terça-feira, 21 de julho de 2026

China responde a Trump: mundo sabe muito bem ‘quem interfere nos assuntos internos de outros países’

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, classificou nesta sexta-feira (17) como acusação “totalmente inventada” e “difamação maliciosa” a afirmação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que Pequim teria interferido nas eleições estadunidenses.

Em pronunciamento transmitido da Casa Branca na noite de quinta-feira (16), Trump afirmou que “a República Popular da China realizou o que se acredita ser o maior comprometimento de dados eleitorais da história”, com a suposta obtenção de dados de 220 milhões de eleitores estadunidenses, incluindo “nomes, endereços, telefones e filiações políticas”, a partir do ciclo eleitoral de 2020.

Trump também acusou órgãos internos do país de esconder o caso. “Nossas agências de inteligência trabalharam para suprimir e minimizar ativamente as informações sobre a extensão das sinistras atividades eleitorais da China, ocultando-as tanto do presidente quanto do povo”, afirmou. “O governo chinês queria que o presidente dos EUA perdesse a eleição seguinte, e queriam que eu perdesse porque sabiam que eu conhecia o jogo deles”, disse.

Na coletiva desta sexta, Lin afirmou que a China sempre defendeu o princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países e que não tem qualquer interesse nas eleições dos EUA, nas quais nunca se envolveu. A alegação, disse o porta-voz, “há muito se provou infundada”.

Lin devolveu a acusação sem citar diretamente o governo estadunidense. “A comunidade internacional sabe muito bem quem interfere habitualmente nos assuntos internos de outros países, mantém vigilância prolongada e indiscriminada sobre governos, empresas e cidadãos comuns em todo o mundo e rouba dados de cidadãos estrangeiros em escala massiva”, afirmou.

“Exortamos o lado estadunidense a refletir sobre sua própria conduta, parar de fazer acusações infundadas contra a China, deixar de usar a China como tema eleitoral e fazer mais para promover as relações China-EUA”, disse Lin.

O pronunciamento de Trump acompanhou a divulgação, pela Casa Branca, de quatro blocos de documentos sob o título “Integridade Eleitoral“. Os materiais tratam de supostas vulnerabilidades em sistemas eletrônicos de votação e apuração, da alegada obtenção de dados de eleitores pela China, de uma investigação sobre registros de eleitores no estado do Michigan e da presença de não cidadãos em cadastros eleitorais estaduais. Segundo a página oficial da Casa Branca, os documentos respondem a “preocupações sobre potenciais irregularidades” levantadas após a eleição presidencial de 2020, na qual Trump foi derrotado por Joe Biden.

<><> Relatório da NED

A acusação de Trump veio um dia depois que a chancelaria chinesa rebateu outro movimento de Washington. Na quarta-feira (15), a Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês, lançou o relatório “Testando os Limites: A Influência Autoritária em uma Nova Era de Impunidade na China e na Rússia“.

Lin disse em coletiva, na quinta-feira (16), que o documento está “repleto de mentiras, falácias e informações falsas” e afirmou que ele promove a “teoria da ameaça chinesa”. Segundo o porta-voz, a NED usa o pretexto de “promover a democracia” para “subverter os regimes de outros países, interferir em seus assuntos internos, incitar a divisão e o confronto, influenciar a opinião pública e realizar infiltração ideológica”.

<><> As ‘luvas brancas’ de Washington

O ministério chinês tem denunciado o caráter e a atuação dessa fundação. Em agosto de 2024, publicou um relatório sobre a fundação, intitulado “A Fundação Nacional para a Democracia: o que é e o que faz“. O documento descreve a NED como as “luvas brancas” do governo dos EUA: uma entidade que se apresenta como ONG, mas foi criada por lei do Congresso estadunidense em 1983, é financiada por dotações orçamentárias (US$ 315 milhões no ano fiscal de 2023, cerca de R$ 1,7 bi) e opera sob orientação do Departamento de Estado. O texto cita o pesquisador estadunidense William Blum, que denuncia que “a ideia era que a NED fizesse de forma aberta o que a CIA vinha fazendo de forma encoberta havia décadas”.

O relatório lista ações da fundação em dezenas de países, entre elas o repasse de US$ 65 milhões (cerca de R$ 350 mi) à oposição ucraniana durante a “Revolução Laranja” de 2004, o financiamento de grupos envolvidos em ações de desestabilização em Hong Kong e verbas anuais de US$ 5 milhões a US$ 6 milhões ao “Congresso Mundial Uigur”, uma organização de caráter separatista e golpista . Em 2015, a Rússia declarou a NED “organização indesejável” e baniu suas atividades do território; em 2021, o governo do México classificou o financiamento da fundação a organizações antigoverno como “ato de intervencionismo”.

¨      Rússia rechaça acusações de Trump sobre suposta interferência nas eleições dos EUA

A Rússia negou veementemente as acusações do presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou que Moscou teria interferido nas eleições estadunidenses em 2020. A declaração foi do porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, nesta sexta-feira (17).

“Rejeitamos todas as acusações, rejeitamos veementemente: a Rússia nunca interferiu nos assuntos internos de ninguém. E esperamos que ninguém tente interferir nos nossos assuntos internos”, disse Peskov a jornalistas.

Na última quinta-feira (16), em pronunciamento à nação, Donald Trump alertou sobre vulnerabilidades no sistema eleitoral do seu país, mencionando documentos em que a Rússia aparece em uma lista de países que supostamente poderiam ter invadido a infraestrutura eleitoral dos EUA em 2020.

Trump afirmou que a Rússia está entre os “adversários dos Estados Unidos” que supostamente tentam influenciar as eleições do país. Ele também citou a China, afirmando que o país asiático obteve acesso não autorizado a 220 milhões de registros de eleitores estadunidenses em 2020.

“Hoje, anuncio a desclassificação imediata e a divulgação pública de informações críticas que revelam a alarmante vulnerabilidade de nossa infraestrutura de votação. Os dados desclassificados mostram que o sistema eleitoral americano está “mais vulnerável do que nunca a ataques cibernéticos, abusos e interferência estrangeira”, afirmou.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, classificou a alegação de Trump sobre a suposta interferência chinesa como “pura ficção e calúnia maliciosa”. Segundo o diplomata, as alegações de Washington já foram comprovadas como infundadas, enquanto os próprios EUA interferem regularmente nos assuntos de outros países.

O porta-voz da presidência russa, por sua vez, lembrou que investigações feitas anteriormente por diversos órgãos dos EUA concluíram a inexistência de quaisquer interferências russas no pleito norte-americano.

“O fato é que o presidente [dos EUA] está citando algumas informações, informações anônimas, informações sem provas, de agências de inteligência estadunidenses. Mas vamos lembrar que várias investigações, inquéritos e assim por diante foram conduzidos nos EUA. Todos elas concluíram que a Rússia de forma alguma influenciou as dos EUA”, destacou Peskov.

O porta-voz do Kremlin reforçou que todas as essas conclusões não foram feitas pelas agências de segurança ou pelos órgãos de investigação russos, mas somente dos EUA. De acordo com ele, essas investigações incluíram comissões parlamentares, a Procuradoria-Geral da República, entre outros órgãos. “Todos chegaram à mesma conclusão: não houve influência”, completou o porta-voz.

¨      O ano tóxico de Donald J. Trump. Por Boris Muñoz

Para Donald J. Trump, 2026 era um ano repleto de promessas. Começou nas primeiras horas de 3 de janeiro com uma espetacular demonstração de força militar sobre Caracas. Após meses de expectativa em torno do envio da frota para o Caribe, a captura de Nicolás Maduro representou uma vitória, demonstrando a capacidade de suas forças armadas em missões complexas. Naquele mesmo dia, ele anunciou uma nova era da Doutrina Monroe. O poderio militar estava de volta. Mas havia algo ainda mais importante: a perspectiva de começar um ano eleitoral com o pé direito, administrar cuidadosamente esse sucesso e, ao mesmo tempo, tentar estabilizar a economia na preparação para as eleições de meio de mandato em novembro.

Mas, na realidade, janeiro não foi dos melhores para ele. Em meados do mês, protestos massivos de cidadãos começaram em Minnesota, em aberta revolta contra sua política de imigração. A milhares de quilômetros de distância, em Davos, outra cena reveladora se desenrolou. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, declarou que a antiga ordem internacional baseada em regras estava morta e que o mundo estava entrando em uma nova, governada pela coerção das grandes potências. Para sobreviver, era necessário organizar as potências médias. Ele disse isso diante de bilionários e chefes de Estado — com Trump presente no mesmo evento — e recebeu uma ovação estrondosa que expôs seu vizinho como a força motriz por trás dessa demolição.

Várias semanas se passaram dessa forma. Em seu discurso sobre o Estado da União, Trump vangloriou-se de ter conduzido seu país a uma nova Era Dourada , com inflação em queda livre, gasolina barata, redução de mais de 50% no tráfico de drogas vindo do Sul e imigração “ilegal” em níveis ridiculamente baixos. Além de suas fronteiras, os Estados Unidos dominavam o cenário global com uma política de “paz pela força”. Mesmo assim, 2026 poderia ter parecido um annus mirabilis. Mas a guerra entre EUA e Israel contra o Irã transformou em fumaça sua grandiosa fantasia de uma Era Dourada.

A administração Trump tem atualmente um índice de desaprovação de 67% entre os americanos. Seu gabinete tem sido assolado por escândalos e parece operar em completo caos, com demissões e nomeações abruptas. O movimento MAGA, que o apoiou em todos os momentos, começou a se fragmentar em uma miríade de facções, algumas das quais travam uma guerra aberta contra ele. Na semana passada, ele sobreviveu a uma terceira tentativa de assassinato. Poucos dias depois, Charles III, Rei da Inglaterra e chefe da nação que tem sido o maior aliado histórico dos Estados Unidos, ofereceu críticas veladas que variaram da separação de poderes à proteção ambiental, da guerra na Ucrânia à necessidade de preservar a OTAN. Com a típica fleuma britânica, Charles III enfatizou perante o Congresso a importância das tradições democráticas, legais e sociais. Foi uma alfinetada transparente no ego de Trump. Poderia ser traduzido da seguinte forma: o Poder Executivo deve aceitar que está cercado por limites; governar não é reinar; um presidente não deve se comportar como um monarca nem aspirar à coroação.

Embora a visita tivesse como objetivo ser uma trégua em meio a uma avalanche de más notícias, culminou em uma imagem constrangedora: a primeira-dama visivelmente tensa em um evento de gala, tentando se afastar do marido.

O caminho à frente para Trump está repleto de dificuldades. As negociações com o Irã estão congeladas. Não há como desbloqueá-las sem fazer concessões significativas aos aiatolás ou intensificar a guerra , algo que a maioria dos americanos não deseja. Portanto, é provável que os preços do petróleo permaneçam acima de US$ 100 por algum tempo, alimentando ainda mais o descontentamento. O chanceler alemão Friedrich Merz desferiu outro golpe esta semana, afirmando que os Estados Unidos não têm uma estratégia de saída para este conflito. Ele acrescentou: "Uma nação inteira está sendo humilhada pela liderança do Estado iraniano". A ameaça de Trump de retirar as tropas americanas da Alemanha em retaliação às críticas de Merz é lamentavelmente típica e tipicamente infantil. Quando não há estratégia, a improvisação reina.

Pouco antes de sua morte, o renomado estadista Joseph Nye, que cunhou o termo "soft power " (poder brando), afirmou em entrevista ao EL PAÍS que Trump poderia "destruir o apelo global dos Estados Unidos". Ele se referia a tudo aquilo que um império como os Estados Unidos pode obter pacificamente de outros países, sem recorrer à força: seu poder de persuasão. Essa previsão agora se concretizou. Em um ano e meio no cargo, o presidente alienou muitos de seus aliados históricos, destruiu a estima que seu país desfrutava entre muitas nações e enfraqueceu sua posição como referência de um sistema que, com todas as suas assimetrias e falhas, impedia que a ordem internacional fosse governada unicamente pela lei do mais forte. Perder o soft power torna o hard power menos tolerável.

Um artigo recente de Andreas Kluth na Bloomberg chamou a atenção para essa perda de poder brando. Segundo Kluth, houve um recuo da influência dos EUA em áreas como o ensino superior e as indústrias de entretenimento e tecnologia, incluindo Hollywood e o Vale do Silício. Esse poder brando, por meio do qual os Estados Unidos dominaram o cenário mundial durante décadas, agora enfrenta rivais formidáveis ​​na Europa e na Ásia, que ganham terreno a cada dia na corrida para moldar “noções globais de bem e mal, do que é de vanguarda e do que é retrógrado”. A chave para a mudança na imagem dos Estados Unidos é um governo que conseguiu eliminar o enorme capital simbólico e cultural que o país outrora possuía.

“Muitas dessas tendências”, argumenta Kluth, “são anteriores ao segundo mandato de Trump, mas estão se acelerando por causa dele. Não existe uma boa medida de soft power, mas as que existem sugerem que os Estados Unidos estão perdendo-o mais rápido do que qualquer outra nação. A imagem americana costumava ser ‘descolada’. Cada vez mais, está se tornando tóxica.”

Tudo isso será ainda mais acelerado devido à imagem de decadência que Trump projeta para o mundo.

Se o seu ano começou em 3 de janeiro, pode terminar abruptamente em 10 de novembro com as eleições de meio de mandato. As pesquisas mais confiáveis ​​indicam que os republicanos podem perder ambas as casas do Congresso. O que prometia ser um annus mirabilis está se transformando cada vez mais em um annus horribilis .

Dentro e fora do país, Trump deixou de ser apenas um líder controverso e um valentão beligerante para se tornar, aos olhos de muitos, a começar pelo seu próprio partido, algo mais simples e mais perigoso: um ativo tóxico.

É claro que nada é garantido. Se algum político desfrutou de uma sorte quase sobrenatural, esse político é Trump. Mais de uma vez ele ressurgiu das cinzas. Mas até a melhor sorte tem seus limites. E tudo indica que a dele está começando a se esgotar.

 

Fonte: Brasil de Fato/El País

 

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