A
Guerra pela autonomia cognitiva
Este
ensaio resulta de um percurso de pesquisa dedicado a compreender as
transformações do capitalismo informacional, das guerras cognitivas e das novas
formas de poder produzidas pela convergência entre tecnologia, economia e
política. Ao longo desse percurso, desenvolvi reflexões sobre a Ideologia da
Fricção Zero e a Metaintermediação Algorítmica, conceitos que buscaram
compreender como as infraestruturas digitais passaram a reorganizar a
experiência social, a circulação do conhecimento e os processos de mediação. À
medida que essas investigações avançavam, tornou-se evidente que ambas
conduziam a uma questão mais profunda. O problema central já não dizia respeito
apenas às plataformas digitais, à inteligência artificial ou às novas
arquiteturas de informação. Dizia respeito à própria capacidade humana de
perceber, interpretar, julgar e agir sobre a realidade. Foi dessa constatação
que nasceu este ensaio. Seu propósito é compartilhar uma reflexão sobre a
hipótese de que a autonomia cognitiva deixou de ser apenas uma questão
filosófica, psicológica ou educacional para tornar-se uma categoria da economia
política e um dos principais terrenos de disputa estratégica do século XXI.
Longe de oferecer respostas definitivas, este texto procura contribuir para um
debate que permanece em aberto. Se conseguir estimular novas perguntas, ampliar
o diálogo entre diferentes campos do conhecimento e incentivar outras
investigações sobre as relações entre tecnologia, poder, capitalismo e
soberania, terá cumprido seu objetivo.
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Quando o julgamento se torna uma força produtiva
Durante
boa parte da história do capitalismo, a exploração concentrou-se sobre a força
física, o tempo e o conhecimento técnico dos trabalhadores. A cada
transformação tecnológica, novas formas de trabalho foram incorporadas ao
processo produtivo, ampliando a capacidade de produzir mercadorias, reduzir
custos e acelerar a acumulação. O capitalismo algorítmico, entretanto, inaugura
uma inflexão qualitativa. Pela primeira vez, não se limita a organizar o
trabalho ou a capturar conhecimento especializado. Ele passa a incorporar como
força produtiva a própria capacidade humana de perceber, interpretar, comparar,
decidir e formular julgamentos. Essa mudança altera profundamente a economia
política do poder. Julgar nunca foi apenas um ato individual ou uma operação
abstrata da consciência. Julgar é relacionar experiências, distinguir o
verdadeiro do falso, reconhecer interesses, construir confiança, atribuir
significado aos acontecimentos e escolher entre diferentes possibilidades de
ação. É dessa capacidade que depende toda decisão política, econômica e social.
Sem julgamento, não há cidadania; sem julgamento, não há democracia; sem
julgamento, não há soberania.
Foi
precisamente essa capacidade que passou a adquirir um novo valor econômico. As
plataformas digitais, os sistemas de inteligência artificial e as grandes
infraestruturas de dados não operam apenas sobre informações. Operam sobre os
processos pelos quais indivíduos e sociedades constroem interpretações da
realidade. O que está em jogo já não é somente a circulação de conteúdos, mas a
organização das condições que tornam determinados julgamentos mais prováveis do
que outros.
Essa
transformação representa uma nova etapa da própria lógica de acumulação
capitalista. Se a Revolução Industrial ampliou a produtividade ao mecanizar o
trabalho físico, e a revolução informacional reorganizou a produção a partir do
processamento de informações, o capitalismo algorítmico busca converter em
valor econômico aquilo que, até então, permanecia como uma das dimensões mais
propriamente humanas: a capacidade de produzir sentido. Percepção, memória,
linguagem, atenção e julgamento deixam de ser apenas atributos da vida social
para tornarem-se ativos estratégicos, capazes de gerar vantagem competitiva,
concentração de riqueza e poder político. Sob essa perspectiva, a inteligência
artificial não constitui uma ruptura isolada nem uma tecnologia neutra que
paira acima das relações sociais. Ela representa uma etapa histórica do
desenvolvimento das forças produtivas sob relações de propriedade profundamente
desiguais. A inteligência que hoje se apresenta como atributo das máquinas é
resultado do trabalho social acumulado de milhões de pessoas, condensado em
dados, linguagens, pesquisas científicas, práticas culturais e conhecimentos
produzidos coletivamente, mas apropriados de forma privada. O que aparece como
inteligência artificial é, em grande medida, inteligência social convertida em
capital. É justamente por isso que a autonomia cognitiva deixa de ser apenas
uma questão filosófica ou educacional para assumir um significado histórico
inteiramente novo. Quando a capacidade de julgar passa a integrar os mecanismos
de acumulação, ela deixa de ser apenas uma faculdade humana. Torna-se também
uma força produtiva, um recurso estratégico e, inevitavelmente, um objeto
permanente de disputa. É nesse deslocamento que a autonomia cognitiva deixa de
ser apenas uma condição da liberdade e se torna o principal terreno estratégico
do século XXI.
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A economia política da autonomia cognitiva
Se o
julgamento se tornou uma força produtiva, sua apropriação passou a obedecer à
lógica central do capitalismo: socializar a produção e privatizar seus
resultados. A inteligência concentrada nos sistemas algorítmicos não nasceu
espontaneamente nas máquinas. Foi produzida por gerações de trabalhadores,
pesquisadores, artistas, professores, programadores e comunidades inteiras,
acumulada em linguagens, obras, práticas sociais e conhecimentos coletivos.
Convertida em dados e modelos proprietários, retorna à sociedade como capital
privado. O que foi produzido coletivamente reaparece como propriedade de
poucos. A aparente imaterialidade da inteligência artificial encobre uma vasta
estrutura de trabalho, energia e recursos naturais. Por trás da interface instantânea
existem minas, fábricas de semicondutores, cabos submarinos, centros de dados,
sistemas elétricos e cadeias globais de trabalhadores responsáveis por
programar, classificar, moderar, corrigir e treinar aquilo que depois aparece
como inteligência autônoma. A máquina parece dispensar o trabalho porque o
trabalho foi retirado do campo de visão. Quanto mais perfeita a aparência de
automatismo, mais facilmente desaparecem os sujeitos, os territórios e as
relações de exploração que a sustentam. Essa ocultação não é apenas ideológica.
Ela permite que o capital apresente como propriedade empresarial uma potência
intelectual que é, em sua origem, social. Marx demonstrou que, ao incorporar
ciência, cooperação e conhecimento às máquinas, o capital faz com que as capacidades
produzidas pelo trabalho se levantem diante do trabalhador como forças
estranhas, pertencentes a quem controla os meios de produção. Na economia
algorítmica, essa contradição alcança o próprio saber acumulado da sociedade. A
inteligência coletiva é extraída, codificada e devolvida sob a forma de
serviço, assinatura, patente e dependência tecnológica.
O
resultado não é somente o enriquecimento extraordinário de uma reduzida elite
tecnológica. É também uma recomposição do comando sobre o trabalho. Sistemas
algorítmicos passam a definir ritmos, distribuir tarefas, avaliar desempenhos,
prever comportamentos e transferir para a administração conhecimentos antes
dominados pelos trabalhadores. Mesmo quando não elimina uma profissão, a
automação pode fragmentá-la, intensificá-la e reduzir a autonomia de quem a
exerce. A tecnologia que poderia libertar tempo aparece, sob o domínio privado,
como desemprego, vigilância e perda de poder coletivo. A produtividade não
contém, em si mesma, qualquer princípio de justiça. Quando os meios de produção
permanecem concentrados, cada capacidade liberada pela técnica pode ser
convertida em lucro para poucos e insegurança para muitos. O problema
histórico, portanto, não está na existência das máquinas, mas nas relações
sociais que determinam quem as controla, com quais objetivos e em benefício de
qual classe. A contradição não opõe humanidade e tecnologia. Opõe a potência
social do trabalho à sua apropriação privada pelo capital. A inteligência
artificial não elimina essa contradição. Ela a leva ao seu ponto mais avançado.
Em
escala internacional, essa concentração assume uma forma abertamente imperial.
Poucas empresas e poucos Estados controlam a computação avançada, as
plataformas, os modelos, as patentes, a nuvem e os circuitos financeiros
indispensáveis à economia digital. Ao Sul Global reservam-se, em grande medida,
a extração mineral, o fornecimento de energia, a produção de dados, o trabalho
invisível e a condição de mercado consumidor. A velha divisão internacional do
trabalho não desaparece diante da inovação. Ela se reorganiza em torno das
infraestruturas que passam a mediar conhecimento, produção e decisão. A
dependência tecnológica converte-se, assim, em dependência cognitiva. Uma
sociedade que não controla suas infraestruturas digitais entrega a agentes
externos parte crescente de sua memória, de sua linguagem e de sua capacidade
de organizar a realidade. Seus dados alimentam sistemas que ela não governa;
suas instituições tornam-se dependentes de arquiteturas que não pode auditar;
seus problemas passam a ser interpretados por modelos construídos segundo
interesses, idiomas e prioridades produzidos fora de sua história. O
imperialismo já não se limita a controlar recursos e mercados. Ele alcança as
condições materiais pelas quais uma sociedade conhece a si mesma. É por isso
que a autonomia cognitiva não pode ser defendida apenas como liberdade
individual. Ela depende da propriedade das infraestruturas, do domínio
científico, da soberania tecnológica e da capacidade coletiva de decidir quais
sistemas devem organizar a vida social. Onde essas condições são monopolizadas,
o poder econômico começa a governar também os limites do visível, do pensável e
do possível. A partir desse ponto, a acumulação deixa de operar somente sobre a
produção e o consumo. Ela passa a oferecer a Estados e corporações os
instrumentos necessários para transformar a própria formação do julgamento em
território de conflito.
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A guerra muda de lugar
Durante
séculos, o poder foi medido pela capacidade de controlar territórios, recursos
naturais, rotas comerciais, exércitos e instituições. Nada disso perdeu
importância. O que mudou foi a percepção de que essas formas clássicas de poder
dependem, cada vez mais, de uma condição anterior: a capacidade de organizar a
maneira como indivíduos e sociedades percebem a realidade, constroem confiança,
identificam ameaças e definem seus próprios interesses. Toda guerra pressupõe
uma disputa pela interpretação dos acontecimentos. Clausewitz demonstrou que a
guerra nunca foi apenas o emprego da força, mas a continuação da política por
outros meios. No século XXI, essa relação adquire uma nova dimensão. A política
deixa de disputar apenas decisões institucionais para disputar, de maneira
permanente, os próprios processos pelos quais essas decisões se tornam
possíveis. A batalha desloca-se para o ambiente onde percepções são formadas,
narrativas ganham legitimidade e julgamentos coletivos passam a orientar
comportamentos sociais.
É nesse
contexto que operações psicológicas, guerra informacional, guerra híbrida e
guerra cognitiva deixam de constituir fenômenos independentes. Representam
diferentes expressões de uma mesma transformação histórica: a incorporação da
subjetividade ao campo estratégico. O objetivo já não consiste apenas em
convencer adversários ou produzir propaganda, mas em modificar, de forma
contínua, os ambientes cognitivos nos quais pessoas e instituições interpretam
a realidade. A disputa deixa de ocorrer apenas sobre as ideias. Passa a ocorrer
sobre as condições que tornam determinadas ideias plausíveis, desejáveis ou
aparentemente inevitáveis.
Essa
transformação encontra terreno fértil nas infraestruturas digitais
contemporâneas. Plataformas, sistemas algorítmicos e modelos de inteligência
artificial não apenas aceleram a circulação de informações. Eles reorganizam a
arquitetura da atenção, da memória, da confiança e da visibilidade social. O
que cada indivíduo encontra, recorda, ignora ou considera relevante passa a
depender, em grande medida, de sistemas técnicos controlados por estruturas
econômicas e políticas altamente concentradas. O ambiente informacional deixa
de ser um simples espaço de comunicação. Torna-se um espaço de governo.
É nesse
ponto que a hegemonia descrita por Gramsci adquire uma dimensão inédita. Se, ao
longo do século XX, a disputa pelo consenso passava principalmente pela escola,
pela imprensa, pelos partidos, pelas igrejas e pelas demais instituições da
sociedade civil, o capitalismo algorítmico acrescenta uma nova camada de
mediação. Plataformas digitais passam a organizar, em tempo real, aquilo que
merece atenção, quais acontecimentos permanecem visíveis, quais interpretações
circulam com maior intensidade e quais experiências desaparecem antes mesmo de
serem compartilhadas. A hegemonia deixa de atuar apenas sobre conteúdos. Passa
a atuar também sobre a própria arquitetura da circulação social do sentido. A
consequência política dessa transformação é profunda. Uma sociedade não precisa
ser censurada para perder autonomia. Basta que os mecanismos responsáveis por
organizar sua percepção da realidade estejam submetidos a interesses que
escapam ao seu controle democrático. Quando isso acontece, escolhas continuam
sendo realizadas, eleições continuam ocorrendo e opiniões continuam sendo
emitidas. O que se modifica são as condições históricas sob as quais essas
escolhas, opiniões e decisões são produzidas. A guerra pela autonomia cognitiva
nasce exatamente dessa convergência entre economia política, tecnologia e
poder. Não se trata de uma guerra travada apenas contra indivíduos, nem de uma
sucessão de campanhas de desinformação. Trata-se da disputa permanente pelas
condições materiais que tornam possível o julgamento autônomo de uma sociedade.
Quem organiza essas condições passa a disputar algo mais profundo do que
narrativas. Passa a disputar a própria capacidade coletiva de reconhecer a
realidade e agir sobre ela.
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Como se produz um julgamento
Nenhum
ser humano nasce com a capacidade de interpretar a realidade. O julgamento não
é um atributo natural que emerge espontaneamente da consciência, nem uma
faculdade isolada do cérebro. Ele é uma construção histórica, psicológica e
social. Cada decisão depende de experiências acumuladas, memórias
compartilhadas, aprendizagens anteriores, vínculos de confiança, linguagem,
identidade, valores, emoções e referências construídas ao longo da vida. Julgar
é, antes de tudo, organizar significado diante da incerteza. A psicologia
comportamental demonstrou que o comportamento humano não é produzido apenas por
estímulos imediatos, mas por histórias de aprendizagem que moldam a maneira
como indivíduos respondem ao ambiente. A psicologia social ampliou essa compreensão
ao revelar que percepções, crenças e decisões nunca são exclusivamente
individuais. Elas se desenvolvem em permanente interação com grupos,
instituições, normas sociais e processos de comunicação. O julgamento não nasce
dentro do indivíduo para depois alcançar a sociedade. Ele é produzido na
relação contínua entre indivíduo e mundo social. Por isso, o julgamento não é
um acontecimento. É um processo permanente de aprendizagem, interpretação e
revisão da experiência.
Essa
constatação possui enorme importância política. Se o julgamento depende das
condições nas quais a experiência é organizada, modificar essas condições
significa alterar, ainda que parcialmente, as formas pelas quais indivíduos
interpretam a realidade. Não é necessário controlar cada pensamento nem impor
uma única narrativa. Basta reorganizar os ambientes onde informações circulam,
onde relações de confiança são estabelecidas, onde memórias permanecem
acessíveis e onde determinadas interpretações passam a parecer mais plausíveis
do que outras. O poder desloca-se da imposição direta das ideias para a
organização dos contextos nos quais elas se tornam verossímeis. É justamente
nesse ponto que as contribuições de William McGuire, Stephan Lewandowsky e Sander
van der Linden ajudam a compreender um aspecto decisivo da guerra
contemporânea. Suas pesquisas demonstram que crenças não são simplesmente
substituídas por argumentos mais fortes. Elas são influenciadas pela forma como
informações são apresentadas, pela confiança nas fontes, pela identidade dos
grupos aos quais pertencemos e pela capacidade de reconhecer tentativas de
manipulação antes que elas produzam efeito. A disputa contemporânea ocorre
menos sobre conteúdos específicos do que sobre a arquitetura psicológica que
sustenta a formação do julgamento.
Essa
compreensão rompe tanto com a ideia liberal de um indivíduo perfeitamente
racional quanto com a visão determinista segundo a qual pessoas seriam meros
produtos da propaganda. Os seres humanos interpretam, resistem, negociam
significados e aprendem continuamente. Ao mesmo tempo, fazem isso dentro de
ambientes sociais que favorecem algumas interpretações e dificultam outras. A
autonomia cognitiva não consiste em pensar sozinho ou em permanecer imune à
influência. Consiste na capacidade de construir julgamentos próprios a partir
de um ambiente suficientemente plural, crítico e aberto ao contraditório. É
precisamente essa capacidade que adquire importância estratégica no século XXI.
Quanto maior a dependência de sistemas capazes de selecionar informações,
organizar prioridades, antecipar comportamentos e personalizar experiências,
maior se torna a disputa pelas condições psicológicas que sustentam o
julgamento humano. A questão central já não é saber quem controla uma mensagem
específica, mas quem organiza o ambiente no qual milhões de pessoas aprendem,
recordam, confiam, duvidam, interpretam e decidem. A guerra pela autonomia
cognitiva não busca conquistar consciências plenamente formadas. Ela busca
disputar os processos pelos quais consciências são continuamente produzidas. É
nesse terreno, onde comportamento, experiência e relações sociais se encontram,
que a psicologia deixa de ser apenas um campo científico para tornar-se uma
dimensão incontornável da economia política, da hegemonia e da soberania contemporâneas.
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A autonomia cognitiva como fundamento da soberania
Ao
longo da história, a soberania foi associada ao controle do território, das
fronteiras, das riquezas naturais, da capacidade militar e das instituições do
Estado. Essas dimensões permanecem indispensáveis. Contudo, nenhuma delas pode
ser plenamente exercida quando uma sociedade perde as condições de compreender
a própria realidade, reconhecer seus interesses coletivos e deliberar
autonomamente sobre seu futuro. Antes de existir como atributo jurídico ou
poder militar, a soberania depende da capacidade de uma comunidade produzir
conhecimento sobre si mesma e agir a partir desse conhecimento. Essa capacidade
nunca foi exclusivamente intelectual. Ela resulta da articulação entre
educação, ciência, cultura, comunicação, instituições públicas, infraestrutura
tecnológica e participação democrática. São esses elementos que permitem a
formação de uma esfera pública capaz de sustentar o dissenso, confrontar
evidências, corrigir erros e construir decisões coletivas. A autonomia
cognitiva não nasce do isolamento dos indivíduos, mas da existência de
condições sociais que tornam possível o exercício permanente da crítica. É
justamente por isso que a soberania assume um significado mais amplo na era
digital. Não basta possuir centros de dados, desenvolver modelos de inteligência
artificial ou ampliar a capacidade computacional. Esses recursos são
fundamentais, mas constituem apenas parte do problema. A questão decisiva
consiste em saber quem controla as infraestruturas responsáveis pela circulação
do conhecimento, pela organização da informação e pelas mediações que
estruturam a experiência cotidiana. Quando essas funções estratégicas
permanecem subordinadas a interesses externos ou privados, a dependência
tecnológica transforma-se, inevitavelmente, em limitação da capacidade de
decisão política.
A
defesa da autonomia cognitiva também não pode ser confundida com isolamento
nacional, censura ou fechamento informacional. Sociedades democráticas produzem
conhecimento precisamente porque permanecem abertas ao debate, ao conflito de
ideias e à circulação plural de informações. O desafio contemporâneo consiste
em assegurar que essa abertura não seja capturada por estruturas de poder
capazes de organizar unilateralmente os ambientes onde o julgamento coletivo é
formado. A soberania democrática exige diversidade de fontes, transparência das
infraestruturas, fortalecimento da ciência, educação crítica e capacidade
pública de governar tecnologias que passaram a desempenhar funções essenciais
para a vida social. Nesse sentido, a autonomia cognitiva não representa apenas
uma agenda para especialistas em tecnologia ou comunicação. Ela constitui uma
condição para a preservação da própria democracia e para a possibilidade de
projetos nacionais de desenvolvimento em um mundo marcado pela crescente
concentração econômica, tecnológica e informacional. Sem capacidade de produzir
conhecimento, interpretar a realidade e decidir de maneira relativamente
autônoma, nenhum país consegue exercer plenamente sua soberania,
independentemente de sua força econômica ou militar. A principal disputa
estratégica do século XXI, portanto, não ocorre apenas em torno de mercados,
recursos naturais ou sistemas de inteligência artificial. Ela se desenvolve
sobre as condições materiais, sociais e psicológicas que tornam possível o
julgamento humano. É nesse terreno que se define quem possui a capacidade de
interpretar o presente, imaginar alternativas e construir o futuro. Defender a
autonomia cognitiva significa, em última instância, defender a possibilidade
histórica de que indivíduos e sociedades permaneçam capazes de reconhecer a
realidade, deliberar sobre seus próprios interesses e decidir coletivamente seu
destino. Quando essa capacidade se converte em objeto de acumulação econômica,
de competição geopolítica e de disputa estratégica, ela deixa de ser apenas uma
questão filosófica ou acadêmica. Torna-se um dos fundamentos da soberania no
século XXI.
Fonte:
Por Reinaldo José Aragon, em Brasil 247

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