A
Copa do Mundo da política: quando a bola revela o estado do mundo
A
vitória da Espanha sobre a Argentina por 1 a 0, na final disputada em Nova
Jérsei, coroou uma geração que alia talento, juventude e diversidade,
encerrando um torneio que ficará marcado tanto pelo espetáculo esportivo quanto
pelas intensas disputas políticas travadas fora das quatro linhas.
Realizada
em meio a um cenário internacional de guerras, tensões geopolíticas e
recrudescimento da extrema direita, a Copa jamais poderia ser apenas futebol. O
torneio foi organizado em um dos períodos mais conturbados da política
internacional, com conflitos armados ainda em curso no Oriente Médio, na
Ucrânia e em outras regiões, enquanto o governo Donald Trump transformava o
Mundial em uma vitrine de seu projeto nacional imperialista.
Desde
antes da abertura, a Copa já estava cercada por polêmicas envolvendo restrições
migratórias, dificuldades para emissão de vistos, denúncias de interferências
políticas e críticas ao tratamento dado a torcedores e delegações estrangeiras.
A presença constante de Donald Trump ao lado do presidente da FIFA, Gianni
Infantino, reforçou a percepção de que o maior evento esportivo do planeta
estava sendo utilizado também como instrumento de afirmação política.
Foi a
pior copa. Tecnicamente, NENHUMA equipe ou tática sobressaiu. Foi a copa da
desonestidade, da fraude e da corrupção. Piores exemplos: Trump mandando a Fifa
anular o cartão vermelho do jogador dos USA, a discriminação à seleção do Irã e
o juízes mancomunados com a Argentina e condescendentes com Messi.
A
própria final sintetizou essa mistura entre esporte e poder. Trump foi alvo de
vaias durante a cerimônia de premiação e protagonizou mais um momento
controverso ao permanecer no gramado durante a celebração espanhola, rompendo o
protocolo habitual da FIFA. A imagem repercutiu mundialmente e tornou-se
símbolo da tentativa de transformar uma conquista esportiva em espetáculo
político.
A
Espanha apresentou uma seleção que representa o futebol do século XXI. Jovens
atletas como Lamine Yamal e Nico Williams – filhos da imigração africana –
tornaram-se protagonistas de uma equipe cuja identidade expressa a diversidade
da sociedade espanhola contemporânea. Ao lado de jogadores experientes,
construíram um futebol coletivo, técnico e disciplinado, derrotando uma
Argentina que chegou à decisão impulsionada pela tradição e pela experiência de
Lionel Messi, além de favorecimentos.
Não
deixa de ser simbólico que justamente uma seleção formada por atletas
descendentes de imigrantes tenha levantado a taça em um país cujo governo
insiste em endurecer discursos contra a imigração.
Nos
últimos anos, jogadores e torcedores da Argentina foram investigados e
evidenciados como racistas por cantos discriminatórios e manifestações
ofensivas. Trata-se de uma discussão que ultrapassa o futebol e dialoga com a
dificuldade histórica da sociedade argentina em reconhecer plenamente sua
diversidade étnica e racial.
Isso
evidentemente não autoriza generalizações sobre todo o elenco ou toda a torcida
argentina, uma vez que o racismo é uma luta do mundo inteiro, mas evidencia que
o combate ao racismo permanece como um desafio importante para o futebol
mundial, inclusive para uma das seleções mais tradicionais do planeta.
Curiosamente,
a Espanha também conhece esse problema. O país foi palco de diversos ataques
racistas contra Vinícius Júnior nos últimos anos. A diferença é que tais
episódios desencadearam amplo debate público, mobilizaram jogadores, clubes,
entidades esportivas e parte significativa da sociedade espanhola em defesa do
enfrentamento ao racismo. Ainda insuficiente, essa reação demonstra que o tema
passou a ocupar lugar central na agenda esportiva e política do país.
A Copa
do Mundo de 2026 ficará registrada não apenas pelo título da Espanha, mas
também por um conjunto de problemas que colocam em debate os rumos do futebol
mundial. Foi, salvo algumas exceções, uma Copa de baixa qualidade técnica. O
predomínio do vigor físico sobre a criatividade tornou as partidas
excessivamente truncadas e violentas. Faltas duras, “camas de gato”,
interrupções constantes e um jogo cada vez mais baseado na força pareceram
naturalizados pela arbitragem, em detrimento do futebol de talento e
improvisação que historicamente encantou o mundo.
Antes
da mercantilização e da intensa internacionalização do futebol, as Copas do
Mundo representavam um verdadeiro encontro entre seleções nacionais. Cada país
levava ao torneio não apenas seus melhores jogadores, mas uma identidade
própria construída ao longo de décadas. Eram estilos de jogo distintos,
diferentes concepções táticas, formas particulares de organizar a equipe e
maneiras singulares de compreender o futebol. Era justamente essa diversidade
que fazia de cada Copa um espetáculo único.
Essa
identidade não surgia por acaso. Ela era resultado do desenvolvimento dos
campeonatos nacionais e, em muitos países, também dos campeonatos regionais. No
Brasil, por exemplo, os torneios estaduais e o campeonato nacional
desempenhavam um papel fundamental na formação da cultura futebolística. Era
nesse ambiente que se consolidavam características técnicas, estilos de jogo,
estratégias e formas de atuar que, posteriormente, eram expressas pela seleção
brasileira.
Os
campeões nacionais refletiam essa cultura construída coletivamente. Deles
emergiam jogadores, esquemas táticos e concepções de futebol que davam
identidade à seleção do país. Assim, uma seleção nacional era, em grande
medida, a síntese daquilo que seus campeonatos haviam produzido: a expressão
mais acabada da cultura futebolística nacional.
Com a
crescente internacionalização do mercado, esse processo foi sendo enfraquecido.
A circulação precoce de jogadores pelo futebol europeu e a lógica mercantil
transformaram as seleções em agrupamentos dos melhores atletas espalhados pelo
mundo, reduzindo o vínculo entre o futebol praticado nos campeonatos nacionais
e a identidade apresentada nas Copas do Mundo. Com isso, perde-se parte da
riqueza que fazia do Mundial um verdadeiro encontro entre diferentes escolas de
futebol.
Além da
pobreza técnica, o torneio esteve cercado por uma atmosfera política que
extrapolou os gramados. Realizada nos Estados Unidos sob a presidência de
Donald Trump, a competição revelou uma FIFA cada vez mais subordinada aos
interesses econômicos e políticos que dominam o futebol internacional.
A
entidade, frequentemente acusada de agir como uma verdadeira máfia do esporte,
voltou a ser alvo de questionamentos por sua falta de transparência e pela
influência de grupos de poder em suas decisões. Entre os dirigentes da CDB mais
influentes encontra-se, inclusive, um dos filhos do ministro do Supremo
Tribunal Federal Gilmar Mendes, evidenciando como as redes políticas e
econômicas atravessam a administração do futebol mundial.
Também
chamou atenção o elevado número de erros de arbitragem. Mesmo com toda a
tecnologia disponível, incluindo o VAR, multiplicaram-se decisões controversas,
muitas delas difíceis de compreender apenas como equívocos técnicos. Em
diversos momentos, a sensação foi de que determinadas interpretações
favoreceram equipes específicas, alimentando suspeitas sobre a condução da
competição e comprometendo a credibilidade do torneio.
Nem
mesmo as manifestações políticas escaparam desse ambiente de controle. Quando
Donald Trump foi vaiado durante a cerimônia da final, as transmissões oficiais
evitaram registrar plenamente a reação do público. É inevitável perguntar qual
teria sido a repercussão caso as manifestações fossem de apoio. O episódio
reforça a percepção de que até a narrativa do espetáculo esportivo passou a ser
cuidadosamente administrada.
A Copa
também evidenciou uma transformação mais profunda no próprio conceito de
seleção nacional. A crescente internacionalização do futebol faz com que muitos
atletas deixem seus países ainda muito jovens para atuar no exterior. Embora
isso eleve o nível competitivo individual, enfraquece características
historicamente construídas pelas escolas nacionais de futebol. As seleções
deixam de refletir plenamente a identidade futebolística de seus países para se
aproximarem de uma reunião dos melhores jogadores que atuam em grandes centros
internacionais.
O
Brasil talvez seja o maior exemplo desse processo. Houve um tempo em que
Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Fluminense, Santos, São Paulo, Internacional,
Grêmio e tantos outros mantinham em seus elencos os principais jogadores do
país, permitindo que o futebol brasileiro desenvolvesse uma identidade própria,
técnica, criativa e ofensiva. A saída cada vez mais precoce dos talentos para o
exterior afeta diretamente a formação de base, enfraquece o campeonato nacional
e dificulta a construção de uma seleção que expresse as características
históricas do futebol brasileiro.
Em
1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato, eu estava encarcerado pela
ditadura. Soube dos resultados, mas não vi os jogos. Naquelas circunstâncias, o
futebol era indiferente diante da realidade que vivíamos. A prisão, a repressão
e a luta pela sobrevivência anulavam qualquer possibilidade de entusiasmo.
Talvez
por isso, as Copas do Mundo sempre tenham despertado em mim um sentimento
ambíguo. Elas trazem o gosto da memória, da brasilidade e de um passado em que
o futebol representava muito mais do que um negócio. Mas, ao mesmo tempo, essa
lembrança vem acompanhada da percepção de tudo aquilo em que o esporte foi-se
transformando: corrupção, violência crescente, manipulações e interesses
econômicos cada vez mais evidentes.
Nesta
Copa isso ficou particularmente visível. O futebol tornou-se excessivamente
físico. O que antes era considerado falta grave hoje muitas vezes é tratado
como parte do jogo. A preocupação deixou de ser disputar a bola e passou a ser
neutralizar o adversário, interromper jogadas e impedir que o talento apareça.
A violência foi naturalizada.
Não é
novidade que o futebol movimenta uma das maiores engrenagens de dinheiro do
planeta. Ao lado da paixão popular convivem esquemas financeiros bilionários,
interesses empresariais e mecanismos de lavagem de dinheiro que há décadas
cercam o esporte. Formou-se uma elite de jogadores que, embora em sua maioria
tenha origem nas periferias e nas camadas populares, raramente desenvolve uma
consciência social compatível com essa trajetória.
Confesso
que me esforço para manter vivo o encantamento. A brasilidade pulsa dentro de
mim, e o futebol faz parte dessa identidade. Mas a promiscuidade entre
negócios, corrupção, interesses privados e o domínio absoluto do mercado sobre
o esporte dificultam esse reencontro com a paixão de outros tempos.
Também
me preocupa profundamente o estado do futebol brasileiro. Hoje nossas
categorias de base formam jogadores cada vez mais adaptados aos esquemas
táticos modernos, mas mal começam a se destacar já são negociados para o
exterior. Tornaram-se mercadorias. Aos 17 ou 18 anos, muitos dos jovens que
despontam como futuros craques já deixam o país, alimentando os cofres dos
clubes compradores, dos empresários e do mercado internacional do futebol.
Esse
modelo pode enriquecer investidores e agentes, mas empobrece o futebol
brasileiro. Enfraquece nossos clubes, compromete a formação de uma identidade
nacional de jogo e esvazia o papel social que o futebol sempre desempenhou como
patrimônio cultural, espaço de pertencimento coletivo e expressão da
criatividade do povo brasileiro.
Talvez
por tudo isso esta Copa não tenha despertado em mim a emoção de outras épocas.
Continuo acreditando no futebol como manifestação da cultura popular. Mas é
cada vez mais difícil reconhecer esse futebol em um espetáculo dominado pelo
mercado, pelos interesses políticos e por uma lógica em que a mercadoria parece
valer mais do que o próprio jogo.
A Copa
de 2026 revelou as contradições do futebol contemporâneo: um esporte cada vez
mais globalizado, submetido aos interesses econômicos e políticos,
tecnologicamente sofisticado, mas, que, paradoxalmente, parece perder parte da
sua identidade, de sua espontaneidade e do encanto que o transformou.
A Copa
de 2026 mostrou que o futebol continua sendo um espelho da sociedade
internacional.
De um
lado, revelou a força da diversidade, da renovação geracional e do futebol
coletivo representados pela Espanha.
De
outro, expôs como nacionalismos exacerbados, discursos de intolerância e
tentativas de instrumentalização política do esporte continuam presentes,
inclusive no país anfitrião.
Não por
acaso, talvez a maior lição desta Copa não tenha sido o gol do título, mas
perceber que, no século XXI, nenhuma Copa do Mundo acontece isolada da
política.
Ela
reflete guerras, migrações, disputas ideológicas, conflitos culturais e
projetos de sociedade. A bola continua redonda. Mas o mundo que gira ao seu
redor está cada vez mais dividido.
Fonte:
Por Francisco Calmon, em Brasil 247

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