Como
a extrema direita lucra com a radicalização política?
A
história política brasileira é marcada por disputas entre projetos de país. Ao
longo dos séculos, correntes políticas distintas ocuparam lugares opostos no
tabuleiro do poder: republicanos versus monarquistas, reformistas versus
conservadores, tucanos versus petistas. Nos últimos anos, porém, esse cenário
passou por uma transformação. Em vez de apenas ampliar a polarização, o debate
público abriu espaço para um fenômeno mais profundo: a radicalização política.
Com
redes sociais consolidadas como parte do cotidiano, informações circulando a
todo momento e celulares nos bolsos de muita gente, a radicalização encontrou
um ambiente fértil para crescer. Agora, entre dois sujeitos não existe apenas
diferença de opinião. A discordância dá lugar à repulsa, ao ódio e à
intolerância.
Neste
artigo, você vai entender como funciona a radicalização política, por que ela
cresce em períodos de instabilidade social e de que forma a extrema direita
converte o ódio em uma estratégia capaz de mobilizar apoiadores, gerar lucro e
fortalecer projetos de poder.
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O que é radicalização política?
A
radicalização política é um processo em que indivíduos ou grupos passam a
adotar posições cada vez mais extremas, enxergando adversários não como pessoas
com opiniões diferentes, mas como inimigos que representam uma ameaça e, por
isso, devem ser combatidos. Em seu estágio mais avançado, esse processo pode
naturalizar discursos de ódio, desinformação e até a violência como formas
legítimas de ação política.
No
Brasil, frequentemente ouvimos sobre a polarização que assola a sociedade. E,
de fato, as correntes políticas que têm ganhado projeção nos últimos anos
ocupam posições bastante distintas no espectro ideológico. Mas há algo além da
simples divergência de ideias. Emoções como medo, indignação e ressentimento
passaram a ser mobilizadas de forma sistemática. Com isso, a polarização deixou
de expressar apenas visões de mundo diferentes e evoluiu para uma lógica em que
o outro é um inimigo a ser derrotado.
Esse
fenômeno tem sido observado não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo.
O que chama a atenção é que ele ocorre em um momento de ascensão da extrema
direita global, fortemente marcada por um discurso que busca construir inimigos
como forma de congregar apoiadores e, esses inimigos, costumam ser muitos:
imigrantes, pessoas LGBTQIA+, mulheres que se recusam a performar um papel de
gênero imposto por uma cultura machista e o já famoso “fantasma do comunismo”.
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Por que a radicalização cresce em momentos de crise?
Para
entender como o ódio é capaz de mobilizar tanta gente, é preciso compreender as
razões que permitem que esse processo aconteça. Na aula A Semente do Caos,
disponível no ICL, o historiador e professor da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha sustenta que isso é um produto
característico de momentos de crise social em que o sentimento de perda e
frustração é explorado.
Para
ele, observando outros momentos históricos que foram marcados pela ascensão de
ideologias totalitárias de extrema direita, há paralelos que sustentam essa
visão. O historiador argumenta que, em momentos de crise do capitalismo, a
resposta sempre foi “o endurecimento político e uma tendência ao
desenvolvimento de governos nazifascistas”. Como nos casos a seguir:
• Crise econômica de 1929: a grande
recessão, como ficou conhecida a mais longa crise econômica do capitalismo,
permitiu o fortalecimento das bases que levaram figuras como Hitler, na
Alemanha, e Mussolini, na Itália, ao poder
• Choque do petróleo na década de 1970: as
crises econômicas motivadas pelo aumento do preço do petróleo no mercado global
na década de 1970 levaram a adoção de medidas neoliberais de gestão financeira,
como nos governos de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos
Estados Unidos
• Crise econômica de 2008: produziu uma
multidão legitimamente ressentida contra um sistema que salvou as elites
financeiras com trilhões de dólares enquanto os mais pobres perdiam suas casas
e direitos.
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Quando o ressentimento vira movimento político
Quando
respostas complexas parecem insuficientes, cresce o apelo de lideranças que
oferecem explicações fáceis e culpados bem definidos. É nesse contexto que a
guerra cultural ganha força. Em vez de direcionar a insatisfação para problemas
estruturais, a radicalização aponta inimigos internos como responsáveis pela
suposta decadência da sociedade.
Um dos
discursos utilizados para mobilizar os apoiadores é o do anticomunismo. No
entanto, Castro Rocha observa que, após o fim da Guerra Fria, a extrema direita
precisou reinventar essa ideia. Sem a União Soviética como antagonista, essa
lógica foi adaptada para novos contextos e transformada em uma ferramenta capaz
de unificar apoiadores em torno de um inimigo comum. Mais do que uma posição
ideológica, essa narrativa oferece pertencimento a quem sente que perdeu espaço
ou identidade em um mundo em rápida transformação.
É o
ressentimento desses grupos vulneráveis que passa a ser capturado por líderes
de extrema direita que se posicionam como outsiders e figuras antissistema,
como Donald Trump, Viktor Orbán, Javier Milei, Nayib Bukele e Jair Bolsonaro,
que surfaram na onda do descontentamento para chegar ao poder através de
vitórias eleitorais, e não de golpes.
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Como a extrema direita transformou o ódio em modelo de negócio?
Analisando
o discurso da extrema direita, é possível identificar que o ódio é mobilizado
como uma ferramenta agregadora. Ou seja, a união acontece pela raiva
compartilhada contra um determinado grupo — ou grupos. Na prática, a
radicalização é uma parte inseparável desse tipo de ideologia e o que legitima
a violência contra o outro.
Mas o
rancor, o ressentimento e a repulsa ocupam um papel que vai além da estratégia
política: geram dinheiro. Quanto maior a indignação, maior a circulação de
conteúdos. Quanto maior a circulação de conteúdos, maior o engajamento. E, em
um ambiente digital em que atenção é um ativo valioso, engajamento é fonte de
lucro.
É por
isso que discursos que incentivam o pânico moral surgem todos os dias: o kit
gay, a mamadeira erótica, a negação da ditadura civil-militar e até mesmo o
debate em torno de qual pé o chinelo deve ser calçado — no da direita ou no da
esquerda. Tudo isso faz parte de uma dinâmica que mantém apoiadores
mobilizados, fortalece um senso de comunidade e abre espaço para diversas
formas de monetização: do valor pago para veiculação de anúncios online aos
pedidos de doações para fortalecer uma causa.
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Quando apoiadores viram consumidores
É nesse
momento que apoiadores deixam de ser apenas eleitores e passam a formar um
mercado consumidor. Quanto mais tempo permanecem engajados, maior a
probabilidade de comprar livros e cursos, assinar comunidades exclusivas,
consumir produtos associados àquela identidade política e responder a campanhas
de arrecadação.
Os
pedidos de doação feitos por Donald Trump e Jair Bolsonaro ajudam a ilustrar
essa dinâmica. Após perder a eleição presidencial de 2020, Trump mobilizou seus
apoiadores para financiar ações judiciais baseadas na alegação de fraude
eleitoral e arrecadou mais de US$ 200 milhões. No Brasil, depois da derrota nas
eleições de 2022, Bolsonaro também recorreu à sua base para custear multas e
despesas com advogados. Segundo a Polícia Federal, entre março de 2023 e junho
de 2025, a campanha arrecadou R$ 44,3 milhões.
Mas as
campanhas de arrecadação representam apenas uma das formas de transformar
capital político em receita. À medida que essas comunidades se consolidam,
surgem novos mecanismos de monetização que dependem menos do convencimento de
novos eleitores e mais da fidelização de uma base disposta a consumir qualquer
produto associado àquela identidade política.
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Da militância ao investimento
Essa
lógica chegou até mesmo ao mercado financeiro. Nos últimos anos, lideranças de
extrema direita passaram a explorar ativos digitais como forma de converter
capital político em capital econômico. Essa atuação ocorre em duas frentes: o
uso de criptomoedas tradicionais e a criação de memecoins.
As
memecoins são ativos digitais criados, muitas vezes, como piada ou símbolo
cultural e, diferentemente de moedas consolidadas como o Bitcoin — que possuem
infraestrutura tecnológica robusta e mercados globais de liquidez —, não têm
valor financeiro intrínseco ou fundamentos econômicos.
Ao
lançar ou apoiar ativos desse tipo vinculados à própria imagem, essas
lideranças transformam seguidores em investidores informais. Quanto maior o
barulho nas redes, maior a expectativa de valorização. Nesse modelo,
militância, pura especulação financeira e identidade política passam a caminhar
juntas.
Mas
além das moedas de engajamento, a extrema direita também passou a operar com
criptomoedas reais do mercado financeiro para capturar recursos. Quando
ocupando cargos políticos, líderes extremistas têm demonstrado uma relação de
proximidade com esse tipo de investimento que levanta suspeitas sobre uso do
cargo para obtenção de vantagens econômicas.
Em
2025, Javier Milei, presidente argentino de extrema direita, divulgou a
criptomoeda $LIBRA. Como consequência, o valor do ativo disparou, mas pouco
tempo depois caiu bruscamente, deixando milhares de investidores no prejuízo e,
alguns poucos, com lucro. No mesmo ano, relatórios divulgados nos EUA mostraram
que Donald Trump se tornou o presidente estadunidense que mais lucrou durante o
mandado. O que chama atenção é que os ganhos foram fortemente influenciados por
investimentos em criptomoedas.
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Do lacre ao lucro
Entre
grupos que se posicionam contra o avanço de pautas progressistas, um bordão
costuma ser repetido à exaustão: “quem lacra, não lucra”. Basta que uma
propaganda mostre um casal homoafetivo, uma campanha publicitária aborde
diversidade ou uma mulher apareça em um papel que desafie padrões tradicionais
para que perfis ligados à extrema direita proponham boicotes às marcas. A
ironia é que a própria extrema direita encontrou no “lacre” um dos seus modelos
de negócio mais rentáveis.
O
primeiro passo é produzir uma nova guerra cultural. Quanto mais banal for o
tema, melhor. Um comercial de televisão, um livro didático, uma exposição de
museu ou até um par de chinelos podem ser transformados em símbolos de uma
disputa entre “nós” e “eles”. O objetivo não é discutir o assunto em si, mas
manter a sensação permanente de conflito.
Essa
estratégia dialoga diretamente com a lógica da economia da atenção. Plataformas
digitais priorizam conteúdos capazes de provocar reações intensas e, por isso,
indignação, medo e revolta costumam circular mais do que explicações complexas
ou debates equilibrados. Cada compartilhamento amplia o alcance da mensagem,
fortalece o senso de pertencimento da comunidade e prepara o terreno para a
próxima controvérsia.
É esse
ciclo que sustenta todo o modelo de negócios. A comunidade permanece mobilizada
porque novas guerras culturais são produzidas continuamente, e essas guerras
continuam sendo produzidas porque mantêm uma audiência fiel, engajada e
disposta a financiar seus principais porta-vozes. A radicalização, portanto,
não é apenas o discurso vendido por essas lideranças. Ela é o produto que torna
esse mercado possível.
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Do discurso de ódio à violência nas ruas
Para
além do lucro financeiro que se alimenta da radicalização e do ódio semeado em
discursos políticos mundo afora, há uma outra camada: a violência extrapola o
campo da comunicação e legitima ações. Na aula Bolsonarismo: dissonância
cognitiva coletiva e retórica do ódio, disponível no ICL, Castro Rocha afirma
que “o discurso de ódio não se limita à linguagem, ele é a antessala, a
véspera, da violência física”.
Nos
últimos anos, a conexão entre discursos exaltados em comícios repletos de
apoiadores e ações violentas que tomam as ruas do país têm provado que o ódio
se estende para além da camada retórica.
Em
2018, o capoeirista Romualdo Rosário da Costa, conhecido como mestre Moa do
Katendê, acabou envolvido em uma discussão em um bar de Salvador com o barbeiro
Paulo Sérgio Ferreira de Santana. A briga ocorreu dois dias após as eleições
que resultaram na vitória do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro. O
resultado da discussão? Depois de ter declarado voto em Fernando Haddad,
candidato do Partido dos Trabalhadores naquele pleito, mestre Moa foi
assassinado com 12 facadas nas costas.
No
Paraná, quase quatro anos após o episódio, em 2022, o guarda municipal Marcelo
Aloizio Arruda decidiu comemorar sua festa de aniversário com a temática do
Partido dos Trabalhadores e da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva,
candidato da sigla às eleições que seriam realizadas naquele ano. Durante a
comemoração, o policial penal Jorge José da Rocha Guaranho invadiu o local
armado aos gritos de “Aqui é Bolsonaro”, atirou e matou Marcelo Arruda.
Esses
episódios, mesmo que soem extremos, revelam a prática de um espectro político
que mobiliza o ódio e a construção de um inimigo em seus discursos. Mas existe
um outro evento muito simbólico que ajuda a ilustrar a conexão entre esses
casos: em um comício realizado no Acre em 2018, o então candidato Jair
Bolsonaro empunhou um tripé de câmera como se fosse um fuzil e gritou “Vamos
fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para
correr no Acre”. Posteriormente, ele alegou que a fala tinha sentido figurado.
Esse
processo é o que produz, segundo Castro Rocha, uma “desqualificação
nulificadora”. O outro, além de um inimigo, é reduzido ao nada e “contra o
nada, toda violência física é aceitável”, explica.
Para o
historiador, a fala do ex-presidente e as ações de violência perpetradas por
apoiadores não são uma simples coincidência. A relação entre os dois fatos é de
causalidade:
“Quando
um candidato à presidência da república pode dizer “vamos fuzilar a petralhada”
e todos nós consideramos normal. Depois, um bolsonarista radicalizado pelo
discurso do presidente pode invadir uma festa de aniversário e assassinar um
petista apenas por ser petista”
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Quando o lucro depende do conflito
A
radicalização política costuma ser tratada apenas como um problema eleitoral ou
ideológico. Mas ela também responde a uma lógica econômica. O ressentimento
mobiliza comunidades, essas comunidades geram engajamento e o engajamento pode
ser convertido em influência, dinheiro e poder.
Nesse
cenário, guerras culturais deixam de ser episódios isolados e passam a integrar
uma estratégia permanente de mobilização. Afinal, quando o conflito se torna um
ativo econômico, a paz deixa de interessar a quem lucra com a indignação
permanente.
Compreender
esse mecanismo é um passo importante para reconhecer como a extrema direita
transforma medo, ressentimento e desinformação em uma indústria capaz de
produzir riqueza, fortalecer lideranças e, em seus casos mais extremos,
legitimar a violência política.
Fonte:
ICL Notícias

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