico
registrado em abril, quando o Brent atingiu a marca de US$ 118,03. Isso porque,
apesar da alta recente, a commodity passou por um período de queda relevante
das cotações, chegando a ficar próxima de US$ 70.
No
Brasil, porém, essa desaceleração não chegou aos preços dos combustíveis nos
postos. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
(ANP) mostram que diesel e gasolina ainda acumulam altas de cerca de 10% e 5%,
respectivamente, desde o início da guerra, em fevereiro.
Segundo
especialistas consultados pelo g1, a demora é resultado de uma combinação de
fatores, como as incertezas sobre os desdobramentos do conflito no Oriente
Médio e o subsídio anunciado pelo governo, que ajudou a conter o encarecimento
dos combustíveis — e deve limitar, também, a queda dos preços por aqui.
“A
imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, do
diesel e da gasolina. Ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados
entre os dois países”, afirma o analista de inteligência de mercado da StoneX,
Bruno Cordeiro.
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Trégua ainda frágil mantém mercado em alerta
Apesar
da assinatura de um acordo preliminar em meados de junho para encerrar o
conflito no Oriente Médio, a trégua entre os EUA e o Irã foi rompida mais de
uma vez.
Menos
de duas semanas após a assinatura do documento, os dois países voltaram a
trocar ataques com mísseis e drones e passaram a se acusar mutuamente de violar
o cessar-fogo provisório.
Após
dias de confrontos, EUA e Irã concordaram em interromper as hostilidades e
retomar as negociações. Catar e Paquistão mediaram uma nova rodada de
negociações entre os dois países e, segundo representantes, houve um
"avanço positivo" nas conversas.
Nos
últimos dias, no entanto, uma nova onda de ataques entre os dois países voltou
a colocar o frágil acordo em xeque.
Além
dos bombardeios e retaliações de ambas as partes, Trump também retomou o
bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz e ameaçou cobrar um pedágio
de 20% sobre a carga de todos os navios que passassem pelo canal — mas voltou
atrás e disse que substituiria a taxa por "acordos comerciais e de
investimentos com os países do Golfo".
Ainda
assim, o tráfego ainda limitado no Estreito de Ormuz aumenta as preocupações em
relação à oferta de petróleo no mundo. Segundo especialistas, a demanda global
continua elevada, impulsionada também pelo verão no Hemisfério Norte. O período
é conhecido por registrar níveis mais altos no consumo de energia dos EUA e da
Europa.
“Vivemos
uma queda histórica nos estoques. Tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis
bastante baixos”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.
“Ainda
há muita incerteza sobre o que pode acontecer. Seria necessária uma sinalização
concreta do fim definitivo do conflito para iniciar a retirada de minas da
região, a reconstrução dos portos destruídos e a retomada das operações. Isso
leva tempo”, completa.
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Por que gasolina e diesel continuam caros no Brasil
Segundo
especialistas, o Brasil registrou uma alta mais moderada nos preços dos
combustíveis do que a observada nos EUA e em países da Europa.
Para
reduzir o impacto da alta dos combustíveis sobre a inflação, o governo federal
destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção. A Petrobras também atuou
para conter os preços nos momentos mais críticos, evitando repassar
imediatamente os aumentos aos consumidores.
“O
aumento não chegou com tanta intensidade ao consumidor final. E, como a alta
foi mais moderada, não há espaço para quedas também muito intensas”, afirma
Sérgio Vale, da MB Associados.
Recentemente,
por exemplo, a Petrobras reduziu o preço do diesel nas refinarias em R$ 0,35
após o encerramento do subsídio bancado pelo governo. Como a queda apenas
compensou o fim do benefício, os preços praticados para as distribuidoras
permaneceram inalterados.
Além
disso, o governo também adiou a decisão sobre a retirada do subsídio à
gasolina, após a nova escalada do conflito no Oriente Médio.
Os
especialistas dizem, ainda, que mesmo o aumento da mistura obrigatória de
etanol na gasolina, de 30% para 32%, não deve ser suficiente para provocar uma
redução relevante dos preços nos postos.
“Esse
aumento é importante, mas, por si só, não deve se refletir em uma redução
significativa da gasolina. O principal fator que vai determinar a alta ou a
queda dos preços é a situação do mercado internacional e a forma como esse
movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos
brasileiros”, completa Cordeiro.
• Petróleo, inflação e bolsas: os estragos
econômicos deixados pela guerra entre EUA e Irã
O
acordo de paz entre Estados Unidos e Irã encerra um conflito de quase quatro
meses no Oriente Médio. Independentemente das motivações questionáveis do
presidente americano, Donald Trump, fato é que a guerra prejudicou a economia
global.
A
interrupção do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz provocou uma série de
problemas. O preço da commodity disparou, os combustíveis e seus derivados
pressionaram a inflação em vários países, e as perspectivas futuras para a
economia se deterioraram.
Resultado
é que os preços subiram para o consumidor, enquanto o mercado financeiro
acumulou perdas com a revisão das estratégias de investimento. Nesse cenário,
as bolsas de valores caíram e o dólar se fortaleceu.
Agora,
com o fim do conflito, economistas tentam estimar quando a economia dará sinais
de normalização. O g1 listou os principais efeitos da guerra sobre a economia e
as possíveis saídas para a recuperação.
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Alta nos preços do petróleo e de combustíveis
O
conflito foi marcado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por
onde passam cerca de 20% do petróleo e 25% do gás natural comercializados no
mundo. Após o início dos ataques, o preço do barril quase dobrou, passando de
cerca de US$ 70 para quase US$ 120.
Analistas
chegaram a classificar o episódio como o maior choque petrolífero já
registrado, superando as crises de 1973, 1979 e 2022. Para ampliar a oferta da
commodity e conter o disparo dos preços, a Agência Internacional de Energia
(IEA) realizou a maior liberação emergencial de estoques de sua história.
Ainda
assim, a alta do petróleo não foi amortecida o suficiente e pressionou a
inflação em diversos países. O impacto atingiu primeiro os combustíveis e seus
derivados e, em seguida, se espalhou pelos transportes, pela indústria e até
pela produção agrícola:
• Fertilizantes ficaram mais caros, com a
ureia acumulando alta de cerca de 60%.
• O aumento do combustível de aviação
contribuiu para o cancelamento de milhares de voos.
• Fretes marítimos e rodoviários subiram,
encarecendo alimentos e bens de consumo.
🛢️ Com o anúncio do acordo de paz nesta
semana, o mercado começou a se estabilizar. Nesta quinta-feira (18), o petróleo
Brent recuou para US$ 78,33 por barril, aliviando parte das pressões sobre a
inflação. No início da manhã de sexta-feira, o petróleo Brent estava cotado a
US$ 79,68 por barril, após cancelamento do encontro na Suíça. Ainda assim, está
quase US$ 10 mais caro que antes do início do conflito.
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Alta na inflação dos EUA e queda na popularidade de Trump
O
presidente americano iniciou o segundo mandato prometendo reduzir o custo de
vida. Mas, também nos EUA, a alta do petróleo elevou o preço dos combustíveis —
um dos itens mais sensíveis para o eleitorado de Trump.
O preço
médio do galão de gasolina nos EUA saltou de cerca de US$ 2,98 para mais de US$
4.
Em
maio, a inflação ao consumidor chegou a 4,2% no acumulado em 12 meses, o maior
patamar em três anos. O índice se afastou ainda mais da meta de 2% do Federal
Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
Como o
Fed utiliza os juros para controlar a inflação, a instituição manteve a taxa
básica na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano na reunião de quarta-feira (17),
adiando ainda mais a esperada redução nos EUA.
Esse
baque econômico provocou uma queda ainda mais acentuada na aprovação de Trump.
• Em 2025, a aprovação de Donald Trump
havia recuado de 42% em abril para 40% em julho, em meio aos efeitos do
tarifaço imposto aos parceiros comerciais dos EUA.
• Com a guerra e uma nova aceleração da
inflação, sua popularidade atingiu o pior nível do segundo mandato em abril
deste ano, chegando a 34% de aprovação.
Pesquisas
da Reuters/Ipsos mostraram que 63% dos americanos desaprovavam o governo,
enquanto apenas 36% o aprovavam. Na área econômica, a aprovação era ainda
menor, de 27%, o pior resultado da série histórica do instituto.
🛢️ O recuo dos preços da gasolina nas
últimas semanas trouxe uma melhora modesta. A aprovação da atuação de Trump no
combate ao custo de vida subiu de 22% para 24%, mas o presidente segue bem
abaixo dos níveis registrados no início do mandato.
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Os efeitos no Brasil
Dados
da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram
que os preços do diesel e da gasolina no Brasil chegaram a acumular altas de
23,6% e 8%, respectivamente, nos últimos meses — e não demorou até que o
consumidor sentisse o efeito disso no bolso.
O
governo chegou a anunciar um pacote de medidas para conter os preços dos
combustíveis nas bombas, mas não conseguiu evitar os impactos sobre o custo do
frete, por exemplo — o que gerou um efeito em cadeia e pressionou os preços de
diversos itens da cesta de consumo.
• ➡️ O Índice de Preços
ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, acumula
alta de 3,20% no ano até maio. Em 12 meses, o índice avançou 4,72%, acima do
teto da meta para 2026, de 4,5%.
Com a
pressão sobre os preços e a incerteza provocada pela guerra nos últimos meses,
as projeções do mercado financeiro para os juros também pioraram.
O
Boletim Focus da última segunda-feira (15) mostra que os economistas do mercado
esperam uma taxa Selic de 13,75% ao ano em 2026, um aumento de 0,25 ponto
percentual (p.p.) em relação à semana anterior.
• 🔎 Isso significa que o
mercado espera juros elevados por mais tempo, o que deve continuar encarecendo
o crédito e pode limitar o consumo das famílias brasileiras.
Entre
os principais setores da economia, os efeitos foram variados. De um lado,
exportadores de petróleo se beneficiaram com a alta das cotações. Por outro,
segmentos dependentes da commodity sentiram o impacto nos preços de derivados.
O
resultado é uma pressão generalizada sobre a economia brasileira, com efeitos
que vão do bolso do consumidor ao desempenho dos setores produtivos.
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Impactos no mercado financeiro
As
incertezas sobre a duração do conflito e seus impactos na economia global
também se refletiram nos mercados de câmbio e de ações ao redor do mundo.
Como
costuma ocorrer, o início da guerra trouxe uma valorização do dólar. Isso
acontece porque a moeda americana é vista como um dos ativos mais seguros do
mundo e costuma ser a preferência dos investidores em momentos de incerteza,
como forma de proteger suas aplicações.
No
Brasil, o dólar atingiu o maior nível do ano em 13 de março, mês seguinte ao
início do conflito, ao ser cotado a R$ 5,3142, impulsionado pela alta do
petróleo. Nos meses seguintes, o cenário começou a mudar, à medida que as
incertezas iniciais se dissiparam e o mercado passou a ter mais clareza sobre
quais países e setores seriam mais impactados pela guerra.
Com
isso, investidores reduziram suas posições em dólar e passaram a buscar ativos
mais arriscados — movimento que favoreceu o real. No acumulado do ano até
quarta-feira (17), a moeda americana registrava desvalorização de 6,94%.
O
movimento foi semelhante nos mercados de ações: em um primeiro momento,
investidores retiraram recursos de ativos mais arriscados e, depois, passaram a
apostar em papéis que poderiam se beneficiar do novo cenário.
• 🔎 Vale destacar que
outros fatores também influenciaram as cotações nos últimos meses, como o
tarifaço imposto pelo governo Trump, a política fiscal brasileira, o noticiário
corporativo e os dados econômicos do Brasil e dos Estados Unidos.
No
acumulado do ano até a última quarta-feira, o Ibovespa, principal índice da
bolsa de valores brasileira, registrava alta de 4,38%.
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Piora nas projeções de crescimento da economia global
Antes
do conflito entre EUA e Irã, a previsão era de que o crescimento global
desacelerasse apenas de forma moderada, com a inflação perdendo força e
permitindo um ambiente econômico mais estável.
Com a
escalada da guerra, porém, o cenário piorou. O aumento dos preços do petróleo e
de outras matérias-primas elevou os custos de produção, transporte e energia em
diversos países, alimentando a inflação e reduzindo ainda mais as perspectivas
de crescimento.
• O Fundo Monetário Internacional (FMI)
reduziu a projeção de crescimento da economia mundial em 2026 de cerca de 3,3%
para 3,1%, citando os impactos da guerra sobre os preços das commodities, as
condições financeiras e a confiança dos investidores;
• A Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) passou a estimar uma desaceleração do
crescimento global, de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026. A organização alertou
que, caso a crise energética se prolongasse, a expansão global poderia cair
para apenas 2,1%, nível associado a períodos de forte desaceleração econômica;
• Países como Alemanha e França tiveram
suas projeções reduzidas devido ao encarecimento da energia, que diminuiu o
poder de compra das famílias e aumentou os custos das empresas.
Mesmo
com a melhora recente, FMI e OCDE avaliam que a recuperação dependerá da
manutenção da estabilidade no Oriente Médio e da normalização do abastecimento
global de energia.
Fonte:
g1

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