Ciência
é consciência?
O
capitalismo é contraditório e isso significa dizer que produz uma ciência capaz
de reduzir a fome, combater as letalidades naturais, ao mesmo tempo em que se
organiza como um complexo que chamamos de “capitalismo digital” –
movimentando-se e se fortalecendo com o crescimento vertiginoso da indústria da
morte, além do agravamento da miséria humana, da concentração de renda, do
abuso sistemático das redes antissociais: criadoras de elevados níveis de
infantilização moral/cognitiva e prescritivas da dessocialização, ao invés de
transformarem a interatividade em interação social.
Então,
a ciência produzida pelo sistema capitalista é igualmente contraditória: a
ciência é um mito da modernidade e traduz um pharmakón – remédio e veneno,
concomitantemente, dependendo da dosagem; tanto quanto a digitalização social é
indutora da nossa subordinação e dependência tecnológica. Talvez, pela primeira
vez na história da humanidade, tenhamos criado duas monstruosidades
insolvíveis: (i) a vida humana depende totalmente do aprofundamento da
tecnociência; (ii) criamos um problema que não somos capazes de solucionar.
Assim,
a ciência é política. Tanto é ciência política quanto é política científica: o
que financiar, o que pesquisar, para que, com quem, como, onde? Ou seja, não há
nenhuma neutralidade – uma vez que a escolha do objeto já diz quem somos, bem
como traz muitas respostas. Outra questão é a objetividade que se pretende – se
e quando possível –, preferencialmente não sendo positivista, maniqueísta ou
monista.
Lembremos
que, quem pode e não tem organização sempre possui déficit, passivos. Quem pode
e não tem objetividade nas finanças está endividado: mais de 50% das famílias
brasileiras, por muitas razões, estão nessa condição.
Considerar
tudo isso, a partir do impacto social (investimento ou custo?) atribuído ao
desenvolvimento da ciência, da educação, do conhecimento, é uma parte
significativa, fundamental, do pensamento complexo – em consonância com o
processo civilizatório. Mas, se assim é ou deveria ser, por que a educação
pública no país é tida como custo social?
De todo
modo, é fácil afirmar que não existe complexidade fora do âmbito social, da
política, dos nichos atuais e históricos do referido processo civilizatório.
Vejamos
com a consciência do Bom Senso: o desenvolvimento da Inteligência artificial
seria mais complexo do que o combate político e epistemológico ao
heliocentrismo? Hoje, não promove uma luta semelhante quem debela a ideologia
da Terra plana?
Desse
modo retornamos à política, à visão de mundo que temos. Se nossa visão de mundo
compartilha a pluralidade, o pluralismo, então, está atenta à democracia e ao
princípio do contraditório, e que é, basicamente – além da alternância do poder
e da observação das regras do jogo (Bobbio, 1985) –, a capacidade de dizer não,
de contradizer, de desdizer, de dizer e se indispor contra. Se no “fazer
ciência” não existe esse “fazer-se política”, por óbvio, não há ciência
propriamente dita.
Se
persiste a opacidade como anacronismo, a negação da capacidade de se opor à
hegemonia, por óbvio, só há um copiar e colar, pois, predomina a reprodução
dogmática, sectária, superficial de slogans e de alguma militância, quando, ao
contrário, deveria haver a fluência do princípio democrático: (a) a política,
sob a bandeira democrática, não terá sempre um céu de brigadeiro para
desfraldar, mas também não se moverá em uma eterna tempestade perfeita; (b) a
democracia pode ser a força disruptiva do poder, se aqui tratamos de um poder
autocrático; entretanto, se entendermos o poder como organização – e, neste
caso, é difícil não concluir que se trata de organização social –, a autocracia
é que atuará como força disruptiva do princípio democrático.
neste
sentido, temos que, sumariamente, o princípio democrático é assim apresentado:
“O princípio democrático não se compadece com uma compreensão estática de
democracia. Antes de mais, é um processo de continuidade transpessoal,
irredutível a qualquer vinculação do processo político a determinadas pessoas.
Por outro lado, a democracia é um processo dinâmico inerente a uma sociedade
aberta e ativa, oferecendo aos cidadãos a possibilidade de desenvolvimento
integral, liberdade de participação crítica no processo político, condições de
igualdade econômica, política e social […] O princípio democrático aponta,
porém, no sentido constitucional, para um processo de democratização extensiva
a diferentes aspectos da vida econômica, social e cultural […] A democracia é,
no sentido constitucional, democratização da democracia […] O princípio
democrático não elimina a existência das estruturas de domínio mas implica uma
forma de organização desse domínio. Daí o caracterizar-se o princípio
democrático como princípio de organização da titularidade e exercício do poder.
Como não existe uma identidade entre governantes e governados e como não é
possível legitimar um domínio com base em simples doutrinas fundamentantes é o
princípio democrático que permite organizar o domínio político segundo o
programa de autodeterminação e autogoverno: o poder político é constituído,
legitimado e controlado por cidadãos (povo), igualmente legitimados para
participarem no processo de organizar da forma de Estado e de governo”
(Canotilho, 1990, p. 287- 288).
É
possível abrir mão dessa racionalidade (democrática e científica)?
Cotidianamente se confunde razão com racionalização e, mais ainda, reduz-se
todo o esforço humano acumulado, precisamente, na hominização e na capacidade
humana de tratar sua (nossa) omnilateralidade futura (do devir) como se fosse
quimera. Não é assim que apenas alimentamos ainda mais o senso comum? Pois
ainda é, assim, que alguns se bastam na denúncia da inegável e hegemônica razão
instrumental.
Essa
difícil questão se deve a múltiplas razões e uma delas foi reduzir qualquer
pretensão da teleologia à falibilidade. A outra, obviamente, foi a confusão
gerada pela redução da razão (racionalidade) à crítica do senso comum.
Lembremos:
Razões são motivações. Algumas razões são óbvias, lógicas, claramente
verificáveis, “racionalizáveis”. Outras razões, motivações, são insondáveis
diante do instrumental ou da condição cognitiva que se tenha. Então, nem todas
as razões (motivações, explicações) são demonstráveis ou compreensíveis
diretamente, claramente. Afinal, nem todas as razões pertencem ao universo da
razão.
Exemplo
disso seria um paradoxo da racionalidade (inspirado em Freud) ou “paradoxo da
pedra lascada”: O Processo civilizatório, a cultura, a ciência, a educação, as
políticas públicas, o direito, a moral, são criações humanas, sociais, de
fundamental importância. Porém, formam somente uma casca fina. Por baixo dessa
casca, desse lustre e verniz, não há nada muito ilustre. Com refinamento,
sutilezas, empolando-se, encontra o mesmo ser da Idade da pedra. A casca é só
um dado da era polida. O fato de polirmos a pedra não a torna menos pedra.
Porém,
não é por isso que podemos desprezar essas razões/motivações (inclusive porque
podem ser as mais motivadoras) e muito menos descartar a Razão – seria se
confundir com o irracionalismo.
Esse é
o sentido de se apostar na democracia como uma resposta ao próprio princípio da
perfectibilidade (originado na sabedoria da falibilidade e finitude humana), na
busca por mecanismos e rotas corretivas, tendo-se em vista a continuidade e o
aprimoramento do processo, da jornada: depuração, higienização, da própria
democracia e de suas instituições de referência e de sustentabilidade.
Veja-se
o princípio do sufrágio universal, na rota do aprimoramento que apazigua a
viagem, a fim de que muitos outros, “novos”, sujeitos possam se instalar e
participar, refazendo-se no passeio pela política.
Se os
“novos” ingressantes da nossa nau de navegação política forem somente
passageiros sem envolvimento, meros espectadores, é muito provável que o
capitão do barco se sentirá tão à vontade que será capaz de inovar no percurso
e, por vezes, o destino pode não ser aquele planejado quando compramos a
passagem do passeio político.
Aliás,
sem viajantes responsáveis (politicamente), a viagem pode ter um cupom só de
ida; sem dialogicidade, complementação na discordância, superação das
diferenças, fatalmente, desembocaremos numa rua de mão única.
O
“fazer ciência” pode/de ser militante – como é todo “saber militante” que se
insurge contra o status quo abastado de mesmice, elitismo e negacionismo (na
linha de Florestan Fernandes) – ou pode ser ensaístico: o que não podemos é
confundir ciência, incluindo-se a popularização da ciência, com panfletagem.
Nem
toda ciência, a começar da profundidade requerida ao pensamento científico –
como massa crítica –, poderá ser divulgada digitalmente e menos ainda ser alvo
da oportuna e necessária popularização. Não só devemos lutar pela democracia –
pela “democratização da democracia” – como é urgente a democratização do acesso
à ciência, como acesso à educação de qualidade. Isso é fato.
Todavia,
não se confunda popularização da ciência com vulgarização conceitual. Há
conhecimentos, em sua complexidade, compleição e profundidade, que não cabem
num podcast. Na imensa maioria das vezes, para se falar de ciência propriamente
dita, a visão de mundo requer muito lastro conceitual para se obter algum
alcance cognitivo.
Essa
insistência na cultura high-tech desdobra-se na popular “analfabetização”. Sua
irmã gêmea é a infantilização, a alienação, a massa de manobra recorrente ao
invés da insuficiente alimentação da massa crítica. O que é resultado, também,
da vulgarização científica, do falseamento à verdade conhecida e minimamente
reconhecida.
Em
conformidade com o que vimos, onde estará a ciência com consciência? E o que
será ciência, afinal de contas? E a consciência de que tanto se fala, o que
será isso?
Às
vezes, a ciência não conduz ao entendimento fácil; muitas vezes, e deve ser
assim, primeiro, deve produzir um desentendimento, um desconforto – sobretudo
para quem torce o nariz quando não se trata de uma resposta que cabe no
WhatsApp ou no Google.
Isto é
pensamento científico – para além do necessário conhecimento científico – e,
para tal, precisa de adensamento enquanto se propugna pelo pensamento
sociológico, na base da ciência. Sem dúvida que tratamos aqui da crítica e da
criatividade no fazer ciência.
É nesse
ponto do desconforto provocado pela ciência que surge algo diferente do simples
torcer o nariz ou abaixar as orelhas diante de determinadas “informações”,
muitas vezes inverdades ou até mesmo verdades distorcidas tomadas como
absolutas nas redes sociais.
Trata-se
de um movimento de transformação e apreensão da ciência, marcado não somente
pela produção de artigos, mas pelo processo de passagem do sujeito
pré-científico (Bachelard, 1996) para um sujeito efetivamente científico,
justamente pela incorporação da própria ciência.
Essa
dinâmica é marcada também pelo tempo, uma das grandes questões da realidade
contemporânea, caracterizada pela busca constante da velocidade, pelo menor
desgaste possível e pela obtenção imediata de resultados, algo que Bauman
relacionaria à modernidade líquida (Bauman, 2001).
Talvez
isso ajude a compreender as razões pelas quais a ciência permanece, tantas
vezes, aprisionada na superficialidade e naquilo que Clóvis de Barros chamaria
de ausência de brio, justamente por não se tratar de um depósito externo de
informações, mas de uma construção interna, lenta e profundamente formativa.
Ou
seja, o sujeito já não apenas produz ciência: passa a interpretar o mundo
através dela. A ciência torna-se literalmente as lentes de óculos que nunca são
retiradas do rosto. Isso transparece na construção do pensamento diante dos
acontecimentos cotidianos, nas problematizações e até nas conversas
aparentemente mais banais do dia a dia. A ciência já não se encontra somente
dentro dos muros da universidade, mas na própria saliva das conversas
cotidianas.
Como
exemplo, podem ser observadas as chamadas narrativas de Uber do professor, em
que não existe apenas um diálogo desenvolvido durante um trajeto entre a
universidade e a casa, mas uma análise tão profunda da realidade que se torna
visível o quanto a ciência já se encontra cimentada no sujeito, marcando falas,
comentários e na própria sensibilidade da escuta.
Esse
espírito permanece no indivíduo de maneira constante, por vezes até
angustiante, porque passa a atravessar todas as análises, percepções e
interpretações da realidade. Como uma máquina que produz continuamente e que,
em determinados momentos, também pode superaquecer, assim parece funcionar a
mente de um sujeito atravessado por essas lentes científicas. Nesse movimento,
portanto, a ciência deixa as paredes da academia e passa a caminhar lado a lado
com o sujeito como uma forma de experienciar a própria vida.
Na
modernidade, observa-se uma crescente fragmentação da compreensão da realidade
social, o que contribui para o surgimento e a disseminação de teorias da
conspiração e outras formas de pseudociência, frequentemente associadas ao
negacionismo científico. Em contraposição, a Ciências Sociais busca compreender
e explicar o funcionamento da sociedade a partir de conhecimentos produzidos
por métodos científicos rigorosos, fundamentados em evidências empíricas e
análises racionais.
A
produção do conhecimento científico somente é possível por meio da aplicação de
metodologias específicas, orientadas pelo método científico. Nesse sentido, a
ciência exige procedimentos sistemáticos de investigação, verificação e
fundamentação teórica.
A
pseudociência, por sua vez, apresenta-se como se fosse ciência, mas não atende
aos critérios científicos de validação, uma vez que não se sustenta em métodos
rigorosos, nem em evidências empíricas ou argumentações racionalmente
fundamentadas.
Desse
modo, a produção científica também pode ser compreendida como um ato político,
pois está inserida em contextos históricos e sociais e produz impactos na
realidade – não há nada que seja neutro, tudo é político. Assim, a ciência
contribui para o desenvolvimento da consciência crítica, ao possibilitar formas
de conhecimento fundamentadas em métodos científicos e comprometidas com a
compreensão da realidade.
Fonte:
Por Vinício Carrilho Martinez, Ester Dias da Silva Batista e Izabela Victória
Pereira, em A Terra é Redonda

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