Emendas
para municípios sobem 20% em ano eleitoral e viram trunfo para congressistas
O valor
recorde de emendas pagas em 2026 levou prefeituras pelo país a receberem cerca
de 20% a mais dessas verbas, que são indicadas por deputados e senadores, em
comparação com o ano eleitoral de 2022.
Até o
começo de julho, R$ 26,55 bilhões foram transferidos aos municípios, enquanto
há quatro anos, a cifra alcançou R$ 22,17 bilhões no mesmo período.
A verba
que vai turbinar os caixas das cidades equivale a 77,6% dos R$ 34,2 bilhões
distribuídos em emendas de congressistas neste ano. O valor foi impulsionado
pela decisão do Congresso de obrigar o governo Lula (PT) a quitar parte das
emendas impositivas antes do período de restrição eleitoral, que cria
obstáculos para escoar os recursos.
Os
pagamentos representam um trunfo para deputados e senadores criarem alianças
políticas locais no ano eleitoral, pois têm o poder de alterar o cenário das
contas públicas municipais.
Em
Calçoene, Pracuúba e Ferreira Gomes, todos municípios do Amapá, por exemplo, as
emendas representam mais de 80% do repasse federal aos fundos de saúde.
O
reforço no caixa da saúde é a principal ação feita com as emendas, equivalente
a cerca de 65% do valor pago neste ano. As indicações também incluem cerca de
R$ 3,2 bilhões a estados e ao Distrito Federal, além de R$ 1,8 bilhão a
instituições sem fins lucrativos, categoria que inclui ONGs.
Os
detalhes das emendas indicadas em 2026 ainda apontam que parlamentares
priorizam ações de projeção mais imediata.
O
recurso executado pelo Ministério do Meio Ambiente ilustra esta lógica, pois
cerca de 90% dos R$ 70 milhões empenhados foram aplicados na castração de pets
por meio de mutirões feitos por ONGs, enquanto menos de 1,5% foi destinado à
rubrica de implementação de políticas para biodiversidade, vegetação nativa e
áreas protegidas.
Os
pagamentos das emendas Pix alcançaram R$ 4,6 bilhões em 2026. Portais de
transparência do governo ainda não permitem análise mais completa sobre o
destino dessas emendas, mas dados extraídos da plataforma Central das Emendas,
da organização de mesmo nome, mostram 66 indicações deste ano com menção a
“show”, incluindo uma de R$ 497,5 mil do senador Jorge Kajuru (PSB-GO) para
pagar uma apresentação da dupla Fernando & Sorocaba em Santa Terezinha de
Goiás.
Também
há 178 emendas Pix que citam “futebol”, geralmente ligadas a obras em locais de
prática do esporte, e mais 111 que mencionam “trator”.
A
execução das emendas mostra quatro fundos de saúde de estados e municípios
entre os cinco maiores beneficiados. O vice-líder neste ranking, porém, é o
braço no Brasil da multinacional chinesa XCMG, que vende escavadeiras,
pavimentadoras, rolos compressores, entre outras máquinas. A empresa recebeu R$
205 milhões.
Os
parlamentares também destinaram neste ano recursos para compras de automóveis e
máquinas agrícolas e obras.
Empenhos
(etapa que antecede o pagamento) mencionando “carro” e “caminhonete” somam mais
de R$ 300 milhões, principalmente para equipar forças de segurança. A bancada
de Mato Grosso do Sul também direcionou R$ 100 milhões para financiar unidades
do Minha Casa, Minha Vida.
A
legislação eleitoral coloca obstáculos à liberação de emendas nos três meses
que antecedem as eleições. De forma geral, só é permitido pagar obras e
serviços em andamento no período chamado de defeso eleitoral.
Para
pressionar o governo Lula, o Congresso inseriu um “calendário de emendas” nas
diretrizes do Orçamento de 2026 que obrigou o pagamento de uma parcela das
verbas da saúde e das emendas Pix ainda no primeiro semestre.
Sob a
nova regra, o governo empenhou mais de R$ 37 bilhões e pagou R$ 34,2 bilhões
neste ano. A cifra efetivamente desembolsada inclui indicações feitas desde
2014, além de valores a quitar de emendas do relator, modalidade que foi
declarada inconstitucional em 2022 pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Duque
de Caxias (RJ) e Macapá (AP) foram os municípios mais beneficiados pelas
emendas neste ano, com repasses autorizados de R$ 208,5 milhões e R$ 152,1
milhões, respectivamente.
No
município fluminense, praticamente toda a verba foi usada para ampliar o caixa
da saúde. Cerca de 84% das emendas para a capital do Amapá também foram
aplicadas na saúde, enquanto o restante inclui convênios com o Ministério da
Defesa pelo programa Calha Norte, como para a compra de uma carreta para
atendimentos médicos e obras de pavimentação.
No caso
das ONGs, o Instituto Reinventar foi o maior beneficiado neste ano, com
pagamentos de cerca de R$ 57,3 milhões. A maior parte da verba está vinculada a
uma emenda da bancada estadual do Acre para qualificação de pequenos produtores
rurais.
O
Ministério do Esporte, porém, é a pasta com mais ações ligadas às entidades do
terceiro setor, superando R$ 644 milhões em pagamentos. As emendas bancam
principalmente convênios com entidades que promovem campeonatos e aulas de
esportes.
Além de
drenar fatias expressivas do Orçamento federal –em 2025, responderam por 80%
das ações do Esporte– as emendas estão no centro de discussões sobre desvios de
verba e falta de transparência.
Neste
mês, o ministro Flávio Dino, que relata as principais ações no STF (Supremo
Tribunal Federal) sobre emendas, determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em
bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de R$ 6,15 milhões do
ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), sob o argumento de que ambos
negociaram a liberação de emendas mesmo sem ter mandato.
O
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), saiu em defesa de Valdemar
e falou em “intervenção judicial” indevida. “A decisão em questão não
identifica desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas. Limita-se a
inferições e a tentar criminalizar a atividade política”, afirmou ainda Motta.
Os
deputados e senadores controlam fatias cada vez maiores do Orçamento por meio
das emendas. Há R$ 49,9 bilhões reservados em 2026, ante R$ 11,8 bilhões
empenhados em 2016. As emendas responderam por 67,7% da verba empenhada pelo
Ministério do Esporte até julho, enquanto drenaram 53,8% da verba livre da
pasta da Saúde. A conta considera valores discricionários, que são usados
principalmente no custeio da máquina pública e em obras e não estão carimbados
por obrigações, como salários.
Fonte: ICL Notícias

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