'Fui
deportado para o México por erro e, depois de 3 meses, levado de volta aos EUA'
Cidadão cubano de 59 anos de
idade, Lázaro Romero León foi deportado dos Estados Unidos para o México, mesmo contando com
uma ordem de um juiz federal americano proibindo sua extradição.
Foram
necessários quase três meses e várias tentativas fracassadas para que ele
pudesse regressar.
Romero
León foi detido em Porto Rico, território americano não incorporado. Ele se instalou na
ilha depois de deixar seu país natal nos anos 1990, após passagens por Miami,
pelo Tennessee e por Los Angeles, nos Estados Unidos.
Havia
sobre ele uma ordem de expulsão não executada desde 2002. E, como não existe
acordo de deportação entre os Estados Unidos e Cuba, Romero León foi autorizado
a prosseguir com sua vida no país, como ocorre com dezenas de milhares de
outros imigrantes cubanos em
território americano.
Ele
cumpriu a determinação, mediante uma ordem de supervisão que o obrigava a se
apresentar periodicamente ao Serviço de Imigração e Alfândega dos
Estados Unidos (ICE,
na sigla em inglês).
"Eu
assinava há 28 anos, sem faltar a nenhuma reunião", conta Romero León à
BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Até
que, no dia 20 de maio de 2025, seis agentes me capturaram no lado de fora da
minha casa em Aguadilla [Porto Rico] e me levaram, sem maiores
explicações", ele conta. O ICE confirma o seu relato.
Romero
León foi levado primeiramente para o centro de detenção do ICE em Adelanto, na
Califórnia. Dali, ele seguiu para o centro de Florence, no Estado americano do
Arizona.
O ICE
afirma ter solicitado às autoridades cubanas, em junho de 2025, documentos para
que Romero León pudesse viajar para o país. O pedido segue pendente de
atendimento até hoje.
Em
setembro do ano passado, o organismo notificou as autoridades de Cuba que ele
seria expulso para um terceiro país. Romero León também recebeu este aviso,
mas, segundo o ICE, ele se negou a assinar a notificação.
Em
dezembro, Romero León entrou com um pedido de habeas corpus junto a um tribunal
federal e de revisão da legalidade da sua detenção, sem resultados. Ele afirmou
que seria pouco provável que Cuba o aceitasse de volta.
O juiz
federal Hernán Diego Vera, do Distrito Central da Califórnia, emitiu uma ordem
para que o governo americano não o deportasse antes da decisão sobre o processo
legal.
"Para
ser extremamente claro, esta ordem significa que fica proibido [...]
transportar o peticionário dos Estados Unidos para o México [...] até que este
tribunal tenha solucionado o pedido por completo", diz a ordem judicial a
que a BBC News Mundo teve acesso.
Mas,
por "aparente erro de comunicação", segundo admitiu o governo
posteriormente, Romero León foi levado para a fronteira no dia 16 de fevereiro
deste ano. E, dali, foi transportado para o sul do México.
Depois
disso, foram quase três meses "de pura agonia", segundo ele.
Romero
León conta que, naquele período, ele perdeu a conta dos dias, enquanto sua
advogada lutava nos tribunais pelo seu regresso para os Estados Unidos e o ICE
tentava cumprir a ordem judicial para que ele retornasse, sem sucesso.
Naquelas
semanas sem documentos no sul do México, agentes migratórios mexicanos o
interceptaram.
Romero
León foi levado para outro centro de detenção e deixado na fronteira com a
Guatemala. Ele conta que acabou morando na rua em Tapachula, no Estado mexicano
de Chiapas. Ele continuava com a mesma roupa que usava quando foi deportado e
se alimentava de doações.
"Vi
muitos outros como eu", relembra Romero León.
"Aquilo
está repleto de cubanos idosos, até avós, outros enfermos, sem dinheiro nem
documentos, condenados à indigência."
"Parece
que eles quiseram nos mandar para morrer ali", lamenta ele, já de regresso
aos Estados Unidos, na cidade californiana de Palmdale.
Consultado
sobre o caso pela BBC News Mundo, o Departamento de Segurança Nacional dos
Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) destacou que se trata do caso de um
"imigrante ilegal criminoso com extenso histórico de delitos" e ordem
de expulsão desde 2002.
Há
alguns anos, Romero León cumpriu pena por vários delitos: em 1997, por agressão
física à sua cônjuge; em 2000, por tentar transportar maconha para venda; e, em
2001, por falsificação da carteira de motorista e apresentação de informações
falsas.
"Lázaro
Romero León recebeu o devido processo completo, incluindo uma ordem final de
deportação de um juiz", afirma um porta-voz do DHS.
"Este
governo não irá ignorar o Estado de direito. O ICE cumpre com as ordens
judiciais."
"Imigrantes
ilegais criminosos não são bem-vindos nos Estados Unidos. Estamos aplicando o
que dispõe a lei", prosseguiu o organismo.
"Se
um juiz determinar que um imigrante legal não tem direito de estar neste país,
iremos deportá-lo."
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Terceiro país para os cubanos
Os
imigrantes cubanos não eram prioridade da política de deportação dos Estados
Unidos há anos.
Esta
situação se deveu, em parte, pela falta de acordos e porque Cuba se negava a
aceitar determinadas pessoas de volta, como as que haviam cumprido sentenças
condenatórias.
Por
isso, muitos imigrantes receberam ordens de expulsão que não chegaram a ser
cumpridas. Um deles era Romero León.
Eles
permaneceram por décadas nos Estados Unidos, onde trabalharam e formaram
família, muitas vezes com cônjuges naturalizados e filhos com cidadania por
nascimento.
Mas
tudo isso mudou drasticamente no segundo mandato do presidente americano Donald Trump. Desde sua posse, em
janeiro de 2025, e seguindo suas promessas de campanha, seu governo
ordenou operações antimigratórias em massa.
O
objetivo é deportar pessoas sem documentos. Para isso, o governo tomou medidas
para ampliar tanto as vias de expulsão, quanto os convênios com países
dispostos a receber pessoas deportadas de outras nacionalidades.
Cuba
enfrenta uma das suas maiores crises das últimas décadas e uma campanha
de pressão máxima de Washington. E seus cidadãos
também foram afetados.
Segundo
um relatório publicado em abril pelo
Instituto Cato,
um centro de estudos apartidário de tendência conservadora com sede em
Washington, nos Estados Unidos, as prisões realizadas pelo ICE de pessoas
nascidas na ilha dispararam de menos de 200 por mês, no final de 2024, para
mais de 1 mil mensais, um ano depois.
E,
embora as deportações enfrentem litígios nos tribunais federais, a lista de
nações dispostas a serem "terceiros países" vem se ampliando.
A Costa
Rica é o mais recente a se somar ao grupo que já inclui Camarões, Equador, El
Salvador, Essuatíni (antiga Suazilândia), Gana, Honduras e Panamá.
Não
existe um contrato público deste tipo com o México e a presidente do país,
Claudia Sheinbaum, descartou esta possibilidade.
Ainda
assim, o país também recebeu milhares de cidadãos de outras nacionalidades
deportados pelos Estados Unidos, principalmente cubanos, haitianos e
venezuelanos, desde o retorno de Trump à Casa Branca.
O
México recebe migrantes dos Estados Unidos há anos, em virtude de um
compromisso assumido junto ao governo americano anterior, do ex-presidente
democrata Joe Biden (2009-2017).
Mas, na
época, tratava-se de migrantes que haviam acabado de cruzar irregularmente a
fronteira e eram devolvidos de imediato, em uma situação muito diferente das
deportações sendo observadas atualmente.
As
autoridades dos dois países não forneceram números oficiais sobre as novas
expulsões. Mas, pouco a pouco, vêm surgindo alguns dados.
Sheinbaum
declarou em dezembro que seu país havia recebido 11.886 estrangeiros até então.
Em
março, uma resolução do juiz federal americano William G. Young destacou que o
DHS havia indicado que, com base em um "acordo informal", os Estados
Unidos teriam deportado 6 mil cubanos para o México no último ano.
E
um relatório da organização Human Rights
Watch,
publicado em maio passado, indica que, entre 20 de janeiro de 2025 e 9 de março
de 2026, o governo Trump enviou ao país vizinho quase 13 mil estrangeiros.
Destes, os cubanos representam o grupo mais numeroso, com 4.353 pessoas
deportadas.
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Sem documentos, nem dinheiro
Para
elaborar o relatório, a Human Rights Watch entrevistou mais de 50 pessoas em
Tapachula, no Estado mexicano de Chiapas, e em Villahermosa, em Tabasco. As
duas cidades ficam no sul do México e recebem pessoas deportadas.
Com
exceção de apenas um deles, todos os cubanos pesquisados declararam que já
tiveram residência permanente nos Estados Unidos. A maioria admitiu ter perdido
a residência por motivo de condenação judicial.
Em
grande parte dos casos, foram delitos menores, como dirigir alcoolizado,
falsificação de documentos ou acusações relacionadas a drogas, segundo a
investigação da organização, com base nos dados disponíveis. Alguns foram
condenados por faltas mais graves, como agressão ou delitos relacionados a
armas.
"Eu
já paguei", declarou Romero León à BBC News Mundo, sobre as sentenças que
ele cumpriu por seus delitos, 25 anos atrás.
Mas,
como ele, muitos cidadãos cubanos acabaram em um país estranho, sem documentos,
nem dinheiro, nem pertencimento.
O
governo mexicano não garante serviços aos deportados originários de outros
países, segundo a Human Rights Watch, e os obriga a enfrentar um sistema
complicado para pedir asilo.
A
organização afirma que todos os entrevistados declararam que, antes da
liberação, as autoridades mexicanas os notificaram que eles tinham permissão
limitada para permanecer no país — na maioria dos casos, por um período de 10
dias. E os instruíram a iniciar um processo junto à Comissão Mexicana de Ajuda
aos Refugiados (Comar).
Romero
León também recebeu esta mesma recomendação, segundo confirma sua advogada, a
defensora pública Margaret Farrand.
A
legislação mexicana determina que os migrantes que iniciarem o processo devem
permanecer no Estado onde apresentaram a solicitação durante seu trâmite.
A BBC
News Mundo tentou entrar em contato com a Comar, sem sucesso. E também
consultou o Instituto Nacional de Migração do México (INM) para saber quantos
estrangeiros deportados pelos Estados Unidos solicitaram refúgio no México,
desde a posse de Donald Trump, e quantos tiveram resposta positiva.
O INM
respondeu que todas as informações relacionadas a números são gerenciadas pela
Unidade de Política Migratória. E, como muitos casos se referem a
"processos administrativos migratórios pessoais que estão em
andamento", não é possível fornecer os dados.
Questionado
se existe um acordo ou algum tipo de coordenação entre as autoridades
migratórias americanas e mexicanas para a deportação de pessoas de outras
nacionalidades, o INM respondeu que "não temos informação a
respeito".
"Se
você vier ao nosso país ilegalmente, poderá terminar no Cecot [o Centro de
Confinamento do Terrorismo, a infame prisão de segurança máxima de El
Salvador]
ou em qualquer outro país", respondeu à mesma questão um porta-voz do DHS
americano.
"Estamos
aplicando o que dispõe a lei. Se um juiz determinar que um imigrante legal não
tem direito de estar neste país, iremos deportá-lo. Ponto final", destacou
o organismo, em mensagem por correio eletrônico.
"Estes
acordos com terceiros países, que garantem o processo devido conforme a
Constituição dos Estados Unidos, são essenciais para a segurança do nosso país
e do povo americano."
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Na quarta tentativa, a vitória
Quando
a BBC News Mundo conversou com Romero León pela primeira vez, ele estava havia
dois meses na cidade de Tapachula, em Chiapas, o Estado mais pobre do México. A
cidade fica a poucos quilômetros da fronteira com a Guatemala e está acostumada
a receber caravanas de migrantes.
"Aqui,
estou passando um sufoco tremendo", contou ele, durante aquela conversa
telefônica no dia 5 de maio.
"Um
rapaz me viu na rua e me acolheu, me deu de comer... Mas continuo com esta
roupa, ando com ela desde o ano passado."
Na
época, ele havia feito contato com seu conterrâneo Arody Tomé, que conheceu
durante sua detenção antes de ser deportado. Romero León cuidou de Tomé quando
ele contraiu pneumonia.
Libertado
com uma tornozeleira com GPS para monitorá-lo, Tomé prometeu ajudá-lo e serviu
de ponte com a advogada Margaret Farrand.
Com os
recursos apresentados por ela e a pressão do juiz da Califórnia, o ICE tentou
fazer com que Romero León pegasse um avião com destino a Tijuana.
Este
procedimento se mostrou inviável com a cópia da sua identidade de Porto Rico, o
único documento com que foi deportado, e a cópia da certidão de nascimento
cubana obtida pela advogada.
Depois,
eles tentaram fazer com que ele viajasse de ônibus até a fronteira com os
Estados Unidos. A advogada comprou do próprio bolso uma passagem para o dia 11
de abril.
"Mas,
pouco depois de sair, antes de chegar a Tuxtla Gutiérrez [a capital de
Chiapas], havia uma barreira. Eles me fizeram descer e me levaram ao posto de
migração" da cidade de Tapachula, ele conta.
"Depois
de me manterem preso por alguns dias, eles me deixaram na fronteira com a
Guatemala."
A BBC
consultou o INM a este respeito, mas não houve resposta até a publicação desta
reportagem.
Apesar
de sua reticência em tentar novamente sem o acompanhamento de um funcionário
americano, que declarasse aos agentes mexicanos que ele estava a caminho dos
Estados Unidos por solicitação do governo do país, a história se repetiu.
Ele
voltou a pegar um ônibus e voltaram a fazê-lo descer na barreira, segundo
conta. Acabou novamente detido e posteriormente libertado.
"Como
é possível que exista um mecanismo para deportar alguém para um país que não é
o seu, mas não haja nenhum para trazê-lo de volta?", questionou a advogada
à BBC News Mundo, em um contato para conferir com ela o relato do seu cliente.
O
pesadelo começou a chegar ao fim no dia 8 de maio. Com um salvo-conduto em mãos
e graças à coordenação entre as autoridades dos dois países, Romero León
conseguiu pegar um avião com destino a Tijuana.
Daquela
cidade, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, ele cruzou a passagem
de San Ysidro até chegar ao território americano. E, depois de passar novamente
por um centro de detenção, ficou em liberdade sob supervisão.
Agora,
ele precisa comparecer a um escritório do ICE no centro de Los Angeles, como um
deportado que eles precisaram trazer de volta.
Fonte:
BBC News Mundo

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