Caserna:
o que Lula decidiu não enfrentar
Em 22
de junho, um ofício do Ministério da Defesa chegou à Câmara dos Deputados com
uma linha discreta e devastadora: o submarino de propulsão nuclear Álvaro
Alberto, que o cronograma de 2008 mandava entregar em 2025, só será lançado ao
mar em 2038. A Marinha justificou o atraso de treze anos com duas expressões de
contabilidade — indisponibilidade de recursos, ausência de previsibilidade
orçamentária. No mesmo documento, detalhou o Projeto Latam, parceria com a
França para vender aos vizinhos sul-americanos os submarinos convencionais
montados em Itaguaí. O país que não conseguiu terminar o seu já organiza a
prateleira de exportação.
Não é
anedota administrativa. É a forma brasileira de fazer soberania: um projeto de
quase cinquenta anos, nascido no programa nuclear secreto da ditadura,
sustentado por um punhado de almirantes contra a resistência da própria força,
quase soterrado quando a Lava-Jato prendeu seu criador, hoje convertido em
bandeira institucional sem data de chegada. O reator segue em testes em Iperó.
A base para abrigar os submarinos, essa sim, está pronta.
Quem
reconstruiu essa história peça por peça foi João Roberto Martins Filho — e a
reconstruiu porque pratica há quatro décadas a única coisa que a caserna não
perdoa: a leitura sistemática de papel. Formado, mestre e doutor pela Unicamp,
ensina na Universidade Federal de São Carlos desde 1988, onde é professor
titular sênior.
Sua
tese de doutorado, publicada como O palácio e a caserna, desmontou o mito mais
confortável sobre 1964-1985: o de que os fardados agiam como bloco. A ditadura
viveu de crises internas, e foram elas — não a oposição civil — que decidiram
seus momentos capitais. É a mesma chave que ele aplica ao presente, ao
descrever a fratura no Alto Comando depois da eleição de 2022.
Nos
arquivos britânicos que garimpou em Londres como titular da Cátedra Rio Branco
no King’s College — depois de temporadas de pesquisa em Oxford, na Califórnia e
de duas passagens pela Cátedra Rui Barbosa em Leiden —, encontrou o que a
diplomacia de Sua Majestade preferia esquecer. Entre dezembro de 1970 e
fevereiro de 1971, quatro oficiais do SNI e do Centro de Informações do
Exército foram convidados a estagiar na Inglaterra. Voltaram com um método:
interrogatório de até 58 horas sem pausa, privação de sono, ruído contínuo,
choque térmico. É a origem da geladeira, citada por dezenas de ex-presos
políticos do DOI-Codi da rua Barão de Mesquita. O resultado virou Segredos de
Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil (1969-1976) — e continua
rendendo. Em abril, quando o relatório manuscrito daquele estágio veio a
público, foi Martins Filho quem o apontou como a prova mais importante já
surgida da colaboração inglesa com a ditadura. Seu autor, o coronel Cyro Guedes
Etchegoyen, tio do general Sérgio Etchegoyen, comandaria a Casa da Morte de
Petrópolis pouco depois de desembarcar de Londres.
Da
mesma pasta saiu outra descoberta, menos citada e mais reveladora do caráter do
regime: em 1978, Londres se ofereceu para investigar a fraude na compra das
fragatas Vosper e devolver ao Brasil ao menos 500 mil libras. A ditadura
recusou o dinheiro e barrou os investigadores. Preferiu o prejuízo ao
inquérito.
Meio
século depois, o almirante que pôs a Marinha à disposição do golpe cumpre 24
anos numa estação de rádio da própria força. O general que pressionou os
comandantes a aderir à ruptura está na Vila Militar. Seis oficiais das forças
especiais entraram em regime fechado em março. A casa foi arrumada — e a
pergunta que Martins Filho devolve nesta entrevista é justamente essa: arrumada
por quem, e para quê.
Criador
do Arquivo de Política Militar Ana Lagôa e primeiro presidente da Associação
Brasileira de Estudos de Defesa, ele não oferece consolo. Nada mudou na
mentalidade militar, diz, nem nos pontos críticos da relação entre civis e
fardados. O tema já voltou ao segundo plano. Até a próxima crise.
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Eis a entrevista
• Em seus trabalhos sobre o PROSUB, o
senhor analisa a Marinha como a força que melhor maneja o segredo. O submarino
nuclear é um projeto de soberania nacional ou uma “ilha de autonomia”
tecnológica que serve mais à manutenção de uma elite naval do que ao desenvolvimento
industrial do Brasil?
O
projeto do submarino tem uma trajetória de quase 50 anos. Originou-se do
Programa Nuclear Secreto da ditadura militar. Deve-se fundamentalmente à
iniciativa do então comandante Othon, que contou, já no governo civil, com o
apoio de personagens-chave na Marinha, como o almirante Flores. O projeto nunca
foi consenso dentro da força. O presidente Lula o retomou. Com a Operação
Lava-Jato e a prisão do almirante Othon quase foi destruído. Há já alguns anos
foi assumido pela Marinha como projeto de soberania nacional. Não há dúvida de
que a posse de um submarino de propulsão nuclear seria um grande salto para a
defesa nacional, pois sua capacidade de não ser identificado e de permanecer
longos períodos sem vir à tona seria um dissuasor considerável, inclusive pela
capacidade de disparar mísseis. Mas não há previsão de conclusão do projeto,
mesmo depois da assinatura do acordo com a França que construirá seu casco. A
base onde ficarão os submarinos já está concluída. O projeto do reator é
desenvolvido em Iperó, SP.
• Cruzando suas pesquisas sobre a
influência britânica na inteligência brasileira com o cenário atual, o senhor
vê um “DNA” de contrainsurgência estrangeira ainda operando na medula das
unidades de Forças Especiais (Kids Pretos)?
É
impossível falar em DNA de contrainsurgência estrangeira entre dois processos
tão diferentes. O contexto da influência francesa no ideário da ditadura
militar brasileiro, com a doutrina da guerra revolucionária é na sua origem o
da guerra colonial na Argélia, na segunda metade dos anos 50. Mais ou menos à
mesma altura a Inglaterra começou a desenvolver métodos de interrogatório que
foram exportados ao Brasil. As ideias francesas chegaram ao Brasil no final dos
anos 1950; os métodos ingleses em 1971, quando foram construídas três salas de
tortura no Doi-Codi do Rio de Janeiro. Ambas essas influências se deram no
contexto da Guerra Fria e do combate à luta armada no Brasil. Os kids pretos
estão colocados em outro contexto. Não sabemos muito sobre as doutrinas que
desenvolveram, mas certamente não estão ligadas ao combate à luta armada.
• Por que os currículos da AMAN e da
EsPCEx permanecem como o muro mais impenetrável da República? É possível uma
reforma democrática do ensino militar que não seja interpretada como uma
“agressão externa” à identidade da classe?
Não sei
se são o muro mais impenetrável da República, mas como digo abdico esse é um
dos pontos críticos que Lula resolveu não enfrentar. E não se trata apenas de
mudar currículos, mas de mudar uma cultura militar propensa a justificar o
papel de força moderadora dos militares.
• O senhor criou o arquivo que leva o nome
de Ana Lagôa. Olhando para a cobertura atual, o jornalismo brasileiro está mais
ou menos equipado para decifrar a caserna do que na transição da década de 80?
Mais
uma vez, são contextos diferentes. Entre 1964 e 1985, o regime era uma ditadura
militar e os jornais tinham que contar com especialistas em militares. Os
centros de poder não eram, como hoje, o Executivo civil, o Congresso e o STF,
mas o Alto Comando das FFAA, o Conselho de Segurança Nacional e o Serviço
Nacional de Informações, ou SNI. Não por acaso a jornalista Ana Lagôa publicou
um livro sobre este órgão. Havia no Estadão um dos maiores especialistas em
Forças Armadas, o Oliveiros Ferreira. Com o fim da ditadura, como era de
esperar, o interesse pelo militares diminuiu. E estava no máximo de
desinteresse quando surgiu a candidatura Bolsonaro, em 2018. Com a vitória
dele, os especialistas acadêmicos detinham um conhecimento raro e por isso
fomos tão solicitados nos anos seguintes. Mas logo se formou uma nova geração
de jornalistas capaz de entender os meandros da caserna. Hoje o tema voltou a
ficar em segundo plano. Até a próxima crise.
• O governo Lula III optou pela
conciliação e pelo aumento de investimentos em defesa (PAC da Defesa). Essa
estratégia é capaz de domesticar o Partido Militar ou apenas financia sua
autonomia frente ao Estado?
Realmente,
ao nomear José Múcio para o Ministério da Defesa, Lula optou por uma via
conciliadora, como se não quisesse ter problemas nessa área, como ocorreu em
seus dois primeiros governos. Mas a conjuntura agora é nova, pois é posterior à
intensa participação de militares no apoio e mesmo coordenação da campanha de
Bolsonaro em 2018, desde a cúpula, onde estava o general Villas Bôas. Seguiu-se
a participação de militares aos milhares no governo e sua atuação círculo mais
próximo ao presidente. Ainda assim não me parece que houve um governo militar.
Os processos que quase levaram a um golpe, depois da eleição de Lula foram mais
decisivos. Houve uma divisão na cúpula do Exército, com ataques violentos a
generais que hoje comandam a força. Quem perdeu está hoje preso. Os generais
Tomás e Richard, ao lado de Múcio, se encarregaram de colocar ordem na casa a
fim de preservar a instituição. A Marinha se perdeu nesse processo, com a
atuação do almirante Garnier, que deve ter contado com a maioria do Conselho do
Almirantado. O brigadeiro Baptista Júnior ficou com o Exército, também com o
apoio da maioria do comando da FAB. Mas nada foi mudado na mentalidade militar
e nos pontos críticos das relações entre militares e civis.
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Um vocabulário do quartel
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Prosub
— Programa de Desenvolvimento de Submarinos, criado em 2008 a partir de acordo
com a França. Prevê quatro submarinos convencionais, o primeiro deles o
Riachuelo, e um de propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, montados no complexo
naval de Itaguaí. O casco vem de projeto francês; o reator é inteiramente
brasileiro.
Aramar
— Centro Experimental da Marinha em Iperó, interior de São Paulo. Ali funciona
o Labgene, protótipo em terra do sistema de propulsão nuclear. Enquanto ele não
for certificado, o submarino não navega.
Othon e
Flores — O almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva concebeu o programa nuclear
da Marinha no fim dos anos 1970 e o dirigiu por décadas; foi preso em 2015, na
Lava-Jato. O almirante Mário César Flores, ministro da Marinha no governo
Collor, sustentou o projeto com o orçamento da própria força quando Brasília
cortou os repasses.
Guerre
révolutionnaire — Doutrina formulada por oficiais franceses na guerra colonial
da Argélia, nos anos 1950. Desloca o inimigo para dentro do próprio país e
converte a tortura em técnica de obtenção de informação. Chegou ao Brasil no
fim daquela década e moldou o vocabulário da repressão.
A
geladeira — Cela de temperatura manipulada, ruído contínuo e luz permanente.
Três delas foram construídas em 1971 no DOI-Codi do Rio de Janeiro, na rua
Barão de Mesquita. A técnica derivava do treinamento britânico, aplicado na
mesma época contra prisioneiros do IRA na Irlanda do Norte.
Kids
pretos — Oficiais das Forças Especiais do Exército, criadas em 1957 e hoje com
cerca de 2.500 integrantes; o apelido vem do gorro preto. Do grupo saiu o plano
Punhal Verde e Amarelo, que previa matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes em
dezembro de 2022.
Fonte:
Por João Roberto Martins Filho em entrevista a Thiago Gama, em Outras Palavras

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