A
estrutura política das pequenas cidades
Há um
silêncio estranho em algumas pequenas cidades brasileiras. Não aquele silêncio
que vem no meio da madrugada de uma cidade tranquila, com a brisa leve batendo
entre as árvores ou com a sensação de quietude que se forma após um dia
escaldante na caatinga. Há outro tipo de silêncio nessas cidades, um silêncio
que costuma estar ligado a um certo sentimento de dependência, e que, de certa
forma, permanece às escondidas na festa do dia da inauguração, nas explosões de
fogos durante as campanhas políticas ou na alegria das fotos de redes sociais
da prefeitura. É o silêncio de quem precisa de alguma coisa – e, convenhamos, a
dependência dificilmente age em voz alta.
É
justamente nessa arena, opressiva, agradável e profundamente desigual, que
surge o que propõe chamar de “pré-feudalismo”. A expressão pode parecer
excessiva à primeira vista. Talvez seja mesmo, mas isso ocorreria se a cidade
brasileira fosse realmente um ambiente republicano. O fato é que, em muitas
pequenas cidades do interior, a dinâmica política das prefeituras não está mais
organizada em função de uma cidadania, mas em função de uma espécie de posse
informal do poder.
A
prefeitura ainda mantém o seu caráter de patrimônio público na aparência. Mas
não no essencial. De fato, as estruturas políticas das pequenas cidades
brasileiras acabam reproduzindo, de forma clara e explícita, uma espécie de
dinâmica feudal: orçamentos públicos servindo de instrumento eleitoral; cargos
comissionados sendo usados como premiação; contratos administrativos
estabelecendo nexos de dependência entre empresários e gestores políticos; e os
próprios cidadãos ficando às vezes com a impressão de reféns de suas próprias
necessidades existenciais.
Há de
se dizer que falar disso é doloroso, mas é importante entender que, nesse caso,
as prefeituras não administram apenas ruas, escolas e postos de saúde. Elas
administram relações sociais. Relações de expectativas. Relações de medos. Essa
deve ser justamente a característica mais refinada do pré-feudalismo: ele não
precisa de correntes, pois constrói a dependência.
Da
perspectiva marxista, a dinâmica poderia ser interpretada como uma espécie de
estrutura local de reprodução de relações de classe dentro do contexto do
capitalismo periférico brasileiro. Na realidade, a prefeitura passa a fazer
parte de uma estrutura oligárquica onde poder político e interesses econômicos
se misturam no clima controlado dos edifícios executivos.
Ou
seja, o pré-feudalismo vai além da ideia de corrupção individual, ou até mesmo
do “político ladrão”. Essa seria uma análise simplória do fenômeno, que vai
além do conceito de corrupção e que se revela uma estrutura que vai na
contra-mão dos princípios democráticos da própria cidade.
No
pré-feudalismo, a prefeitura torna-se a principal peça econômica da cidade. Ou
seja, os trabalhos, os contratos, as licitações, os eventos e até mesmo
oportunidades de negócio se passam sob as mãos da máquina administrativa do
poder municipal. As prefeituras tornam-se então uma espécie de ecossistema
político em que tudo respira de acordo com a estrutura de poder que se estende
por elas.
E há
ainda mais um aspecto interessante: quanto mais pobre a cidade, maior será o
poder simbólico da prefeitura. As condições econômicas precárias fazem com que
o clientelismo se fortaleça cada vez mais, criando dependência a partir da
fragilidade econômica das pessoas e dificuldade de enfrentamento ao poder.
Assim, a cidadania acaba sendo gradualmente sufocada pela relação baseada em
favores e obrigações.
Começa-se
com medo. Logo vem o conformismo. E termina com a naturalização. O
pré-feudalismo é a expressão dessa naturalização das estruturas de poder
político. E algumas cidades brasileiras têm características marcantes para
isso. No município de Paulista, na região do sertão paraibano, por exemplo, o
fenômeno deixa claro alguns elementos do pré-feudalismo.
Trata-se
de uma pequena cidade com pouco mais de 11 mil habitantes. Entretanto, a
história da cidade parece se repetir com a permanência de grupos tradicionais
na chefia executiva municipal. O objetivo aqui não é apontar nomes, mas
observar as estruturas históricas que permitem uma conclusão: a alternância
democrática existiu completamente, ou apenas pintou a engrenagem?
Em
pequenas cidades, o poder costuma ter sobrenome. Isso muda tudo. O comerciante
pensa duas vezes antes de criticar a gestão. O trabalhador temporário se abstém
de manifestar críticas políticas. E os pequenos prestadores de serviços
descobrem a importância dos silêncios na política municipal. Gradualmente, a
cidade assume contornos de um teatro onde todas as pessoas são livres para
agir, mas sabem muito bem até onde podem ir.
Esse é
o funcionamento da dinâmica do pré-feudalismo, que precisa de violência
explícita, mas que se apoia mais em manipulação psicológica e cotidiana.
Com a
era das redes sociais, a situação fica ainda pior. Hoje, prefeituras acabam
assumindo funções de produtores de propaganda institucional, com vídeos em
drone, trilha sonora para inaugurações, cenas de prefeitos realizando obras e
entregando serviços aos moradores com a música no fundo. A política urbana
entra definitivamente na era do marketing político.
O
importante, porém, é entender que imagens também têm poder no pré-feudalismo
atual. A presença constante do governante em fotografias abraçando idosos,
entregando cestas básicas, visitando obras e até mesmo caminhando pelas ruas ao
som de canções inspiradoras não constrói apenas publicidade administrativa. Ela
também ajuda a formar uma identificação emocional com o próprio líder político.
Critique
o prefeito, e estará criticando a própria cidade. Toda a noção de espaço
público republicano dá lugar à ideia de uma cidade quase monárquica, em que a
figura do gestor se mescla ao espaço da cidade, como se a cidade fosse sua
propriedade e os recursos de sua gestão tivessem origem na bondade pessoal do
político em questão.
Além
disso, problemas estruturais da cidade seguem invisíveis atrás da cortina de
inaugurações. A praça é reformada pela terceira vez. O portal turístico reluz
nas entradas da cidade. Festa receber milhares de investimentos públicos. As
escolas seguem precárias, os hospitais superlotados e a juventude sem
perspectivas de vida. Concreto virou show de luzes. Política urbana torna-se,
de certa forma, uma espécie de performance em que o concreto serve apenas para
a realização de espetáculos políticos.
Há
simbolismo profundo na dinâmica, que ama monumentos justamente por eles poderem
distrair. Distraindo a opinião pública da falta de movimento social. De certa
forma, o maior talento das oligarquias municipais contemporâneas é justamente
esse: transformar a permanência em movimento. Muda-se de slogan. Trocam-se
jingles. Atualiza-se o logo. Mas os padrões de relação de dependência continuam
iguais.
E a
mídia local, muitas vezes, é quem se encarrega de promover isso. Nas pequenas
cidades, os meios de comunicação locais dependem do investimento de publicidade
por parte das prefeituras. Com isso, a própria possibilidade de crítica
política torna-se um exercício arriscado ou praticamente impossível de
realizar.
O pior
de tudo é que tudo isso ocorre à luz do sol da democracia. Há eleições.
Campanhas políticas. Partidos. Discurso de liberdades democráticas. Tudo
funciona formalmente conforme a lei, mas, por trás disso, uma dinâmica muito
mais antiga: a tradicional confusão do público com o privado.
Justamente
nesse ponto, o pré-feudalismo assume o papel de herdeiro legítimo do
patrimonialismo histórico brasileiro. Desde a era colonial, as estruturas
políticas brasileiras sempre foram vistas como prolongamento dos interesses da
oligarquia local. O que mudou não foi o sistema em si, mas sua estética. O
coronel trocou seu cavalo pelo Instagram. Mas continua querendo controlar a
cidade.
O
neoliberalismo agravou ainda mais essa dinâmica. Com a precarização dos
direitos sociais dos trabalhadores, a dependência econômica das pessoas cresceu
e o poder dos clientelistas locais aumentou. Quem vive na margem sabe que
sobreviver é mais importante que questionar a máquina. Ferino, mas prático.
Esse é
justamente o ambiente em que o pré-feudalismo prospera. Combater, então, o
fenômeno passa longe de depender apenas de investigações policiais ocasionais
ou da moralização da corrupção. É preciso romper os fundamentos econômicos que
fazem do pré-feudalismo algo tão eficaz. Democracia real implica em autonomia
social. Liberdade de imprensa. Educação crítica. Participação política da
população.
Mais
especificamente, é preciso que o cidadão comece a voltar a se ver como sujeito
de direitos, em vez de se ver como beneficiário da bondade de governos que
administram uma cidade de sua própria conta.
Porque
a cidade não deve ter dono. A prefeitura não deve ser uma herança familiar. Os
recursos orçamentários públicos não devem ser usados para garantir a
continuidade das oligarquias. Enquanto isso, entretanto, persistirá no Brasil a
dinâmica do pré-feudalismo.
Porque
enquanto a cidade for tratada como pertencendo aos grupos de poder, haverá uma
democracia incompleta – uma democracia que se curva diante das forças
silenciosas do pré-feudalismo. Inquietante é pensar que isso é aceito como
normal.
Fonte:
Por Joaquim Neto, em A Terra é Redonda

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