sábado, 18 de julho de 2026

'TariFlávio de Trump deu a Lula bandeira da soberania e pode prejudicar Flávio Bolsonaro', diz especialista

Considerada pelo governo brasileiro como um ‘marco lastimável’ nas relações Brasil-Estados Unidos, a decisão do governo Trump de impor uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos brasileiros poderá gerar dividendos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e prejudicar o pré-candidato Flávio Bolsonaro.

A afirmação é do co-diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oklahoma, Fábio de Sá e Silva. Em entrevista a Opera Mundi, ele avalia que “houve uma clara movimentação política em torno das tarifas, por parte da atual oposição no Brasil”.

“Frequentemente, essa oposição invoca ter conexões em Washington e mobilizá-las para interferir em processos políticos e até decisões judiciais no país”, acrescentou. Apesar disso, “essas ações geram dividendos políticos para o governo, pois permitem que Lula mobilize com sucesso o discurso da soberania”.

“As medidas desagradam o próprio empresariado brasileiro, que precisa gastar dinheiro e energia para se defender”, afirma Sá e Silva. A menção expressa ao Pix, por exemplo, “vai apenas aprofundar isso e pode atrapalhar a candidatura de Flávio Bolsonaro, mais do que ajudar”, acrescenta.

Segundo o especialista, “os Bolsonaros e outros do seu entorno tentam reproduzir uma lógica já usada por outras diásporas de construir influência política nos Estados Unidos e usar isso para influenciar a política de seus próprios países”.

A prática, no entanto, “leva décadas e precisa estar ancorada em relações com todo o sistema político. Os Bolsonaros se aliaram aos republicanos, isso significa que estão vulneráveis caso estes saiam do poder em algum momento”, acrescenta.

<><> Decisão já era esperada

Segundo o especialista, a taxação já era esperada. “Foi ficando cada vez mais previsível, dadas as notícias que circulavam pela mídia e as declarações, inclusive, de ex-membros do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), de que seriam impostas de toda forma”.

Após o anúncio de Washington, o governo Lula afirmou que irá aplicar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos e levar a questão à Organização Mundial de Comércio (OMC). Para o professor, a resposta é condizente com a linha institucionalista do país em suas relações internacionais e “deve se manter nesses trilhos”.

Na prática, as tarifas irão levar “o Brasil, independentemente do governo, a fortalecer seus laços com outras economias, o que também será ruim para os Estados Unidos”, avalia.

O pacote tarifário, que começará a valer na próxima quarta-feira (22/07), deixou milhares de produtos brasileiros isentos. Sá e Silva considera que isso evidencia “que os Estados Unidos reconhecem que as tarifas geram efeitos negativos para seu próprio mercado interno”. Além de mostrar “o poder de lobbies setoriais, ou seja, eles aplicaram tarifas ‘pero no mucho’”.

<><> Ação deliberada

Após a divulgação das novas taxas contra o Brasil, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, publicou uma declaração contundente contra o governo do presidente Lula, afirmando que suas políticas econômicas são ruins para o país e que o mandatário brasileiro “não agiu de boa-fé” em relação à Casa Branca.

Ao comentar a política de Trump para a América Latina, o pesquisador afirma que se trata de uma posição “baseada numa leitura ideológica de relações internacionais e da relação dos Estados Unidos com o hemisfério”.

“Não é algo novo, sempre houve alguma tentativa de influenciar a região. Mudaram a racionalidade e os instrumentos. No curto prazo, tem garantido governos leais a Trump, mas ainda precisamos de tempo para avaliar outros resultados e a durabilidade disso”, complementou.

¨      Governo Lula rejeita novo tariFlávio de Trump e reitera: 'Pix é patrimônio do povo'

O governo Lula classificou como um “marco lastimável” nas relações entre Brasil e Estados Unidos a decisão de Washington, anunciada na noite desta quarta-feira (15/07), de impor tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros, após o término das investigações comerciais de Washington sobre o país.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou o encerramento da investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil, afirmando que a taxa imposta pelo presidente norte-americano Donald Trump está prevista para entrar em vigor na próxima quarta-feira, 22 de julho.

Segundo o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a decisão busca proteger os interesses econômicos do país e garantir condições justas de concorrência para empresas e trabalhadores norte-americanos. Ele afirmou que os Estados Unidos permanecem abertos a novas negociações com o governo brasileiro.

Washington alega práticas de favorecimento do Brasil, como o sistema de pagamento eletrônico Pix e as tarifas relacionadas ao mercado de etanol. Além do combustível, a lista de produtos atingidos inclui máquinas agrícolas, roupas, calçados e materiais elétricos.

Estão isentos da cobrança cerca de 2.100 itens, como café, laranja, suco de laranja e carne bovina; petróleo bruto e derivados, aeronaves e peças da indústria aeroespacial, terras raras e minerais estratégicos.

Em postagem nas redes sociais, após a divulgação das tarifas, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que “o presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé” e que as políticas econômicas do Brasil “são ruins para os norte-americanos e ruins para os brasileiros”.

“No último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da celebração de um acordo em benefício do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, declarou.

<><> Resposta do governo brasileiro

Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República afirmou que a medida é unilateral, injustificada e contraria as regras do comércio internacional, além de anunciar que o país recorrerá à Lei de Reciprocidade e retomará a disputa no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O comunicado afirma que o Brasil “repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros”, reiterando que “não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país”.

O governo argumenta que os próprios dados oficiais dos Estados Unidos demonstram um superávit norte-americano de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos. A nota destaca que, em 2025, 76% das importações provenientes de Washington ingressaram no mercado brasileiro sem pagamento de imposto de importação e que a alíquota média efetivamente aplicada aos produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.

O Palácio do Planalto reiterou que não reconhece a legitimidade de investigações conduzidas fora das normas multilaterais de comércio, afirmando que manteve diálogo permanente com o USTR durante o último ano para tentar encerrar o processo.

De acordo com o governo, foram apresentadas evidências que refutam as acusações de práticas comerciais desleais atribuídas ao Brasil, incluindo críticas ao sistema de pagamentos PIX, à regulação das plataformas digitais e às políticas ambientais.

<><>‘Pix é um patrimônio do nosso povo’

O governo brasileiro defende que “o PIX é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital” e afirma: “não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade”.

O texto também rejeita as acusações relacionadas ao meio ambiente, sustentando que, desde 2023, o país intensificou o combate aos crimes ambientais e reduziu significativamente o desmatamento em todos os biomas.

O comunicado ressalta ainda que, nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 manifestações de representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias à imposição das tarifas. Segundo o governo, esse resultado demonstra que a medida enfrenta resistência também entre empresas dos dois países.

<><> Lei de Reciprocidade e OMC

A nota afirma ainda que o Brasil “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional”, além de levar novamente a disputa ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC.

O governo anunciou que continuará buscando novos mercados para as exportações brasileiras, citando os acordos firmados pelo Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e Singapura.

Além disso, informou que o Plano Brasil Soberano será utilizado para proteger os setores afetados pelas tarifas e preservar empregos e a capacidade produtiva nacional.

<><> ‘Falsos patriotas’

Na parte final do documento, o governo atribui responsabilidade política pela escalada da crise. Segundo a nota, “é triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro“.

O texto acrescenta que se trata de “falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”, e conclui afirmando que “proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la”.

¨      ‘EUA estão incomodados porque Brasil não se curvou’, afirma Mauro Vieira sobre o tariFlávio

Em declaração feita nesta quinta-feira (16/07), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, classificou como “desmedidas” e “irrazoáveis” o tarifaço adicional de 25% anunciado pelo governo dos Estados Unidos contra uma lista de produtos brasileiros.

“Claramente o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações”, afirmou o chanceler brasileiro, ao comentar a medida anunciada pelo governo norte-americano nesta quarta-feira (15/07).

Vieira também criticou a exigência de Washington de que Brasília aceitasse uma “abertura total, irrestrita e exclusiva” de setores inteiros de sua economia para empresas dos Estados Unidos, situação que ele resumiu dizendo que “em outras palavras, exigiam a capitulação”.

Após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciar o encerramento da investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil, a Casa Branca informou que o governo norte-americano impôs tarifas adicionais de 25% sobre os produtos brasileiros.

Ao justificar a medida, o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, disse que a decisão busca “proteger os interesses econômicos do país e garantir condições justas de concorrência para empresas e trabalhadores norte-americanos”.

Segundo o governo de Donald Trump, as novas tarifas aos produtos brasileiros entrarão em vigor a partir da próxima quarta-feira (22/07).

<><> Rebatendo Rubio

Horas depois, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, comentou a decisão e tentou atribuir a responsabilidade pelo tarifaço ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

“O presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé”, afirmou Rubio, que completou dizendo que as políticas econômicas do Brasil seriam supostamente “ruins para os norte-americanos e ruins para os brasileiros”.

O chanceler brasileiro Mauro Vieira considerou as declarações do chefe da diplomacia norte-americana ‘inaceitáveis e ofensivas’.

“Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo (dos Estados Unidos)”, acrescentou Vieira.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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