terça-feira, 21 de julho de 2026

Isolado até de Valdemar: relato interno mostra Flávio Bolsonaro cada vez mais sozinho dentro do próprio PL

A poucos dias da convenção nacional do PL, marcada para 25 de julho, um retrato revelado pela colunista Bela Megale, do jornal O Globo, mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cada vez mais isolado dentro do próprio partido. Segundo lideranças da legenda, o pré-candidato presidencial concentra as decisões da campanha em um círculo muito pequeno, ouve poucos interlocutores e deixa até figuras historicamente centrais do PL fora das negociações mais importantes.

<><> Até Valdemar perdeu espaço

O dado mais surpreendente do relato é que nem o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto — padrinho político da candidatura e, até pouco tempo atrás, o principal articulador de bastidores da família Bolsonaro — escapou desse esvaziamento de influência. Segundo o relato, Valdemar teria perdido espaço na definição de acordos políticos, muito por conta da fase mais delicada que atravessa: o próprio presidente do partido segue sob investigação da Polícia Federal, com bloqueio de R$ 119 milhões em bens por suspeita de desvio de emendas parlamentares — um desgaste que naturalmente reduz seu poder de barganha interna, mesmo mantendo o cargo formal na sigla.

<><> Marinho na articulação, mas sem conseguir atender o telefone dos aliados

A tarefa de construir alianças ficou concentrada nas mãos do coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN) — que, segundo o relato, também enfrenta questionamentos internos. Presidentes de partidos do centrão relataram dificuldade até para conseguir contato direto com Marinho, um problema básico de comunicação que já estaria agravando a insatisfação de siglas consideradas estratégicas para a disputa.

<><> Vice sem consenso e consultor sem currículo político

Outro ponto de atrito interno é a preferência pessoal de Flávio pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques para compor a chapa como vice — e também como principal referência técnica do programa econômico da campanha, papel informalmente chamado dentro do PL de “posto Ipiranga”. Apesar de reconhecerem seu perfil técnico, integrantes do partido avaliam que sua presença na chapa teria pouco potencial para ampliar o eleitorado ou atrair apoio de outras legendas — o oposto do que normalmente se busca numa escolha de vice, pensada justamente para somar votos e alianças.

O consultor estratégico Eduardo Fischer, publicitário sem histórico de atuação política, também é alvo de desconfiança interna, justamente num momento que exige articulação partidária fina e conhecimento profundo das disputas regionais — habilidades que, segundo aliados, escapam ao seu perfil profissional.

<><> “Só tem professor de Deus ao lado de Flávio”

A frustração interna foi resumida por um aliado do próprio senador em termos diretos: “só tem professor de Deus ao lado de Flávio” — expressão usada para descrever um círculo de assessores que valida decisões sem questionar, alimentando, segundo esse mesmo aliado, uma postura considerada prepotente que estaria deixando tanto o senador quanto a campanha em situação cada vez mais delicada.

<><> O risco real: perder o Rio de Janeiro, o próprio quintal da família

A maior preocupação dentro do PL, porém, vai além do desconforto pessoal de aliados: é o risco desse isolamento nacional contaminar as alianças estaduais. Dirigentes partidários temem que a federação formada por PP e União Brasil opte pela neutralidade em vez de apoiar o PL em disputas decisivas — incluindo, de forma particularmente sensível, no Rio de Janeiro, reduto histórico da família Bolsonaro. Perder essa aliança justamente no estado-base da candidatura seria um golpe duro na montagem do palanque estadual, com efeitos diretos sobre o desempenho presidencial de Flávio na região.

<><> Um padrão que já não surpreende

O relato se encaixa perfeitamente na sequência de crises que já vinham sendo registradas nas últimas semanas: a fotografia com um suspeito ligado ao esquema de Daniel Vorcaro, que já gerou alerta interno sobre a possibilidade de novos materiais comprometedores virem à tona; o racha público com Michelle Bolsonaro; o desgaste da viagem a Washington sobre o tarifaço; e agora esse relato de centralização excessiva e dificuldade de diálogo, justamente no momento em que a candidatura mais precisaria demonstrar capacidade de unificar o campo de direita. Combinado às pesquisas recentes, que já mostram Lula (PT) ampliando vantagem e a rejeição a Flávio batendo recordes sucessivos, o quadro que emerge é o de uma campanha que parece acumular problemas em cada uma de suas frentes — eleitoral, judicial e agora também organizacional — a menos de duas semanas de sua convenção de lançamento oficial.

•        Fala de Valdemar irrita Centrão e amplia isolamento de Flávio Bolsonaro

A tentativa de Valdemar Costa Neto de justificar sua atuação na distribuição de emendas parlamentares abriu uma nova frente de desgaste para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Ao afirmar que presidentes de outros partidos também interferem na destinação dos recursos, o dirigente do PL levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a colocar as cúpulas de 21 siglas sob escrutínio e ampliou a resistência do Centrão a uma aliança com o senador.

A decisão do ministro Flávio Dino foi mal recebida entre dirigentes partidários. Nos bastidores, a avaliação é que Valdemar, ao tentar normalizar sua conduta, acabou envolvendo líderes que não estavam diretamente ligados ao caso e agora terão de prestar esclarecimentos formais ao Supremo.

Dino determinou que os presidentes dos partidos informem, em dez dias úteis, se controlam cotas ou outros mecanismos de distribuição de emendas, além de detalhar quem autoriza o uso dos recursos, qual a base jurídica da prática e como são definidos os beneficiários. O ministro ressaltou que a proposição e a deliberação sobre emendas são prerrogativas de deputados e senadores e indicou que, se a declaração de Valdemar for verdadeira, o STF pode estar diante de uma modalidade informal de controle desses recursos.

Embora não haja acusação generalizada de ilegalidade, o despacho obriga as legendas a se posicionarem sobre um tema sensível. No Centrão, o incômodo é evidente. Dirigentes de partidos como PP, União Brasil, Republicanos, PSD e MDB terão de esclarecer seu grau de influência na distribuição das emendas, sob risco de ver suas respostas confrontadas com documentos e registros já reunidos em investigações.

Segundo relatos, líderes do bloco atribuem a Valdemar a responsabilidade por transformar um problema restrito ao PL em uma questão institucional mais ampla. O episódio também reforçou dúvidas sobre a capacidade política da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, já vista por aliados potenciais como marcada por crises recorrentes.

A relação com o presidente do PP, Ciro Nogueira, ilustra esse desgaste. Desde a operação da Polícia Federal no caso Banco Master, Ciro se ressentiu da falta de apoio de Flávio. O distanciamento se aprofundou com declarações recentes do dirigente, que sinalizou abertura ao diálogo com o governo Lula, e culminou na resistência à aliança da federação PP-União Brasil com o PL.

Antes cotado como articulador de uma aproximação com o Centrão, Ciro passou a atuar no sentido oposto. No União Brasil, o interesse pela candidatura de Flávio também diminuiu, enquanto o Republicanos mantém posição de neutralidade, negociando acordos regionais sem compromisso nacional.

O distanciamento ganhou novos contornos no início do mês, quando Ciro fez um gesto público que foi interpretado como sinal de afastamento do bolsonarismo. Durante um evento, o presidente do PP afirmou: “Tenho uma admiração enorme pelo presidente Lula, que foi uma pessoa que enfrentou a questão da fome no nosso país”. A declaração chamou atenção por partir de um ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro que no inicio do ano afirmava que o governo Lula estava acabado e reforçou a percepção de que o dirigente busca manter pontes abertas fora do campo da direita.

A fala de Valdemar agravou esse cenário ao atingir diretamente um dos principais instrumentos de poder dos partidos: a articulação de recursos para suas bases. Mesmo legendas que cogitavam negociar com o PL passaram a lidar com o custo político de explicar ao STF suas práticas internas.

Para dirigentes do Centrão, o episódio reforça a percepção de que uma aliança com Flávio pode significar assumir crises geradas pelo próprio núcleo da campanha. A candidatura, que precisa ampliar sua base para ganhar competitividade, enfrenta dificuldades justamente com os partidos capazes de oferecer estrutura e capilaridade.

Esse cenário coincide com uma piora nos indicadores eleitorais. Pesquisa Genial/Quaest mostra Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28% de Flávio. Em um eventual segundo turno, o presidente aparece com 45%, ante 37% do senador. A rejeição também é maior para Flávio, com 57%, contra 50% de Lula.

Na pesquisa espontânea, Lula tem 26%, enquanto Flávio aparece com 14%, indicando dependência da estrutura bolsonarista para ampliar sua presença eleitoral.

A combinação de dificuldades políticas, rejeição elevada e perda de aliados aumenta o risco de uma campanha restrita ao PL e a partidos menores. Para o Centrão, o apoio só faria sentido diante de uma candidatura competitiva e capaz de oferecer participação em um eventual governo — cenário que, por ora, não se confirma.

Enquanto isso, os partidos terão de responder ao STF em meio às negociações eleitorais. O PL pretende oficializar a candidatura de Flávio em 25 de julho, em São Paulo.

Até lá, Valdemar terá de administrar uma crise que ajudou a ampliar. Ao tentar dividir responsabilidades, acabou colocando o Centrão na mira do Supremo e oferecendo mais um motivo para o distanciamento dos possíveis aliados.

•        Flávio não resiste até agosto, diz Roberto Tardelli

O jurista Roberto Tardelli afirmou nesta sexta-feira (17) que Flávio Bolsonaro pode não permanecer na disputa presidencial até o fim do período das convenções partidárias. Durante o programa Giro das Onze, da TV 247, o advogado analisou o enfraquecimento eleitoral do senador e declarou: “Hoje é dia 17 de julho, ele não resiste até o dia 16 de agosto”.

Segundo Tardelli, a campanha reúne dificuldades que vão desde a repercussão negativa do tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump até o afastamento de partidos de direita. Ele também prevê o surgimento de novos problemas para o candidato: “Muita água poluída está por passar debaixo dessa ponte dele”.

O advogado avaliou que a mais recente pesquisa Quaest tornou mais evidente a perda de competitividade de Flávio. Para ele, o levantamento “é um prego que faltava no caixão”, porque mostra rejeição elevada ao senador e melhora na avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na leitura de Tardelli, o resultado mais preocupante para o candidato do PL está entre os eleitores independentes, que não se identificam diretamente com o lulismo ou com o bolsonarismo. Parte desse segmento passou a responsabilizar a família Bolsonaro pelas tarifas norte-americanas. “Nada o favoreceu, nada melhorou”, resumiu.

O desgaste, entretanto, não resultaria automaticamente em transferência de votos para Lula. Tardelli acredita que setores da direita não bolsonarista podem optar pela abstenção, pelo voto branco ou pelo voto nulo. “O que pode ocorrer é que a direita não bolsonarista não vote no Lula, mas, não tendo em quem votar, não saia de casa”, afirmou.

A proximidade das convenções partidárias, previstas entre segunda-feira (20) e 5 de agosto, reduz a margem para uma eventual substituição. Segundo Tardelli, se o PL oficializar Flávio, a mudança se tornará mais difícil: “Flávio Bolsonaro deverá ser aclamado candidato à Presidência da República pelo PL. Aí não tem como substituir. Acabou. É o candidato”.

O advogado também não enxerga força suficiente em Ronaldo Caiado ou Romeu Zema para assumir os votos eventualmente deixados pelo senador. Sua projeção é de crescimento da abstenção entre eleitores identificados com a extrema direita, podendo resultar, segundo ele, “na maior abstenção da história das eleições brasileiras”.

Tardelli atribuiu parte importante da crise ao tarifaço de Trump. Declarações anteriores de integrantes da família Bolsonaro e de seus aliados em defesa de pressões norte-americanas dificultariam a tentativa de responsabilizar o governo Lula. “Ele não tem como se livrar disso. Por mais que ele queira rejeitar esse filho espúrio, esse filho é dele”, disse.

Apesar do cenário desfavorável a Flávio, Tardelli alertou que a eleição não está resolvida. Ele diferenciou a disputa presidencial das eleições legislativas e demonstrou preocupação com o poder financeiro dos atuais parlamentares. “O meu temor é que a renovação do Parlamento seja pífia”, afirmou, ao projetar que uma eventual vitória de Lula poderá ser acompanhada pela manutenção de um Congresso ainda mais hostil ao governo.

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

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