China
responde a Trump: mundo sabe muito bem ‘quem interfere nos assuntos internos de
outros países’
O
porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, classificou nesta
sexta-feira (17) como acusação “totalmente inventada” e “difamação maliciosa” a
afirmação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que Pequim teria
interferido nas eleições estadunidenses.
Em
pronunciamento transmitido da Casa Branca na noite de quinta-feira (16), Trump
afirmou que “a República Popular da China realizou o que se acredita ser o
maior comprometimento de dados eleitorais da história”, com a suposta obtenção
de dados de 220 milhões de eleitores estadunidenses, incluindo “nomes,
endereços, telefones e filiações políticas”, a partir do ciclo eleitoral de
2020.
Trump
também acusou órgãos internos do país de esconder o caso. “Nossas agências de
inteligência trabalharam para suprimir e minimizar ativamente as informações
sobre a extensão das sinistras atividades eleitorais da China, ocultando-as
tanto do presidente quanto do povo”, afirmou. “O governo chinês queria que o
presidente dos EUA perdesse a eleição seguinte, e queriam que eu perdesse
porque sabiam que eu conhecia o jogo deles”, disse.
Na
coletiva desta sexta, Lin afirmou que a China sempre defendeu o princípio da
não interferência nos assuntos internos de outros países e que não tem qualquer
interesse nas eleições dos EUA, nas quais nunca se envolveu. A alegação, disse
o porta-voz, “há muito se provou infundada”.
Lin
devolveu a acusação sem citar diretamente o governo estadunidense. “A
comunidade internacional sabe muito bem quem interfere habitualmente nos assuntos
internos de outros países, mantém vigilância prolongada e indiscriminada sobre
governos, empresas e cidadãos comuns em todo o mundo e rouba dados de cidadãos
estrangeiros em escala massiva”, afirmou.
“Exortamos
o lado estadunidense a refletir sobre sua própria conduta, parar de fazer
acusações infundadas contra a China, deixar de usar a China como tema eleitoral
e fazer mais para promover as relações China-EUA”, disse Lin.
O
pronunciamento de Trump acompanhou a divulgação, pela Casa Branca, de quatro
blocos de documentos sob o título “Integridade Eleitoral“. Os materiais tratam de supostas
vulnerabilidades em sistemas eletrônicos de votação e apuração, da alegada
obtenção de dados de eleitores pela China, de uma investigação sobre registros
de eleitores no estado do Michigan e da presença de não cidadãos em cadastros
eleitorais estaduais. Segundo a página oficial da Casa Branca, os documentos
respondem a “preocupações sobre potenciais irregularidades” levantadas após a
eleição presidencial de 2020, na qual Trump foi derrotado por Joe Biden.
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Relatório da NED
A
acusação de Trump veio um dia depois que a chancelaria chinesa rebateu outro
movimento de Washington. Na quarta-feira (15), a Fundação Nacional para a
Democracia (NED, na sigla em inglês, lançou o relatório “Testando os Limites: A Influência
Autoritária em uma Nova Era de Impunidade na China e na Rússia“.
Lin
disse em coletiva, na quinta-feira (16), que o documento está “repleto de
mentiras, falácias e informações falsas” e afirmou que ele promove a “teoria da
ameaça chinesa”. Segundo o porta-voz, a NED usa o pretexto de “promover a
democracia” para “subverter os regimes de outros países, interferir em seus
assuntos internos, incitar a divisão e o confronto, influenciar a opinião
pública e realizar infiltração ideológica”.
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As ‘luvas brancas’ de Washington
O
ministério chinês tem denunciado o caráter e a atuação dessa fundação. Em
agosto de 2024, publicou um relatório sobre a fundação, intitulado “A Fundação Nacional para a
Democracia: o que é e o que faz“. O documento descreve a NED como as “luvas
brancas” do governo dos EUA: uma entidade que se apresenta como ONG, mas foi
criada por lei do Congresso estadunidense em 1983, é financiada por dotações
orçamentárias (US$ 315 milhões no ano fiscal de 2023, cerca de R$ 1,7 bi) e
opera sob orientação do Departamento de Estado. O texto cita o pesquisador
estadunidense William Blum, que denuncia que “a ideia era que a NED fizesse de
forma aberta o que a CIA vinha fazendo de forma encoberta havia décadas”.
O
relatório lista ações da fundação em dezenas de países, entre elas o repasse de
US$ 65 milhões (cerca de R$ 350 mi) à oposição ucraniana durante a “Revolução
Laranja” de 2004, o financiamento de grupos envolvidos em ações de
desestabilização em Hong Kong e verbas anuais de US$ 5 milhões a US$ 6 milhões
ao “Congresso Mundial Uigur”, uma organização de caráter separatista e golpista
. Em 2015, a Rússia declarou a NED “organização indesejável” e baniu suas
atividades do território; em 2021, o governo do México classificou o
financiamento da fundação a organizações antigoverno como “ato de
intervencionismo”.
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Rússia rechaça acusações de Trump sobre suposta
interferência nas eleições dos EUA
A
Rússia negou veementemente as acusações do presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou que
Moscou teria interferido nas eleições estadunidenses em 2020. A declaração foi
do porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov,
nesta sexta-feira (17).
“Rejeitamos
todas as acusações, rejeitamos veementemente: a Rússia nunca interferiu nos
assuntos internos de ninguém. E esperamos que ninguém tente interferir nos
nossos assuntos internos”, disse Peskov a jornalistas.
Na
última quinta-feira (16), em pronunciamento à nação, Donald Trump alertou sobre
vulnerabilidades no sistema eleitoral do seu país, mencionando documentos em
que a Rússia aparece em uma lista de países que supostamente poderiam ter
invadido a infraestrutura eleitoral dos EUA em 2020.
Trump
afirmou que a Rússia está entre os “adversários dos Estados Unidos” que
supostamente tentam influenciar as eleições do país. Ele também citou a China,
afirmando que o país asiático obteve acesso não autorizado a 220 milhões de
registros de eleitores estadunidenses em 2020.
“Hoje,
anuncio a desclassificação imediata e a divulgação pública de informações
críticas que revelam a alarmante vulnerabilidade de nossa infraestrutura de
votação. Os dados desclassificados mostram que o sistema eleitoral americano
está “mais vulnerável do que nunca a ataques cibernéticos, abusos e
interferência estrangeira”, afirmou.
O
porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, classificou
a alegação de Trump sobre a suposta interferência chinesa como “pura ficção e
calúnia maliciosa”. Segundo o diplomata, as alegações de Washington já foram
comprovadas como infundadas, enquanto os próprios EUA interferem regularmente
nos assuntos de outros países.
O
porta-voz da presidência russa, por sua vez, lembrou que investigações feitas
anteriormente por diversos órgãos dos EUA concluíram a inexistência de
quaisquer interferências russas no pleito norte-americano.
“O fato
é que o presidente [dos EUA] está citando algumas informações, informações
anônimas, informações sem provas, de agências de inteligência estadunidenses.
Mas vamos lembrar que várias investigações, inquéritos e assim por diante foram
conduzidos nos EUA. Todos elas concluíram que a Rússia de forma alguma
influenciou as dos EUA”, destacou Peskov.
O
porta-voz do Kremlin reforçou que todas as essas conclusões não foram feitas
pelas agências de segurança ou pelos órgãos de investigação russos, mas somente
dos EUA. De acordo com ele, essas investigações incluíram comissões
parlamentares, a Procuradoria-Geral da República, entre outros órgãos. “Todos
chegaram à mesma conclusão: não houve influência”, completou o porta-voz.
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O ano tóxico de Donald J. Trump. Por Boris Muñoz
Para Donald J. Trump, 2026 era um ano
repleto de promessas. Começou nas primeiras horas de 3 de janeiro com uma
espetacular demonstração de força militar sobre Caracas. Após meses de
expectativa em torno do envio da frota para o Caribe, a captura de Nicolás
Maduro representou
uma vitória, demonstrando a capacidade de suas forças armadas em missões
complexas. Naquele mesmo dia, ele anunciou uma nova era da Doutrina Monroe. O poderio militar
estava de volta. Mas havia algo ainda mais importante: a perspectiva de começar
um ano eleitoral com o pé direito, administrar cuidadosamente esse sucesso e,
ao mesmo tempo, tentar estabilizar a economia na preparação para as eleições de
meio de mandato em novembro.
Mas, na
realidade, janeiro não foi dos melhores para ele. Em meados do mês, protestos
massivos de cidadãos começaram em Minnesota, em aberta revolta contra
sua política de
imigração.
A milhares de quilômetros de distância, em Davos, outra cena reveladora se
desenrolou. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, declarou que a
antiga ordem internacional baseada em regras estava morta e que o mundo estava
entrando em uma nova, governada pela coerção das grandes potências. Para
sobreviver, era necessário organizar as potências médias. Ele disse isso diante
de bilionários e chefes de Estado — com Trump presente no mesmo
evento — e recebeu uma ovação estrondosa que expôs seu vizinho como a força
motriz por trás dessa demolição.
Várias
semanas se passaram dessa forma. Em seu discurso sobre o Estado da
União, Trump vangloriou-se de ter conduzido seu país a uma
nova Era Dourada , com inflação em queda livre, gasolina barata,
redução de mais de 50% no tráfico de drogas vindo do Sul e imigração “ilegal”
em níveis ridiculamente baixos. Além de suas fronteiras, os Estados Unidos
dominavam o cenário global com uma política de “paz pela força”. Mesmo assim,
2026 poderia ter parecido um annus mirabilis. Mas a guerra entre EUA e
Israel contra o Irã transformou
em fumaça sua grandiosa fantasia de uma Era Dourada.
A
administração Trump tem atualmente um índice de desaprovação de 67%
entre os americanos. Seu gabinete tem sido assolado por escândalos e parece
operar em completo caos, com demissões e nomeações abruptas. O movimento MAGA, que o apoiou em
todos os momentos, começou a se fragmentar em uma miríade de facções, algumas
das quais travam uma guerra aberta contra ele. Na semana passada, ele
sobreviveu a uma terceira tentativa de assassinato. Poucos dias depois, Charles III, Rei
da Inglaterra e chefe da nação que tem sido o maior aliado histórico
dos Estados Unidos, ofereceu críticas veladas que variaram da separação de
poderes à proteção ambiental, da guerra na Ucrânia à necessidade
de preservar a OTAN. Com a típica fleuma britânica, Charles
III enfatizou perante o Congresso a importância das tradições
democráticas, legais e sociais. Foi uma alfinetada transparente no ego de
Trump. Poderia ser traduzido da seguinte forma: o Poder Executivo deve aceitar
que está cercado por limites; governar não é reinar; um presidente não deve se
comportar como um monarca nem aspirar à coroação.
Embora
a visita tivesse como objetivo ser uma trégua em meio a uma avalanche de más
notícias, culminou em uma imagem constrangedora: a primeira-dama visivelmente
tensa em um evento de gala, tentando se afastar do marido.
O
caminho à frente para Trump está repleto de dificuldades. As negociações com o
Irã estão
congeladas. Não há como desbloqueá-las sem fazer concessões significativas aos
aiatolás ou intensificar a guerra , algo que a maioria dos americanos não
deseja. Portanto, é provável que os preços do petróleo permaneçam acima de US$
100 por algum tempo, alimentando ainda mais o descontentamento. O chanceler
alemão Friedrich Merz desferiu outro golpe
esta semana, afirmando que os Estados Unidos não têm uma estratégia
de saída para este conflito. Ele acrescentou: "Uma nação inteira está
sendo humilhada pela liderança do Estado iraniano". A ameaça de Trump de
retirar as tropas americanas da Alemanha em retaliação às críticas
de Merz é lamentavelmente típica e tipicamente infantil. Quando não
há estratégia, a improvisação reina.
Pouco
antes de sua morte, o renomado estadista Joseph Nye, que cunhou o termo
"soft power " (poder brando), afirmou em entrevista
ao EL PAÍS que Trump poderia "destruir o apelo global
dos Estados Unidos". Ele se referia a tudo aquilo que um império como
os Estados Unidos pode obter pacificamente de outros países, sem recorrer à
força: seu poder de persuasão. Essa previsão agora se concretizou. Em um ano e
meio no cargo, o presidente alienou muitos de seus aliados históricos, destruiu
a estima que seu país desfrutava entre muitas nações e enfraqueceu sua posição
como referência de um sistema que, com todas as suas assimetrias e falhas,
impedia que a ordem internacional fosse governada unicamente pela lei do mais
forte. Perder o soft power torna o hard power menos
tolerável.
Um
artigo recente de Andreas Kluth na Bloomberg chamou a
atenção para essa perda de poder brando. Segundo Kluth, houve um recuo da
influência dos EUA em áreas como o ensino superior e as indústrias de
entretenimento e tecnologia, incluindo Hollywood e o Vale do Silício. Esse poder brando,
por meio do qual os Estados Unidos dominaram o cenário mundial durante décadas,
agora enfrenta rivais formidáveis na Europa e
na Ásia, que ganham terreno a cada dia na corrida para moldar “noções
globais de bem e mal, do que é de vanguarda e do que é retrógrado”. A chave
para a mudança na imagem dos Estados Unidos é um governo que conseguiu eliminar
o enorme capital simbólico e cultural que o país outrora possuía.
“Muitas
dessas tendências”, argumenta Kluth, “são anteriores ao segundo mandato
de Trump, mas estão se acelerando por causa dele. Não existe uma boa
medida de soft power, mas as que existem sugerem que os Estados
Unidos estão perdendo-o mais rápido do que qualquer outra nação. A imagem
americana costumava ser ‘descolada’. Cada vez mais, está se tornando tóxica.”
Tudo
isso será ainda mais acelerado devido à imagem de decadência
que Trump projeta para o mundo.
Se o
seu ano começou em 3 de janeiro, pode terminar abruptamente em 10 de novembro
com as eleições de meio de mandato. As pesquisas mais confiáveis indicam que os
republicanos podem perder ambas as casas do Congresso. O que prometia ser um annus
mirabilis está
se transformando cada vez mais em um annus horribilis .
Dentro
e fora do país, Trump deixou de ser apenas um líder controverso e um
valentão beligerante para se tornar, aos olhos de muitos, a começar pelo seu
próprio partido, algo mais simples e mais perigoso: um ativo tóxico.
É claro
que nada é garantido. Se algum político desfrutou de uma sorte quase
sobrenatural, esse político é Trump. Mais de uma vez ele ressurgiu das
cinzas. Mas até a melhor sorte tem seus limites. E tudo indica que a dele está
começando a se esgotar.
Fonte:
Brasil de Fato/El País

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