O
que Donald Trump ganhou com a Copa do Mundo nos EUA
Rodri,
como qualquer pessoa que já jogou futebol, havia sonhado com esse momento. O
capitão da Espanha segurava a taça da Copa do Mundo nas mãos, cercado por
companheiros de equipe em festa. Mas, antes de poder erguer o troféu, precisou
encontrar uma maneira educada de tirar do palco o presidente dos EUA, Donald
Trump.
Ele não
conseguiu totalmente. No fim, foi preciso que o presidente da FIFA, Gianni
Infantino, corresse para a frente dos jogadores na tentativa de fazer o
americano sair. Ainda assim, o presidente permaneceu ao lado do meio-campista
do Barcelona Pedri, desfrutando da adulação que lhe havia sido negada momentos
antes, quando entrou em campo sob vaias. Trump já havia feito movimento similar
na entrega do troféu da Copa do Mundo de Clubes, no ano passado.
Embora
a final deste domingo (19/07), na qual a Espanha venceu a Argentina por 1 a 0,
tenha sido a primeira partida do torneio à qual Trump compareceu, ele afirmou
que a Copa em território americano foi "o evento esportivo de maior
sucesso talvez da história do mundo". O presidente foi uma presença
constante no torneio, mesmo quando estava ausente.
"Trump
lançou uma sombra sobre todo o torneio, usando-o como instrumento para fins
políticos domésticos, independentemente de ter comparecido pessoalmente aos
jogos ou não", disse à DW Jules Boykoff, professor do Departamento de
Política e Governo da Pacific University, no estado americano do Oregon.
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A intervenção de Trump
As
intervenções de Trump impediram a entrada nos Estados Unidos de um árbitro da
Somália, forçaram o Irã a treinar no México e viajar para partidas em Los
Angeles e Seattle, e barraram torcedores de todo o mundo de assistirem aos
jogos. Além disso, segundo Boykoff, a ligação telefônica de Trump para a FIFA
durante a fase eliminatória "certamente entrará para a história como uma
das intervenções políticas mais notórias da história das Copas do Mundo".
Embora
Trump tenha feito lobby com sucesso para reverter a suspensão por cartão
vermelho do atacante americano Folarin Balogun, a estratégia teve efeito
contrário em campo: os Estados Unidos perderam por 4 a 1 para uma Bélgica
motivada nas oitavas de final. "Eu sabia que isso causaria muita
controvérsia", disse Balogun. "Quase conseguia perceber um pouco de
nervosismo entre meus companheiros porque era algo tão único."
Para
Boykoff, as implicações esportivas provavelmente não estavam entre as
principais preocupações de Trump. "Intervir na questão do cartão vermelho
permitiu que ele transmitisse à sua base política a mensagem de que pode fazer
com que organismos internacionais como a FIFA se curvem à sua vontade",
disse Boykoff, que representou os Estados Unidos nas categorias de base.
"A maioria das ações de Trump durante a Copa do Mundo deve ser
interpretada como uma tentativa de influenciar o público político doméstico antes
de uma importante eleição de meio de mandato, e não como um esforço para
convencer o público internacional de que ele é um cara incrível."
Trump
insistiu que o torneio melhorou a reputação internacional dos Estados Unidos.
"Pessoas do mundo inteiro vieram e adoram nosso país", disse ele aos
jornalistas.
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A ligação sobre Balogun foi um erro para Trump?
As
eleições americanas de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro e, com
a guerra no Irã em andamento, o índice de aprovação de Trump está abaixo de
40%. Embora uma espécie de "pressão" sobre uma organização global
como a FIFA possa agradar à base que ele já conquistou, o jornalista
investigativo Karim Zidan disse à DW que a intervenção no caso Balogun foi um
erro político.
"Acho
que, ao se vangloriar disso, quando a seleção masculina dos Estados Unidos lhe
oferecia a oportunidade de apoiar uma equipe que parecia unir os americanos,
ele conseguiu encontrar uma maneira de manchar isso, e aqueles que não gostam
dele passaram a gostar dele ainda menos", disse Zidan, que há muito tempo
cobre o uso do esporte por Trump na política.
Essa
intervenção política direta e sem precedentes em uma decisão do futebol
provocou desprezo e indignação em grande parte do restante do mundo. Políticos,
federações de futebol, torcedores e treinadores se uniram em críticas. Mas isso
não incomodará Trump, afirmou Boykoff.
"Com
base em suas ações, Trump não parece se importar muito com o que o resto do
mundo pensa dele. Suas políticas anti-imigração mancharam a Copa do Mundo e
enfraqueceram o slogan da FIFA de que 'o futebol une o mundo'. Trump usou o
torneio para aumentar ainda mais as divisões no mundo, ao mesmo tempo em que
estimulava os piores instintos de sua base antes das eleições de meio de
mandato", disse.
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Moldar o esporte como estratégia dos EUA
O
episódio envolvendo Balogun foi a primeira participação realmente relevante de
Trump no torneio e ocorreu mais de três semanas após seu início. Dada sua
presença constante na preparação para a competição, esperava-se que suas
intervenções viessem mais cedo. Para Zidan, a situação geopolítica vinha
ocupando seu tempo, assim como as celebrações dos 250 anos da independência dos
Estados Unidos durante o torneio.
"Tudo
o que realmente interessa a ele é transformar isso em algo sobre si mesmo ou
obter algum tipo de prestígio pessoal com o evento", disse Zidan.
"Por isso, não me surpreende em nada que ele não tenha estado muito
presente nos jogos comuns da Copa do Mundo."
Apesar
de seu aparente desinteresse, Trump fez uma investida para futuras Copas do
Mundo imediatamente após o fim do torneio de 2026. "Tive uma ótima ideia
para Gianni: vocês têm que fazer com dois países. Anunciem os Estados Unidos
novamente da próxima vez e depois anunciem outro país. Isso diminuirá parte da
raiva e do choque", disse à Fox Sports. "Com base nos números, vamos
aplicar novamente imediatamente."
A data
mais próxima em que os Estados Unidos poderiam voltar a sediar a Copa do Mundo
masculina seria 2038, mas Los Angeles sediará os Jogos Olímpicos de Verão em
2028, quando Trump ainda estará no poder. Os Estados Unidos ainda sediarão os
Jogos Olímpicos de Inverno de 2034 em Salt Lake City e são os favoritos para
receber a Copa do Mundo Feminina de 2031.
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UFC é um refúgio esportivo seguro para Trump
Zidan
acredita que Trump primeiro retornará à segurança do Ultimate Fighting
Championship (UFC), organização de artes marciais mistas que ele conseguiu
incluir nas celebrações do 250º aniversário dos Estados Unidos.
"Sempre
que apareceu em um evento esportivo que não era do UFC, recebeu vaias
retumbantes. Não é a enorme recepção calorosa que está acostumado a receber no
UFC", disse Zidan, cujo livro mais recente, The Ultimate Strongmen (sem
tradução no Brasil), aborda a relação de Trump com o UFC.
"É
por isso que ele aparece lá com tanta frequência, por que sediou um evento do
UFC na Casa Branca. Ele entende que aquele é seu público perfeito e seu espaço
seguro e que, não importa quão mal esteja se saindo, não importa o que esteja
fazendo no mundo, não importa se há uma guerra em andamento, ele será bem
recebido."
Fonte:
DW Brasil

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