O
flerte entre o mercado da fé e a ultradireita
Em
novembro de 2024, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, realizou-se o
1º Summit de Empreendedorismo Cristão. O evento tinha como objetivo, segundo
seus organizadores, “promover, desenvolver e fomentar o empreendedorismo à luz
da palavra de Cristo”. Entre os
palestrantes, figurava Junior Rostirola, autor do livro mais
vendido da Amazon Brasil em 2024: Café com Deus Pai. Rostirola também
é fundador de uma igreja própria com mais de sete mil fiéis em
Itajaí – SC e declarado simpatizante de figuras políticas autoritárias como
Jair Bolsonaro e Donald Trump. Ao lado dele, Oséias Gomes, CEO da
rede Odonto Excellence e autor de Empreenda pelos
Princípios Bíblicos, e o Pastor Marcos Freire, fundador do projeto social
Baluarte na África. O evento poderia parecer apenas uma curiosidade do cenário
religioso brasileiro, mas não é. Ela condensa características fundamentais do
que se chama de extrema-direita na política brasileira atual: a fusão
entre o empreendedorismo como ética, a fé cristã no plano moral
e conservadorismo com características, cada vez mais, reacionárias, além
do vínculo e apoio a figuras autoritárias integrantes de movimentos
neofascistas. Todos esses eixos articulam um anticomunismo pautado pela
ideologia neoliberal oriundo da escola austríaca de figuras
como Ludwig von Mises e seu discípulo direto
Israel Kirzner. Ideologia essa que é a força do projeto imperialista
estadunidense ao articular produção de consenso e desinformação em massa
para distorção da realidade social e bloqueio da consciência de classe e
radicalização dos movimentos sociais. Compreender esse nó exige ir fundo nas
raízes intelectuais do problema e identificar quem o organiza, quem
o financia e quem o amplifica.
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1. O empreendedorismo como ética neoliberal e aparelhos privados de
hegemonia empresariais
O
empreendedorismo não nasceu como política pública nem como tendência espontânea
do mercado. Ele tem pais intelectuais identificáveis, e eles não escondem
suas posições políticas. Para compreendermos o que se propaga hoje como
ideologia do empreendedorismo é necessário observar a colaboração de autores
ultraliberais como von Mises e seu discípulo direto
Israel Kirzner. Suas análises pautadas pela defesa da propriedade privada
e do mercado são utilizadas como base das concepções de ódio ao Estado e crença
cega no funcionamento do mercado como sinônimo de liberdade a partir da
prática do empreendedorismo como prática natural entre os seres sociais.
De acordo com Dardot e Laval (2016), se existe originalidade no neoliberalismo
(fase atual do capitalismo tardio) essa reside na transformação profunda da
relação entre instituições e ação individual, que não pode ser compreendida sem
atentar para essa conexão fundamental. O neoliberalismo, mais do que uma
simples ideologia capitalista ou política econômica, atua, segundo os autores,
como um regime que tem como objetivo moldar a subjetividade humana,
direcionando-a para uma postura empresarial e competitiva, onde o
indivíduo se torna um homem empresarial, submetido a uma lógica de concorrência
em todos os níveis sociais.
Ludwig
von Mises, um dos mais influente dos economistas neoliberais da Escola
Austríaca, buscou desenvolver ao longo do século XX uma teoria da ação humana,
uma praxeologia que parte de um axioma simples e radical: todo ser humano age
racionalmente para maximizar seus fins subjetivos. A consequência imediata
desse postulado é a rejeição de qualquer forma de regulação coletiva da
vida econômica: se cada indivíduo é o melhor árbitro de seus próprios
interesses, o mercado é a única instituição legítima de coordenação social. O
Estado, nessa visão, é sempre um entrave, uma distorção, uma violência
autoritária.
Mas Mises foi
além da teoria econômica. Em Liberalismo na tradição clássica publicado
em 1927 saudou abertamente o fascismo por ter, em suas palavras:
“salvado a civilização europeia do perigo bolchevique”, reconhecendo que o
mérito do fascismo “viverá eternamente na história”. A ressalva que fez de
que o fascismo seria apenas um “improviso emergencial” não apaga o essencial:
para Mises, a questão entre democracia e ditadura é subordinada à questão
da propriedade privada. Onde o capital estiver ameaçado, a ditadura pode ser a
solução. A propriedade privada, para ele, era o verdadeiro princípio
civilizatório; tudo mais, incluindo a forma do regime, era secundário.
Essa
posição não é um detalhe biográfico. É a estrutura lógica de um pensamento
que legitimou, e continua a legitimar, o apoio do liberalismo econômico a
soluções autoritárias sempre que se apresente uma crise de hegemonia. O
fascismo, em Mises, não é o oposto do liberalismo: é a sua forma de
exceção.
Israel Kirzner,
discípulo direto de Mises e principal teorizador contemporâneo do
empreendedorismo na Escola Austríaca, desdobrou esse núcleo em uma teoria do
sujeito econômico. Em Competition and Entrepreneurship(1
973), Kirzner coloca o empreendedor no centro do processo de mercado,
ou seja, como um agente dotado de uma especial capacidade de perceber
oportunidades ainda não exploradas, o que ele denomina alertness,
ou “estado de alerta”. Esse sujeito, permanentemente vigilante, competitivo e
orientado pelo lucro, não é apenas uma figura econômica. É um projeto
de subjetividade: o que o ser humano deve ser para funcionar
adequadamente na ordem de mercado.
A
passagem de Mises para Kirzner é, portanto, a passagem da
defesa do mercado para a fabricação do sujeito do mercado. O empreendedor não é
mais apenas quem cria empresas: é o nome do ser humano ideal no
capitalismo neoliberal. E como todo ideal, ele implica uma condenação daqueles
que não se encaixam, que dependem do Estado, que organizam coletivamente sua
resistência, que se recusam a ser a própria empresa.
A
genealogia intelectual do empreendedorismo não se sustenta apenas no plano das
ideias. Ela precisa de estruturas organizadas para se tornar hegemônica, ou
seja, para penetrar nas escolas, nas igrejas, nos programas sociais, nos meios
de comunicação e, finalmente, nas vontades coletivas. É aqui que entram os
aparelhos privados de hegemonia (APH’s), no sentido
que Antonio Gramsci deu ao conceito, ou seja, organizações
formalmente privadas que exercem funções de direção política e ideológica na
sociedade civil.
No
Brasil, o crescimento dessas estruturas ao longo das últimas três décadas é
vertiginoso. Entre 1996 e 2017, o número de APH’s ultraliberais
cresceu 680% (CASIMIRO, 2018). Entre eles, o Instituto Milenium, o Instituto
Liberal, a Rede Liberdade, o Instituto Rothbard Brasil, os
Estudantes pela Liberdade e, de forma particularmente reveladora, o Instituto Mises Brasil.
Fundado em 2009 por Hélio Beltrão — filho de um ministro da ditadura
empresarial-militar, o Instituto Mises Brasil é hoje uma das
principais trincheiras do pensamento ultraneoliberal no país. Opera
em múltiplas frentes: eventos acadêmicos, produção de conteúdo para plataformas
digitais, parcerias com universidades e articulação com o campo político da
extrema direita. A desinformação, neste caso, não é acidente: é
método.
O campo
empresarial mais amplo organiza-se em torno do GIFE (Grupo de Institutos,
Fundações e Empresas), que reúne entidades como a Fundação Roberto Marinho, a
Fundação Lemann, a Fundação Itaú Social e a Fundação Bradesco. O denominador
comum entre todas elas é a proposta do empreendedorismo como solução para a
desigualdade social, uma solução que, ao transferir para o indivíduo a
responsabilidade pelos problemas estruturais do capitalismo, esvazia qualquer
demanda por redistribuição, regulação ou direitos coletivos.
Não é
coincidência que o Grupo Globo — principal conglomerado midiático do país —
tenha lançado a campanha “Vamos Ativar o Empreendedorismo” e publicado um
editorial intitulado “O empreendedorismo é instrumento para uma sociedade mais
igualitária” (O GLOBO, 2021). A mídia proprietária, os institutos empresariais
e as fundações de “responsabilidade social” formam um bloco articulado que
Gramsci reconheceria imediatamente: um conjunto de forças que, atuando
na sociedade civil, busca construir o consenso necessário para que a ordem
do capital apareça como a única ordem possível e o empreendedorismo, como a
única forma racional de ser.
Esses
aparelhos não são partidos no sentido formal. Mas exercem a função de partido
no sentido gramsciano: organizam vontades coletivas, possuem intelectuais
orgânicos, disputam a hegemonia moral e intelectual da sociedade. A diferença
em relação ao partido tradicional é que eles operam sob o signo do “privado”,
da “inovação” e da “liberdade de escolha”, o que torna sua natureza
política tanto mais eficaz quanto mais invisível.
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2. Deus e o mercado: fé e empreendedorismo
A
conexão entre o movimento cristão que se apresenta como “conservador”, o
neoliberalismo via ética mercadológica-empreendedora e o movimento neofascista
e reacionário não é acidental nem meramente eleitoral. Ela tem raízes
ideológicas profundas e o empreendedorismo é um de seus elos mais
importantes. Mises em Socialismo: uma análise econômica e
sociológica de 1922 foi explícito ao afirmar que a Igreja deveria
se afastar dos ensinamentos de solidariedade e justiça social presentes no
Evangelho que ele via como “sementes do mal” e alinhar-se à defesa da
propriedade privada e das leis do mercado. Para ele, as palavras de Cristo em
favor dos pobres eram “uma ameaça à ordem capitalista”, e a Igreja, enquanto
instituição, “deveria combatê-las”. Esse programa, aparentemente absurdo em sua
brutalidade, encontrou eco em setores do protestantismo conservador de
origem estadunidense que chegou ao Brasil ao longo do século XX como parte
do projeto imperialista e com o objetivo de produzir o consenso capitalista e
neoliberal com as igrejas neopentecostais exercendo a função de partido, ou
seja, com pauta e projeto político definido. Segundo o autor:
(…) procurei
demonstrar não apenas como
o Estado brasileiro, sobretudo entre
1964 e 1985, facilitou a instalação e a proliferação de organizações
religiosas conservadoras, mas também como
esse fenômeno se inscreve
num projeto imperialista formulado nos Estados Unidos e
que tinha como pressuposto o combate ideológico global ao comunismo.(NETTO,
2023)
O
Summit de Empreendedorismo Cristão de Santa Maria não é, portanto, uma
anomalia. É o retrato e a expressão organizada de uma convergência
que vem sendo construída há décadas: entre a teologia da prosperidade, a ética
empreendedora e a política autoritária. O cristão empreendedor que rejeita o
Estado, combate o comunismo e vota na extrema direita não é
uma contradição, é o produto acabado de uma estratégia ideológica coerente
que produz e reproduz determinadas formas de existência para atender ao
imperialismo estadunidense.
Nas
eleições de 2018, Bolsonaro obteve 51 % dos votos entre eleitores evangélicos,
contra 27% de Lula. Líderes religiosos como Silas Malafaia, Marco Feliciano e
Magno Malta foram protagonistas na mobilização autoritária em torno do
ex-presidente. Atualmente, 246 deputados e senadores integram a bancada
evangélica no Congresso Nacional, a maioria deles empresários vinculados a
frações diversas do capital, para quem a pauta de costumes religiosa é o
veículo de uma agenda econômica ultraneoliberal.
A
função do discurso religioso-empreendedor nesse arranjo é dupla: ele fornece
uma linguagem de mobilização popular que transcende a frieza da teoria
econômica, e ele blinda o projeto de classe de qualquer crítica que
tente identificar seus interesses reais. Quem combate a privatização
da Eletrobras está combatendo a “liberdade econômica”; quem defende
direitos trabalhistas está promovendo o “comunismo”; quem critica Bolsonaro
está atacando os “valores cristãos”. A fusão entre fé, mercado e política
autoritária produz um campo semântico que se propõe impermeável à
contradição.
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3. Neofascismo, empreendedorismo e desinformação
O
empreendedorismo como ética da proposta neoliberal, por si só, não produz
tendências autoritárias. Para que a subjetividade neoliberal se converta em um
autoritarismo de massas, é necessário um inimigo e nada melhor do que um
período de crise de hegemonia burguesa para que a proposta autoritária apareça
como opção. E é aqui que a desinformação entra como elemento estrutural no
movimento neofascista no Brasil contemporâneo e não como falha do sistema de
comunicação, mas como estratégia deliberada de construção de consenso
reacionário em torno da disseminação de fake news.
No que
diz respeito ao termo neofascismo, seguimos a reflexão de Armando Boito Jr
(2019) para diferenciar a ideologia neofascista (como parte fundamental da
atuação da extrema direita brasileira) de um governo neofascista inexistente no
Brasil até o momento atual. A face neofascista da extrema direita brasileira se
apresenta em um momento de crise de hegemonia e avanço autoritário da lógica do
capital. Não é por outro motivo que o movimento adota o mantra
neoliberal “não há alternativas”.
A
extrema direita brasileira, que ainda tem em Jair Bolsonaro
sua figura de inflexão desde 2018, opera com um repertório
ideológico preciso e em marcha neofascista: anticomunismo, rejeição a
atuação universal do Estado, defesa da propriedade privada como valor
civilizatório, visão do mercado como espaço de liberdade genuína e solução
social. Além de identificar qualquer regulação da vida social como
censura, ditadura ou reflexo do temido “marxismo cultural”. Esse repertório não
foi inventado no Brasil: ele é a transposição direta, com roupagem tropical, da
Escola Austríaca neoliberal de Mises e Kirzner, mediada pelo
protestantismo conservador de origem estadunidense e amplificada pelas
plataformas digitais via fake news em massa.
O
mecanismo é circular e eficaz. As plataformas digitais que não são neutras,
mas infraestruturas orientadas por algoritmos que maximizam o engajamento pela
radicalização, amplificam os conteúdos que produzem medo,
ressentimento e identidade de grupo ameaçado. O anticomunismo fornece o
conteúdo emocional: há um inimigo, ele está em marcha, ele quer destruir sua
família, sua fé, seus valores e sua propriedade. O empreendedorismo fornece a
solução: liberte-se do Estado, confie no mercado, seja você mesmo
uma empresa. E os APH’s empresariais fornecem a doutrina organizada
que conecta os dois, seja na batalha das ideias, seja na proposição de
políticas públicas voltadas à lógica do mercado.
Florestan
Fernandes (1976) chamou atenção para características da autocracia burguesa no
Brasil: quando a acumulação do capital está ameaçada por uma crise de
hegemonia, a classe dominante brasileira, historicamente avessa ao progresso
social, recorre a elementos do fascismo para manter seus privilégios
históricos. Com massivo apoio da classe dominante brasileira (multinacional e
associada às leis do capital-imperialismo internacional), no plano
de governo de Jair Bolsonaro para 2018, lia-se: “gerar emprego e renda é
objetivo de qualquer governo democrático e que acredita na liberdade econômica.
Para que isso aconteça, um dos fatores fundamentais é o estímulo ao
empreendedorismo.”
Já em
2022, a proposta do plano de governo bolsonarista era “ampliar e fortalecer
o processo de desestatização” como premissa
da eficiência governamental. A linguagem do empreendedorismo e da
desestatização não era ornamento retórico: era o núcleo programático de um
projeto que privatizou a Eletrobras, lutou pelo desmonte de direitos
trabalhistas e submeteu o país ao receituário do
capital financeiro internacionalizado. A desinformação, nesse
contexto, cumpre uma função ideológica precisa: ela não precisa ser verdadeira
para ser eficaz. Ela precisa ser crível o suficiente para
mobilizar o medo e o ressentimento de setores médios que, pauperizados
pela crise econômica, buscam um culpado que não seja o capital. O comunismo,
que não existe no Brasil como força política relevante, é o candidato perfeito.
Ele é ao mesmo tempo onipresente (está em tudo que incomoda) e invisível (nunca
pode ser confrontado diretamente), o que o torna um inimigo em potencial.
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4. O que está em jogo
De
acordo com Heloísa Starling (2022), a democracia brasileira em crise aponta uma
distinção fundamental: “o conservador conserva, mas o reacionário precisa
destruir”. O movimento de extrema direita que se consolidou no Brasil nos
últimos anos não é conservador no sentido clássico, mas sim, cada vez mais,
reacionário e neofascista: ele reage contra as conquistas civilizatórias da
Constituição de 1988, contra os direitos humanos ou trabalhistas, contra
qualquer forma de regulação do capital e contra as instituições do próprio
Estado burguês. É um movimento de destruição e o empreendedorismo é sua
linguagem de construção.
Essa aparente
contradição se resolve quando compreendemos o que está sendo destruído e o que
está sendo construído. O que se destrói são os vínculos de solidariedade
coletiva, os direitos sociais, a esfera pública, a confiança nas
instituições e a possibilidade de ação política organizada da classe
trabalhadora. O que se constrói é um sujeito isolado,
competitivo, desconfiante do Estado, crente no mercado e mobilizável
pelo medo do comunismo.
Esse
sujeito empreendedor de si mesmo, cristão e reacionário é o produto e o
agente da hegemonia burguesa no Brasil contemporâneo. A plataformização da vida
social é o ambiente em que essa construção se acelera. As redes sociais não
apenas transmitem desinformação: elas a produzem algoritmicamente,
retroalimentam câmaras de eco, monetizam o ódio e individualizam a experiência
política ao ponto de tornar a ação coletiva estruturalmente mais
difícil. O desafio que isso coloca para a democracia brasileira não é
apenas eleitoral. É mais fundo: trata-se da disputa pela subjetividade,
pelo tipo de ser humano que uma sociedade produz e reproduz. Um projeto que
transforma a solidariedade em fraqueza, a regulação em censura, o direito em
privilégio e o trabalhador em empresário de si mesmo não está apenas disputando
eleições. Está disputando o que significa ser humano em uma sociedade
organizada pelo capital.
Reconhecer
esse projeto como o que ele é, e não uma corrente de pensamento entre outras,
mas uma estratégia de classe
organizada, financiada e amplificada por
estruturas privadas de poder é o primeiro passo para enfrentá-lo com a seriedade
que ele exige.
Fonte:
Por Otávio Augusto Cunha, em Outras Palavras

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