sábado, 18 de julho de 2026

A ascensão ilegítima da extrema direita no Peru

A vitória eleitoral de Keiko Fujimori, cuja legitimidade é amplamente questionada devido às graves irregularidades que marcaram o segundo turno, constitui um ponto de virada na política peruana. Após mais de uma década de crise sistêmica, caracterizada por instabilidade governamental, profunda fragmentação do sistema partidário, a queda do governo de Pedro Castillo e a crescente captura das instituições estatais pelo bloco dominante, a extrema direita retomou o controle direto do Poder Executivo. O resultado do segundo turno também foi extremamente apertado: apenas 49.641 votos separaram as duas candidaturas.

Este resultado sinaliza o esgotamento da experiência de dominação baseada no autoritarismo parlamentar, instaurada após o golpe de Estado de dezembro de 2022. Em vez disso, começa a tomar forma uma estratégia destinada a consolidar um regime autoritário de caráter presidencial, que busca restaurar, adaptando-o às condições atuais, o projeto político inaugurado por Alberto Fujimori na década de 1990.

O que está em jogo, portanto, vai além de uma simples mudança de governo. Trata-se de uma tentativa de reorganizar o bloco de poder por meio de uma nova articulação entre o poder executivo, as elites econômicas, o aparato coercitivo do Estado e os setores mais reacionários do sistema político.

Seria um erro, contudo, interpretar esse resultado como uma resolução para a crise do regime ou como a consolidação definitiva de uma nova hegemonia conservadora. As profundas contradições sociais, a crise de representação política, a erosão da legitimidade do Estado e as persistentes disputas entre as diversas facções do bloco governante indicam que a crise orgânica do Estado peruano permanece sem solução, mesmo tendo entrado em uma nova fase sob a liderança da extrema direita.

<><> Passado e presente do fujimorismo

Para compreender esse novo cenário, é útil revisitar a interpretação do fujimorismo feita pelo cientista social peruano Aníbal Quijano. Segundo Quijano, o regime estabelecido por Alberto Fujimori era muito mais do que um governo encarregado de implementar um programa neoliberal. Representava uma nova forma de dominação autoritária, com o objetivo de reorganizar o Estado peruano após o esgotamento da ordem oligárquica e a crise do Estado desenvolvimentista durante a década de 1980.

A liberalização econômica, a concentração de poder na presidência, a subordinação das instituições, a militarização da política, a corrupção sistêmica e o desmantelamento da representação social faziam parte do mesmo projeto histórico. O fujimorismo transformou profundamente o regime político: enfraqueceu os partidos políticos, corroeu as organizações sociais e consolidou uma forma de dominação plebiscitária e autoritária, baseada no personalismo, no clientelismo e na promessa de restaurar a ordem.

Essa tradição política, contudo, jamais operou exclusivamente dentro das fronteiras do Peru. Diversas análises apontam para a existência de redes transnacionais de assessoria, financiamento e disseminação de estratégias que conectam movimentos de direita latino-americanos a centros de poder internacionais. Keiko Fujimori e seu círculo fazem parte de uma constelação que reúne think tanks, consultorias eleitorais e espaços de formação política ligados a circuitos externos, particularmente nos Estados Unidos.

Essa dimensão internacional não substitui os fatores internos nem o papel que o fujimorismo desempenha no bloco governante peruano. Em vez disso, permite-nos compreender a recente profissionalização da extrema direita, sua capacidade de adaptação eleitoral e a renovação de seus instrumentos de intervenção política. O fujimorismo contemporâneo é herdeiro do regime autoritário da década de 1990, mas também representa uma reconfiguração desse arcabouço: incorpora novas tecnologias de comunicação, redes midiáticas e estratégias conservadoras que circulam internacionalmente, em um contexto marcado pelo avanço global da extrema direita.

<><> Crise pós-eleitoral e estatismo autoritário

Onovo cenário reflete uma recomposição do bloco dominante e, ao mesmo tempo, a persistência de uma profunda disputa em torno da legitimidade da ordem política. Os processos eleitorais recentes dificilmente podem ser compreendidos como mecanismos neutros de competição democrática. Num contexto marcado pela concentração dos meios de comunicação, enormes assimetrias materiais entre as forças políticas e o uso intensivo de recursos públicos e privados, a disputa eleitoral desenrola-se num campo de jogo profundamente desigual.

Diversas análises jornalísticas e políticas examinaram os mecanismos pelos quais o desenvolvimento e o resultado de uma eleição podem ser influenciados dentro dos próprios limites da instituição. Esses mecanismos incluem a manipulação deliberada da opinião pública, os questionamentos judiciais às candidaturas, o controle da agenda midiática e a intervenção direta de poderosos interesses econômicos. O problema, portanto, não se limita a determinar se houve fraude em termos técnicos. Ele também abrange a qualidade democrática do processo, a igualdade efetiva de condições e a capacidade do sistema político de representar a vontade popular.

Essas disputas aprofundam o fosso entre a legalidade formal e a legitimidade social, uma característica marcante de regimes que vivenciam crises prolongadas. Um resultado pode estar em conformidade com os procedimentos institucionais, mas carecer de legitimidade suficiente para estabilizar a ordem política.

Nicos Poulantzas alertou que as crises do capitalismo contemporâneo poderiam fomentar o desenvolvimento de formas de estatismo autoritário. Esse processo não implica necessariamente a supressão formal da democracia. Em vez disso, consiste na crescente concentração de poder no executivo, no enfraquecimento dos mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, na expansão dos aparelhos coercitivos, na politização do judiciário e na efetiva redução dos espaços para a deliberação democrática.

O novo governo poderá aprofundar diversas tendências que já se tornaram visíveis nos últimos anos: o fortalecimento do Poder Executivo, a expansão das políticas de segurança, a criminalização dos protestos sociais, a utilização do sistema judicial contra adversários políticos e a imposição de maiores restrições à participação popular e à atividade das organizações de esquerda.

<><> Primeiras observações sobre a apertada derrota eleitoral da esquerda

Onovo governo assumirá o poder num contexto marcado por uma profunda crise de legitimidade do regime político. Os elevados níveis de desconfiança nas instituições, a fragmentação social e a erosão das formas tradicionais de representação criam uma situação em que a vitória do fujimorismo não significa a construção de uma nova hegemonia. Em vez disso, revela a sua capacidade de forjar um bloco eleitoral temporário em meio a uma crise orgânica. O seu triunfo assenta menos no apoio genuíno a um projeto nacional do que na formação de uma coligação social e política unida pelo medo, pela promessa de restaurar a ordem, pela defesa do status quo e pela rejeição das alternativas de mudança representadas pela esquerda.

O segundo turno apresentou duas estratégias distintas. O Juntos pelo Peru buscou ampliar sua base por meio de acordos com setores democráticos e centristas. O fujimorismo, por sua vez, priorizou a consolidação e a mobilização de seu eleitorado principal. Em vez de moderar sua retórica ou construir alianças mais amplas, concentrou seus esforços em maximizar a participação de seu eleitorado tradicional e lançou uma campanha focada em territórios no sul andino, historicamente hostis ao movimento.

A estratégia da extrema direita não visava reverter completamente o cenário político de 2021, mas sim reduzir a diferença nas regiões onde a esquerda havia alcançado seus maiores níveis de apoio. Os resultados mostram que ela conseguiu aumentar sua porcentagem de votos em várias dessas regiões em comparação com o segundo turno anterior, embora sem alterar o equilíbrio político geral no sul andino e no planalto central.

Roberto Sánchez, por sua vez, obteve mais votos do que Pedro Castillo em diversas regiões do norte e entre os eleitores da classe média urbana de Lima. Isso demonstrou uma maior capacidade de disputar áreas onde o voto de protesto historicamente enfrentou maiores dificuldades. No entanto, esse crescimento não foi suficiente para compensar a redução da diferença no sul andino. Embora Sánchez tenha vencido em dezesseis regiões, o fez por margens menores do que as obtidas por Castillo no segundo turno das eleições de 2021. Essa redução da diferença se mostrou decisiva para o resultado nacional.

Uma parte significativa da campanha da esquerda baseava-se na expectativa de que o antifujimorismo voltaria a atuar como a principal força capaz de unir a maioria da população. O processo eleitoral, contudo, demonstrou que esse campo político já não possui o poder unificador que detinha em ciclos anteriores. O antifujimorismo permanece uma identidade relevante, mas está mais concentrado em áreas urbanas, especialmente em Lima, e tem menor capacidade de influência nacional e intergeracional.

Essa dificuldade foi agravada pelo deslocamento de setores significativos da direita liberal e do chamado centro político, que promoveram o voto nulo ou adotaram uma posição de suposta neutralidade. Essa orientação enfraqueceu ainda mais a possibilidade de formação de uma ampla frente democrática contra o avanço do fujimorismo.

O voto do exterior também desempenhou um papel decisivo. O apoio majoritário a Keiko Fujimori acabou por definir o resultado final, enquanto no Peru, Roberto Sánchez recebeu a maioria dos votos. Essa diferença revela um cenário político profundamente desigual entre o eleitorado residente no Peru e o da diáspora. Além disso, foi precisamente na votação no exterior que se concentraram as irregularidades mais graves, alimentando questionamentos sobre a legitimidade do resultado da eleição.

O mapa resultante confirma que a extrema direita conseguiu expandir parcialmente seu alcance territorial, enquanto o movimento popular manteve grande parte de seus redutos históricos, embora com menor força eleitoral. Mais do que uma vitória hegemônica para o fujimorismo, o resultado reflete um reequilíbrio desfavorável ao movimento popular em meio a uma crise de representatividade em curso. Seu desfecho dependerá menos da dinâmica institucional do que da capacidade de mobilização social e reorganização política das classes populares.

<><> Rumo a uma resistência democrática e popular

Desde a década de 1990, a estratégia da esquerda legal peruana tem sido marcada por um processo gradual de dissolução política, decorrente de sua subordinação a sucessivas frentes democráticas dominadas por setores liberais. Inicialmente, parte da esquerda apoiou a candidatura de Javier Pérez de Cuéllar como expressão de um bloco democrático de oposição ao fujimorismo. Após a queda do regime autoritário, essa orientação persistiu com o apoio ao governo de transição liderado por Valentín Paniagua e, posteriormente, ao governo de Alejandro Toledo, que havia liderado a oposição ao fujimorismo em 2000.

Sob a premissa de restaurar a democracia, a esquerda gradualmente abandonou a construção de uma alternativa política própria. Sua independência enfraqueceu à medida que se adaptou a um projeto de reestruturação do regime político vigente, em vez de buscar uma perspectiva de transformação estrutural da sociedade peruana.

A situação atual apresenta diferenças significativas. Nos últimos anos, a esquerda passou por uma recomposição parcial. Embora ainda lhe falte um programa socialista abrangente e uma estratégia suficientemente desenvolvida, conseguiu reconstruir uma base social e territorial significativa, especialmente no sul andino e no planalto central, em torno de um programa nacional-popular de esquerda.

O castillismo desempenhou um papel decisivo nesse processo, mantendo a representação política das classes populares que emergiram no cenário nacional durante o ciclo iniciado em 2021 e encerrado abruptamente no final de 2022. Nesse contexto, Roberto Sánchez e o Juntos pelo Perú enfrentam o desafio de consolidar essa recomposição, construindo uma oposição consistente, ampla e popular.

Isso exige um ímpeto de impedir que acordos táticos com setores do centro político obscureçam a visão transformadora expressa pelos setores andinos e populares. A luta pela liderança da resistência democrática será decisiva nesse sentido. Para sustentar uma perspectiva de mudança, essa liderança deve permanecer nas mãos da esquerda popular, que conseguiu ganhar terreno nos últimos anos, como ocorreu parcialmente durante o segundo turno das eleições.

A composição do novo Parlamento bicameral, por sua vez, cria um equilíbrio político instável. No pior cenário, a oposição poderia se reduzir aos blocos Juntos pelo Peru e Agora Nação, um partido social-democrata de centro-esquerda liderado por Alfonso López-Chau. Em um cenário mais favorável, o desafio será preservar a coesão de um bloco que também inclui o Partido Cívico OBRAS, organização fundada por Ricardo Belmont, e, potencialmente, alguns membros do Congresso do Partido do Bom Governo, uma força centrista liderada pelo ex-ministro Jorge Nieto.

Essa possibilidade é especialmente relevante diante dos sinais de uma cisão dentro do grupo parlamentar do Partido do Bom Governo, desencadeada pelas negociações iniciais entre seu líder e ex-candidato à presidência, Jorge Nieto, e a facção de Fujimori. Obras, por sua vez, também não escondeu suas conversas com o Força Popular, apesar de ter reafirmado sua participação no bloco parlamentar de oposição.

Como tem ocorrido repetidamente nas últimas décadas, a instabilidade permanece uma característica estrutural do sistema político peruano. O novo equilíbrio de poder no Parlamento permanece aberto a diversas reconfigurações, tanto devido a disputas internas nos blocos parlamentares quanto à estratégia de cooptação e disciplina empregada pelo fujimorismo. O cenário menos provável, no entanto, parece ser uma ruptura imediata do bloco governista de extrema direita, composto pelo Força Popular, partido fujimorista liderado por Keiko Fujimori, e pela Renovação Popular, força conservadora e de direita radical liderada por Rafael López Aliaga. Este bloco também busca consolidar acordos com o Partido do Bom Governo.

Diante desse cenário, o ímpeto para a mobilização social em torno de um programa antineoliberal mínimo será fundamental para superar as limitações das disputas parlamentares e corroer, por baixo, o regime autoritário que o fujimorismo tentará consolidar. Uma vitória eleitoral contestada da extrema direita não equivale a uma derrota social para os movimentos populares. No Peru, existe uma ampla base popular e operária capaz de resistir para além de suas direções políticas circunstanciais.

O desafio para a esquerda anticapitalista é intervir de forma unificada e estratégica nessa resistência, construindo um polo radical dentro do bloco democrático e popular que está se formando.

 

Fonte: Por Johnatan Fuentes - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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