terça-feira, 21 de julho de 2026

As amarras da servidão moderna

Se não é livre, se não se sente assim, verdadeiramente, oceânica a certeza; se não assim, o Ser é incompleto, sempre vai faltar algo, sempre vai depender, depender de fatores e não se sua pura coragem e protagonismo. Temos um exemplo prático disso: a servidão. Como foi dito, viver em regime forçado de escravidão era depender até da resposta do escravocrata, não havia qualquer autonomia para o sujeito, essa era a servidão.

No século XXI, a velocidade de ações muda os cenários, vários até serão esses cenários. E a servidão está nos livros, nas narrativas de novelas, a servidão se diz confidente de tantas formas, modismos até, termos e terminologias para quem as quiser. Hoje já é abominada, interpretada nas falhas e tropeços da gente do mundo e seus contos, a raiz vacilante da sociedade. Mas é uma relação boa? Claro que não, por isso sentimos o corpo descontente, na mente a apelação. O ser busca a linearidade, o mais próximo disso, a linearidade é uma diretriz.

Vamos nos ater à biologia dos seres viventes. O ser não quer a desarmonia, o ser quer a homeostase, o ser quer o prazer. A psicanálise lida com esses temas.

O que usamos e gastamos e a espera que não se entende com nada disso, finalmente, já nos repetimos, para tudo dito e mais nós pedimos a resposta, a maior delas; pedimos a tal solução; que bom fosse a solução em torno da plenitude e das ideias, seguida dos conceitos e da ética; para estas sim ricas em facilidades, acessíveis criações do pensamento humano, dependendo apenas a educação. À resposta aqui pretendida nos atemos. Vamos então começar pelo que se sabe.

Foi preciso desabituar o ser humano a pensar por si mesmo. Deram para a gente um ensinamento baseado no que é concreto, aquilo reto só. Deram umas fórmulas, isso, ocupando sua, e nossa mente, em disputas oratórias que não passam de simulações, a emular o que é real, o que é de fato e não se pode mudar.

Os oradores, dominadores, aviltando as ideias liberais, neoliberais, se soltam e extravasam; mas se soltam e extravasam contra todos os partidos até o momento no qual os humanos, se sentindo tão cansados das disputas, se aborrecem de todos os oradores, seja qual for o partido, o lado escolhido. Devem os oradores, dominadores repetir incessantemente aos cidadãos a doutrina de Estado, do capital, dos que querem dominar a gente comum!? Ficamos em profunda sondagem, será que nos observam? Do jeito que a gente é? Um por vez serão rechaçados os oradores, dominadores, porém eles ainda assim exercem seu direito de voz. Esse é o século XXI.

E falar e expor não é o relato dos povos, um acréscimo que é generalizado séculos afora, não importando a propagação? Falar e expor é do ideal. Então chegamos nisso, esse entendimento do boicote a tudo isso, sobre o descrédito aos oradores, dominadores, ao mundo do dinheiro, Estados, a esse conceito de valoração, dos atos ou atitudes injustificadas. Se for livre, o Ser é muito mais. Ninguém precisa participar se não quiser. Não é essa uma possibilidade também, como tantas outras?

Os costumes vão se dissolvendo, dizem, ‘perdendo seus significados e usos tradicionais’, o indivíduo ainda precisando ‘dos remedinhos e plantas das florestas’ que a burguesia renomeou, sim, esses fitoterápicos, receitas de manipulação. Manipular, o termo é amplo. As grandes corporações sugando o conhecimento indígena enquanto der, enquanto existe uma mistura ou outra para patentear e subtrair o que quer que seja, enquanto existir material para explorar. Tal é o capitalismo e a mania de ter, de souvenires, dos fasts. “Tamanha analgesia da mente”, seu terapeuta diria, “isso lá é natural, do que naturalmente advém?”.

O dinheiro é uma invenção, existem tantas invenções, claro que algumas serão ruins ou obsoletas. Até porque provém da faculdade de pensar, de mudar, de transitar pelas descobertas; é a partir do estalo aquele em que nós, grandes e únicos humanos soubemos fazer expressar nosso pensamento, quando paramos e proferimos, quando nos demos conta além do meramente sobreviver a tudo que passamos; se fôssemos igualmente a criação e o processo, a via artística da mente… o novo agir que aprende a transmitir sua sabedoria, dores, alegrias, questionamentos, entre outras coisas, muitas, ficaria inviável citar.

Bem, se fôssemos, o certo é que teríamos muito para fazer, até ensinar. “E nesta vida há o que fazer, ensinar. Apenas por existir e participar já faz algo, já com suas inúmeras possibilidades, as versões que oferece e lhe são oferecidas!

A dependência fere. Servir fere. Se existem governos é porque as pessoas querem ser guiadas, a escolha é essa. Uns querem se ferir e outros não, convivemos com a dicotomia em todo lugar. Quem não tem opinião e é vago ou vaga demais, deixar passar; quem é abrupto ou inflado de seu ego, se sobrepõe, lidera. Vários serão os perfis, ele se esbarram.

Há tantos perfis, eles existem. O ideal então seria cada um atingir algo satisfatório, cada sujeito realmente existindo como algo digno e viável para este planeta, digo no sentido de se reconhecer como tal, essa é a visão, a visão da concórdia, aperto de mãos; o mesmo se dá ao falar uma mesma língua. A língua deste planeta é voz humana, todas as músicas criadas. O planeta e suas espécies, mas a Espécie Humana, ela é nossa, é a gente ali. Que mais fazer?

Quem dera uma vida comum, lugar comum, planeta inteiro e consciente, um planeta com seus entes e seus objetivos. Uma Terra sem delimitações de territórios, o planeta por um todo, o todo do ambiente, meio existencial do que há, a existência. O ser é por ela, o ser age em consonância!

Sim que pode ser muito difícil falar abertamente, este desafio sempre perdura. Sem querer ou não, fere, há esse resvalar no outro, e é unânime o que sentimos. Assistimos agora uma situação em que o poder está na faca do portador. O portador que lide com as interpretações e equívocos de momento, mas sua semente se espalha rápido, incitando o porquê de um jogo num tabuleiro virtual, um viver dentro do virtual, consoles, um viver de afetação e socialização insuficientes.

E se o portador atirar a faca no chão, se cair ele mesmo ao nível do solo, se não ver sentido suficiente e parar o que estava fazendo. Será isso também imparcial? Perante a natureza e os seres viventes, a dicotomia do Ser e seu viver natural, assistimos a tudo e conjecturamos, é o que dá? Ela é assim e ponto?

Vejam como o corte pode ser feito também no corriqueiro, como em nossas cozinhas nos melhores dias, ou brutal em um assassinato, que é quando verte o sangue da humanidade. Dependerá da mente que rege a mão, a mente operando. Assim a criança espera pelo pai, chorosa, sente a necessidade de todas curas, isso se lhes falta o lidar, o olhar, este convívio que é a Vida e sua expressão. Porém, jamais se verão novamente se desde já tiverem o seu laço, os vínculos rompidos, algum momento que for decisivo até demais.

O que partilhar”, dirá a criança ao pai. A forma de desejar lhes fortalece daqui para frente na visita do destino, são as possibilidades, ou o acaso, todas as tentativas ou modos de ser e agir, todos esses nomes para as intempéries do ambiente e da existência.

 

Fonte: Por Paulo Vitor Grossi, em A Terra é Redonda

 

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