quarta-feira, 22 de julho de 2026

Depois de Gaza, quem representa a Palestina?

Os mais de mil dias de guerra contra Gaza não destruíram apenas cidades, hospitais e campos de refugiados. Também expuseram o esgotamento de uma arquitetura política construída há mais de três décadas sob os Acordos de Oslo.

Enquanto o povo palestino enfrenta talvez o momento mais dramático de sua história desde a Nakba de 1948, suas instituições nacionais permanecem fragmentadas, envelhecidas e incapazes de expressar a pluralidade política da sociedade palestina e das forças que protagonizam a resistência à ocupação.

Trinta anos após Oslo, não existe Estado palestino, a colonização da Cisjordânia acelerou-se, Jerusalém Oriental sofre um processo contínuo de anexação de facto e Gaza foi submetida a sucessivas guerras e a um bloqueio devastador.

O processo político que deveria conduzir à independência acabou administrando uma ocupação cada vez mais consolidada.

Nesse contexto, Mahmoud Abbas tornou-se o principal símbolo da estagnação institucional. Presidente da Autoridade Palestina desde 2005, permanece no cargo sem renovar seu mandato por meio de eleições presidenciais.

O Conselho Legislativo Palestino continua paralisado, as eleições foram sucessivamente adiadas e acumulam-se críticas, tanto entre setores da sociedade palestina quanto em análises internacionais, relacionadas à corrupção, ao clientelismo, ao nepotismo e à ausência de reformas estruturais.

O resultado é uma crescente crise de legitimidade das instituições surgidas em Oslo.

Entretanto, reduzir essa crise à figura de Abbas seria simplificar um problema muito mais profundo. A questão central deixou de ser apenas quem dirige a Autoridade Palestina.

O debate que emerge entre intelectuais, organizações políticas e diversos setores da sociedade palestina diz respeito à própria reconstrução do movimento nacional palestino e à redefinição das instituições encarregadas de representá-lo.

Nesse debate, há um fato político incontornável.

O Hamas venceu as últimas eleições legislativas realizadas em 2006, obtendo uma maioria que jamais foi submetida novamente ao julgamento das urnas.

Desde então, consolidou-se como um dos principais protagonistas da política palestina, tanto pela sua capacidade de organização social quanto por seu papel na resistência e nas negociações envolvendo cessar-fogo, troca de prisioneiros e a administração de Gaza.

Independentemente das divergências em torno do movimento, sua exclusão de qualquer rearranjo institucional dificilmente contribuirá para uma representação nacional mais ampla.

O mesmo raciocínio aplica-se à Jihad Islâmica Palestina.

Embora historicamente tenha permanecido fora da disputa eleitoral, sua influência política e militar nos territórios ocupados, particularmente na Cisjordânia, tornou-se um componente relevante da realidade palestina contemporânea. Ignorar esse peso político significa desconsiderar parte expressiva da dinâmica interna da resistência palestina.

O próprio Fatah enfrenta desafios semelhantes. As disputas internas, a marginalização de lideranças históricas e a concentração das decisões em torno da atual direção enfraqueceram a organização que durante décadas liderou o movimento nacional palestino.

Também nesse caso, diferentes vozes palestinas têm defendido processos de renovação capazes de recuperar sua representatividade e fortalecer sua contribuição para um projeto nacional comum.

À luz desses elementos, torna-se difícil imaginar que a simples convocação de eleições, sem um entendimento político mais amplo, seja suficiente para superar a atual crise de legitimidade.

Diversos analistas e dirigentes palestinos têm sustentado que a reconstrução institucional passa necessariamente pela reforma da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), pela incorporação das principais forças políticas que hoje permanecem à margem de suas estruturas e pela reintegração da diáspora ao processo decisório nacional.

Mais do que uma disputa entre facções, a Palestina enfrenta hoje uma crise de representação.

A guerra em Gaza evidenciou que o paradigma político inaugurado por Oslo dificilmente oferece respostas aos desafios do presente.

A questão que emerge das ruínas de Gaza já não diz respeito apenas ao futuro da Autoridade Palestina nem à sucessão de Mahmoud Abbas.

A pergunta que atravessa todo o movimento nacional palestino é outra: como reconstruir uma representação política capaz de unir um povo disperso entre Gaza, Cisjordânia, Jerusalém, os campos de refugiados e a diáspora.

A resposta a essa pergunta poderá definir não apenas o futuro das instituições palestinas, mas o próprio futuro da causa nacional.

¨      Ministros israelenses marcham com colonos por ocupação de Gaza; ataques continuam

Vários ministros do governo israelense e membros do Parlamento da coalizão governista marcharam neste domingo (19/07) ao lado de milhares de colonos em direção à Faixa de Gaza para exigir o repovoamento israelense do enclave palestino.

A mobilização, chamada “Marcha dos Milhares”, foi convocada pelo movimento de colonos de Nachala sob o lema “De volta para casa depois de 21 anos”, em alusão à evacuação israelense de 21 assentamentos em 2005.

O Canal 12 de Israel informou que o protesto atraiu “mais de 10.000 pessoas” que tentaram cruzar a fronteira de Gaza gritando “chegou a hora do retorno dos assentamentos judaicos”. Dezenas de participantes contornaram as barreiras policiais e avançaram a pé em direção à fronteira pela área da praia e pelas colinas próximas, segundo o jornal Haaretz.

A incursão civil ocorreu apesar de o Exército israelense ter revogado a autorização para o evento minutos antes do seu início previsto. O Times of Israel confirmou que a proibição militar não impediu a participação do Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, um político de extrema-direita, ou do Ministro da Economia, Nir Barkat, membro do partido Likud do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu.

Nachala noticiou que um total de 28 ministros e membros da coligação governamental participaram na manifestação. A organização é liderada por Daniella Weiss, uma figura sancionada pela União Europeia, Canadá e Reino Unido devido às suas declarações a favor do extermínio dos palestinos na Faixa de Gaza.

Segundo os organizadores da marcha, a mobilização foi uma resposta aos recentes anúncios do Ministro da Defesa, Israel Katz, sobre a construção de três bases militares no enclave, plano posteriormente esclarecido pelo próprio ministério, que afirmou não envolver o estabelecimento de assentamentos civis. Smotrich declarou em junho que Israel estava preparando um bloco de três assentamentos no norte de Gaza, aguardando a aprovação final de Netanyahu.

<><> Bombardeios mortais continuam na Faixa de Gaza

Simultaneamente à marcha, as Forças Armadas israelenses continuaram suas operações militares em território palestino. Um ataque aéreo israelense contra tendas pertencentes a pessoas deslocadas na área de Mawasi, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, resultou na morte de um civil identificado pelo Hospital Nasser como Osama Kamal Shahda Abu Taim.

O bombardeio, que ocorreu na passagem de Al Sinaa, também deixou dez feridos graves, a maioria crianças, que foram transferidas por equipes médicas do hospital de campanha de Al Kuwait. Os ataques israelenses contra Gaza deixam vítimas fatais, incluindo mulheres e crianças.

Na região norte da Faixa de Gaza, uma operação militar noturna no bairro de Al Zeitun, na Cidade de Gaza, deixou pelo menos duas pessoas mortas e três feridas, incluindo um menor de idade. Moradores locais relataram sobrevoos de helicópteros e tiroteios no setor leste, perto da chamada “linha amarela “, a fronteira onde as tropas de ocupação estão posicionadas.

Um morador da região confirmou que o Exército israelense enviou notificações telefônicas aos moradores alertando sobre uma incursão “limitada” e exigindo a evacuação das casas, localizadas nos 30% do território onde dois milhões de palestinos estão amontoados.

Apesar do cessar-fogo assinado há nove meses, Israel tem realizado ofensivas diárias na Faixa de Gaza, causando a morte de uma média de quatro pessoas por dia desde outubro passado. Após quase três anos de ofensiva, 80% dos edifícios da região estão destruídos ou danificados.

As tropas israelenses controlam ilegalmente 70% do território do enclave, ampliando sua área de ocupação em relação aos 53% que detinham na época do acordo de cessar-fogo. Imagens de satélite e denúncias de organizações internacionais demonstram a destruição completa da infraestrutura nas áreas sob controle israelense, ações classificadas como “genocídio” por um comitê independente de especialistas das Nações Unidas (ONU).

<><> Aumento da violência dos colonos na Cisjordânia

Na Cisjordânia ocupada, grupos de colonos israelenses perpetraram uma série de ataques contra comunidades palestinas, documentados pela agência de notícias oficial Wafa e pelo jornal Haaretz. Na cidade de Sinyil, nos arredores de Ramallah , colonos incendiaram um campo agrícola palestino, deixando uma grande área de terra carbonizada.

Este incidente ocorreu horas depois de outro grupo de colonos ter incendiado uma mesquita na cidade de Tuwani, um ato descrito pelos moradores como um pogrom.

As incursões de colonos, protegidos pelo Exército israelense, estenderam-se às aldeias de Deir Ibzi e Ein Arik. Em Surif, a noroeste de Hebron. Um idoso palestino ficou ferido e vários civis sofreram ferimentos leves após serem agredidos pelos agressores.

Colonos invadiram terras agrícolas com seu gado para destruir plantações nas aldeias de Al Maniya (perto de Belém) e Mahtush (a leste de Jerusalém), enquanto em Deir Bzeih invadiram as ruas do centro da cidade com rebanhos de ovelhas.

No contexto dessas hostilidades, as forças de segurança israelenses prenderam três palestinos durante uma incursão militar na aldeia de Imatin, a leste de Qalqilya.

Dezesseis prisioneiros palestinos recentemente libertados de centros de detenção israelenses tiveram que ser internados no Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir el-Balah, para exames médicos de emergência devido ao seu estado de saúde.

Essas ações coincidem com o financiamento sem precedentes do governo israelense para expandir os assentamentos no norte da Cisjordânia, uma estratégia já descrita por Smotrich como um esforço coordenado para enterrar definitivamente a viabilidade de um Estado palestino independente.

¨      Israel anuncia novos planos de assentamentos ilegais em Gaza e na Cisjordânia

Os ministros israelenses Israel Katz (Defesa) e Bezalel Smotrich (Finanças) anunciaram novos assentamentos ilegais na Faixa de Gaza e um amplo pacote de investimentos voltado à ocupação da Cisjordânia. As Forças de Defesa de Israel também declararam deter controle de cerca de 65% do território de Gaza, percentual superior ao previsto no acordo de cessar-fogo, mediado por Washington, no ano passado.

Analistas e organizações israelenses, ouvidas pelo jornal britânico The Guardian, afirmam que o objetivo das declarações é criar “fatos consumados”, antes de uma eventual mudança no cenário político do país, diante das eleições parlamentares, programadas para outubro deste ano. 

Ao Canal 14, Katz anunciou que pretende “estabelecer três postos avançados do Nahal, que também é uma entidade militar, em locais que eram [os assentamentos israelenses] no norte de Gaza”. Dror Etkes, fundador da organização Kerem Navot, explicou ao The Guardian que postos avançados deste tipo, de uso militar, funcionam como uma etapa preliminar da ocupação permanente. “Ao todo, dezenas de assentamentos israelenses na Cisjordânia foram estabelecidos dessa maneira”, declarou.

Segundo o vice-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, major-general Tamir Yadai, as forças israelenses passaram a controlar 65% da Faixa de Gaza. O percentual é superior aos 53% previstos no acordo de cessar-fogo firmado em outubro. “Não sei como descrever isso, a não ser como vitória, quando você controla 65% do território, quando você matou mais de 70.000 terroristas aqui”, declarou.

Yadai classificou como “terroristas” quase a totalidade dos mortos pelas forças israelenses ao longo de dois anos de guerra. Entre as mais de 73 mil vítimas do genocídio israelense, a imensa maioria é de civis, incluindo, mais de 21 mil crianças, mais de 10 mil mulheres com menos de 60 anos e cerca de 5 mil idosos.

Apesar do cessar-fogo, as agressões não cessaram desde então. Apenas entre esta sexta-feira e sábado, foram 14 mortes, incluindo oito registradas durante um bombardeio israelense contra um cortejo fúnebre, no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza.

<><> Cisjordânia ocupada

Já o ministro Smotrich, responsável pelas Finanças israelenses, anunciou a liberação de 1,3 bilhão de shekels (cerca de US$ 400 milhões ou R$ 2 bilhões) para a expansão de dezenas de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. Os recursos, destaca a mídia israelense, foram aprovados no mês passado, mas a decisão foi mantida em sigilo frente à possibilidade de reação dos Estados Unidos.

Em paralelo, o comandante das forças israelenses na Cisjordânia, major-general Avi Bluth, incentivou a ação dos colonos extremistas que ocupam o território palestino, afirmando que “aprecia o trabalho deles” e os considerando parceiros das forças militares.

Em relatório que detalha como os colonos vêm liderando a anexação de terras palestinas, o Escritório de Direitos Humanos da ONU para os Territórios Palestinos, afirmou que “a violência dos colonos é violência de Estado”, frisando que a impunidade sistemática permite a expansão contínua e sem controle dessa violência.

Segundo Hagit Ofran, da organização israelense Paz Agora, a expansão da colonização ganhou um ritmo acelerado frente às eleições. Ao The Guardian, ele relatou que sete novos assentamentos, pelo menos, deverão receber moradores antes da votação de outubro. “O governo está numa corrida pré-eleitoral imprudente para saquear os cofres públicos a fim de criar fatos consumados”, declarou.

Neste sábado (18/07), informou a agência Wafa, soldados invadiram a casa de famílias palestinas na província de Hebron. Dez pessoas foram presas, incluindo um idoso, Ibrahim Ismail Al-Jabour, e seu filho. Eles foram detidos após confrontarem, justamente, colonos ilegais que  soltaram o gado da família, em Khirbet Hawara. Novos postos de controle militar foram instalados nas estradas principais e secundárias que se encontram fechadas na região.

Já na vila de Husan, a oeste de Belém, forças israelenses impediram que fiéis realizassem a oração da madrugada. A mesquita local foi invadida pelos soldados, que forçaram as pessoas a saírem usando granadas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Entradas que dão acesso às aldeias de al-Arqoub, a sudoeste de Belém, também foram fechadas.

 

Fonte: Por Sayid Tenório, em Opera Mundi

 

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