Futebol-Arte
em crise? Brasil precisa de mudanças estruturais, mas sem abrir mão da essência
Dos mil
gols de Pelé às fintas de Garrincha, dos dribles de Ronaldinho Gaúcho à
pontaria de Ronaldo. O jeito brasileiro de fazer futebol – o Futebol Arte – é
consagrado pela criatividade, improvisação e alegria em campo, mas precisa se
reconectar com o público. O futebol, o "jogo bonito", é o esporte do
século, atraindo o olhar de bilhões de pessoas. É o que colocou o Brasil em
destaque no mundo, que põe milhões de brasileiros em frenesi e até pessoas de
outros países a vestirem a "amarelinha", a camisa da Seleção.
O
futebol brasileiro, carismático, ousado, com vocação ofensiva e cultivado desde
as ruas e campos de várzea, ainda possui jogadores de jogadores de todas
classes sociais e tons de pele, dando a Seleção a cara de "a seleção
do mundo". Contudo, sucessivas campanhas fracassadas na Copa do Mundo – uma seca por
títulos mundiais que chegará a 28 anos em 2030 – põe em xeque a competivididade
do futebol brasileiro. Neste Dia Nacional do Futebol, fica a questão: o
jogador perdeu contato com o torcedor? Pior, a Seleção se desconectou
com a torcida do Brasil?
Para José
Carlos Marques, embora críticas ao futebol brasileiro por recorrer a técnicos
estrangeiros ou exportar jogadores cada vez mais jovens para a Europa tenham
cabimento, a principal crise está na perda do senso coletivo dentro da
equipe. Segundo o líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol
(Gecef), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os interesses
individuais passaram a se sobrepor aos da seleção, fenômeno simbolizado pela
influência de Neymar sobre a geração atual. "É o maior jogador que o
Brasil teve nos últimos 15 anos, mas a questão comportamental de Neymar, dentro
e fora de campo, moldou uma geração de atletas que tem ele como ídolo." Exemplo
disto seria a crescente mistura entre publicidade e Seleção Brasileira, como a
participação de Carlo Ancelotti em campanhas comerciais às vésperas da Copa do
Mundo, incompatível com a responsabilidade do cargo. O mesmo aconteceu em
edições anteriores com jogadores como Neymar e Gabriel Jesus.
Apesar
das críticas, o pesquisador ressalta que o individualismo sempre fez parte
da identidade do futebol brasileiro através de características como a
habilidade técnica, a criatividade e até uma certa indisciplina tática, que
permitiram que grandes talentos resolvessem partidas. O problema é que
esse traço foi levado ao extremo. Ao mesmo tempo, Marques observa que a
identificação dos torcedores com os jogadores não está necessariamente vinculada à
nacionalidade. Esse
processo hoje ultrapassa fronteiras geográficas e culturais, fazendo com que
atletas de diferentes países despertem admiração em públicos ao redor do mundo.
Como
exemplo, o pesquisador cita o goleiro de Cabo Verde, Josimar José Évora Dias,
o "Vozinha", que conquistou simpatizantes em diversos países,
especialmente no Brasil, durante a Copa do Mundo. O carisma, a trajetória e o
desempenho do atleta foram suficientes para criar uma conexão emocional
com torcedores de outras nacionalidades. Além disso, a distância dos
jogadores da torcida brasileira, com muitos entrando de férias nos EUA ou
voltando direto para países em que jogam, também contribui para esse
descompasso. Ele cita como exemplo o retorno dos jogadores após a eliminação,
quando cada atleta seguiu individualmente para férias em diferentes destinos,
sem um retorno conjunto ao Brasil. Apenas o lateral Danilo, do Flamengo, voltou
para o Brasil após a derrota contra a Noruega.
Para o
pesquisador, esse comportamento transmite a imagem de um grupo sem senso de
pertencimento, diferente do que se observa em seleções como Argentina, Espanha
ou Inglaterra, cujos elencos costumam manter uma postura coletiva mesmo após
derrotas. Esse conjunto de fatores, conclui, faz com que a Seleção deixe de
representar um projeto nacional e passe a ser percebida como um grupo de
estrelas, enfraquecendo a identificação dos brasileiros com a equipe.
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Construção da Seleção além da Copa do Mundo
Também
ouvido pela Sputnik Brasil, Paulo Vinícius Coelho (PVC), jornalista
esportivo e colunista do UOL, avalia que o problema está na ausência de um
projeto de longo prazo. Segundo ele, o Brasil perdeu a capacidade de
desenvolver uma identidade para a equipe nacional, o que contribuiu para sua
perda de protagonismo no cenário internacional. "A gente construiu uma
identidade de jogo e ela não está destruída, mas a Seleção brasileira não tem
um projeto de seleção", afirma. Para o jornalista, o país passou a privilegiar
os clubes e os resultados imediatos, enquanto a constante troca de treinadores,
a falta de paciência com processos e a tendência de responsabilizar
exclusivamente os técnicos impedem a consolidação de um modelo de jogo. No
entanto, o colunista rejeita a ideia de que a exportação precoce de atletas
atrapalhe o desempenho da Seleção. A saída cada vez mais cedo de jogadores é
consequência da globalização do mercado do futebol, e não a causa da crise.
Como exemplo, cita a Argentina campeã do mundo em 2022, que contava com apenas
um jogador atuando no campeonato local, o goleiro Franco Armani, no River
Plate.
Para
PVC, o problema mais grave é a "mexicanização" do futebol
brasileiro, caracterizada pelo fortalecimento dos clubes em detrimento da
Seleção no imaginário de torcedores e dirigentes. Embora considere positiva a
evolução do Campeonato Brasileiro, ele alerta que a projeção internacional
dos clubes depende diretamente da força da equipe nacional. "O futebol
brasileiro só vai ter relevância, os clubes brasileiros só vão ter relevância,
se a Seleção Brasileira for relevante."
O
jornalista também critica a cultura de responsabilizar os treinadores por
problemas estruturais do futebol brasileiro. Na sua avaliação, a troca
constante de técnicos impede a consolidação de projetos e alimenta a busca por
soluções imediatas, o que explica, em parte, a valorização excessiva de
treinadores estrangeiros. "A gente criou a lógica de que o técnico,
para ser bom, tem que ser estrangeiro." Como exemplo da falta de
continuidade, PVC compara o Campeonato Brasileiro à Premier
League. Enquanto o recorde inglês de demissões em uma temporada de 38
rodadas foi de 13 treinadores, o Brasileirão já havia registrado 14 trocas
em apenas 18 rodadas. Para ele, é inviável julgar um trabalho em apenas dez
jogos. "Em qualquer profissão no Brasil, um novo funcionário tem três
meses de experiência. No Brasil, um time tem dois técnicos em três meses."
Na
avaliação de Marques, o Brasil enfrenta justamente o problema oposto. A
constante troca de presidentes da CBF, dirigentes e comissões técnicas impede a
consolidação de um projeto esportivo duradouro, enquanto a falta de integração
entre as categorias de base e a seleção principal dificulta a construção de uma
identidade para o futebol brasileiro. Em outras palavras, cada novo ciclo
acaba recomeçando praticamente do zero. Nesse sentido, o especialista defende
que o Brasil tem muito a aprender com a forma como as principais potências
europeias organizam o esporte. Não em seu esquema tático e estilo de jogo, mas
sim a estrutura das federações e a continuidade dos projetos.
Seleções
como Alemanha, França, Espanha e Inglaterra construíram projetos
nacionais de
longo prazo, integrando federações, clubes, categorias de base e equipes
principais. Esse planejamento permitiu que essas seleções mantivessem uma
identidade esportiva mesmo diante da troca de treinadores e de gerações de
jogadores, sem depender exclusivamente do talento individual de determinados
atletas. O pesquisador pondera, contudo, que a comparação com a Europa deve
considerar as diferenças estruturais entre os países. Enquanto as principais
potências europeias possuem territórios menores e sistemas mais
centralizados, o Brasil reúne dimensões continentais, dezenas de
federações estaduais e realidades muito distintas.
¨
Copa do Mundo revelou cultura de violência e misoginia no
futebol. Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo e Sofia Amaral
Neste
domingo, chega ao fim mais uma Copa do Mundo masculina. Para além do espetáculo
esportivo, o torneio também revela estruturas de violência e misoginia. Um
levantamento do ge (Globo Esporte), publicado em 29 de junho de 2026,
identificou que ao menos cinco jogadores que participaram da Copa do Mundo eram
ou haviam sido investigados por acusações de estupro. Em nota, a Fifa afirmou
que não existe uma regra geral que proíba a convocação de jogadores que
enfrentaram acusações ou respondem a processos por estupro ou agressão sexual. Para
falar sobre a cultura da violência e da misoginia dentro e fora do futebol, o
Pauta Pública recebe a jornalista e escritora Milly Lacombe, colunista do UOL e
integrante do comitê curatorial do Museu do Futebol, em São Paulo. Na conversa
com Andrea Dip, ela analisa como a eliminação do Brasil evidenciou uma
masculinidade marcada pela agressividade. “O homem que soca a parede para não
socar a cara da mulher, isso não é normal. Quebrar um aparelho de TV [como
quando o Brasil foi eliminado], a gente não pode naturalizar isso”,
afirma. Lacombe também fala do peso político de termos uma Copa do Mundo
sediada em um país responsável por um genocídio em curso. “Eu acho que é uma
copa que as nossas gerações vão ter que entender como a copa da vergonha,
porque a gente aceitou que uma copa fosse realizada dentro de um país entregue
ao fascismo. A gente aceitou que a copa fosse dominada, controlada por um
ditador que é o Donald Trump.”
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Leia os principais pontos da conversa:
·
O
que a eliminação do Brasil nos ensina sobre a masculinidade?
Tem
tanta coisa para a gente aprender na reação que esses moleques, que são já
homens, tiveram. Acho que um dos grandes problemas que a gente enfrenta é que
há muitos moleques em situação de poder no mundo. E aí, ficamos à mercê da
decisão desses deles. Então, começo falando dessa dimensão da violência. Como
no caso de vídeos de homens quebrando os aparelhos de TV [divulgados nas redes
sociais] quando o Brasil foi eliminado. Um homem que soca a parede para não
socar a cara da mulher, ou que quebra a garagem para não quebrar a mulher, isso
não é normal. Quebrar um aparelho de TV, a gente não pode naturalizar isso.
Imagina uma mãe com a criança do lado dela, o Brasil perde, ela levanta, pega
um taco de beisebol e bate na TV. Aí a gente entende a violência? Mas quando é
um homem que faz, não? Então, eu acho que essa é a primeira dimensão da
eliminação, do que a gente aprende. A segunda vem da hierarquia, sabe?
Porque, assim, pessoas lúcidas criticaram, tecnicamente, o Neymar, porque ele
afundou o Brasil. [E quando há essas críticas] vêm a turma da hierarquia, ou
seja, os súditos do Neymar, e tem chiliques também praticando violências,
ameaçando jornalistas. Houve influenciadores que ameaçaram jornalistas. Uma
loucura. Tudo para celebrar o macho alfa deles, para proteger o macho alfa
deles. Então, a gente vai aprendendo essa lealdade, que é uma outra
característica da masculinidade, né? A fraternidade, a ‘broderagem”. A Rita
Segato [antropóloga argentina] diz que não tem nada mais importante para um
homem na vida do que outro homem. É isso.
·
Esta
copa aconteceu nos Estados Unidos, em meio a todos os crimes que o governo
Trump está apoiando ou cometendo contra a humanidade. E também tiveram gestos
supremacistas brancos, para todo mundo ver. Além de pessoas imigrantes detidas
e deportadas. Como que você viu essa copa nesse sentido?
Eu acho
que é uma copa que as nossas gerações vão ter que entender como a copa da
vergonha, porque a gente aceitou que ela fosse realizada dentro de um país
entregue ao fascismo. A gente aceitou que a copa fosse dominada, controlada por
um ditador que é o Donald Trump. Perto de todo o campo em que está sendo
disputado um jogo, tem um campo de detenção, que é construído nos moldes dos
campos de concentração. As pessoas são jogadas ali sem julgamento, sem o
devido processo legal, muitos são cidadãos e cidadãs estadunidenses não têm
assistência médica. Elas estão morrendo lá dentro, tem crianças morrendo dentro
desses campos de detenção. Nós estamos aceitando isso, mas também a nossa
é a geração que viu um genocídio na palma da mão nos nossos celulares e não fez
nada. A gente tá vendo o genocídio em Gaza, todos os dias, minuto à minuto, na
palma da nossa mão, a gente abre vê as fotos e a gente não faz nada. Eu fico
imaginando que, se de 1939 a 1941 as pessoas tivessem vendo o que estava sendo
feito na Alemanha, por Hitler -porque lá elas demoraram para entender o que
estava acontecendo. Agora não, agora a gente sabe e não estamos fazendo nada.
Então, é uma geração que vai ter umas contas a pagar.
·
Outro
indício da desigualdade de gênero dentro do futebol talvez seja com relação aos
campeonatos femininos. Historicamente, a categoria já teve alguns avanços, mas
a passos lentos em relação à importância do futebol masculino. Ano que vem, em
2027, teremos a Copa do Mundo Feminina, quais são suas perspectivas? Você acha
que a gente pode esperar uma valorização, enfim, nesse sentido, do futebol
feminino?
Eu acho
que 2027 vai ser um divisor de águas para o futebol feminino no Brasil. Eu acho
que a gente ainda não tá preparado para entender o que vai acontecer. O Brasil
vai ser levado de arrasto por um tipo de paixão que faz tempo que a gente não
se permite sentir por uma seleção, sabe? Eu gosto de um ditado português que
diz que os fados convidam a dançar aqueles que estão prontos, quem não está
pronto os fados arrastam. Eu acho que em 2027 as pessoas vão ser arrastadas por
essa usina de afeto que o futebol feminino vai gerar no Brasil. Recentemente, o
Brasil fez dois amistosos com os Estados Unidos, que são a grande força do
futebol feminino no mundo há muito tempo. Tiveram uma fase ruim, mas já
voltaram. O amistoso foi em Itaquera, no estádio do Corinthians, e o outro em
Fortaleza, no Castelão. E tinha 40 mil pessoas em Itaquera e 60 mil pessoas em
Fortaleza. Era a voz de mulheres que vinha da arquibancada. O que me chamou a
atenção foi a treinadora dos Estados Unidos, uma das mais experientes do mundo.
Quando ela entrou em Itaquera e viu o que estava acontecendo na arquibancada,
ela chamou o time e falou assim, “eu não sei o que está acontecendo, eu nunca
ouvi esse barulho, deve passar mas assim, se não passar aproveitem, porque a
gente nunca viu isso”. Então, isso foi só um ensaio do que pode acontecer. O
Brasil nunca esteve tão pronto para levantar essa taça do futebol feminino [no
mundial] o time brasileiro nunca esteve tão pronto para fazer o que os homens
fracassaram em fazer diversas vezes. E aí vai ser um arrebatamento.
¨
O espetáculo de Trump oferece um final delirante e
apropriado para uma Copa do Mundo de excessos e destruição. Por Nick Ames
Terminou
quase como Gianni Infantino e Donald Trump
haviam planejado. Mais cedo, em um dia de final de Copa do Mundo que parecia
interminável, o troféu, em uma cena perfeitamente condizente com os excessos do
evento, foi retirado de um baú da Louis Vuitton. Agora, eles subiram juntos ao
pódio e o entregaram a um radiante Rodri, perdendo um pouco o ritmo quando
Trump se demorou para a foto da seleção espanhola. Depois de se livrarem de
qualquer constrangimento, fizeram sua saída, o brilho dourado cintilando em um
gramado irregular e as reverberações de um evento futebolístico de proporções
sem precedentes pulsando muito além deste miniestado de concreto em Nova
Jersey. Como dar sentido a um torneio inebriante, inebriante e, muitas vezes,
profundamente estranho, que ao mesmo tempo parecia totalmente acolhedor e
assustadoramente distante? Terminou com um delírio febril desorientador sob um
céu azul brilhante americano, com o futebol parecendo um mero detalhe durante
boa parte da tarde, mesmo que o próprio jogo não tenha
contribuído para isso. Quem buscasse uma parábola poderia, se quisesse, se
deleitar com o sucesso da Espanha. Em última análise, este foi o triunfo de uma ideia coletiva em uma Copa do
Mundo cultivada para alimentar o culto ao individualismo.
Durante
todo o tempo, Infantino e Trump sentaram-se lado a lado, absorvendo o
espetáculo atrás de um vidro reforçado. Que tipo de propaganda para a saúde do
futebol era essa? As controvérsias do último mês demonstram que os líderes do
futebol, e Trump deve ser considerado um deles, dada a influência que lhe foi
conferida, nunca estiveram tão distantes e nem tão imunes a críticas . Do outro lado
da tabela, Argentina e Espanha se enfrentaram, provocaram, rosnaram e, por
vezes, se arrastaram por uma das piores finais de todos os tempos, embora em
alguns momentos nos perguntássemos o quanto isso realmente importava.
Os
torcedores que pagaram US$ 1 milhão (£ 740.000) por ingressos à beira do campo,
com chapéus de sol inclusos, podem ter aprendido da pior maneira que o futebol
geralmente não garante uma dose de dopamina sob demanda. Mas esta foi, antes de
tudo, uma ocasião para ser visto, e não para assistir. Um documento divulgado
pela Fifa antes do início
da partida listava com orgulho 235 celebridades e personalidades VIP presentes.
Um deles, Tom Cruise, tentou um discurso no programa pré-jogo, estranhamente
sem graça; ele foi abafado pelos gritos da torcida argentina, e esse foi um dos
poucos momentos do dia em que se pode dizer que houve um clima de futebol.
Este
torneio rasgou, alterou e dilacerou a essência do futebol. Talvez a visão entre
os aliados de Infantino seja a de que toda publicidade pode ser otimizada,
aprimorada, amplificada e incutida na mente dos descrentes a aparência moderna,
extravagante e ostentosa do esporte. A entidade máxima do futebol certamente
conseguiu imprimir sua marca no público americano, cuja parcela pareceu
acreditar, durante todo o verão, que o torneio se chamava alguma variação de
"FIFA". Mas o caso Folarin Balogun causou danos
incalculáveis à
confiança nos mecanismos da Fifa, para não
mencionar suas proclamações de neutralidade política.
Testou a paciência de pessoas influentes no futebol, cuja lealdade
talvez antes fosse inquestionável, embora não
o suficiente para impedir a certeza de que Infantino será
reeleito com uma vitória esmagadora em março. De maneira
igualmente preocupante, ensina aos recém-chegados ao esporte
que qualquer resultado está em jogo se as relações
relevantes estiverem presentes. Trump não escondeu que
gostaria de obter o status de sede exclusiva para os EUA em breve. É improvável
que a cooperação entre ele e Infantino se reduza ao nível de amigos que jogam
golfe. Na próxima data disponível, em 2038, seu país poderá estar sediando o
equivalente, pelo menos em termos éticos, dos Jogos Olímpicos de Inverno.
Por
ora, o jogo segue seu curso, mesmo que a maior parte da final tenha sido
arrastada até que, com a tarde se transformando em início de noite, Ferran
Torres confirmou a supremacia da Espanha. A história de Cabo Verde, e
particularmente a de seu goleiro Vozinha, foi memorável. Lionel Messi, Erling
Haaland, Kylian Mbappé e Jude Bellingham fizeram o que estrelas devem
fazer. A Bélgica destruiu uma seleção
americana até então simpática nas oitavas de final, o que significa
que a permanência de Balogun na primeira divisão, pelo menos, não teve
consequências materiais. Para além do escândalo e da vergonha, houve lembretes
genuínos do que uma Copa do Mundo pode promover.
Cidades como Kansas City e Houston se deleitaram em estender o tapete vermelho
para torcedores, seleções e outros visitantes que as utilizavam como bases. A
hospitalidade e a generosidade foram sinceras, muitas vezes desarmantes. Do exterior,
foi fácil associar os Estados Unidos à imagem negativa de seu governo. Mas os
seres humanos são essencialmente bons, gentis e curiosos. Viajar pelos EUA por
um longo período ofereceu uma rara oportunidade de relembrar isso.
Os
Estados Unidos são grandes o suficiente, suas comunidades imigrantes
suficientemente engajadas e seus postos avançados mais remotos suficientemente
dispersos, de modo que evidências deste torneio poderiam ser encontradas em
todos os lugares e em lugar nenhum. No Canadá, o mesmo se aplicava, em maior ou
menor grau. O México proporcionou a injeção de paixão futebolística pura e
genuína. Ofereceu o melhor estádio do verão, o incomparável Azteca, e deveria
ter sediado partidas além das oitavas de final. O receio é que não tenha outra
chance.
A Fifa
e Infantino se sentirão encorajados pela receita de US$ 15 bilhões , que superou
significativamente suas projeções. Na prática, havia pouco risco de não
revelarem um grande sucesso. A sede por algo maior e melhor que consome
Infantino significa que há pouca chance de redução a partir de agora. Um torneio com 64 seleções agora foi
legitimado como ponto de discussão. Talvez, quando isso for implementado, o
futebol internacional fora da Europa já tenha encontrado uma maneira de
florescer. É um problema que Argentina e Marrocos tenham sido os únicos
representantes de outros continentes além das oitavas de final. E assim
termina, então, a Copa do Mundo que devorou dinheiro, recursos, tempo de antena e atenção
como nunca antes. Enquanto Infantino e Trump se despediam, um Messi emocionado
estava diante da torcida argentina. Ali, finalmente, estava o tipo de momento
intensamente humano que faltava ao evento. Uma era se encerra para o maior
jogador de futebol de todos os tempos e para os torcedores que transformam cada
aparição sua em uma vibrante homenagem. Este foi o mês
em que um esporte inteiro pareceu entrar em uma nova dimensão própria.
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Fonte:
Sputnik Brasil/Agencia Pública/The Guardian

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