terça-feira, 21 de julho de 2026

Reino Unido tem o 5º premiê em 4 anos; entenda desafios do novo premiê

O ex-prefeito de Manchester Andy Burnham assumiu nesta segunda-feira (20/7) o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido — o sétimo líder do país nos últimos 10 anos.

O processo de transição começou com Keir Starmer se reunindo com o rei Charles 3º para apresentar formalmente sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro. Em seguida, o monarca se reuniu com Burnham e o convidou a formar um governo.

Depois, Burnham seguiu para Downing Street, endereço oficial do gabinete do primeiro-ministro, onde fez um discurso em frente ao número 10, abordando questões que preocupam os britânicos no momento, como o custo de vida no Reino Unido.

Na semana passada, Burnham já havia assumido a liderança do Partido Trabalhista no lugar de Keir Starmer, após conquistar o apoio dos parlamentares da legenda.

Burnham chega a Downing Street herdando problemas complexos que sucessivos primeiros-ministros e governos tentaram enfrentar — na maioria das vezes, sem sucesso.

Na sexta-feira, ao assumir a liderança dos Trabalhistas, Burnham fez um discurso no qual se comprometeu a construir um partido unido, praticar um novo tipo de política, ser um líder para todo o país e descentralizar o governo.

Ele também prometeu a construção de novas moradias, a revitalização dos centros comerciais e melhorias na educação.

<><> O que ele disse em seu primeiro discurso

Andy Burnham fez seu primeiro discurso como primeiro-ministro na manhã desta segunda-feira.

Falando ao microfone — sem o habitual púlpito — do lado de fora do número 10 da Dawning Street, ele disse que está "plenamente ciente" de que é o sétimo primeiro-ministro desde 2016, descrevendo o momento como uma ocasião para "reflexão e nova determinação".

Afirmou ainda que os políticos "não têm estado à altura", mas comprometeu-se a melhorar, prometendo as maiores mudanças dos últimos 40 anos.

Burnham prometeu transferir o poder de Downing Street para "cada código postal do país" e disse que apresentará, a partir de amanhã, medidas para dar às pessoas "um pouco de alívio" em relação ao custo de vida.

O primeiro-ministro afirmou que mais jovens receberão ajuda para ingressar no mercado de trabalho por meio de mudanças no sistema educacional e que haverá mais apoio disponível, inclusive na área de saúde mental.

Ele declarou que mais habitações públicas serão construídas, apontando essa como a "maneira justa e sustentável" de reduzir os gastos com assistência social, e acrescentou que, assim que entrasse no gabinete, "daria as primeiras instruções para acabar com a situação de pessoas dormindo nas ruas".

Ao assumir o cargo de prefeito de Manchester, em 2017, Burnham estabeleceu como uma de suas prioridades acabar com essa realidade até 2020.

Todos os anos, autoridades locais na Inglaterra fazem um levantamento da quantidade de pessoas que passam a noite nas ruas em uma única noite do outono. O método, porém, não contabiliza toda a população em situação de rua, como quem está hospedado em albergues.

Em 2017, as autoridades estimaram que havia 268 pessoas nessa situação em Manchester. Três anos depois — durante a pandemia de coronavírus —, essa estimativa havia caído para menos da metade, chegando a 125. Embora Burnham não tenha alcançado sua meta, o total continuou diminuindo e chegou a 90 em 2021.

No entanto, os dados mais recentes, de 2025, mostram que o contingente voltou a subir, alcançando 197.

A quantidade de pessoas que passam a noite nas ruas também aumentou em todo o país nos últimos anos. No outono de 2025, a estimativa era de que 4.793 pessoas dormiam ao relento na Inglaterra — um recorde histórico.

<><> Quem é Andy Burnham?

Burnham nasceu em Liverpool, em 1970, e cresceu em Cheshire. Torcedor do Everton, ele é um apaixonado por esportes. Burnham estudou literatura inglesa na Universidade de Cambridge e trabalhou inicialmente com jornalismo, antes de ingressar na política quando tinha pouco mais de 20 anos.

Foi eleito deputado pela primeira vez em 2001 e ocupou cargos no gabinete do então primeiro-ministro Gordon Brown, antes de deixar o Parlamento em 2017.

Nesse período, concorreu duas vezes à liderança do Partido Trabalhista, sendo derrotado em ambas as ocasiões. Mais recentemente, Burnham atuou como prefeito de Manchester, cargo que ocupou de 2017 até o mês passado.

O deputado trabalhista Andy Burnham tomou posse nesta segunda-feira (20/07) como primeiro-ministro do Reino Unido, substituindo o impopular correligionário Keir Starmer no cargo.

Assim como Starmer antes dele, Burnham herda um país em crise, com profundos problemas políticos, econômicos e sociais.

A transferência de poder ocorre apenas dois anos depois de Starmer ter liderado o Partido Trabalhista ao poder com uma vitória eleitoral esmagadora, encerrando 14 anos de governo conservador.

Após receber do Rei Charles 3° a incumbência de formar o próximo governo, Burnham, de 56 anos, começou seus primeiros compromissos oficiais na residência do governo britânico, o número 10 de Downing Street.

Em entrevista ao jornal The Times publicada no domingo, Burnham afirmou que deseja encerrar um ciclo de uma década de turbulência política que foi aberta pelo referendo do Brexit.

Burnham é o sétimo premiê do país desde a votação que iniciou o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Na década seguinte, o país viu sua economia e influência internacional declinarem, com sucessivos líderes de governo fracassando em tentativas de reverter o quadro.

"O que temos feito não tem funcionado. É assim que vejo a situação", disse Burnham no domingo. "Vou tentar fazer as coisas de uma maneira diferente."

Segundo a equipe de Burnham, o novo premiê apresentará "prioridades para restaurar a confiança no governo e dar ao Reino Unido mais fôlego" em meio à crise do custo de vida. Espera-se que a promoção do crescimento econômico e a descentralização de poder para comunidades regionais também figurem entre as prioridades.

Ex-prefeito da Grande Manchester e apelidado de "Rei do Norte", Burnham viu o caminho ser aberto para o cargo de premiê após a renúncia de Starmer no mês passado, que ocorreu em meio a uma intensa pressão interna dentro do Partido Trabalhista pela sua saída.

Na semana anterior à renúncia de Starmer, Burnham havia vencido com folga uma eleição no distrito de Makerfield e assumiu um assento no Parlamento britânico. Com isso, o político de 56 anos cumpriu o pré-requisito fundamental para desafiar Starmer pela liderança do Partido Trabalhista e se tornar o novo premiê.

"Todos sentem que o país não está onde deveria estar", disse Burnham em junho, após sua vitória eleitoral. "Darei tudo de mim para garantir que o nome Makerfield seja para sempre sinônimo de promover a mudança que este país precisa, e de trazer de volta algo que perdemos: esperança, esperança no futuro." 

<><> Experiência consolidada

O carismático Burnham é considerado um dos nomes mais populares da ala de centro-esquerda do Partido Trabalhista, além de possuir vasta experiência na política nacional e regional. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara dos Comuns do Parlamento britânico em 2001 e atuou como ministro adjunto do Interior durante o governo do trabalhista Tony Blair. Mais tarde, o primeiro-ministro Gordon Brown o nomeou ministro adjunto do Tesouro e, posteriormente, ministro da Cultura e, em seguida, da Saúde.

Burnham já havia concorrido à liderança do Partido Trabalhista em 2010 e 2015. Em 2017, deixou Londres para se tornar prefeito da Grande Manchester, uma região com cerca de 2,8 milhões de habitantes. Ele foi reeleito duas vezes, tendo recebido quase dois terços dos votos na eleição mais recente.

Durante a pandemia de covid-19, Burnham confrontou o primeiro-ministro conservador Boris Johnson, exigindo mais apoio para empresas e trabalhadores nas regiões afetadas pelos lockdowns – o que lhe rendeu o apelido de "rei do Norte".

A principal crítica de Burnham a Starmer diz respeito aos cortes nos benefícios sociais pelo atual governo. No entanto, ainda não está claro quais seriam suas prioridades políticas específicas e que medidas Burnham pretende implementar no lugar do premiê de saída.

Uma de suas maiores conquistas em Manchester é a expansão do transporte público acessível. Habitação e saúde pública também estão entre suas prioridades. Burnham se considera um defensor do "socialismo em prol dos negócios" e é um crítico do Brexit – o processo político que resultou na saída do Reino Unido da União Europeia (UE). "Acho que precisamos transferir o que conquistamos na Grande Manchester para o nível nacional", disse ele à emissora britânica BBC em maio.

<><> Garoto da classe trabalhadora do Norte

Burnham tem raízes profundas na antiga região industrial e de mineração do norte da Inglaterra. Nascido em 1970 em Aintree, perto de Liverpool, ele cresceu em Culcheth. Seu pai era técnico em comunicações e sua mãe, auxiliar de enfermagem. Aos 14 anos, profundamente influenciado pela greve dos mineiros de 1984-1985, se filiou ao Partido Trabalhista. Do período como estudante de inglês em Cambridge, relata às vezes ter se sentido um impostor.

Na década de 1990, fez parte do movimento musical e juvenil Madchester e, até hoje, continua sendo torcedor do Everton FC. É casado com uma holandesa, com quem teve três filhos. Em seu braço direito, tem uma tatuagem de uma abelha operária, símbolo de diligência e solidariedade após o atentado terrorista de Manchester, em 2017.

Burnham é atualmente um dos políticos mais populares, senão o mais popular, do Reino Unido, e é visto por muitos como a última esperança para conter a ascensão do populismo de direita do partido Reform UK.

<><> Desafios

Burnham afirmou que manterá, em linhas gerais, as políticas com as quais o Partido Trabalhista foi eleito em 2024 — em particular, não vai aumentar as alíquotas principais do imposto de renda, do imposto sobre valor agregado ou da contribuição para a seguridade social.

No entanto, ele também começou a apresentar alguns planos políticos próprios.

Uma prioridade fundamental será transferir mais poder do Parlamento para os conselhos locais e autoridades regionais. Isso envolveria conceder maior controle em áreas como habitação e transporte.

Como parte dessa iniciativa, ele pretende criar uma equipe de apoio em Manchester, a mais de 240 quilômetros ao norte de Londres.

Burnham também deu pistas sobre seus planos para assistência social, cuidados sociais, imigração e defesa — e sugeriu que a criação de um imposto sobre grandes fortunas poderia estar em pauta —, mas, em muitas áreas, ainda não anunciou políticas específicas.

Ele também precisará nomear ministros para cargos-chave em seu gabinete, como para Finanças, Interior e Relações Exteriores.

Burnham terá pela frente uma série de desafios nos quais outros primeiros-ministros recentes fracassaram.

Entre os mais urgentes estão o aumento acelerado dos gastos com benefícios por incapacidade e doenças, impulsionado pelo crescimento do número de pessoas pedindo esses benefícios, e a pressão para elevar os investimentos em defesa para cumprir as metas da aliança militar Otan.

O Reino Unido também tem problemas de habitação e emprego entre jovens. A meta trabalhista de construir 1,5 milhão de moradias está longe de ser alcançada, com apenas 204 mil entregues até março, e a proposta de Burnham de implementar um amplo programa de construção de habitações populares exigiria investimentos públicos significativos.

Além disso, mais de um milhão de jovens no Reino Unido não estudam nem trabalham, o que coloca o país entre os piores da Europa nesse indicador. Para reverter essa situação, seria necessário ampliar programas de aprendizagem profissional, educação técnica e oportunidades de inserção no mercado de trabalho.

¨      Burnham tenta contrariar tendência no Reino Unido

A partir desta segunda-feira (20/7), o Reino Unido passou a ter seu quinto primeiro-ministro em apenas quatro anos: Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester.

Essa frase resume bem o momento vivido pela política britânica.

No verão de 2022, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson já estava de saída, embora ainda permanecesse no cargo. Desde então, o Reino Unido já teve Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer como primeiros-ministros.

Não por acaso, Burnham dirá mais tarde — segundo informações obtidas pela reportagem da BBC — que está "plenamente consciente" dessa constante troca de líderes no comando do governo britânico. A observação deve provocar sorrisos irônicos entre os seus críticos, dentro e fora do Partido Trabalhista, que há muito afirmam que Burnham vinha se preparando para chegar a esse momento.

Nos anos que se seguiram após o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e a covid-19, muitos britânicos passaram a sentir que a vida ficou mais difícil — um momento que favoreceu sentimentos de impaciência com a classe política e perda de confiança nos partidos tradicionais.

É esse o cenário que Burnham encontrará ao chegar a Downing Street, a sede do gabinete do primeiro-ministro, assim como aconteceu com Starmer há 746 dias, em outro ensolarado dia de julho, dois anos atrás.

Agora, Burnham tenta romper essa sequência de governos impopulares.

Burnham está determinado a assumir o cargo em ritmo acelerado e, sempre que possível, manter o estilo de liderança que adotou como prefeito da Grande Manchester.

As regras da Câmara dos Comuns e compromissos oficiais, como as audiências com o rei, provavelmente farão com que ele use terno com mais frequência do que nos últimos anos.

Mas outras convenções poderão ser descartadas intencionalmente. Ouvi dizer, por exemplo, que Burnham poderá abrir mão do tradicional púlpito para seu primeiro discurso como primeiro-ministro, em frente ao número 10 de Downing Street, na segunda-feira (20/7).

Também ouvi que ele pretende realizar sessões de perguntas e respostas com eleitores em diferentes partes do país — um formato que um aliado descreveu como People's Question Time (Hora de Perguntas do Povo, em tradução literal), em que Question Time faz referência tanto a um mecanismo oficial do Parlamento britânico (em que membros das duas Câmaras fazem perguntas a ministros do governo) quanto a um famoso programa de televisão (em que membros do público fazem perguntas a políticos).

Antes do grande momento de Burnham, no entanto, virá a despedida de Starmer.

Depois de passar o seu último fim de semana no cargo em Chequers, a residência oficial de campo do primeiro-ministro em Buckinghamshire, Starmer fará um breve pronunciamento — desta vez, com púlpito — antes de seguir para uma audiência com o rei Charles 3º e formalizar a sua renúncia ao cargo.

A expectativa é que Starmer destaque o que considera as suas principais realizações, tanto na política doméstica quanto no cenário internacional. Integrantes de sua equipe citam, com especial orgulho, a redução da imigração e das filas de espera do NHS (sistema público de saúde do Reino Unido) na Inglaterra, a retirada de crianças da pobreza e a criação da proibição do uso de redes sociais por adolescentes.

Ao longo da tarde e da noite, devem ser anunciadas as nomeações para o novo gabinete, incluindo, segundo apurou a reportagem, um ministro encarregado da área de inteligência artificial (IA).

A principal expectativa gira em torno dos cargos mais importantes do governo, como os de chanceler do Tesouro (equivalente ao Ministro da Fazenda no Brasil), ministro do Interior e ministro de Relações Exteriores. Shabana Mahmood, Wes Streeting, Ed Miliband, Angela Rayner e Lucy Powell são apenas cinco dos nomes cotados. Que pastas eles receberão? E o que essas escolhas indicarão sobre a forma como Burnham pretende governar? A resposta virá em breve.

Também começaremos a ter uma ideia das prioridades imediatas do novo primeiro-ministro, entre elas o custo de vida e as contas de energia, além da forma como seu governo será estruturado. Até que ponto a equipe do número 10 de Downing Street será reforçada? E qual será a influência do chamado Nº 10 Norte, o escritório de Burnham em Manchester (em uma tentativa de descentralizar o poder de Londres)?

O que acontecerá nas próximas horas já não é novidade, diante da frequência com que o Reino Unido trocou de primeiro-ministro nos últimos anos. Mas nem por isso deixa de ser um momento importante.

O que for anunciado nas próximas horas terá grande impacto sobre a forma como o país será governado nas próximas semanas, meses e anos.

 

Fonte: BBC News Mundo/DW Brasil

 

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