Como
falar sobre pobreza e desigualdade com as crianças
"Uma
caminhada de mil léguas começa com um primeiro passo. Em outras palavras:
comece."
E,
assim, Emicida começa.
A introdução de dois livros infanto-juvenis assinada pelo cantor paulistano é o
primeiro passo para uma pergunta complexa: como falar sobre pobreza e
desigualdade com as crianças?
A
resposta foi elaborada em conjunto com a economista
Esther Duflo. A franco-americana é professora de economia do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), foi a segunda mulher na
história a ganhar o Nobel de Economia, e também a mais jovem, aos 46 anos de
idade, em 2019.
Juntos,
eles escreveram Volta por cima e Conta Comigo,
obras recém-publicadas pela Companhia das Letrinhas. As publicações abordam
temas relacionados à pobreza
global e convidam as crianças a refletirem sobre soluções
coletivas para enfrentar esse desafio.
Para
isso, as obras narram as trajetórias de Imeuni, Tsongai e Bibir, personagens
que vivem em lugares fictícios, mas que poderiam estar na África, Ásia ou
América do Sul. Por meio deles, as histórias levam a reflexões sobre situações
envolvendo pobreza e as soluções para reduzi-la.
Volta
por cima narra
a trajetória de uma jovem que deseja encontrar um trabalho, mas não sabe por
onde começar. Ao longo da história, aparecem temas como empreendedorismo,
economia local, inovação e até microcrédito.
"Esse
livro trata da dificuldade (mas também da possibilidade) de encontrar o próprio
caminho", explica Duflo à BBC News Brasil.
"A
personagem quer muito trabalhar, mas tem poucas oportunidades. Ela tenta,
fracassa e tenta novamente até encontrar seu caminho. É uma jovem forte, que
pode servir de exemplo tanto para meninos quanto para meninas."
Já
em Conta comigo, valores como solidariedade, comunidade e
empreendedorismo surgem na história, que também trata de problemas como violência
doméstica, etarismo (discriminação devido à idade) e preconceito.
Com
essas histórias, a mensagem que a economista quer passar é a de que
"crianças pobres não são perigosas, pais pobres não são preguiçosos e
pessoas pobres têm vidas ricas, cheias de amizades e significados", como
quaisquer outras pessoas.
"E
também que a pobreza causa muitos problemas, mas nós, seres humanos, também
podemos encontrar as soluções. É por isso que cada um desses livros gira em
torno de um problema e de uma solução — uma solução que, na minha profissão
como economista, vi que realmente funciona."
As
ilustrações são cheias de cores e foram feitas por Cheyenne Olivier,
ilustradora francesa especializada em livros infantis.
Ela se
inspirou no universo visual dos gráficos de economia, para despertar a
curiosidade das crianças pelas histórias, que contam com uma ajuda especial
para guiá-las.
Emicida
faz o papel de condutor da leitura ao longo das páginas com comentários que
convidam à reflexão. Ele aparece colocando as histórias em perspectiva e
encontrando conexões com a própria vida, algo que um adulto leitor também pode
fazer.
Sua
experiência em publicações infantis, com Amoras (2018) e E
foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (2020), ambos também
pela Companhia das Letrinhas, trazem certa familiaridade do cantor com o tema.
Duflo
explica que, embora não conhecesse Emicida pessoalmente antes da produção das
obras, ela já sabia quem ele era. "Minha ilustradora, Cheyenne, cresceu
ouvindo as músicas dele, ela era muito fã."
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'Nem todas as pessoas pobres sonham em ser Bill Gates'
Duflo
venceu o Nobel, juntamente com os economistas Abhijit Banerjee (seu marido) e
Michael Kremer, por introduzirem "uma nova abordagem para obter respostas
confiáveis sobre as melhores maneiras de combater a pobreza global",
segundo o site
do Prêmio Nobel.
Na
prática, eles levavam para pequenas comunidades a aplicação de um projeto de
política pública para melhorar, por exemplo, resultados educacionais ou a saúde
infantil.
Se os
resultados fossem positivos, implementavam de uma forma mais ampla. Se
negativo, tentavam de novo. Essa metodologia, aplicada em países como Índia e
Quênia, fez com que Duflo derrubasse alguns "mitos" sobre os mais
pobres.
"A
primeira coisa que notei quando desembarquei na Índia é que as pessoas mais
pobres vivem vidas muito mais normais do que eu esperava", disse ela em entrevista
à BBC News Brasil em julho de 2024, sobre o início da carreira
há mais de 30 anos.
Em seus
experimentos, Duflo mostrou que conceder um empréstimo para que pessoas muito
pobres possam iniciar um novo negócio não leva, necessariamente, a uma melhora
drástica em seu bem-estar.
"É
claro que não estamos dizendo que não existem empreendedores genuínos entre os
pobres — conhecemos muitas pessoas assim. Mas também há muitos deles que
dirigem um negócio condenado a permanecer pequeno e não lucrativo",
escreve em seu livro A Economia dos Pobres (Editora Zahar,
2021).
Sua
constatação é replicada nos livros infanto-juvenis de agora. "Nem todas as
pessoas pobres sonham em ser Bill Gates", escreve ela, ao final de Volta
por cima, em uma seção intitulada "O que Esther Duflo tem a dizer
sobre a pobreza".
Nesta
seção, ela traz direcionamentos para que os adultos possam orientar a leitura
das crianças e responder às suas dúvidas de acordo com a temática de cada um
dos livros.
"Para
ajudar os jovens a se encontrar profissionalmente e sair da pobreza, é preciso
se desfazer da ilusão de que ter sua própria empresa é necessariamente o melhor
caminho. Isso pode até ser verdade para alguns, mas, para muitos, a melhor
solução seria ter um emprego de acordo com suas aspirações", escreve ela.
Os
temas podem parecer complexos para crianças — as obras são indicadas para
leitores a partir dos 9 anos —, mas Duflo garante que elas são capazes de
compreender.
"As
crianças são capazes de entender e lidar com qualquer assunto, e existem muitos
estereótipos sobre a pobreza por aí", afirma. Para ela, as obras são como
sementes que podem ajudar a moldar adultos melhores para o futuro.
"A
esperança é que elas cresçam e se tornem adultos mais empáticos e otimistas,
que contribuam para melhorar o mundo."
Fonte:
BBC News Brasil

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