As
amarras da servidão moderna
Se não
é livre, se não se sente assim, verdadeiramente, oceânica a certeza; se não
assim, o Ser é incompleto, sempre vai faltar algo, sempre vai depender,
depender de fatores e não se sua pura coragem e protagonismo. Temos um exemplo
prático disso: a servidão. Como foi dito, viver em regime forçado de escravidão
era depender até da resposta do escravocrata, não havia qualquer autonomia para
o sujeito, essa era a servidão.
No
século XXI, a velocidade de ações muda os cenários, vários até serão esses
cenários. E a servidão está nos livros, nas narrativas de novelas, a servidão
se diz confidente de tantas formas, modismos até, termos e terminologias para
quem as quiser. Hoje já é abominada, interpretada nas falhas e tropeços da
gente do mundo e seus contos, a raiz vacilante da sociedade. Mas é uma relação
boa? Claro que não, por isso sentimos o corpo descontente, na mente a apelação.
O ser busca a linearidade, o mais próximo disso, a linearidade é uma diretriz.
Vamos
nos ater à biologia dos seres viventes. O ser não quer a desarmonia, o ser quer
a homeostase, o ser quer o prazer. A psicanálise lida com esses temas.
O que
usamos e gastamos e a espera que não se entende com nada disso, finalmente, já
nos repetimos, para tudo dito e mais nós pedimos a resposta, a maior delas;
pedimos a tal solução; que bom fosse a solução em torno da plenitude e das
ideias, seguida dos conceitos e da ética; para estas sim ricas em facilidades,
acessíveis criações do pensamento humano, dependendo apenas a educação. À
resposta aqui pretendida nos atemos. Vamos então começar pelo que se sabe.
Foi
preciso desabituar o ser humano a pensar por si mesmo. Deram para a gente um
ensinamento baseado no que é concreto, aquilo reto só. Deram umas fórmulas,
isso, ocupando sua, e nossa mente, em disputas oratórias que não passam de
simulações, a emular o que é real, o que é de fato e não se pode mudar.
Os
oradores, dominadores, aviltando as ideias liberais, neoliberais, se soltam e
extravasam; mas se soltam e extravasam contra todos os partidos até o momento
no qual os humanos, se sentindo tão cansados das disputas, se aborrecem de
todos os oradores, seja qual for o partido, o lado escolhido. Devem os
oradores, dominadores repetir incessantemente aos cidadãos a doutrina de
Estado, do capital, dos que querem dominar a gente comum!? Ficamos em profunda
sondagem, será que nos observam? Do jeito que a gente é? Um por vez serão
rechaçados os oradores, dominadores, porém eles ainda assim exercem seu direito
de voz. Esse é o século XXI.
E falar
e expor não é o relato dos povos, um acréscimo que é generalizado séculos
afora, não importando a propagação? Falar e expor é do ideal. Então chegamos
nisso, esse entendimento do boicote a tudo isso, sobre o descrédito aos
oradores, dominadores, ao mundo do dinheiro, Estados, a esse conceito de
valoração, dos atos ou atitudes injustificadas. Se for livre, o Ser é muito
mais. Ninguém precisa participar se não quiser. Não é essa uma possibilidade
também, como tantas outras?
Os
costumes vão se dissolvendo, dizem, ‘perdendo seus significados e usos
tradicionais’, o indivíduo ainda precisando ‘dos remedinhos e plantas das
florestas’ que a burguesia renomeou, sim, esses fitoterápicos, receitas de
manipulação. Manipular, o termo é amplo. As grandes corporações sugando o
conhecimento indígena enquanto der, enquanto existe uma mistura ou outra para
patentear e subtrair o que quer que seja, enquanto existir material para
explorar. Tal é o capitalismo e a mania de ter, de souvenires, dos fasts.
“Tamanha analgesia da mente”, seu terapeuta diria, “isso lá é natural, do que
naturalmente advém?”.
O
dinheiro é uma invenção, existem tantas invenções, claro que algumas serão
ruins ou obsoletas. Até porque provém da faculdade de pensar, de mudar, de
transitar pelas descobertas; é a partir do estalo aquele em que nós, grandes e
únicos humanos soubemos fazer expressar nosso pensamento, quando paramos e
proferimos, quando nos demos conta além do meramente sobreviver a tudo que
passamos; se fôssemos igualmente a criação e o processo, a via artística da
mente… o novo agir que aprende a transmitir sua sabedoria, dores, alegrias,
questionamentos, entre outras coisas, muitas, ficaria inviável citar.
Bem, se
fôssemos, o certo é que teríamos muito para fazer, até ensinar. “E nesta vida
há o que fazer, ensinar. Apenas por existir e participar já faz algo, já com
suas inúmeras possibilidades, as versões que oferece e lhe são oferecidas!
A
dependência fere. Servir fere. Se existem governos é porque as pessoas querem
ser guiadas, a escolha é essa. Uns querem se ferir e outros não, convivemos com
a dicotomia em todo lugar. Quem não tem opinião e é vago ou vaga demais, deixar
passar; quem é abrupto ou inflado de seu ego, se sobrepõe, lidera. Vários serão
os perfis, ele se esbarram.
Há
tantos perfis, eles existem. O ideal então seria cada um atingir algo
satisfatório, cada sujeito realmente existindo como algo digno e viável para
este planeta, digo no sentido de se reconhecer como tal, essa é a visão, a
visão da concórdia, aperto de mãos; o mesmo se dá ao falar uma mesma língua. A
língua deste planeta é voz humana, todas as músicas criadas. O planeta e suas
espécies, mas a Espécie Humana, ela é nossa, é a gente ali. Que mais fazer?
Quem
dera uma vida comum, lugar comum, planeta inteiro e consciente, um planeta com
seus entes e seus objetivos. Uma Terra sem delimitações de territórios, o
planeta por um todo, o todo do ambiente, meio existencial do que há, a
existência. O ser é por ela, o ser age em consonância!
Sim que
pode ser muito difícil falar abertamente, este desafio sempre perdura. Sem
querer ou não, fere, há esse resvalar no outro, e é unânime o que sentimos.
Assistimos agora uma situação em que o poder está na faca do portador. O
portador que lide com as interpretações e equívocos de momento, mas sua semente
se espalha rápido, incitando o porquê de um jogo num tabuleiro virtual, um
viver dentro do virtual, consoles, um viver de afetação e socialização
insuficientes.
E se o
portador atirar a faca no chão, se cair ele mesmo ao nível do solo, se não ver
sentido suficiente e parar o que estava fazendo. Será isso também imparcial?
Perante a natureza e os seres viventes, a dicotomia do Ser e seu viver natural,
assistimos a tudo e conjecturamos, é o que dá? Ela é assim e ponto?
Vejam
como o corte pode ser feito também no corriqueiro, como em nossas cozinhas nos
melhores dias, ou brutal em um assassinato, que é quando verte o sangue da
humanidade. Dependerá da mente que rege a mão, a mente operando. Assim a
criança espera pelo pai, chorosa, sente a necessidade de todas curas, isso se
lhes falta o lidar, o olhar, este convívio que é a Vida e sua expressão. Porém,
jamais se verão novamente se desde já tiverem o seu laço, os vínculos rompidos,
algum momento que for decisivo até demais.
O que
partilhar”, dirá a criança ao pai. A forma de desejar lhes fortalece daqui para
frente na visita do destino, são as possibilidades, ou o acaso, todas as
tentativas ou modos de ser e agir, todos esses nomes para as intempéries do
ambiente e da existência.
Fonte:
Por Paulo Vitor Grossi, em A Terra é Redonda

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