Depois
de Gaza, quem representa a Palestina?
Os mais
de mil dias de guerra contra Gaza não destruíram apenas cidades, hospitais e
campos de refugiados. Também expuseram o esgotamento de uma arquitetura
política construída há mais de três décadas sob os Acordos de Oslo.
Enquanto
o povo palestino enfrenta talvez o momento mais dramático de sua história desde
a Nakba de 1948, suas instituições nacionais permanecem fragmentadas,
envelhecidas e incapazes de expressar a pluralidade política da sociedade
palestina e das forças que protagonizam a resistência à ocupação.
Trinta
anos após Oslo, não existe Estado palestino, a colonização da Cisjordânia
acelerou-se, Jerusalém Oriental sofre um processo contínuo de anexação de facto
e Gaza foi submetida a sucessivas guerras e a um bloqueio devastador.
O
processo político que deveria conduzir à independência acabou administrando uma
ocupação cada vez mais consolidada.
Nesse
contexto, Mahmoud Abbas tornou-se o principal símbolo da estagnação
institucional. Presidente da Autoridade Palestina desde 2005, permanece no
cargo sem renovar seu mandato por meio de eleições presidenciais.
O
Conselho Legislativo Palestino continua paralisado, as eleições foram
sucessivamente adiadas e acumulam-se críticas, tanto entre setores da sociedade
palestina quanto em análises internacionais, relacionadas à corrupção, ao
clientelismo, ao nepotismo e à ausência de reformas estruturais.
O
resultado é uma crescente crise de legitimidade das instituições surgidas em
Oslo.
Entretanto,
reduzir essa crise à figura de Abbas seria simplificar um problema muito mais
profundo. A questão central deixou de ser apenas quem dirige a Autoridade
Palestina.
O
debate que emerge entre intelectuais, organizações políticas e diversos setores
da sociedade palestina diz respeito à própria reconstrução do movimento
nacional palestino e à redefinição das instituições encarregadas de
representá-lo.
Nesse
debate, há um fato político incontornável.
O Hamas
venceu as últimas eleições legislativas realizadas em 2006, obtendo uma maioria
que jamais foi submetida novamente ao julgamento das urnas.
Desde
então, consolidou-se como um dos principais protagonistas da política
palestina, tanto pela sua capacidade de organização social quanto por seu papel
na resistência e nas negociações envolvendo cessar-fogo, troca de prisioneiros
e a administração de Gaza.
Independentemente
das divergências em torno do movimento, sua exclusão de qualquer rearranjo
institucional dificilmente contribuirá para uma representação nacional mais
ampla.
O mesmo
raciocínio aplica-se à Jihad Islâmica Palestina.
Embora
historicamente tenha permanecido fora da disputa eleitoral, sua influência
política e militar nos territórios ocupados, particularmente na Cisjordânia,
tornou-se um componente relevante da realidade palestina contemporânea. Ignorar
esse peso político significa desconsiderar parte expressiva da dinâmica interna
da resistência palestina.
O
próprio Fatah enfrenta desafios semelhantes. As disputas internas, a
marginalização de lideranças históricas e a concentração das decisões em torno
da atual direção enfraqueceram a organização que durante décadas liderou o
movimento nacional palestino.
Também
nesse caso, diferentes vozes palestinas têm defendido processos de renovação
capazes de recuperar sua representatividade e fortalecer sua contribuição para
um projeto nacional comum.
À luz
desses elementos, torna-se difícil imaginar que a simples convocação de
eleições, sem um entendimento político mais amplo, seja suficiente para superar
a atual crise de legitimidade.
Diversos
analistas e dirigentes palestinos têm sustentado que a reconstrução
institucional passa necessariamente pela reforma da Organização para a
Libertação da Palestina (OLP), pela incorporação das principais forças
políticas que hoje permanecem à margem de suas estruturas e pela reintegração
da diáspora ao processo decisório nacional.
Mais do
que uma disputa entre facções, a Palestina enfrenta hoje uma crise de
representação.
A
guerra em Gaza evidenciou que o paradigma político inaugurado por Oslo
dificilmente oferece respostas aos desafios do presente.
A
questão que emerge das ruínas de Gaza já não diz respeito apenas ao futuro da
Autoridade Palestina nem à sucessão de Mahmoud Abbas.
A
pergunta que atravessa todo o movimento nacional palestino é outra: como
reconstruir uma representação política capaz de unir um povo disperso entre
Gaza, Cisjordânia, Jerusalém, os campos de refugiados e a diáspora.
A
resposta a essa pergunta poderá definir não apenas o futuro das instituições
palestinas, mas o próprio futuro da causa nacional.
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Ministros israelenses marcham com colonos por ocupação de
Gaza; ataques continuam
Vários
ministros do governo israelense e membros do Parlamento da coalizão governista
marcharam neste domingo (19/07) ao lado de milhares de colonos em direção à
Faixa de Gaza para exigir o repovoamento israelense do enclave
palestino.
A
mobilização, chamada “Marcha dos Milhares”, foi convocada pelo movimento de
colonos de Nachala sob o lema “De volta para casa depois de 21 anos”, em alusão
à evacuação israelense de 21 assentamentos em 2005.
O Canal
12 de Israel informou que o protesto atraiu “mais de 10.000 pessoas”
que tentaram cruzar a fronteira de Gaza gritando “chegou a hora do retorno dos
assentamentos judaicos”. Dezenas de participantes contornaram as barreiras
policiais e avançaram a pé em direção à fronteira pela área da praia e pelas
colinas próximas, segundo o jornal Haaretz.
A
incursão civil ocorreu apesar de o Exército israelense ter
revogado a
autorização para o evento minutos antes do seu início previsto. O Times
of Israel confirmou que a proibição militar não impediu a participação
do Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, um político de extrema-direita, ou
do Ministro da Economia, Nir Barkat, membro do partido Likud do
Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu.
Nachala
noticiou que um total de 28 ministros e membros da coligação governamental
participaram na manifestação. A organização é liderada por Daniella Weiss, uma
figura sancionada pela União Europeia, Canadá e Reino Unido devido às suas
declarações a favor do extermínio dos palestinos na Faixa de Gaza.
Segundo
os organizadores da marcha, a mobilização foi uma resposta aos recentes
anúncios do Ministro da Defesa, Israel Katz, sobre a construção de três bases
militares no enclave, plano posteriormente esclarecido pelo próprio ministério,
que afirmou não envolver o estabelecimento de assentamentos civis. Smotrich
declarou em junho que Israel estava preparando um bloco de três assentamentos
no norte de Gaza, aguardando a aprovação final de Netanyahu.
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Bombardeios mortais continuam na Faixa de Gaza
Simultaneamente
à marcha, as Forças Armadas israelenses continuaram suas operações militares
em território palestino. Um ataque aéreo israelense contra tendas pertencentes a
pessoas deslocadas na área de Mawasi, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza,
resultou na morte de um civil identificado pelo Hospital Nasser como Osama
Kamal Shahda Abu Taim.
O
bombardeio, que ocorreu na passagem de Al Sinaa, também deixou dez feridos
graves, a maioria crianças, que foram transferidas por equipes médicas do
hospital de campanha de Al Kuwait. Os ataques israelenses contra Gaza deixam
vítimas fatais, incluindo mulheres e crianças.
Na
região norte da Faixa de Gaza, uma operação militar noturna no bairro de Al
Zeitun, na Cidade de Gaza, deixou pelo menos duas pessoas mortas e três
feridas, incluindo um menor de idade. Moradores locais relataram sobrevoos de
helicópteros e tiroteios no setor leste, perto da chamada “linha amarela “, a
fronteira onde as tropas de ocupação estão posicionadas.
Um
morador da região confirmou que o Exército israelense enviou notificações
telefônicas aos moradores alertando sobre uma incursão “limitada” e exigindo a
evacuação das casas, localizadas nos 30% do território onde dois milhões de
palestinos estão amontoados.
Apesar
do cessar-fogo assinado há nove meses, Israel tem realizado ofensivas diárias na Faixa
de Gaza,
causando a morte de uma média de quatro pessoas por dia desde outubro passado.
Após quase três anos de ofensiva, 80% dos edifícios da região estão destruídos
ou danificados.
As
tropas israelenses controlam ilegalmente 70% do território do enclave,
ampliando sua área de ocupação em relação aos 53% que detinham na época do
acordo de cessar-fogo. Imagens de satélite e denúncias de organizações
internacionais demonstram a destruição completa da infraestrutura nas áreas sob
controle israelense, ações classificadas como “genocídio” por um comitê
independente de especialistas das Nações Unidas (ONU).
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Aumento da violência dos colonos na Cisjordânia
Na
Cisjordânia ocupada, grupos de colonos israelenses perpetraram uma
série de ataques contra comunidades palestinas, documentados pela agência de
notícias oficial Wafa e pelo jornal Haaretz. Na
cidade de Sinyil, nos arredores de Ramallah , colonos incendiaram um campo
agrícola palestino, deixando uma grande área de terra carbonizada.
Este
incidente ocorreu horas depois de outro grupo de colonos ter incendiado uma
mesquita na cidade de Tuwani, um ato descrito pelos moradores como um pogrom.
As
incursões de colonos, protegidos pelo Exército israelense, estenderam-se às
aldeias de Deir Ibzi e Ein Arik. Em Surif, a noroeste de Hebron. Um idoso
palestino ficou ferido e vários civis sofreram ferimentos leves após serem
agredidos pelos agressores.
Colonos
invadiram terras agrícolas com seu gado para destruir plantações nas aldeias de
Al Maniya (perto de Belém) e Mahtush (a leste de Jerusalém), enquanto em Deir
Bzeih invadiram as ruas do centro da cidade com rebanhos de ovelhas.
No
contexto dessas hostilidades, as forças de segurança israelenses prenderam três
palestinos durante uma incursão militar na aldeia de Imatin, a leste de
Qalqilya.
Dezesseis
prisioneiros palestinos recentemente libertados de centros de detenção
israelenses tiveram que ser internados no Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em
Deir el-Balah, para exames médicos de emergência devido ao seu estado de saúde.
Essas
ações coincidem com o financiamento sem precedentes do governo israelense para
expandir os assentamentos no norte da Cisjordânia, uma estratégia já descrita
por Smotrich como um esforço coordenado para enterrar definitivamente a
viabilidade de um Estado palestino independente.
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Israel anuncia novos planos de assentamentos ilegais em
Gaza e na Cisjordânia
Os
ministros israelenses Israel Katz (Defesa) e Bezalel Smotrich (Finanças)
anunciaram novos assentamentos ilegais na Faixa de
Gaza e
um amplo pacote de investimentos voltado à ocupação da Cisjordânia. As Forças
de Defesa de Israel também declararam deter controle de cerca de 65% do
território de Gaza, percentual superior ao previsto no acordo de cessar-fogo,
mediado por Washington, no ano passado.
Analistas
e organizações israelenses, ouvidas pelo jornal britânico The Guardian, afirmam que o
objetivo das declarações é criar “fatos consumados”, antes de uma eventual
mudança no cenário político do país, diante das eleições parlamentares, programadas para outubro deste
ano.
Ao Canal
14, Katz anunciou que pretende “estabelecer três postos avançados do Nahal,
que também é uma entidade militar, em locais que eram [os assentamentos
israelenses] no norte de Gaza”. Dror Etkes, fundador da organização Kerem
Navot, explicou ao The Guardian que postos avançados deste
tipo, de uso militar, funcionam como uma etapa preliminar da ocupação
permanente. “Ao todo, dezenas de assentamentos israelenses na Cisjordânia foram
estabelecidos dessa maneira”, declarou.
Segundo
o vice-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, major-general
Tamir Yadai, as forças israelenses passaram a controlar 65% da Faixa de Gaza. O
percentual é superior aos 53% previstos no acordo de cessar-fogo firmado em
outubro. “Não sei como descrever isso, a não ser como vitória, quando você
controla 65% do território, quando você matou mais de 70.000 terroristas aqui”,
declarou.
Yadai
classificou como “terroristas” quase a totalidade dos mortos pelas forças
israelenses ao longo de dois anos de guerra. Entre as mais de 73 mil vítimas do
genocídio israelense, a imensa maioria é de civis, incluindo, mais de 21 mil
crianças, mais de 10 mil mulheres com menos de 60 anos e cerca de 5 mil idosos.
Apesar
do cessar-fogo, as agressões não cessaram desde então. Apenas entre esta
sexta-feira e sábado, foram 14 mortes, incluindo oito registradas durante um
bombardeio israelense contra um cortejo fúnebre, no campo de refugiados de
Nuseirat, no centro de Gaza.
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Cisjordânia ocupada
Já o
ministro Smotrich, responsável pelas Finanças israelenses, anunciou a liberação
de 1,3 bilhão de shekels (cerca de US$ 400 milhões ou R$ 2 bilhões) para a
expansão de dezenas de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. Os
recursos, destaca a mídia israelense, foram aprovados no mês passado, mas a
decisão foi mantida em sigilo frente à possibilidade de reação dos Estados
Unidos.
Em
paralelo, o comandante das forças israelenses na Cisjordânia, major-general Avi
Bluth, incentivou a ação dos colonos extremistas que ocupam o território
palestino, afirmando que “aprecia o trabalho deles” e os considerando parceiros
das forças militares.
Em
relatório que detalha como os colonos vêm liderando a anexação de terras
palestinas, o Escritório de Direitos Humanos da ONU para os Territórios
Palestinos, afirmou que “a violência dos colonos é violência de Estado”,
frisando que a impunidade sistemática permite a expansão contínua e sem
controle dessa violência.
Segundo
Hagit Ofran, da organização israelense Paz Agora, a expansão da colonização
ganhou um ritmo acelerado frente às eleições. Ao The Guardian, ele
relatou que sete novos assentamentos, pelo menos, deverão receber moradores
antes da votação de outubro. “O governo está numa corrida pré-eleitoral
imprudente para saquear os cofres públicos a fim de criar fatos consumados”,
declarou.
Neste
sábado (18/07), informou a agência Wafa, soldados invadiram a casa
de famílias palestinas na província de Hebron. Dez pessoas foram presas,
incluindo um idoso, Ibrahim Ismail Al-Jabour, e seu filho. Eles foram detidos
após confrontarem, justamente, colonos ilegais que soltaram o gado da
família, em Khirbet Hawara. Novos postos de controle militar foram instalados
nas estradas principais e secundárias que se encontram fechadas na região.
Já na
vila de Husan, a oeste de Belém, forças israelenses impediram que fiéis
realizassem a oração da madrugada. A mesquita local foi invadida pelos
soldados, que forçaram as pessoas a saírem usando granadas de efeito moral e
gás lacrimogêneo. Entradas que dão acesso às aldeias de al-Arqoub, a sudoeste
de Belém, também foram fechadas.
Fonte:
Por Sayid Tenório, em Opera Mundi

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