O
racismo em código
“O
fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.” A
advertência de Umberto Eco, escrita há quase trinta anos, parece ter encontrado
uma imagem definitiva no vagão de um metrô em Washington. Durante as
comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, uma mulher negra
permaneceu sentada enquanto dezenas de homens mascarados, integrantes da
organização supremacista Patriot Front, ocupavam o mesmo espaço. A fotografia,
registrada pela Reuters, viralizou porque condensava, em um único
enquadramento, um dos maiores paradoxos do nosso tempo: aqueles que defendem a
superioridade branca escondem o próprio rosto, enquanto a vítima potencial da
violência é a única plenamente identificável.
A
imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação
profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias.
Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam
seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI
compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo
permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart
Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas.
Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as
transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam
de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as
palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais
de cada época sem abandonar sua função política.
É
exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos
supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse
que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um
“amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que
compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse
campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da
direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa
mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu
a operar por meio de códigos.
Os
chamados dog whistles, expressão utilizada para designar mensagens
compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante
dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas,
mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório
ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa
função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que
dificultam sua responsabilização pública.
Não por
acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em
Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser
apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua
aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a
funcionar como linguagem política.
Foi
exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
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A Copa do Mundo e a nova linguagem do racismo
Antes
da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans
foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu
investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o
caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o
processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito
mais relevante.
O
problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O
episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma
zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para
despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões
definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O
Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe
Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então
presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma
sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e
jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação
ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve
em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre
Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia
por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das
instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo
gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma
ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também
por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como
manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo
ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos
cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa
do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro
dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas
uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o
cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da
entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em
relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas
identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo
explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios
necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa
discrepância revela uma transformação decisiva.
O
racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes
ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de
circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille
Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de
organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira
explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não
implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas
formas discursivas.
O
futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais
tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus
países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes
grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa
diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma
identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por
acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes
continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A
recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno
de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de
pertencimento nacional.
Norbert
Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas
entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais
eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve
permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo
esportivo.
É nesse
ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional.
Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um
problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea
desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos,
discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o
compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de
recrutamento desses movimentos.
Hannah
Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência
organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que
distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa
a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a
exclusão simbólica.
Talvez
seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a
enxergar.
Ela não
mostra apenas homens mascarados.
Mostra
uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito.
Mostra
uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial
para continuar produzindo seus efeitos.
Mostra
que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que
símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais
rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do
que palavras de ordem.
O
racismo não desapareceu.
Ele
apenas aprendeu uma nova gramática.
E
reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias
contemporâneas.
Fonte:
Por Marcio Ferreira, no Le Monde Diplomatique Brasil

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