quarta-feira, 22 de julho de 2026

Visão impactada: catarata pode acometer pessoas de todas as idades

Antigamente descrita como opacificação da lente natural do olho, a catarata é uma degradação da qualidade óptica do cristalino. Essa condição bloqueia e distorce a passagem da luz, o que causa uma visão turva ou embaçada, e pode ter diversas causas, como diabetes, traumas oculares e exposição excessiva aos raios UVs. Na maioria dos casos, o fator de maior importância é o envelhecimento ocular e a senilidade dos olhos. No entanto, as operações cirúrgicas corretivas para catarata em pessoas mais novas têm aumentado nos últimos anos. 

Clécio Rodrigues, professor de história, relata que precisou fazer a cirurgia aos 52 anos após uma recomendação médica. "Usei óculos desde muito jovem, e estava querendo me livrar dele. Tinha uma catarata nível 1 evoluindo para nível 2, o médico me disse que algum dia eu precisaria fazer, então eu aproveitei", afirma ele, que não necessita mais do uso de óculos. 

Essas alterações na visão podem começar a ocorrer depois dos 40 anos, mas os sintomas mais graves se manifestam, geralmente, após os 60. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio do Relatório Mundial sobre a visão (2024), 65 milhões de pessoas têm problemas associados à catarata, o que a torna uma doença muito comum e perigosa se não for tratada corretamente. 

O médico Bruno Fontes, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, afirma que o aumento das cirurgias de cataratas feitas entre uma parcela mais jovem não se dá pela mudança de hábitos, por exemplo, o uso abundante de telas, mas, sim, pela tecnologia de excelência empregada nas operações. "A cirurgia atualmente é de alto nível, podendo ser empregada em correções de graus em pessoas com mais de 55 anos de idade. Então, não é preciso esperar a condição amadurecer."

Além disso, o oftalmologista relembra que, com o aumento da expectativa de vida da população, é normal que a maioria das pessoas busque tratar suas condições antes para conseguir envelhecer com uma melhor qualidade de vida. 

Para casos de pessoas com diabetes ou que fazem uso de medicamentos com corticoides, a formação de catarata precoce é mais recorrente. O restante da população pode tomar certas atitudes que retardam o acontecimento dessa doença, como o uso de óculos de Sol quando há a exposição direta. "Apesar do avanço da tecnologia, não existem ainda mecanismos que consigam retardar efetivamente esse quadro", afirma Bruno. 

<><> Sintomas 

Os sinais na visão da pessoa variam conforme o tipo de catarata. Mas os mais comuns são:

- Diminuição da clareza visual

- Dificuldade para enxergar — principalmente para dirigir, ler e andar

- Visão duplicada ou embaçada

- Sensibilidade à luz

- Alteração das cores — perdem o brilho

- Mudanças rotineiras no grau dos óculos

<><> Diagnóstico 

Exames como lâmpada de fenda e mapeamento de retina, realizados por um oftalmologista, conseguem avaliar a transparência do cristalino e verificar a existência ou não da catarata no olho do paciente. Recomenda-se que esses exames sejam feitos anualmente por pessoas com mais de 65 anos, e uma vez a cada dois anos por pessoas mais jovens. 

<><> Tratamento 

A única forma de retirada da catarata é por meio de cirurgia, que consiste na substituição do cristalino por uma lente intraocular. 

<><> Recuperação 

A operação dura entre 15 e 30 minutos e o paciente retorna para casa no mesmo dia, seguindo as recomendações médicas de repouso e uso de colírios. Importante lembrar que cada olho é feito em um dia, para que o paciente consiga recuperar um dos lados e evitar infecções. 

>>>> Palavra do especialista - Carlos José de Souza é cirurgião oftalmológico 

·        Os sintomas vistos em pessoas mais jovens são diferentes dos vistos em pessoas idosas? 

No tocante à manifestação da catarata, quando se trata do envelhecimento natural do cristalino, pacientes mais idosos tendem aos sintomas de embaçamento progressivo e dificuldade para visualização em geral, independentemente da distância. Entretanto, pacientes jovens também podem desenvolver opacidade e reportar sintomas semelhantes, muitas vezes negligenciados em consultas de rotina, mas que, diante do especialista, conclui-se tratar de catarata.

·        O olho, quando mais jovem, possui tecidos mais elásticos e a cápsula do cristalino é mais resistente. Nesse sentido, a cirurgia torna-se facilitada ou mais complexa? 

Embora o aparelho utilizado para remoção da catarata seja o mesmo, independentemente da idade, devido ao grau de opacidade do cristalino ser menor em pacientes jovens, o cirurgião geralmente necessita de menos energia do aparelho no processo cirúrgico.

·        Muitas pessoas têm procurado a cirurgia de catarata devido a tecnologia dela para, por exemplo, a correção do grau. Essa busca pode ser feita ou o procedimento deve ser realizado somente em casos de catarata?

Até pouco tempo atrás, a cirurgia de catarata encontrava indicação apenas em casos de opacidade do cristalino, mais comum em pacientes idosos. Porém, com o avanço da tecnologia na área oftalmológica, principalmente nos aparelhos que auxiliam o cirurgião na remoção do cristalino, bem como nas lentes intraoculares que devolvem a qualidade visual, a cirurgia torna-se uma excelente opção para disfunções do cristalino que manifestem graus, mesmo que sem opacidade considerável.

¨      Brasil tem 10 milhões de crianças com catarata

Apesar de ser muito comum em pessoas com idade acima de 50 anos, a catarata não é uma doença que acomete apenas os adultos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a cada 3 mil crianças nascidas vivas, uma apresenta a doença. Para ter uma ideia, no Brasil, estima-se que cerca de 10 milhões de crianças tenham essa doença, conhecida como catarata infantil congênita.

De acordo com o oftalmologista Thiago Pacini, essa condição pode interferir no desenvolvimento visual da criança. "Ao nascer, o bebê não tem a visão desenvolvida como a de um adulto e isso pode causar danos futuros caso não seja identificada e tratada imediatamente", enfatiza o médico, que tem mais de 15 anos de experiência no tratamento da doença. "Isso pode ocorrer em qualquer época da vida e, quando acontece na infância, é denominada catarata infantil. Caso ela esteja presente desde o nascimento, chamamos de catarata congênita", complementa.

O especialista explica que a catarata ocorre quando o cristalino perde sua transparência. Esse cristalino é como se fosse uma lente transparente localizada dentro do olho, responsável por dar foco às imagens.

Segundo Pacini, os fatores responsáveis são herança genética, infecção, problemas metabólicos, inflamações e até reações a medicamentos são alguns dos motivos que podem levar o recém-nascido a ter a patologia. "Existe a possibilidade de mãe desenvolver infecções como sarampo ou rubéola, por exemplo, durante a gravidez, e isso influenciar na catarata do bebê", informa.

O diagnóstico é feito por meio de teste do reflexo vermelho por um oftalmologista. Quando há uma alteração no reflexo vermelho, há suspeita de catarata infantil. Porém, nem sempre há a necessidade de tratamento. No entanto, em alguns casos, quando atrapalha a visão, é necessária a cirurgia que consiste em retirar o cristalino opaco e substituir por outro.

De acordo com a idade e do caso, pode ser inserida uma lente intraocular na primeira cirurgia. Depois, são prescritos óculos para correção de grau elevado pela falta de cristalino.

<><> Detecção precoce

Thiago Pacini recomenda exames anuais a partir dos sete anos. A detecção precoce é fundamental, pois a catarata infantil, se não tratada, pode levar à ambliopia (olho preguiçoso) e comprometer permanentemente a visão. Programas de triagem em escolas e unidades de saúde são essenciais para identificar casos precoces, permitindo uma intervenção rápida e adequada.

Apesar dos desafios, avanços médicos têm proporcionado tratamentos eficazes para a catarata infantil. Cirurgias pediátricas especializadas, muitas vezes realizadas com técnicas minimamente invasivas, oferecem uma perspectiva positiva para crianças diagnosticadas com essa condição.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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