A
ascensão ilegítima da extrema direita no Peru
A vitória
eleitoral de Keiko Fujimori, cuja legitimidade é amplamente questionada devido
às graves irregularidades que marcaram o segundo turno, constitui um ponto de
virada na política peruana. Após mais de uma década de crise sistêmica,
caracterizada por instabilidade governamental, profunda fragmentação do sistema
partidário, a queda do governo de Pedro Castillo e a crescente captura das
instituições estatais pelo bloco dominante, a extrema direita retomou o
controle direto do Poder Executivo. O resultado do segundo turno também foi
extremamente apertado: apenas 49.641 votos separaram as duas candidaturas.
Este
resultado sinaliza o esgotamento da experiência de dominação baseada no
autoritarismo parlamentar, instaurada após o golpe de Estado de dezembro de
2022. Em vez disso, começa a tomar forma uma estratégia destinada a consolidar
um regime autoritário de caráter presidencial, que busca restaurar, adaptando-o
às condições atuais, o projeto político inaugurado por Alberto Fujimori na
década de 1990.
O que
está em jogo, portanto, vai além de uma simples mudança de governo. Trata-se de
uma tentativa de reorganizar o bloco de poder por meio de uma nova articulação
entre o poder executivo, as elites econômicas, o aparato coercitivo do Estado e
os setores mais reacionários do sistema político.
Seria
um erro, contudo, interpretar esse resultado como uma resolução para a crise do
regime ou como a consolidação definitiva de uma nova hegemonia conservadora. As
profundas contradições sociais, a crise de representação política, a erosão da
legitimidade do Estado e as persistentes disputas entre as diversas facções do
bloco governante indicam que a crise orgânica do Estado peruano permanece sem
solução, mesmo tendo entrado em uma nova fase sob a liderança da extrema
direita.
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Passado e presente do fujimorismo
Para
compreender esse novo cenário, é útil revisitar a interpretação do fujimorismo
feita pelo cientista social peruano Aníbal Quijano. Segundo Quijano, o regime
estabelecido por Alberto Fujimori era muito mais do que um governo encarregado
de implementar um programa neoliberal. Representava uma nova forma de dominação
autoritária, com o objetivo de reorganizar o Estado peruano após o esgotamento
da ordem oligárquica e a crise do Estado desenvolvimentista durante a década de
1980.
A
liberalização econômica, a concentração de poder na presidência, a subordinação
das instituições, a militarização da política, a corrupção sistêmica e o
desmantelamento da representação social faziam parte do mesmo projeto
histórico. O fujimorismo transformou profundamente o regime político:
enfraqueceu os partidos políticos, corroeu as organizações sociais e consolidou
uma forma de dominação plebiscitária e autoritária, baseada no personalismo, no
clientelismo e na promessa de restaurar a ordem.
Essa
tradição política, contudo, jamais operou exclusivamente dentro das fronteiras
do Peru. Diversas análises apontam para a existência de redes transnacionais de
assessoria, financiamento e disseminação de estratégias que conectam movimentos
de direita latino-americanos a centros de poder internacionais. Keiko Fujimori
e seu círculo fazem parte de uma constelação que reúne think tanks,
consultorias eleitorais e espaços de formação política ligados a circuitos
externos, particularmente nos Estados Unidos.
Essa
dimensão internacional não substitui os fatores internos nem o papel que o
fujimorismo desempenha no bloco governante peruano. Em vez disso, permite-nos
compreender a recente profissionalização da extrema direita, sua capacidade de
adaptação eleitoral e a renovação de seus instrumentos de intervenção política.
O fujimorismo contemporâneo é herdeiro do regime autoritário da década de 1990,
mas também representa uma reconfiguração desse arcabouço: incorpora novas
tecnologias de comunicação, redes midiáticas e estratégias conservadoras que
circulam internacionalmente, em um contexto marcado pelo avanço global da
extrema direita.
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Crise pós-eleitoral e estatismo autoritário
Onovo
cenário reflete uma recomposição do bloco dominante e, ao mesmo tempo, a
persistência de uma profunda disputa em torno da legitimidade da ordem
política. Os processos eleitorais recentes dificilmente podem ser compreendidos
como mecanismos neutros de competição democrática. Num contexto marcado pela
concentração dos meios de comunicação, enormes assimetrias materiais entre as
forças políticas e o uso intensivo de recursos públicos e privados, a disputa
eleitoral desenrola-se num campo de jogo profundamente desigual.
Diversas
análises jornalísticas e políticas examinaram os mecanismos pelos quais o
desenvolvimento e o resultado de uma eleição podem ser influenciados dentro dos
próprios limites da instituição. Esses mecanismos incluem a manipulação
deliberada da opinião pública, os questionamentos judiciais às candidaturas, o
controle da agenda midiática e a intervenção direta de poderosos interesses
econômicos. O problema, portanto, não se limita a determinar se houve fraude em
termos técnicos. Ele também abrange a qualidade democrática do processo, a
igualdade efetiva de condições e a capacidade do sistema político de
representar a vontade popular.
Essas
disputas aprofundam o fosso entre a legalidade formal e a legitimidade social,
uma característica marcante de regimes que vivenciam crises prolongadas. Um
resultado pode estar em conformidade com os procedimentos institucionais, mas
carecer de legitimidade suficiente para estabilizar a ordem política.
Nicos
Poulantzas alertou que as crises do capitalismo contemporâneo poderiam fomentar
o desenvolvimento de formas de estatismo autoritário. Esse processo não implica
necessariamente a supressão formal da democracia. Em vez disso, consiste na
crescente concentração de poder no executivo, no enfraquecimento dos mecanismos
institucionais de controle e equilíbrio, na expansão dos aparelhos coercitivos,
na politização do judiciário e na efetiva redução dos espaços para a
deliberação democrática.
O novo
governo poderá aprofundar diversas tendências que já se tornaram visíveis nos
últimos anos: o fortalecimento do Poder Executivo, a expansão das políticas de
segurança, a criminalização dos protestos sociais, a utilização do sistema
judicial contra adversários políticos e a imposição de maiores restrições à
participação popular e à atividade das organizações de esquerda.
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Primeiras observações sobre a apertada derrota eleitoral da esquerda
Onovo
governo assumirá o poder num contexto marcado por uma profunda crise de
legitimidade do regime político. Os elevados níveis de desconfiança nas
instituições, a fragmentação social e a erosão das formas tradicionais de
representação criam uma situação em que a vitória do fujimorismo não significa
a construção de uma nova hegemonia. Em vez disso, revela a sua capacidade de
forjar um bloco eleitoral temporário em meio a uma crise orgânica. O seu
triunfo assenta menos no apoio genuíno a um projeto nacional do que na formação
de uma coligação social e política unida pelo medo, pela promessa de restaurar
a ordem, pela defesa do status quo e pela rejeição das alternativas de mudança
representadas pela esquerda.
O
segundo turno apresentou duas estratégias distintas. O Juntos pelo Peru buscou
ampliar sua base por meio de acordos com setores democráticos e centristas. O
fujimorismo, por sua vez, priorizou a consolidação e a mobilização de seu
eleitorado principal. Em vez de moderar sua retórica ou construir alianças mais
amplas, concentrou seus esforços em maximizar a participação de seu eleitorado
tradicional e lançou uma campanha focada em territórios no sul andino,
historicamente hostis ao movimento.
A
estratégia da extrema direita não visava reverter completamente o cenário
político de 2021, mas sim reduzir a diferença nas regiões onde a esquerda havia
alcançado seus maiores níveis de apoio. Os resultados mostram que ela conseguiu
aumentar sua porcentagem de votos em várias dessas regiões em comparação com o
segundo turno anterior, embora sem alterar o equilíbrio político geral no sul
andino e no planalto central.
Roberto
Sánchez, por sua vez, obteve mais votos do que Pedro Castillo em diversas
regiões do norte e entre os eleitores da classe média urbana de Lima. Isso
demonstrou uma maior capacidade de disputar áreas onde o voto de protesto
historicamente enfrentou maiores dificuldades. No entanto, esse crescimento não
foi suficiente para compensar a redução da diferença no sul andino. Embora
Sánchez tenha vencido em dezesseis regiões, o fez por margens menores do que as
obtidas por Castillo no segundo turno das eleições de 2021. Essa redução da
diferença se mostrou decisiva para o resultado nacional.
Uma
parte significativa da campanha da esquerda baseava-se na expectativa de que o
antifujimorismo voltaria a atuar como a principal força capaz de unir a maioria
da população. O processo eleitoral, contudo, demonstrou que esse campo político
já não possui o poder unificador que detinha em ciclos anteriores. O
antifujimorismo permanece uma identidade relevante, mas está mais concentrado
em áreas urbanas, especialmente em Lima, e tem menor capacidade de influência
nacional e intergeracional.
Essa
dificuldade foi agravada pelo deslocamento de setores significativos da direita
liberal e do chamado centro político, que promoveram o voto nulo ou adotaram
uma posição de suposta neutralidade. Essa orientação enfraqueceu ainda mais a
possibilidade de formação de uma ampla frente democrática contra o avanço do
fujimorismo.
O voto
do exterior também desempenhou um papel decisivo. O apoio majoritário a Keiko
Fujimori acabou por definir o resultado final, enquanto no Peru, Roberto
Sánchez recebeu a maioria dos votos. Essa diferença revela um cenário político
profundamente desigual entre o eleitorado residente no Peru e o da diáspora.
Além disso, foi precisamente na votação no exterior que se concentraram as
irregularidades mais graves, alimentando questionamentos sobre a legitimidade
do resultado da eleição.
O mapa
resultante confirma que a extrema direita conseguiu expandir parcialmente seu
alcance territorial, enquanto o movimento popular manteve grande parte de seus
redutos históricos, embora com menor força eleitoral. Mais do que uma vitória
hegemônica para o fujimorismo, o resultado reflete um reequilíbrio desfavorável
ao movimento popular em meio a uma crise de representatividade em curso. Seu
desfecho dependerá menos da dinâmica institucional do que da capacidade de
mobilização social e reorganização política das classes populares.
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Rumo a uma resistência democrática e popular
Desde a
década de 1990, a estratégia da esquerda legal peruana tem sido marcada por um
processo gradual de dissolução política, decorrente de sua subordinação a
sucessivas frentes democráticas dominadas por setores liberais. Inicialmente,
parte da esquerda apoiou a candidatura de Javier Pérez de Cuéllar como
expressão de um bloco democrático de oposição ao fujimorismo. Após a queda do
regime autoritário, essa orientação persistiu com o apoio ao governo de
transição liderado por Valentín Paniagua e, posteriormente, ao governo de
Alejandro Toledo, que havia liderado a oposição ao fujimorismo em 2000.
Sob a
premissa de restaurar a democracia, a esquerda gradualmente abandonou a
construção de uma alternativa política própria. Sua independência enfraqueceu à
medida que se adaptou a um projeto de reestruturação do regime político
vigente, em vez de buscar uma perspectiva de transformação estrutural da
sociedade peruana.
A
situação atual apresenta diferenças significativas. Nos últimos anos, a
esquerda passou por uma recomposição parcial. Embora ainda lhe falte um
programa socialista abrangente e uma estratégia suficientemente desenvolvida,
conseguiu reconstruir uma base social e territorial significativa,
especialmente no sul andino e no planalto central, em torno de um programa
nacional-popular de esquerda.
O
castillismo desempenhou um papel decisivo nesse processo, mantendo a
representação política das classes populares que emergiram no cenário nacional
durante o ciclo iniciado em 2021 e encerrado abruptamente no final de 2022.
Nesse contexto, Roberto Sánchez e o Juntos pelo Perú enfrentam o desafio de
consolidar essa recomposição, construindo uma oposição consistente, ampla e
popular.
Isso
exige um ímpeto de impedir que acordos táticos com setores do centro político
obscureçam a visão transformadora expressa pelos setores andinos e populares. A
luta pela liderança da resistência democrática será decisiva nesse sentido.
Para sustentar uma perspectiva de mudança, essa liderança deve permanecer nas
mãos da esquerda popular, que conseguiu ganhar terreno nos últimos anos, como
ocorreu parcialmente durante o segundo turno das eleições.
A
composição do novo Parlamento bicameral, por sua vez, cria um equilíbrio
político instável. No pior cenário, a oposição poderia se reduzir aos blocos
Juntos pelo Peru e Agora Nação, um partido social-democrata de centro-esquerda
liderado por Alfonso López-Chau. Em um cenário mais favorável, o desafio será
preservar a coesão de um bloco que também inclui o Partido Cívico OBRAS,
organização fundada por Ricardo Belmont, e, potencialmente, alguns membros do
Congresso do Partido do Bom Governo, uma força centrista liderada pelo
ex-ministro Jorge Nieto.
Essa
possibilidade é especialmente relevante diante dos sinais de uma cisão dentro
do grupo parlamentar do Partido do Bom Governo, desencadeada pelas negociações
iniciais entre seu líder e ex-candidato à presidência, Jorge Nieto, e a facção
de Fujimori. Obras, por sua vez, também não escondeu suas conversas com o Força
Popular, apesar de ter reafirmado sua participação no bloco parlamentar de
oposição.
Como
tem ocorrido repetidamente nas últimas décadas, a instabilidade permanece uma
característica estrutural do sistema político peruano. O novo equilíbrio de
poder no Parlamento permanece aberto a diversas reconfigurações, tanto devido a
disputas internas nos blocos parlamentares quanto à estratégia de cooptação e
disciplina empregada pelo fujimorismo. O cenário menos provável, no entanto,
parece ser uma ruptura imediata do bloco governista de extrema direita,
composto pelo Força Popular, partido fujimorista liderado por Keiko Fujimori, e
pela Renovação Popular, força conservadora e de direita radical liderada por
Rafael López Aliaga. Este bloco também busca consolidar acordos com o Partido
do Bom Governo.
Diante
desse cenário, o ímpeto para a mobilização social em torno de um programa
antineoliberal mínimo será fundamental para superar as limitações das disputas
parlamentares e corroer, por baixo, o regime autoritário que o fujimorismo
tentará consolidar. Uma vitória eleitoral contestada da extrema direita não
equivale a uma derrota social para os movimentos populares. No Peru, existe uma
ampla base popular e operária capaz de resistir para além de suas direções
políticas circunstanciais.
O
desafio para a esquerda anticapitalista é intervir de forma unificada e
estratégica nessa resistência, construindo um polo radical dentro do bloco
democrático e popular que está se formando.
Fonte:
Por Johnatan Fuentes - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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