Reino
Unido tem o 5º premiê em 4 anos; entenda desafios do novo premiê
O
ex-prefeito de Manchester Andy Burnham assumiu nesta
segunda-feira (20/7) o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido — o sétimo líder do país nos últimos 10
anos.
O
processo de transição começou com Keir Starmer se
reunindo com o rei Charles 3º para apresentar formalmente sua renúncia ao cargo
de primeiro-ministro. Em seguida, o monarca se reuniu com Burnham e o convidou
a formar um governo.
Depois,
Burnham seguiu para Downing Street, endereço oficial do gabinete do
primeiro-ministro, onde fez um discurso em frente ao número 10, abordando
questões que preocupam os britânicos no momento, como o custo de vida no Reino
Unido.
Na
semana passada, Burnham já havia assumido a liderança do Partido Trabalhista no
lugar de Keir Starmer, após conquistar o apoio dos parlamentares da legenda.
Burnham chega a Downing Street herdando
problemas complexos que sucessivos primeiros-ministros e governos tentaram
enfrentar — na maioria das vezes, sem sucesso.
Na
sexta-feira, ao assumir a liderança dos Trabalhistas, Burnham fez um discurso
no qual se comprometeu a construir um partido unido, praticar um novo tipo de
política, ser um líder para todo o país e descentralizar o governo.
Ele
também prometeu a construção de novas moradias, a revitalização dos centros
comerciais e melhorias na educação.
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O que ele disse em seu primeiro discurso
Andy
Burnham fez seu primeiro discurso como primeiro-ministro na manhã desta
segunda-feira.
Falando
ao microfone — sem o habitual púlpito — do lado de fora do número 10 da Dawning
Street, ele disse que está "plenamente ciente" de que é o sétimo
primeiro-ministro desde 2016, descrevendo o momento como uma ocasião para
"reflexão e nova determinação".
Afirmou
ainda que os políticos "não têm estado à altura", mas comprometeu-se
a melhorar, prometendo as maiores mudanças dos últimos 40 anos.
Burnham
prometeu transferir o poder de Downing Street para "cada código postal do
país" e disse que apresentará, a partir de amanhã, medidas para dar às
pessoas "um pouco de alívio" em relação ao custo de vida.
O
primeiro-ministro afirmou que mais jovens receberão ajuda para ingressar no
mercado de trabalho por meio de mudanças no sistema educacional e que haverá
mais apoio disponível, inclusive na área de saúde mental.
Ele
declarou que mais habitações públicas serão construídas, apontando essa como a
"maneira justa e sustentável" de reduzir os gastos com assistência
social, e acrescentou que, assim que entrasse no gabinete, "daria as
primeiras instruções para acabar com a situação de pessoas dormindo nas
ruas".
Ao
assumir o cargo de prefeito de Manchester, em 2017, Burnham estabeleceu como
uma de suas prioridades acabar com essa realidade até 2020.
Todos
os anos, autoridades locais na Inglaterra fazem um levantamento da quantidade
de pessoas que passam a noite nas ruas em uma única noite do outono. O método,
porém, não contabiliza toda a população em situação de rua, como quem está
hospedado em albergues.
Em
2017, as autoridades estimaram que havia 268 pessoas nessa situação em
Manchester. Três anos depois — durante a pandemia de coronavírus —, essa
estimativa havia caído para menos da metade, chegando a 125. Embora Burnham não
tenha alcançado sua meta, o total continuou diminuindo e chegou a 90 em 2021.
No
entanto, os dados mais recentes, de 2025, mostram que o contingente voltou a
subir, alcançando 197.
A
quantidade de pessoas que passam a noite nas ruas também aumentou em todo o
país nos últimos anos. No outono de 2025, a estimativa era de que 4.793 pessoas
dormiam ao relento na Inglaterra — um recorde histórico.
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Quem é Andy Burnham?
Burnham
nasceu em Liverpool, em 1970, e cresceu em Cheshire. Torcedor do Everton, ele é
um apaixonado por esportes. Burnham estudou literatura inglesa na Universidade
de Cambridge e trabalhou inicialmente com jornalismo, antes de ingressar na
política quando tinha pouco mais de 20 anos.
Foi
eleito deputado pela primeira vez em 2001 e ocupou cargos no gabinete do então
primeiro-ministro Gordon Brown, antes de deixar o Parlamento em 2017.
Nesse
período, concorreu duas vezes à liderança do Partido Trabalhista, sendo
derrotado em ambas as ocasiões. Mais recentemente, Burnham atuou como prefeito
de Manchester, cargo que ocupou de 2017 até o mês passado.
O
deputado trabalhista Andy Burnham tomou posse nesta segunda-feira (20/07)
como primeiro-ministro do Reino Unido, substituindo o impopular correligionário
Keir Starmer no cargo.
Assim
como Starmer antes dele, Burnham herda um país em crise, com profundos
problemas políticos, econômicos e sociais.
A
transferência de poder ocorre apenas dois anos depois de Starmer ter liderado o
Partido Trabalhista ao poder com uma vitória eleitoral esmagadora, encerrando
14 anos de governo conservador.
Após
receber do Rei Charles 3° a incumbência de formar o próximo governo, Burnham,
de 56 anos, começou seus primeiros compromissos oficiais na residência do
governo britânico, o número 10 de Downing Street.
Em
entrevista ao jornal The Times publicada no domingo, Burnham
afirmou que deseja encerrar um ciclo de uma década de turbulência política que
foi aberta pelo referendo do Brexit.
Burnham é o sétimo premiê do país desde a votação
que iniciou o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Na década
seguinte, o país viu sua economia e influência internacional declinarem, com
sucessivos líderes de governo fracassando em tentativas de reverter o quadro.
"O
que temos feito não tem funcionado. É assim que vejo a situação", disse
Burnham no domingo. "Vou tentar fazer as coisas de uma maneira
diferente."
Segundo
a equipe de Burnham, o novo premiê apresentará "prioridades para restaurar
a confiança no governo e dar ao Reino Unido mais fôlego" em meio à crise
do custo de vida. Espera-se que a promoção do crescimento econômico e a
descentralização de poder para comunidades regionais também figurem entre as
prioridades.
Ex-prefeito
da Grande Manchester e apelidado de "Rei do Norte", Burnham viu o
caminho ser aberto para o cargo de premiê após a renúncia de Starmer no mês
passado,
que ocorreu em meio a uma intensa pressão interna dentro do Partido Trabalhista
pela sua saída.
Na
semana anterior à renúncia de Starmer, Burnham havia vencido com folga uma
eleição no distrito de Makerfield e assumiu um assento no Parlamento britânico.
Com isso, o político de 56 anos cumpriu o pré-requisito fundamental para
desafiar Starmer pela liderança do Partido Trabalhista e se tornar o novo
premiê.
"Todos
sentem que o país não está onde deveria estar", disse Burnham em junho,
após sua vitória eleitoral. "Darei tudo de mim para garantir que o nome
Makerfield seja para sempre sinônimo de promover a mudança que este país
precisa, e de trazer de volta algo que perdemos: esperança, esperança no
futuro."
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Experiência consolidada
O
carismático Burnham é considerado um dos nomes mais populares da ala de
centro-esquerda do Partido Trabalhista, além de possuir vasta experiência na
política nacional e regional. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara
dos Comuns do Parlamento britânico em 2001 e atuou como ministro adjunto do
Interior durante o governo do trabalhista Tony Blair. Mais tarde, o
primeiro-ministro Gordon Brown o nomeou ministro adjunto do Tesouro e,
posteriormente, ministro da Cultura e, em seguida, da Saúde.
Burnham
já havia concorrido à liderança do Partido Trabalhista em 2010 e 2015. Em 2017,
deixou Londres para se tornar prefeito da Grande Manchester, uma região com
cerca de 2,8 milhões de habitantes. Ele foi reeleito duas vezes, tendo
recebido quase dois terços dos votos na eleição mais recente.
Durante
a pandemia de covid-19, Burnham confrontou
o primeiro-ministro conservador Boris Johnson, exigindo mais apoio
para empresas e trabalhadores nas regiões afetadas pelos lockdowns – o que lhe
rendeu o apelido de "rei do Norte".
A
principal crítica de Burnham a Starmer diz respeito aos cortes nos benefícios
sociais pelo atual governo. No entanto, ainda não está claro quais seriam suas
prioridades políticas específicas e que medidas Burnham pretende implementar no
lugar do premiê de saída.
Uma de
suas maiores conquistas em Manchester é a expansão do transporte público
acessível. Habitação e saúde pública também estão entre suas prioridades.
Burnham se considera um defensor do "socialismo em prol dos negócios"
e é um crítico do Brexit –
o processo político que resultou na saída do Reino Unido da União Europeia
(UE). "Acho que precisamos transferir o que conquistamos na Grande
Manchester para o nível nacional", disse ele à emissora britânica BBC em
maio.
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Garoto da classe trabalhadora do Norte
Burnham
tem raízes profundas na antiga região industrial e de mineração do norte da
Inglaterra. Nascido em 1970 em Aintree, perto de Liverpool, ele cresceu em
Culcheth. Seu pai era técnico em comunicações e sua mãe, auxiliar de
enfermagem. Aos 14 anos, profundamente influenciado pela greve dos
mineiros de 1984-1985, se filiou ao Partido Trabalhista. Do período como
estudante de inglês em Cambridge, relata às vezes ter se sentido um
impostor.
Na
década de 1990, fez parte do movimento musical e juvenil Madchester e, até
hoje, continua sendo torcedor do Everton FC. É casado com uma holandesa, com
quem teve três filhos. Em seu braço direito, tem uma tatuagem de uma abelha
operária, símbolo de diligência e solidariedade após o atentado terrorista de Manchester, em 2017.
Burnham
é atualmente um dos políticos mais populares, senão o mais popular, do Reino
Unido, e é visto por muitos como a última esperança para conter a ascensão do
populismo de direita do partido Reform UK.
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Desafios
Burnham
afirmou que manterá, em linhas gerais, as políticas com as quais o Partido
Trabalhista foi eleito em 2024 — em particular, não vai aumentar as alíquotas
principais do imposto de renda, do imposto sobre valor agregado ou da
contribuição para a seguridade social.
No
entanto, ele também começou a apresentar alguns planos políticos próprios.
Uma
prioridade fundamental será transferir mais poder do Parlamento para os
conselhos locais e autoridades regionais. Isso envolveria conceder maior
controle em áreas como habitação e transporte.
Como
parte dessa iniciativa, ele pretende criar uma equipe de apoio em Manchester, a
mais de 240 quilômetros ao norte de Londres.
Burnham
também deu pistas sobre seus planos para assistência social, cuidados sociais,
imigração e defesa — e sugeriu que a criação de um imposto sobre grandes
fortunas poderia estar em pauta —, mas, em muitas áreas, ainda não anunciou
políticas específicas.
Ele
também precisará nomear ministros para cargos-chave em seu gabinete, como para
Finanças, Interior e Relações Exteriores.
Burnham
terá pela frente uma série de desafios nos quais outros primeiros-ministros
recentes fracassaram.
Entre
os mais urgentes estão o aumento acelerado dos gastos com benefícios por
incapacidade e doenças, impulsionado pelo crescimento do número de pessoas
pedindo esses benefícios, e a pressão para elevar os investimentos em defesa
para cumprir as metas da aliança militar Otan.
O Reino
Unido também tem problemas de habitação e emprego entre jovens. A meta
trabalhista de construir 1,5 milhão de moradias está longe de ser alcançada,
com apenas 204 mil entregues até março, e a proposta de Burnham de implementar
um amplo programa de construção de habitações populares exigiria investimentos
públicos significativos.
Além
disso, mais de um milhão de jovens no Reino Unido não estudam nem trabalham, o
que coloca o país entre os piores da Europa nesse indicador. Para reverter essa
situação, seria necessário ampliar programas de aprendizagem profissional,
educação técnica e oportunidades de inserção no mercado de trabalho.
¨
Burnham tenta contrariar tendência no Reino Unido
A
partir desta segunda-feira (20/7), o Reino Unido passou a ter
seu quinto primeiro-ministro em apenas quatro anos: Andy Burnham, ex-prefeito de
Manchester.
Essa
frase resume bem o momento vivido pela política britânica.
No
verão de 2022, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson já estava de
saída, embora ainda permanecesse no cargo. Desde então, o Reino Unido já teve
Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer como
primeiros-ministros.
Não por
acaso, Burnham dirá mais tarde — segundo informações obtidas pela reportagem da
BBC — que está "plenamente consciente" dessa constante troca de
líderes no comando do governo britânico. A observação deve provocar sorrisos
irônicos entre os seus críticos, dentro e fora do Partido Trabalhista, que há
muito afirmam que Burnham vinha se preparando para chegar a esse momento.
Nos
anos que se seguiram após o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e
a covid-19, muitos britânicos passaram a sentir que a vida ficou mais difícil —
um momento que favoreceu sentimentos de impaciência com a classe política e
perda de confiança nos partidos tradicionais.
É esse
o cenário que Burnham encontrará ao chegar a Downing Street, a sede do gabinete
do primeiro-ministro, assim como aconteceu com Starmer há 746 dias, em outro
ensolarado dia de julho, dois anos atrás.
Agora,
Burnham tenta romper essa sequência de governos impopulares.
Burnham
está determinado a assumir o cargo em ritmo acelerado e, sempre que possível,
manter o estilo de liderança que adotou como prefeito da Grande Manchester.
As
regras da Câmara dos Comuns e compromissos oficiais, como as audiências com o
rei, provavelmente farão com que ele use terno com mais frequência do que nos
últimos anos.
Mas
outras convenções poderão ser descartadas intencionalmente. Ouvi dizer, por
exemplo, que Burnham poderá abrir mão do tradicional púlpito para seu primeiro
discurso como primeiro-ministro, em frente ao número 10 de Downing Street, na
segunda-feira (20/7).
Também
ouvi que ele pretende realizar sessões de perguntas e respostas com eleitores
em diferentes partes do país — um formato que um aliado descreveu como People's
Question Time (Hora de Perguntas do Povo, em tradução literal),
em que Question Time faz referência tanto a um mecanismo
oficial do Parlamento britânico (em que membros das duas Câmaras fazem
perguntas a ministros do governo) quanto a um famoso programa de televisão (em
que membros do público fazem perguntas a políticos).
Antes
do grande momento de Burnham, no entanto, virá a despedida de Starmer.
Depois
de passar o seu último fim de semana no cargo em Chequers, a residência oficial
de campo do primeiro-ministro em Buckinghamshire, Starmer fará um breve
pronunciamento — desta vez, com púlpito — antes de seguir para uma audiência
com o rei Charles 3º e formalizar a sua renúncia ao cargo.
A
expectativa é que Starmer destaque o que considera as suas principais
realizações, tanto na política doméstica quanto no cenário internacional.
Integrantes de sua equipe citam, com especial orgulho, a redução da imigração e
das filas de espera do NHS (sistema público de saúde do Reino Unido) na
Inglaterra, a retirada de crianças da pobreza e a criação da proibição do uso
de redes sociais por adolescentes.
Ao
longo da tarde e da noite, devem ser anunciadas as nomeações para o novo
gabinete, incluindo, segundo apurou a reportagem, um ministro encarregado da
área de inteligência artificial (IA).
A
principal expectativa gira em torno dos cargos mais importantes do governo,
como os de chanceler do Tesouro (equivalente ao Ministro da Fazenda no Brasil),
ministro do Interior e ministro de Relações Exteriores. Shabana Mahmood, Wes
Streeting, Ed Miliband, Angela Rayner e Lucy Powell são apenas cinco dos nomes
cotados. Que pastas eles receberão? E o que essas escolhas indicarão sobre a
forma como Burnham pretende governar? A resposta virá em breve.
Também
começaremos a ter uma ideia das prioridades imediatas do novo
primeiro-ministro, entre elas o custo de vida e as contas de energia, além da
forma como seu governo será estruturado. Até que ponto a equipe do número 10 de
Downing Street será reforçada? E qual será a influência do chamado Nº 10 Norte,
o escritório de Burnham em Manchester (em uma tentativa de descentralizar o
poder de Londres)?
O que
acontecerá nas próximas horas já não é novidade, diante da frequência com que o
Reino Unido trocou de primeiro-ministro nos últimos anos. Mas nem por isso
deixa de ser um momento importante.
O que
for anunciado nas próximas horas terá grande impacto sobre a forma como o país
será governado nas próximas semanas, meses e anos.
Fonte:
BBC News Mundo/DW Brasil

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