Memorial
da pandemia
Uma
digressão, no âmbito e contexto da relação pandemia do Covid-19 e negacionismo
científico (institucional), deve levar em consideração que em meados do
primeiro semestre de 2023 (há três anos) a desinformação em saúde entrou para a
pauta da conjuntura política com intensidade. Fato ocorrido por efeito da
comprovação de fraude no cartão de vacinação, do ex-presidente Jair Bolsonaro,
operado por um servidor militar a partir do próprio Planalto da República.
A
fraude no cartão de vacinação, juntamente com a suspeição de vínculo do
ex-presidente Jair Bolsonaro com milícias digitais, demonstrou uma das
incidências da conjuntura ao qual estava sujeita a gestão do Sistema Único de
Saúde (SUS), num período muito peculiar da trajetória sanitária do país.
A
denúncia da fraude do cartão de vacinação de um ex-presidente gerou, inclusive,
um subsequente grande debate referente às Big Techs, pois seriam, as próprias,
as controladoras da desinformação. E que dentre as contradições, está a questão
de não serem plataformas digitais nacionais, o que também reforça a
complexidade da discussão sobre a regulação destas.
Mas,
por outro lado, tornou-se também evidente que o legado da mobilização social
frente à pandemia do Covid-19 foi um elemento fundamental para a pressão sobre
o Congresso Nacional, pela aprovação da urgência da votação do Projeto de Lei
de Combate às fake news (n° 2630/2020), em 25 de abril de 2023, na Câmara
Federal (infelizmente arquivado pela mesma instância, em abril de 2024, sob
presidência do deputado Arthur Lira).
Noutro
contexto, em 2019, no período da pré-pandemia, é recordável que o principal
destaque na pauta da saúde pública foi a mudança da lei e respectivo
sancionamento do Programa Médicos Pelo Brasil, em 18 de dezembro. Substituindo
o Programa Mais Médicos, atacado nas eleições de 2018 pela chapa do então
candidato Jair Bolsonaro, por considerarem um programa ideologizado em função
da presença de médicos cubanos.
O
“novo” programa chegou na sequência da mudança do modelo de atendimento básico
do SUS, pelo então (des)governo, que adquiriu um caráter mais seletivo e
restritivo de atendimento, por vincular o orçamento ao cadastro e não ao Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios.
No
mesmo ano, em dezembro de 2019, a China publicou/divulgou oficialmente as
primeiras mortes por Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS)
apresentaria relatório do nível de expansão da contaminação, no dia 10 de
janeiro de 2020, período no qual o mundo foi alertado sobre a pandemia do
Covid-19, e iniciativas passariam a ser tomadas pelas nações. No Brasil, no
início de 2020, a presença do Covid-19 ainda era tímida e a dengue ainda estava
em alta. A China demonstrava abertamente à imprensa mundial sua preocupação com
a situação, e dava exemplos de iniciativas governamentais de enfrentamento à
contaminação, orientando medidas de prevenção como o distanciamento social e
fornecendo Equipamento de Proteção Individual (EPI).
No
panorama internacional se discutia principalmente o comportamento de dois
países perante o Covid-19, o da China e dos Estados Unidos da América (EUA).
Uma das reações que é passível de ser considerada governista no então período,
foi um tweet em 19 de março, do deputado federal Eduardo Bolsonaro,
questionando a divulgação da informação sobre o vírus pela China. Que
iminentemente foi repudiado pela Embaixada chinesa, e por políticos e gestores
nacionais, especialmente governadores, com o objetivo de não partidarizar (ou
ideologizar) a situação e sim encontrar a cura e formas de enfrentamento à
pandemia do Covid-19.
Já nos
primeiros sinais da chegada da pandemia do Covid-19, no Brasil, a ausência de
governança e a adoção de uma linha cientificamente negacionista ficaram
explícitas. O ex-presidente da República Jair Bolsonaro praticava um discurso
de “crise na saúde pública”, ao tempo que divulgava sua participação em atos
públicos junto à correligionários políticos, quando a orientação deveria ser o
distanciamento social, adoção de equipamentos de prevenção e investimento no
SUS. Na última semana de março de 2020 foi constatado que a contaminação por
Covid-19 avançou intensamente no Brasil, e o prognóstico dos especialistas
epidemiológicos já apresentavam sérios desafios emergenciais.
A tensa
situação foi acentuada com o pronunciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, no
dia 24 de março de 2020, em que classificou o Covid-19 como “gripezinha”
(Ibrahim, 2021). E que entre outros infortúnios relativizou a orientação da OMS
e do próprio Ministério da Saúde para o isolamento social, levando o primeiro
dos quatro ministros da saúde daquele governo, Luiz Henrique Mandetta, a uma
situação de instabilidade. Os governadores dos 26 estados, junto ao Distrito
Federal (DF), também reagiram ao posicionamento do presidente Jair Bolsonaro
reafirmando a orientação da OMS para o isolamento social.
Quanto
a isso, não por menos, Rocha (2021), formulou uma análise sobre o discurso de
ódio, na relação política e informação, tratando pormenorizadamente do ambiente
de guerra cultural que no Brasil têm como ápice o fenômeno político-social do
“bolsonarismo”. O ex-deputado federal (do “zero projeto”), Jair Bolsonaro,
ganhou as eleições presidenciais de 2018 com discurso pautado nos costumes, na
antipolítica e antissistema, e, conforme o autor, tornou-se um dos líderes da
“transnacional extrema direita”.
E no
epicentro de todo este embate, estava o SUS, seja pela fragilização perpetrada,
seja pelo contraponto à ausência de governança e ao negacionismo. O SUS, que
carrega no próprio nome a palavra “sistema”, e como é de conhecimento é único
por ser universal, considerado peculiar como maior e exitosa experiência
mundial de um sistema de saúde público com vista à equidade e integralidade.
E, que
mesmo assim não está ileso de problematizações, e atropelos, reforçando-se
dentre outras demandas a necessidade de enfatizar que a gestão e execução do
SUS não depende (ou não deveria depender) da boa vontade “política”, pois os
governos federal, estaduais e municipais têm o dever do seu desenvolvimento
institucional e social (Lemos et al, 2026).
Dessa
maneira, se destaca que durante a pandemia da Covid-19, a ausência de
governança e o negacionismo científico ameaçou o SUS, comprometeu ações de
prevenção, autocuidado e adesão a tratamentos, perfazendo a tragédia que ceifou
a vida de 700 mil brasileiras e brasileiros. Realidade que revela, dentre
tantos desafios, a necessidade da defesa contundente da comunicação em saúde
enquanto importante instrumento social e político de democratização do
conhecimento, ao garantir acesso a informações essenciais, entre outros, para o
próprio exercício da cidadania. Cabendo o registro que toda vez que se tratar
do tema pandemia do Covid-19 se estará lembrando de um peculiar momento da
história da epidemiologia brasileira.
Âmbito,
para o qual, duas importantes e simbólicas iniciativas aconteceram no período
recente, que são: o lançamento do Memorial da Pandemia, no dia 07 de abril, no
Rio de Janeiro, requerido pelo Ministério da Saúde; e a sanção presidencial, no
dia 11 de maio, da lei que instituiu o Dia Nacional em Memória das Vítimas por
Covid-19, com a data escolhida para o dia 12 de março.
Ambos
por meio do atual governo federal, com a participação de representantes da
Frente pela Vida, da sociedade civil e de instituições democráticas. Não sendo
um desfecho frente ao negacionismo, que insiste em persistir com seus
representantes públicos (digitais-artificiais), mas que consagram sopros de
muita esperança e fé na vida.
Fonte:
Por André Lemos, Elisa Andries, João Pedro Vianna e Umberto Lima, em A Terra é
Redonda

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