'Literatura
é também uma forma de vingança', diz Milton Hatoum sobre trilogia ambientada na
ditadura
"Literatura é também
vingança. É uma forma de vingança, porque você exorciza seus fantasmas,
pavores, traumas, quando escreve." A frase é do escritor amazonense Milton Hatoum, em referência a sua trilogia O
Lugar Mais Sombrio, que teve o terceiro volume, Dança de Enganos,
publicado em outubro de 2025. A declaração foi dada pelo escritor em sua visita
ao Reino Unido para participar
do festival de literatura de Hay-on-Wye, no País de Gales, e fazer uma
palestra na Biblioteca Britânica, em Londres, na Inglaterra.
Nascido
em Manaus há 73 anos, de
ascendência libanesa, Hatoum é ganhador de três prêmios Jabuti (pelos
romances Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas
do Norte) e tomou posse como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) no último
mês de abril. Seus livros são construídos em torno de dramas familiares que o
escritor insere em um contexto histórico e político mais amplo. Os romances
também abordam questões urbanas e ecológicas. A ditadura militar, tema presente
em Dois Irmãos e Cinzas do Norte, assume posição
central em O Lugar Mais Sombrio. Na Biblioteca Britânica, após uma
palestra em que falou sobre sua história e sua literatura, o escritor contou
que foi preso duas vezes durante a ditadura, a primeira aos 16 anos, e que teve
amigos assassinados nesse período. Dias depois, em entrevista à BBC News
Brasil, o escritor explicou por que segue falando sobre o tema. "Porque é
um pesadelo. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob uma ditadura. É toda
uma juventude e uma parte da vida adulta. A ditadura continua sendo um fantasma
para nós", diz o escritor, ao citar a tentativa de golpe pela qual Jair Bolsonaro foi condenado a 27
anos e 3 meses de prisão, após decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal
Federal.
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Leia a seguir os principais trechos da entrevista abaixo.
·
Em 2013, em visita à Inglaterra, você participou de um
festival literário onde dividiu o palco com o escritor britânico Ian McEwan. O
que ficou para você daquele encontro?
Milton
Hatoum — Foi
uma conversa simpática. Eu admiro a obra do McEwan, lembro que houve algumas
discordâncias (risos), mas nós discordamos com cordialidade.
·
Sobre o que foram essas discordâncias? Você se lembra?
Hatoum
— Acho
que em um romance dele tinha uma personagem da CIA. Na verdade, não foi uma
discordância, foi uma observação que eu fiz. Eu disse que a CIA é muito mal
vista pelos latino-americanos em função da atuação que teve nos golpes
militares na América Latina nos anos 1960 e
1970. Faz tanto tempo, eu não me lembro, mas foi uma conversa muito amistosa.
Foi muito interessante, foi em uma cidade à beira-mar…
·
Foi em Snape, no condado de Suffolk.
Hatoum
— Você
está mais por dentro do que eu… [risos]
·
É porque eu estava lá [risos]. E, se me lembro bem, em um
dado momento da conversa, você e McEwan falaram sobre a ditadura militar
chilena. Eu noto que você segue falando sobre ditaduras, não é?
Hatoum
— Sim,
porque é um pesadelo. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob uma
ditadura. É toda uma juventude e uma parte da vida adulta. E a ditadura ameaçou
voltar no governo Bolsonaro. Ele e os generais que o assessoravam tentaram dar
um golpe porque perderam as eleições. Então, a ditadura continua a ser um
fantasma para nós. Ela acabou, mas há um núcleo de extrema direita na política
brasileira que tentou dar um golpe.
·
Nessa visita a Londres, você disse que decidiu escrever
sobre a ditadura brasileira como uma espécie de "vingança", um
"acerto de contas". O primeiro livro da trilogia, A Noite da
Espera, foi publicado em 2017. Como se sentiu, um ano depois, ao ver tomar
posse no Brasil Jair Bolsonaro, um presidente que declarou publicamente seu
apoio a políticas da ditadura?
Hatoum
— Literatura
é também vingança. É uma forma de vingança, porque você exorciza seus
fantasmas, seus pavores, seus traumas, quando escreve. E, no caso da trilogia,
muita coisa do que está lá foi inspirada na vida dos meus amigos que foram
presos e torturados. Eles me deram os diários deles, as cartas. Amigas e amigos
que foram presos. Claro, eu não usei o que eles me deram, mas me inspirei
bastante em algumas passagens. Um mês antes de Bolsonaro assumir, eu ganhei um
prêmio na França que é o maior
prêmio para a literatura latino-americana, o prêmio Roger Caillois. Fui à
França receber esse prêmio e no discurso falei que o governo Bolsonaro seria
uma espécie de laboratório do delírio da extrema direita. E foi o que
aconteceu. Em quatro anos, vivemos esse pesadelo que foi o governo Bolsonaro.
Um pesadelo em relação aos direitos humanos, que ele sempre desprezou. Elogiava
torturadores da ditadura. Elogiou um dos maiores torturadores, inclusive que
torturou a ex-presidente Dilma Rousseff. O único livro que
ele citou nesses quatro anos de governo foram as memórias desse torturador.
·
O coronel Brilhante Ustra.
Hatoum - Exatamente. A
política em relação à Amazônia foi destruidora, também. Durante a covid ele foi
negacionista, atrasou a compra de vacinas. Ele foi um desastre em todas as
áreas. Inclusive na área econômica. Ele se dizia um liberal e o ultra-liberal
ministro dele da economia não fez nada.
·
Então seu livro ofereceu um comentário, um alerta sobre o
que estava acontecendo?
Hatoum
— Foi
essa a repercussão que teve. Era um livro ambientado na ditadura, mas que
repercutia no tempo presente, o primeiro e o segundo volumes. Foi uma
coincidência. Eu não previa isso, sinceramente. Eu não achava que o capitão
Bolsonaro ia ganhar as eleições. Ele foi crescendo e surpreendeu a todos. Foi
um momento em que a literatura encontrou seu destino no próprio contexto
político. Coincidiu com uma volta ao autoritarismo.
·
Você acha que ainda assim conseguiu fazer seu acerto de
contas?
Hatoum
— Meus
amigos acham que sim, uma parte pequena da minha geração acha que sim. E a
resposta quem dá é o leitor, sempre. É um livro que está circulando. Esse
último volume, Dança de Enganos, foi lançado em outubro do ano
passado e já tem quatro reimpressões.
·
Você também mencionou na sua palestra na Biblioteca
Britânica que havia sido preso duas vezes durante a ditadura, a primeira aos 16
anos. Qual foi o impacto dessa experiência sobre você?
Hatoum
— Na
minha vida estudantil, eu não participei de nenhum grupo ou organização de
resistência contra a ditadura. Era apenas um jovem que ia às manifestações e
bradava pela liberdade e contra o regime de exceção. Em 1968, participei de uma
passeata na avenida W3, em Brasília, e fui detido. Passei um dia e uma noite em
uma cela na delegacia e ouvia os gritos dos estudantes universitários mais
velhos que estavam sendo torturados. Essa primeira detenção inspirou uma cena
no primeiro volume da trilogia, em que eu me inspirei na minha própria vida.
Claro, mudei muitas coisas, como sempre acontece na ficção. E a segunda prisão
foi durante o Encontro Nacional de Estudantes na PUC, a Pontifícia Universidade
Católica, no dia 22 de setembro de 1977. A Polícia Militar, sob o comando de um
coronel muito violento, invadiu o campus da PUC na rua Monte Alegre [em São
Paulo] e mais de 800 estudantes, professores e funcionários foram presos e
levados para o quartel da PM. Eu me lembro que jogaram bombas de gás, bombas
incendiárias, foi um horror. Duas estudantes inclusive sofreram queimaduras
muito graves. Foi um dos episódios mais brutos e violentos da ditadura. Essa
segunda detenção inspirou uma passagem mais longa no segundo romance da
trilogia, em que Martim, o personagem, não conta nada sobre essa prisão, mas
depois aparece com sequelas, inclusive no olho. Ele não consegue enxergar
direito, sofre sequelas, consequências da brutalidade, do espancamento.
Não me
arrependo nem um pouco de ter participado pacificamente nas duas manifestações
em que fui detido. Era meu compromisso de jovem cidadão brasileiro com a
democracia. Nunca fui violento, nunca peguei armas, eu apenas estava lá de
corpo presente para exigir a volta da democracia. O que é mais grave é que todo
o aparato repressivo da ditadura permaneceu intacto, como eu falei na minha
conversa com a [jornalista] Maya Jaggi na British Library [Biblioteca
Britânica]. A PM, desde aquela época, vem agindo com muita brutalidade, muita
violência e até recentemente houve matanças na periferia de São Paulo, Rio,
Recife e todo o Brasil. Essa é uma questão a ser resolvida no Brasil porque
toda essa repressão está voltada contra os mais pobres, sobretudo a população
negra das periferias das nossas metrópoles.
·
O evento na Biblioteca Britânica foi intitulado de Writing
Brazil - Writing the World (em tradução livre, Escrevendo o
Brasil, Escrevendo o Mundo). Que questões e problemas você vê como centrais
do Brasil e do mundo hoje?
Hatoum
— [Vejo]
uma crise mundial. Ela pode ser vista como uma crise da democracia e dos
direitos humanos. Acho que isso está acontecendo no país mais poderoso do
Ocidente ou do mundo, os Estados Unidos. [Veja] o jeito como são tratados os
refugiados e imigrantes, prisões e até assassinato de imigrantes. Acho que
vivemos também uma total descrença em relação ao direito internacional diante
dessa agressão à população de Gaza e do Líbano. Acho que é uma crise do
Ocidente. Os valores humanistas do Ocidente foram colocados em cheque diante do
que está acontecendo em Gaza há mais de três anos e agora no sul do Líbano. E
isso não é inseparável da crise das mudanças climáticas, há um negacionismo
absurdo de alguns governos, inclusive o governo norte-americano. Vejo o mundo
assim, com uma ascensão do autoritarismo, da extrema direita.
·
Você acha que essas questões vão se fazer presentes na
sua literatura?
Hatoum
— Não
exatamente, porque acho que a minha literatura está muito ligada à minha
experiência de vida e de leitura. Sobre a questão Palestina já escrevi vários
ensaios. Prefácios, por exemplo. Escrevi um prefácio para um livro do Mahmoud
Darwish, que é o maior poeta palestino. Escrevi um ensaio sobre a tradução
brasileira do romance Meu Nome é Adam, do grande escritor libanês
Elias Khoury, que faleceu há alguns anos. Tenho escrito sobre a Palestina.
·
Mas não em ficção, certo?
Hatoum
— Em
ficção, escrevi um conto de três, quatro páginas sobre a Palestina que se
chama O Último Abraço. Ele foi publicado em um livro sobre Gaza.
Para romance, tenho outros planos, estou escrevendo outras coisas.
·
Você disse na sua palestra que o Brasil recebe povos de
todo o mundo e chama todos de brasileiros, sem hierarquia. Após a palestra, a
jornalista britânica Maya Jaggi perguntou como você reconcilia esse Brasil com
o Brasil das desigualdades, o Brasil escravocrata. Sua resposta seguiu por um
outro caminho… Gostaria de retomar a questão aqui?
Hatoum
— Eu
respondi com uma pergunta. Como você pode pensar em um Brasil moderno e
civilizado diante de quatro séculos de escravidão? Eu não sei. Não tenho
resposta para isso. Porque também não acredito na civilização [risos]. É muito
complicado, porque de que civilização a gente está falando? A civilização
portuguesa e espanhola, que escravizou e matou milhões de pessoas em três
séculos de colonização? A Bélgica — e isso está no livro Heart of
Darkness [Coração das Trevas, em português] de [Joseph] Conrad
— que colonizou o Congo, matou milhões de africanos e erigiu sua riqueza a
partir da riqueza da África? Por isso citei Walter Benjamin. Não há oposição
entre civilização e barbárie. São as duas faces da mesma moeda. Respondi com
essa pergunta.
·
Mas ao mesmo tempo você fala de um Brasil que recebe todo
mundo, sem hierarquia. Então existe um lado positivo, não?
Hatoum
— Existe.
Mas para mim é essa a riqueza do Brasil. Porque uma parte da nossa mestiçagem
foi um ato de violência, uma violentação. Mas a partir de um certo momento, com
as ondas de imigração de todo o mundo, essa mestiçagem brasileira aponta para
uma coisa nova. Uma coisa que não existe. Não são grupos étnicos que convivem
separadamente, grupos de orientais, de asiáticos ou de europeus. É que esses
grupos se misturaram. É essa, eu acho, a riqueza do Brasil. E não vejo isso em
nenhum lugar do mundo. Vejo agora mesmo com os refugiados sírios. Já estão
integrados na sociedade brasileira, não são hostilizados, já têm o pequeno
comércio deles. Eu vejo essa, para usar uma palavra em desuso, a mestiçagem
como uma promessa de uma convivência possível.
·
Seu primeiro livro, Relato de um Certo Oriente,
foi publicado em 1989. Nesses quase 40 anos, vozes emergiram na vida
brasileira. Vozes de mulheres, que ganharam mais protagonismo. De pessoas
negras, povos originários, de pessoas LGBT. Sente um impacto mais forte dessas
vozes em você e na sua criação literária?
Olha, é
preciso lembrar que esse meu primeiro romance é narrado por uma mulher. Então,
isso já estava no meu horizonte. E que as pessoas excluídas, que são alvo de
preconceito, já estão no meu livro. Por exemplo, uma das personagens mais
importantes, e uma das que eu mais gosto, é uma surda-muda. Em Dois
Irmãos eu trouxe duas coisas que vão no sentido da sua pergunta. A
primeira é o narrador, que é o filho natural de uma violência. Ele não pertence
à família, mas ele é o porta-voz dessa família. Ele é um mestiço, filho de um
brasileiro de origem libanesa com uma mulher indígena. E a presença dessa
mulher é importantíssima no romance. Em Cinzas do Norte, a relação entre
os dois amigos, só com muito esforço você não percebe que é uma relação
homoerótica. Só que eu fiz isso há 20, 30 anos, porque foram questões com as
quais a minha geração lidou, tentou se libertar. Que é a questão da repressão
familiar, no interior da família. Tanto que na trilogia os personagens discutem
essa relação entre a célula familiar e uma repressão maior do Estado, entre a
família e o Estado. [A família] como um núcleo pequeno de opressão e o Estado
como um aparato mesmo, repressivo e autoritário.
E essas
questões reaparecem em toda a trilogia, a questão dos personagens
marginalizados, do personagem negro, da homossexualidade. Isso surgiu com força
na literatura nos últimos dez anos, mas são pautas que estão há décadas,
ninguém está descobrindo nada. Quem olhava para essas questões nos anos 1960 já
estava pensando nisso. Eu não gosto de glorificar ninguém, acho que a gente não
precisa disso. Não precisa também mistificar ninguém ou nada. Também sou contra
a mistificação. Isso só ofusca a nossa lucidez, quando você mistifica. Então,
os mais jovens, se eles forem generosos, eles vão dizer que isso já é
consequência, não estamos fazendo nada novo, isso é um processo, isso vem lá de
trás, de Machado de Assis, depois Lima Barreto. Isso tem uma longa história no
Brasil. De luta também.
·
O que tem lido? Descobriu alguma voz na literatura
brasileira mais recentemente que tenha chamado sua atenção?
Hatoum
— Não
tenho tempo mais para ler muitas coisas. Recebo muitos livros e, se for parar
para ler todos, não tenho nem como ganhar a minha vida. Mas li Torto
Arado, do Itamar Vieira Junior, quero ler o livro da Paulliny Tort. Tem
também alguns escritores do Nordeste, como a Socorro Acioli, do Ceará. Li A
Cabeça do Santo, primeiro romance dela. Tem outros escritores da minha
geração que são importantes: Cristóvão Tezza, Ana Miranda. Eu às vezes leio
escritores contemporâneos, jovens. Mas o Brasil ainda é muito centrado no Rio e
em São Paulo. Quando me perguntam se li fulano, a maioria é do Rio e de São
Paulo. Eu digo que tem escritores jovens do Acre, de Belém, de Manaus. Por que
eu tenho de ler só escritores do Sul e do Sudeste? Agora, tem uma poeta de quem
eu gosto muito, chamada Ana Maria Marques, mineira. É uma das vozes poéticas
mais importantes, uma jovem poeta. Ela deve ter menos de 50 anos. Para mim é
jovem, está saindo da adolescência [risos]. Ela é uma poeta de valor. Eu, para
ser mais sincero, sigo mais os poetas do que os romancistas.
·
Recentemente, no seu discurso ao tomar posse na Academia
Brasileira de Letras, você falou da forma magistral como Graciliano Ramos deu
voz, no livro Vidas Secas, aos brasileiros sem acesso à literatura,
incapazes de articular o pensamento com a palavra. Vidas Secas foi
publicado há mais de 80 anos. Quem dá voz a esses brasileiros no Brasil de
agora?
Hatoum
— Torto
Arado é um livro em que essas brasileiras e esses brasileiros,
sobretudo as mulheres, falam. Falam sem a intermediação de uma voz superior, de
uma voz de mando, oculta. Acho que Itamar consegue isso nesse romance. É uma
coisa importante, e o sucesso que ele fez, tudo isso, é muito importante.
·
No mesmo discurso você citou o álbum Sobrevivendo
no Inferno, do grupo de rap Racionais MC's. Estariam eles representando
esses brasileiros?
Hatoum
— Sem
dúvida, e dos mais poderosos discos. Inclusive caiu no vestibular da Unicamp.
São músicas que alcançam um público muito grande. E eles se reconhecem nessa
música. É uma mensagem política muito poderosa e ao mesmo tempo muito bem
elaborada, não é um panfleto.
·
E você por acaso se pega maravilhado em ver como, por
exemplo, uma figura como Mano Brown tem essa articulação?
Hatoum
— Ele
é um dos grandes. Você vê que a cultura popular é uma cultura sofisticada. A
elite brasileira sempre separou muito o popular do erudito, o clássico do
popular, e na verdade há uma sofisticação muito grande, tanto na música popular
quanto na literatura brasileira. Mano Brown é uma das vozes mais atuantes e
criativas do Brasil.
·
Aconteceu alguma coisa nessa sua visita ao Reino Unido
que poderia inspirar o cronista Milton Hatoum?
Hatoum
— Ah,
aconteceu sim, eu me perdi em Londres [risos]. Fui para um lugar e não sabia
mais onde eu estava. Eu achava que estava voltando para Londres, mas estava
indo para muito longe. Londres é muito labiríntica. Eu morei muito tempo em
Paris. Lá parece que tudo é muito bem delimitado, você sabe exatamente onde
está. Aqui, a possibilidade de você se perder é bem maior, me lembra São Paulo.
Londres tem uma coisa paulistana, é muito grande também. Mas, para ser sincero,
achei Londres muito massificada. Já não vejo mais encanto. Fiquei meio
deprimido quando fui a Bloomsbury. Eu procurava um simples café, um lugar
tranquilo, com uma mesinha, e não conseguia. E naquele calor manauara me deu
uma mistura de cansaço com tristeza. Mas acho que o mundo está assim,
uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o
urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com
vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances. É a massificação do
capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou
lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada
disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo
tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
talvez com exceção de Istambul [risos] e de algumas cidades do Marrocos. Não
sei.
Fonte:
BBC News Brasil

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